Chiara Lubich: o aspecto concreto do amor

Foto: Pixabay

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No ano de seu 50º aniversário, a banda internacional publicou TURN IT UP! «Um convite – elas dizem – a “levantar o volume da unidade”. E isso exige um amor concreto, universal, que sabe tomar a iniciativa». A ideia viajou pelo mundo, junto com o grupo, ecoou nas praças, nas escolas e nas casas. Contagiou muita gente e tornou-se um compromisso de vida. «Agora que o ano está terminando – acrescentam – a ideia retorna “vestida de mil cores”, cantada por inúmeras vozes, dançada com a fantasia de vários povos. São 465 jovens, de 31 cidades, de 21 países dos cinco continentes, os protagonistas do vídeo-montagem TURN IT UP!, com o seu ardor, entusiasmo e alegria». https://youtu.be/DKoodP6IYqg?t=40
Estes três sábios orientais, os Magos, que se puseram a caminho atravessando o deserto para procurar um menino, prefiguram a marcha do cristianismo para reencontrar a inocência. Aquele menino era um rei, mas um rei sem acomodação; e aqueles vieram igualmente, caminhando sob a luz das constelações, tendo por guia uma estrela. Este é o milagre do Cristo. Que desencrava as pessoas das posições fixas, arranca os corações dos interesses que petrificam, impele para além do recinto sagrado, para recolocar em circulação homens e coisas na busca da unidade e sob o impulso da universalidade: e assim, ao seu berço, aportam, de todas as plagas, profetas, judeus e filósofos gregos, arte e literatura, especulação e costumes, despojando-se, ao longo do trajeto, daquilo que tinham de particularmente idolátrico, isto é, de errôneo, de antirracional, e desumano. E se vai recolher tudo ao redor de Cristo, que é a razão total. Os Magos traziam, das terras remotas da Arábia e da Mesopotâmia, tesouros e perfumes: afetos e efeitos. O amor os retirava da distância para aproximá-los de Cristo, que era o grande pobre e está sempre presente nos pobres. Esta marcha dos Magos simboliza assim o esforço para se aproximar de todas as distâncias, para elevar-se de todos os rebaixamentos, para chegar com a oferta dos corações e a dos bens materiais, através dos desertos do egoísmo, à unidade com Deus: “porque Deus se fez homem a fim de que o homem se fizesse Deus” como chegou a dizer S. Agostinho: um desceu para que o outro ascendesse. Mas é uma marcha longa, e feita de noite, entre insídias e tribulações. A verdade não se adquire sem esforço; Deus é um prêmio doado a quem arduamente procura: mas quem procura, encontra. Igino Giordani, I Re magi, «La Via» n.97, 6 de janeiro de 1951, p.4
De uma pequena cidade do Norte da Itália aos cinco continentes. Um amplo dossiê de viés sociológico delineia a história dos Focolares, do nascimento até a aprovação definitiva por parte da Igreja em 1965. Uma reconstrução detalhada, encorajada pela própria fundadora dos Focolares já desde os anos 1980, publicada pela primeira vez em 2010 numa edição francesa, foi ultimamente traduzida em italiano por Città Nuova. Piero Coda, reitor do IUS, no prefácio, introduz o estudo de Callebaut com estas palavras: «Uma abordagem científica integral à história dos Focolares até hoje ainda não existia. […] