25 Jul 2023 | Sem categoria
“Quem der apenas um copo de água fresca a um desses pequenos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo: não perderá sua recompensa” (Mt 10,42) é a Palavra de Vida deste mês e é a missão para a qual cada um de nós é chamado, precisamente como os discípulos: ser testemunhas críveis do Amor de Cristo, na concretude dos gestos que fazem parte da nossa vida cotidiana, um amor que circula, que se dá com alegria e, com surpresa, se recebe em abundância. No estacionamento Quando cheguei no estacionamento encontrei o carro novo, que meu pai me havia emprestado, riscado. O que fazer? Muito chateado pelo sofrimento que eu lhe causaria, pensava na despesa que teria com o reparo. Foi quando notei, preso no painel, um pequeno objeto com esta frase: “… lançai Nele toda a vossa preocupação, porque Ele cuida de vós”. Tentei fazer assim. E logo senti paz, o que eu precisava para entender o que fazer. Estava distraído quando escutei alguém bater na janela do carro. Uma senhora queria falar comigo. Era ela que tinha riscado o carro e tinha ido embora pensando em se esquivar, mas o remorso fez com que voltasse. Então, deu-me seu número de telefone e disse que estava disposta a pagar as despesas. Surpreso e agradecido, contei a ela como eu tinha encontrado paz lendo aquela frase no painel. Pensativa, ela disse: “Foi mesmo Ele que me fez voltar atrás”. (Z. X. – Croácia) O lugar certo Quando fui transferida para a unidade de terapia intensiva percebi que minha missão de médica teria sido colocada à prova, mas, ao mesmo tempo, sentia que aquele era o “meu” lugar. Durante os meus anos de profissão, ainda não tinha acontecido de trabalhar num setor deste tipo, onde todo dia o sofrimento das pessoas se apresenta das formas mais trágicas: acidentes graves, problemas neurológicos… e geralmente de pessoas jovens. Em suma, eu não me sentia segura de estar à altura. Encontrava a força na ideia de colocar-me à serviço de Jesus que se identificava também com eles: “a mim o fizestes”, Ele havia dito. Depois de seis meses de trabalho naquele local, a direção do hospital me indicou como responsável do departamento. As motivações dessa indicação: minha capacidade de integração com os colegas, minha atitude de calma e paz, minha atuação profissional. No dia seguinte, estando na capela, agradeci a Jesus: tinham sido as Suas palavras a tornar-me aquilo que os outros precisavam, especialmente ali, naquele lugar. (J. M. – Espanha) A prova Eu estava estudando para uma prova difícil, na universidade, quando veio me encontrar um amigo que passava por um momento difícil com sua namorada. Eu o recebi e, enquanto preparava um lanche para ele, começamos a conversar. A lembrança da prova me preocupava muito, mas procurei afastá-la para me concentrar em escutar meu amigo, tão agitado e sofrido que não percebia que o tempo passava e já era hora de ir dormir. No final lhe convidei para passar a noite. Já era muito tarde e eu não tinha nem a força de abrir o livro. No dia seguinte acordei com um telefonema: um colega me avisava que eu estava sendo aguardado para a prova. Ainda meio adormentado, eu me preparei rapidamente para sair, enquanto meu amigo continuava a dormir. Eu esperava tudo, menos passar naquela prova! Muito feliz, voltei para casa e encontrei um bilhete em cima da mesa: “Não sei como lhe agradecer. Você me demonstrou que eu tenho valor. E me deu uma força nova. Eu também quero ser ‘tudo para os outros’”. (G. F. – Polônia)
Aos cuidados de Maria Grazia Berretta
(retirado de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, ano IX – n.1° julho-agosto de 2023)
13 Jul 2023 | Sem categoria
Entrevista com o autor sobre a última obra literária. Um livro pensado para dar esperança, para manter intacta a fé no carisma da unidade. Algumas perguntas ao co-presidente do Movimento dos Focolares sobre seu último livro, publicado pela Città Nuova, intitulado “Fidelidade Dinâmica”. Jesús, vamos começar pelo título: “Fidelidade dinâmica”… Quis usar a expressão que o Papa Francisco usou em seu discurso aos participantes da Assembleia do Movimento dos Focolares, em 2021. Naquela ocasião, ele falou de fidelidade dinâmica. Na minha opinião, é um pensamento muito próximo do conceito de fidelidade criativa. Com a vantagem de que “dinâmica” se refere ao conceito grego dynamis que significa força de movimento. Portanto, a fidelidade dinâmica é uma fidelidade em movimento, que não é estática e isso é muito caro ao Papa Francisco. Quando ele nos falou em outras ocasiões, ele enfatizou que os movimentos devem ser realmente “movimento”. Naquele momento, pareceu-me que este título estava mais próximo do que vivemos hoje na nossa realidade… O livro é dividido em capítulos. O primeiro: “sentir o pulsar do tempo”. Quais são as perspectivas do carisma da unidade de Chiara Lubich para hoje? Como atualizar a identidade e a história do carisma?
Eu penso que o carisma da unidade de Chiara Lubich é sempre muito atual. No que diz respeito à sinodalidade, o Papa Francisco insiste em nos redescobrir como povo de Deus em caminho, onde todos somos protagonistas. Sínodo significa “caminhar juntos”. Ele quer uma Igreja onde cada um dê o seu melhor como parte integrante do povo de Deus, o corpo de Cristo. Bem, nesse sentido, acho que o carisma da unidade de Chiara Lubich pode trazer muito, com sua espiritualidade de comunhão, a espiritualidade da unidade. Por outro lado, hoje existem tantos conflitos, guerras, polarizações massivas em todos os lugares – no campo político, moral, social – e talvez mais do que nunca estamos testemunhando oposições quase irreconciliáveis. Creio que também aqui o carisma da unidade possa contribuir muito com sua trama dialógica. Portanto, hoje o carisma da unidade deve ser atualizado, redescobrindo sua verdadeira identidade, indo ao essencial, ao núcleo fundador do carisma. Esta atualização exige a realização de dois momentos, não em sentido cronológico, mas em sentido profundo. Por um lado, escutando os sinais dos tempos, as questões do mundo, da sociedade contemporânea. Por outro, ir até o fundo, haurir de todos os recursos que o carisma possui, alguns dos quais nem sequer foram expressos. Eu realmente gosto desse conceito de expressar o “inexpresso” que está dentro de nós. É assim que a identidade é atualizada. Numa fidelidade dinâmica. Junto com o processo de purificação da memória que estamos vivenciando nesta fase pós-fundacional, creio que estamos prontos para dar este passo. A atualização de um carisma se realiza com a contribuição de todos e com uma mudança de mentalidade, de uma forma mentis. Além da esperar na ajuda do Espírito Santo, o que podemos fazer para atuar isso? Sem dúvida a ajuda do Espírito Santo é fundamental porque estamos no contexto de uma obra de Deus, mas é preciso inteligência para atualizar o carisma. Não no sentido acadêmico. Mais no sentido da sabedoria. É preciso talento e habilidade para ouvir o clamor da humanidade. É importante o que diz o documento da Assembleia Geral de 2021: hoje a questão da humanidade que devemos ouvir é o grito de Jesus Abandonado. Portanto, além do Espírito Santo, é necessária a inteligência do carisma e a Sabedoria que vem da vida. E não é um exercício que se faz numa escrivaninha, um exercício acadêmico. Pode-se ouvir o grito de Jesus Abandonado quando se está em contato com o sofrimento de nossos contemporâneos. O que é a “teologia do ideal de unidade”? Por que é importante a fidelidade ao carisma? A própria Chiara Lubich disse que a teologia seria importante para o futuro do Movimento dos Focolares e do carisma. Isso significa aprofundar o carisma da unidade à luz da Revelação, de onde veio, e da pesquisa teológica. É um exercício de inteligência do carisma que é fundamental, senão não se encarna e sobretudo não se universaliza. Sem a teologia do ideal, o carisma permanece dentro do Movimento. Com uma teologia do ideal de unidade, o carisma também pode ir para fora, assim como encontrar um fundamento sólido. A teologia do Ideal da unidade ajuda a compreendê-lo bem para poder transmiti-lo às gerações futuras. A vida e o testemunho vão sempre em primeiro lugar, mas este trabalho também é decisivo. A teologia do Ideal da unidade previne possíveis desvios. O querigma original, encerrado nos Evangelhos, exigiu o árduo trabalho dos Padres da Igreja, grandes teólogos, para ser salvo em sua integridade. Com a atualização, não há o risco de fazer o carisma perder sua identidade? Ao contrário. É precisamente a não atualização que faz com que o carisma perca sua identidade, porque a identidade de um carisma é sempre dinâmica e criativa. É sobre ser sempre o mesmo sem nunca ser o mesmo. Foi isso que tentei expressar. A estática faz justamente com que se perca a identidade do carisma porque faz com que ele perca sua conexão com a realidade. Para mim isso é muito claro: é necessária uma atualização constante para que o carisma mantenha sua identidade. E isso Chiara fez ao longo de sua vida.
O segundo capítulo, “a casa do autoconhecimento”, parte de uma carta de Catarina de Siena. Aqui descobrimos os nossos limites, os nossos fracassos, a auto referencialidade, o rosto de Jesus Abandonado. O que podemos fazer para passar no “teste do autoconhecimento”? O segundo capítulo é fundamental nesta fase que vivemos, na qual tivemos que reconhecer nossos defeitos e nossos erros na encarnação do carisma. O que podemos fazer para passar no teste? Devemos vivê-lo ao máximo, porque se trata de reconhecer que não estamos à altura do carisma. Nenhum de nós está à altura do carisma. Disso nasce não um sentimento de desânimo, mas uma nova confiança em Deus, no Espírito Santo, autor do carisma. Assim, o teste do autoconhecimento é superado aceitando a humilhação de falhar e colocando toda a nossa confiança em Deus. O terceiro capítulo: “o discernimento à luz do carisma da unidade”. O Papa nos pede para nos tornarmos artífices do discernimento comunitário. Como proceder? E, sobretudo, o carisma da unidade de Chiara Lubich é um carisma de discernimento? Para o Papa Francisco, discernimento e sinodalidade caminham de mãos dadas, tanto individualmente quanto em comunidade. É um processo muito delicado, porque exige inteligência, mas sobretudo escuta do Espírito Santo. O discernimento pede tudo de nós e tudo de Deus, e isso não é simples, não é um exercício de consenso. É ir a fundo para buscar a vontade de Deus em todos os momentos. Creio que o dinamismo típico do carisma da unidade, que chamamos de Jesus no meio, ou seja, de merecer a presença de Jesus entre nós, seja um exercício de discernimento. Chiara Lubich explicou muito bem: para merecer esta presença é preciso um desapego total de nós mesmos e uma escuta do Espírito Santo. É preciso amor mútuo. Chiara desenvolveu até a ideia das relações trinitárias, que transformam o discernimento comunitário em “discernimento trinitário”. Quando almejamos ter Jesus em nosso meio, fazemos uma experiência trinitária, com todas as fragilidades, fragilidades de nossa humanidade, corporeidade, psicologia. Mas nós fazemos isso e é aí que o discernimento acontece. Podemos ler esta prática de relações trinitárias à luz da grande ideia de discernimento e sinodalidade do Papa Francisco. No livro você fala de dois desvios: “o sequestro do Um” e “a dissolução do Um”. O que são e como evitá-los? Essas tentações são realmente dois desvios da espiritualidade da unidade. Na primeira acontece que alguém assume a missão da Comunidade e até a missão de cada um. Existe alguém que centraliza tudo, que sem perceber toma o lugar do Espírito Santo na dinâmica da unidade. Neste caso apreende-se o “nós”, o necessário para que todos possam florescer e dar o seu contributo. Aqui ocorrem abusos de autoridade, abusos de consciência, abusos espirituais e, portanto, é um risco forte. Na dissolução do Uno acontece o contrário, perde-se o espírito de Comunhão. Prevalece um individualismo exagerado. Se primeiro alguém tomava conta do nós, nesse caso o “nós” desaparece e o individualismo de todos toma conta. A vida comunitária torna-se uma organização onde cada um procura o seu espaço, a sua realização pessoal. Também aqui desaparece o Espírito Santo, que é o dinamismo da vida cristã. Como evitá-los? É preciso um momento de autoconsciência: para entender os erros cometidos. Ao mesmo tempo, voltar ao Evangelho vivido e a uma autêntica vida de unidade. Acima de tudo, penso que seja preciso humildade, capacidade de descentralização, amor ao próximo, pensar que a pessoa é sempre um absoluto que não pode ser anulado de forma alguma. Então acho que a solução é um plus de amor, verdade, transparência e doação concreta na vida de unidade, na vida de comunhão. A unidade é um dom do Espírito, ninguém pode sequestrá-la com o seu poder ou dissolvê-la com o seu individualismo. A unidade é uma experiência de Deus que abrange todos nós. Devemos entender isso. Para finalizar, o que podemos fazer para garantir que todos esses argumentos no livro não sejam apenas boas intenções? Acho que seria útil falar sobre isso na comunidade. Reservar momentos para ler algumas passagens, dedicar momentos de retiros e examinar nossas vidas à luz dessas indicações. O livro pretende dar esperança, manter intacta a fé no carisma da unidade e, se se perdeu, recuperá-la. Espero que através da partilha de experiências se possa restaurar uma vida autêntica onde já não existe, porque em muitos lugares a vida floresce, há generatividade, há mjuitas coisas bonitas.
Lorenzo Russo
12 Jul 2023 | Sem categoria
Sábado, 24 de junho, foi realizado em Loppiano (Incisa Valdarno, Florença, Itália) um seminário teológico intitulado “Participar/presidir/decidir. Raiz sacramental e dinâmica de comunhão no caminho do povo de Deus em missão”. Mais de 100 estudiosos responderam ao convite do Centro Evangelii Gaudium (CEG) do Instituto Universitário Sophia, para elaborar uma proposta de revisão do direito canônico, com o objetivo de reequilibrar – como pede o documento-base (Instrumentum laboris) da XIV Assembleia do Sínodo dos Bispos – “a relação entre o princípio de autoridade, fortemente afirmado pela normativa vigente, e o princípio de participação”. Sendo que “não todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais – assegura-nos o Papa Francisco – devem ser resolvidas com intervenções do magistério” (Es. ap. Amoris laetizia, n. 3), é decisiva a escuta do sensus fidelium de todo o povo de Deus (pastores e fieis) na variedade das culturas que o compõem. O diálogo entre teologia e direito é, portanto, animado por um processo sincero de inculturação, sem o qual existe um risco real de lançar as bases de uma violação prática dos princípios gerais enunciados pela Igreja. “A questão – observa o prof. Vincenzo Di Pilato, coordenador acadêmico do CEG – é exatamente esta: como tornar efetiva a participação ativa de todos os fieis dentro das nossas assembleias sinodais? Continuará apenas consultiva? Ou será também deliberativa? Isso significará chegar a uma tratativa por uma ‘concessão’ jurídica ou ‘reconhecer’ a capacidade de decisão do sujeito coletivo, da ação eclesial assim como emerge da eclesiologia do Vaticano II e do magistério pós-conciliar? E assim sendo, será necessária uma atualização do Código de Direito Canônico?”.
Na saudação inicial aos participantes, o cardeal Mario Grech, Secretário geral do Sínodo, evidenciou que o caminho sinodal entra numa nova fase: é chamado a tornar-se uma dinâmica generativa, e não simplesmente um evento entre outros. De fato, não se pode escutar o Espírito Santo sem escutar o povo santo de Deus, na “reciprocidade” que constitui o “Corpo de Cristo”. Neste liame de comunhão toma forma aquela metodologia especial da conversa no Espírito, bem descrita por ocasião da apresentação do Instrumentum laboris. Daqui a necessidade – por várias vezes acenada pelo card. Grech – de articular melhor o princípio da restituição. Em outras palavras, isso significa que a unidade do processo sinodal é garantida pelo fato que ele retorna ao ponto de onde partiu, à Igreja particular, e é um momento importante do “reconhecimento” do que amadureceu ao se escutar aquilo que o Espírito diz hoje à Igreja. O caminho sinodal parece colocar-se como um momento significativo da vida eclesial, capaz de estimular e ativar o entusiasmo criativo e de anúncio evangélico que vem da redescoberta da relação com Deus que inerva a relação entre os crentes, um sinal para um contexto cultural em que há um grito silencioso de fraternidade na busca do bem comum. Na aula proferida pelo prof. Severino Dianich, “Os problemas da sinodalidade entre eclesiologia e direito canônico”, emergiu a recuperação da eclesiologia paulina do ‘ser corpo de Cristo’ e a valorização da co-essencialidade dinâmica dos dons hierárquicos e carismáticos. Para o prof. Alphonse Borras, por sua vez, tal reviravolta necessita de uma explicação canônica, que defina uma prática processual flexível, capaz de acompanhar os processos de decisão e de participação através dos vários organismos já existentes (conselho episcopal, presbiteral, pastoral diocesano, pastoral paroquial…). O cardeal Francesco Coccopalmerio, ex-presidente do Conselho Pontifício para os textos legislativos, em sua palestra “Sinodalidade eclesial: existe a hipótese de uma rápida passagem do consultivo ao deliberativo?”, manteve-se na mesma linha. Na sua opinião, é possível encontrar uma definição clara de sinodalidade no direito canônico, entendida como “a comunhão de pastores e fiéis na atividade de reconhecer o bem da Igreja e na capacidade de decidir como implementar o bem identificado”. Na conclusão do seminário, muitos propuseram que os resultados fossem disponibilizados através da publicação dos discursos. O CEG trabalhará para que isso seja feito até setembro, como mais um contributo para o próximo Sínodo.
Antonio Bergamo
11 Jul 2023 | Sem categoria
No domingo, dia 9 de julho de 2023, o Papa Francisco nomeou 21 novos Cardeais da Santa Igreja Romana, como de costume para surpresa dos interessados. Entre eles D. Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém. Ao felicitarmos com Sua Beatitude por esta nomeação, partilhamos com alegria uma entrevista com ele, realizada há exatamente um ano na Terra Santa. Ver o vídeo (ativar legendas em português) https://youtu.be/JFjWb1-y0ug
7 Jul 2023 | Sem categoria
No evento de abertura da conferência internacional do International Council of Christians and Jews (ICCJ) em Boston (EUA), domingo, 18 de junho, o Professor Joseph Sievers recebeu o Prêmio Seelisberg 2023. Nós o entrevistamos quando ele voltou a Roma. O Prêmio Seelisberg se inspira e rememora o encontro inovador que ocorreu no pequeno vilarejo suíço de Seelisberg, de 30 de julho a 5 de agosto de 1947 para encarar os ensinamentos cristãos sobre a discriminação contra os judeus e o judaísmo. Esse evento é amplamente reconhecido como a inauguração da transformação nas relações entre judeus e cristãos.
O Prêmio Seelisberg é entregue todos os anos (desde 2022) pelo Conselho Internacional de Cristãos e Judeus (ICCJ), que nasceu na conferência de Seelisberg, e do Centro para a teologia intercultural e estudo das religiões da Universidade de Salzburgo. São homenageadas pessoas que tiveram papeis importantes por meio de seus percursos de estudos e ensinamentos em promover a reaproximação entre judeus e cristãos. O Professor Doutor Joseph Sievers (Prêmio Seelisberg 2023) nasceu na Alemanha e começou seus estudos na Universidade de Viena e na Universidade Hebraica de Jerusalém. Conseguiu um doutorado de pesquisa em História Antiga na Columbia University (1981) e uma Lic. Teol. na Pontifícia Universidade Gregoriana (1997). Deu aula em CUNY, Seton Hall Univ., Fordham Univ. e outras instituições nos Estados Unidos, na Itália e em Israel. De 1991 a 2023, deu aulas de História e Literatura Hebraica do período helenístico no Pontifício Instituto Bíblico de Roma, onde foi professor ordinário. Além disso, de 2003 a 2009, foi diretor do Centro Cardinal Bea de Estudos Judaicos na Pontifícia Universidade Gregoriana. Desde 1965 é membro do Movimento dos Focolares e colabora com o Centro para o Diálogo Inter-religioso desde 1996. Publicou diversos livros e muitos artigos, principalmente sobre a História do Segundo Templo (em particular Flavio Giuseppe) e as relações hebraico-cristãs. Com Amy-Jill Levine, editou The Pharisees (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2021; tradução italiana Milano, San Paolo, 2021; tradução alemã prevista para 2024). Professor Sievers, o que significou para o senhor ter recebido esse prêmio? Foi uma grande surpresa e quando me pediram para contar sobre a minha experiência, senti uma imensa gratidão olhando para trás, repensando em todos os momentos, em todas as pessoas que encontrei, em todas as situações em que pude estar presente e, às vezes, ajudar. Uma gratidão e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade pelo presente e pelo futuro. No seu discurso na cerimônia de entrega do Prêmio, o senhor disse: “As dificuldades podem nos ajudar a nos entender melhor. As dificuldades podem nos unir”. Na sua longa experiência neste diálogo, o que foi mais difícil e o que foi mais surpreendente a ponto de dizer ainda hoje que “É possível fazer”?
Houve vários momentos difíceis, mas um que me lembro de modo particular é quando tivemos que organizar um encontro de diálogo em Jerusalém em 2009. Algumas semanas depois de um conflito, uma operação que deixou muitos mortos e feridos. Depois, no mesmo período houve a situação do bispo (Richard Nelson) Williamson que negava o holocausto. Havia dificuldades em todas as partes que tornavam difícil um diálogo aberto. Porém, conseguimos fazer esse encontro. Fomos adiante e foram momentos de comunhão muito fortes, espirituais, para além de todos os problemas. E você também me perguntou sobre as coisas que foram possíveis apesar das dificuldades? Certamente não foi fácil organizar um encontro sobre os fariseus e publicar um livro. Havia vários pontos em que me parecia que o caminho estivesse bloqueado. Ou por razões econômicas, ou porque alguém não concordava com o que queriam fazer, ou porque parecia impossível ter uma audiência com o papa para um encontro desse tipo… No entanto, colaborando, realmente teve uma colaboração, especialmente com uma colega judia, mas também com outros, foi possível resolver esses problemas para dar algo que fosse baseado em estudos sérios, mas se endereçasse a situações concretas também nas igrejas, nas paróquias. Com certeza, foi um acontecimento que não teve efeitos imediatos em todos os lugares, mas, por exemplo, um bispo me escreveu “agora devemos mudar todo o nosso ensinamento sobre os fariseus e o judaísmo nos seminários”. Isso já é alguma coisa. De que modo fazer parte do Movimento dos Focolares influenciou essa experiência? Sem o Movimento dos Focolares, provavelmente não teria entrado nessa área. Veio do Movimento o impulso de estudar as línguas da bíblia e disso veio todo o resto. Entrei no focolare justamente no dia 28 de outubro de 1965, era uma quinta-feira. Cheguei no focolare em Colônia (Alemanha) com a minha bicicleta, que veio no trem com as duas malas na mesma noite em que, em Roma, no Concílio, estavam aprovando Nostra aetate (Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs). E para mim, isso sempre teve um grande significado, ligando o empenho no Movimento com aquele para o diálogo. O senhor também foi chamado a colaborar oficialmente com o diálogo da Igreja Católica com os judeus… Sim. Desde 2008, sou Consultor da Comissão para as relações religiosas com o judaísmo, comissão da Santa Sé. E participei de diversos encontros da ILC em Buenos Aires, Cidade do Cabo e ainda Budapeste, Madrid, Varsóvia, Roma… E estão sendo dados passos para frente?
Um passo é já estar aberto a se encontrar, conversar e também superar as dificuldades no percurso. Às vezes, é melhor enfrentar tudo com um jantar juntos do que com cartas inflamadas. Estamos caminhando e com certeza ainda há muito a ser feito, é preciso expandir a rede. Ou seja, a maior parte dos cristãos e a maior parte dos judeus não estão envolvidos, às vezes, nem sabem que há esses relacionamentos, que há esse caminho juntos. Ainda há muito a se fazer para tornar isso conhecido e colocar em prática. Uma coisa que aprendi bastante com o relacionamento com os judeus é que as perguntas, às vezes, são mais importantes que as respostas. Ou seja, eu não devo e não posso fingir ter todas as respostas e, portanto, não posso encarar o outro como alguém que encontrou todas as respostas e me dirigir a ele ou ela com um posicionamento de superioridade. Minha posição é ser um pesquisador junto do outro. É isso, de modo mais dramático quando se aborda o tema da Shoah, do Holocausto, que deve ser encarado mais cedo ou mais tarde. Uma coisa essencial é observar, ser o mais sensível possível aos empenhos e às necessidades do outro. E também estar aberto, e, se errar, é possível recomeçar se a intenção for certa: entrar na ponta dos pés no ambiente do outro, não com um comportamento que diga “eu sei tudo”. Como última coisa, ao receber esse prêmio, além de se sentir grato, há algum estímulo para Joseph Sievers? Bem, sim. Por exemplo, há algumas perguntas abertas e isso me estimula a continuar confrontando. E talvez me dá um pouco de autoridade para poder abordar certas pessoas. Não sei se isso acontecerá, mas é também um estímulo para levar para frente esse trabalho, que não acabou, que nunca acabará, mas no qual qualquer passinho pode ser dado juntos.
Carlos Mana
4 Jul 2023 | Sem categoria
Quase um mês e meio depois das inundações que atingiram as regiões de Marche e Emilia-Romagna (Itália), a história da experiência pessoal de Maria Chiara Campodoni, focolarina casada, professora e ex-vereadora do município de Faenza, fortemente afetada por este desastre. As inundações que atingiram Marche e Emilia-Romagna (Itália) há cerca de um mês e meio causaram a perda de 15 vidas humanas, milhares de desabrigados e a inundação de 23 rios. Até o momento, cerca de 100 municípios foram inundados. Os numerosos deslizamentos de terra afetaram pequenos produtores, dezenas de quilômetros quadrados de terras agrícolas e fazendas foram destruídas pela força da água, junto com pontes e estradas. As contribuições arrecadadas pela Coordenação de Emergência do Movimento dos Focolares, AMU e AFN são atualmente de 182.000 euros. Em colaboração com a APS Emilia-Romagna, foi constituído um comitê local de emergência que identificou algumas áreas de intervenção: Cesena, Sarsina, Faenza, Castel Bolonhese, Ravena. Está sendo feito o levantamento das necessidades da população afetada, sobretudo através da relação pessoal e através da compilação de formulários em que cada um declara os danos sofridos e o pedido. Entre as tantas pessoas atingidas está Maria Chiara Campodoni, focolarina casada, professora e Conselheira do Esporte de 2010-2015 e Presidente da Câmara Municipal de Faenza 2015-2020, que nos conta como está vivendo esse drama, mas também a esperança necessária para ser capaz de seguir em frente. Maria Chiara, como você viveu esse momento? Em Faenza houve duas enchentes. Em nossa casa a água entrou pela primeira vez no dia 2 de maio por 30 cm. Era de tarde, tinha luz e estávamos em casa eu e um de meus filhos. No início encaramos quase como uma aventura, mas nessa mesma noite preferi que o meu marido, que tinha saído para buscar os outros dois filhos nas atividades desportivas, não voltasse, porque lá fora havia muito mais água que no interior e só temos portas de pátio no térreo. Trazê-los de volta para casa significaria deixar entrar muito mais água também. Então eles foram dormir com os avós e nós tentamos carregar algumas coisas para cima, jantamos nos quartos e fomos para a cama. Até os bombeiros que passaram nos tranquilizaram, dizendo que a situação não iria piorar mais do que isso. No dia seguinte, o nível da água dentro e fora era o mesmo e então, de acordo com meu marido, decidimos sair de casa. Quando 15 dias depois começaram a recomendar a evacuação dos andares térreos porque estava prestes a acontecer novamente, toda a população da cidade foi colocada em alerta e entendeu que deveria se mobilizar porque aconteceria algo mais grave. E o que aconteceu na segunda vez?
A segunda enchente, aquela da qual escapamos, veio à noite. Por volta das 20h30min: as margens do rio perto da nossa casa transbordaram. Até aquele momento, nós, que estávamos equipados com uma bomba dentro de casa, não tínhamos saído convencidos de que poderíamos controlar o fluxo das bombas e manter a água baixa também com a ajuda de sacos de areia. Ao invés disso, em 20 minutos a água atingiu o primeiro andar, chegou a 3m muito rapidamente e ficamos presos lá. Pedimos ajuda e imediatamente responderam dizendo que chegariam, mas, ao mesmo tempo, naquela mesma tarde o rio Savio já havia transbordado em Cesena, portanto a proteção civil e o corpo de bombeiros, que estavam todos em Faenza no dia anterior, já estavam um pouco mais espalhadas nas várias áreas. Além disso, na minha rua a corrente era tão forte que os veículos motorizados só conseguiram entrar às 4h da noite e não teríamos resistido até aquela hora. Os polícias disseram-nos para irmos para os telhados, mas não temos claraboia, então era ir lá de fora e tentar flutuar. A situação era realmente perigosa. (Na foto, a seta indica o nível atingido pela água). A uma certa altura, um primo do meu marido, sabendo pelas redes sociais que o rio havia transbordado bem perto da nossa casa, ligou para ele e perguntou se já havíamos saído. Pela voz intuiu que corríamos perigo e sendo um atleta, preparou-se como se fosse surfar, colocou a roupa de mergulho, pegou a prancha e saltou para a corrente. Ele nadou até nossa casa e empurrando as ondas, pegou cada um de nós, um de cada vez, levando-nos em segurança até as muralhas da cidade, a 500 metros de nossa casa. O que você viu estando lá fora? Quando se está imersos na corrente, toda a perspectiva muda. A água já tinha ultrapassado as placas das ruas, então você não sabia mais se estava na rua ou no jardim de uma casa. Passamos por cima de portões, por cima de garagens e estávamos tão altos que a uma certa altura ele pediu-me para que me agarrasse ao que parecia ser um arbusto, mas na realidade, agora sei que era uma árvore. Fui a última a ser socorrida. Depois, molhados e encharcados, fomos recebidos em casa por uma senhora que nos conhece. Ele levou para o banheiro, nos deu roupas limpas porque até o frio naquela noite estava terrível e ainda estava chovendo. Nos aquecemos e depois fugimos para 6 km longe da cidade onde mora minha sogra. Tivemos muita sorte porque fomos os primeiros a sair. Além disso, não vivemos o que muitos nos contaram depois, uma verdadeira noite de terror na cidade. As crianças perceberam o perigo? Sim. Tenho três filhos de 10, 8 e 6 anos. A certa altura o mais novo começou a correr para longe das escadas, porque víamos a água subindo degrau a degrau, e ele disse-me: “Faltam 5 degraus, 4 quatro degraus. Vamos para o telhado, temos que fugir”. E eu disse: “estamos aqui na janela, porque lá fora está chovendo. Agora a polícia vai chegar”. Resumindo, perceberam e aos poucos tiveram que metabolizar, principalmente os grandes. Em uma hora, temíamos que não conseguiríamos. Chegando na casa da avó ficaram mais tranquilos, mesmo se, chegando lá, começaram a entender que tínhamos perdido tudo. Disseram-me: “Mãe, agora não temos mais as mochilas e os livros para ir à escolar?” Expliquei-lhes que muitas pessoas iriam nos ajudar e foi o que aconteceu. Como foram os primeiros dias? Onde vocês encontraram abrigo?
Ficamos alguns dias com minha sogra porque não podíamos nos locomover pela cidade. Depois, fomos recebidos por uma tia de um amigo do meu filho, que mora fora do país, e que nos emprestou a casa dela no centro da cidade por um mês, a 10 minutos a pé de onde morávamos, então com possibilidade de ir e começar a limpar. Estávamos juntos, mas realmente foi um grande presente e talvez eu tenha percebido isso mais tarde, quando comecei a ouvir as histórias de outras pessoas. Então muitos voluntários começaram a chegar por toda a cidade. Devo dizer que sempre vêm amigos à nossa casa, em parte pelo Movimento dos Focolares e em parte porque meu marido tem muitos contatos. Vieram pessoas de Parma, Piacenza, Veneto e até mesmo aqueles que sofreram o terremoto em Emilia anos atrás realmente sentiram um chamado para vir e dar uma mão. Havia um clima muito bonito, uma verdadeira ajuda, e foi nesse clima que, aos poucos, comecei a jogar tudo fora, mas estava realmente serena. Limpar a lama parece a coisa mais importante no começo, você tenta fazer o seu melhor, com muito esforço, e depois você percebe que não são as coisas, os objetos que compõem a sua vida, mas todo o resto. Seu marido também é dono de um restaurante… Sim. Ele tinha visto pelas câmeras que felizmente não havia água ali, mas precisava ir ver pessoalmente. Um dia saiu às seis da manhã pensando em pegar a estrada, mas também estava fechada. Tivemos uma ideia: “vamos ligar ao vice-presidente da câmara, e dizer-lhe que se te levarem ao restaurante da proteção civil, podes cozinhar para todos os que precisarem”. E devo dizer que ele aceitou de bom grado o nosso serviço, porque já havia muitos desabrigados lá. Felizmente, todos os deficientes e idosos foram levados mais cedo e enviados para um hotel que fica muito perto do restaurante do meu marido, mas que não possui cozinha ativa. Então meu marido e dois funcionários passaram um dia inteiro no restaurante, fizeram 700 marmitas entre o almoço e o jantar. Destes desabrigados tinha 100 pessoas, os bombeiros, a proteção civil e como o restaurante fica mesmo na rua Emilia, que é um ponto de passagem, muitas das pessoas que ficaram presas na rua, que dormiram no carro sem comida, chegaram ao hotel pedindo ajuda. Toda a área de Cesena e Forlì foi paralisada. E agora como vocês pensam em se organizar? Atualmente saímos da pequena casa que nos hospedou. Vamos nos mudar para uma casa que temos à beira-mar por um tempo e depois alugamos um apartamento por 18 meses esperando para arrumar a nossa casa. A perspectiva é regressar em setembro de 2024. Depois ficam muitas interrogações, antes de mais nada, temos que entender se haverá empresas que consigam renovar todas estas casas, porque somos muitos. Estamos falando de 12.000 pessoas fora de casa. 6.000 famílias só em nossa cidade e algumas casas, as mais antigas, foram declaradas inabitáveis. Agora as casas têm que secar. Já destruímos tudo. Tínhamos parquet e retiramos, os tetos falsos do térreo desceram sozinhos quando a água baixou e com a ajuda de muitos conseguimos pelo menos desligar as louças sanitárias. Agora todas as manhãs vamos abrir as janelas e à noite vamos fechá-las para ligar o desumidificador. Felizmente estamos no verão. Se tivesse acontecido no outono, teria sido um transtorno muito maior. A solidariedade continua?
Absolutamente sim e de várias formas. Por exemplo, no início pensamos em procurar uma casa já mobiliada para não ter que mudar duas vezes, mas percebemos que as pessoas começaram a doar tudo: guarda-roupas, colchões, quartos, sofás. Optamos por pegar uma casa vazia que podemos começar a mobiliar com as coisas que recebemos e depois, em 18 meses, trazer tudo de volta para a nossa casa, até porque aí certamente haverá outras prioridades. As pessoas ficam felizes em ajudar e devo dizer que foi uma lição para mim. Lembro-me que um dia após a primeira enchente, minha casa virou de cabeça para baixo e minha máquina de lavar quebrou. Disse para mim mesma “Vou fazer três sacolas, uma com panos brancos, uma colorida, uma preta e depois vou trabalhar. A primeira colega que me pergunta ‘como te posso ajudar?’, eu digo-lhe ‘se você estiver disposta a qualquer coisa, estas são roupas para lavar’”. Não tive tempo de dar um passo para a escola que ela já havia providenciado. Nestes casos cria-se um vínculo mais forte com as pessoas e acima de tudo não tive vergonha de pedir ajuda. Aceitamos o que nos foi dado e sinto que é também uma forma de mostrar quem eu sou, mostrando as minhas necessidades e dizer que está tudo bem, nos amamos assim, por quem somos. Um bom vínculo também foi criado com os vizinhos. Há quatro anos e meio, que moramos lá, mas nunca tinha entrado no jardim de muitos vizinhos, porque a vida é frenética mesmo, a gente corre. Em vez disso, agora entramos, nos cumprimentamos, nos ajudamos. Que fase se inicia agora? Começou a segunda fase, a da criação de comissões de cidadãos para iniciar a comunicação com a administração municipal. Eu teria desistido imediatamente por vários motivos, sobretudo por ter exercido algumas funções no passado, mas depois percebi que, sem me expor muito, ouvindo, ficando por dentro dos chats, ajudando os responsáveis por esses comitês, eu posso fazer a minha parte. Devo isso aos meus filhos que ainda me perguntam “temos que voltar a morar ali mesmo? Vamos construir uma escada externa que nos leve até o telhado da próxima vez?”. É preciso uma cidadania ativa que monitore as situações. Senti que também tinha de colocar a minha experiência à disposição, nas formas certas, criando ligações tanto quanto possível, porque agora, como sempre acontece quando há necessidade de reconstruir, o maior medo é ficar sozinho. Você está esperançosa? Sim, com certeza. No outro dia, tínhamos de dar um presentinho a esta senhora que nos hospedou na sua casa durante o primeiro mês e, como Faenza é a cidade da cerâmica, consegui um azulejo para pendurar na parede com a frase “As coisas bonitas da vida bagunçam”. Eu disse a mim mesmo que isso era uma grande bagunça, enorme. Vamos levar algum tempo para nos reerguer e vamos conseguir, mas sinto que não poderia ter tido certas experiências sem ter vivido este momento tão difícil. Eu realmente sinto que cheguei naquele ponto em que você olha para o essencial, para o que importa. Foi terrível, mas não consigo pensar só no desastre, que a água levou tudo e termina ali. Há muito, muito mais além de tudo isso.
Maria Grazia Berretta (Entrevista feita por Carlos Mana – Foto: cortesia de Maria Chiara Campodoni)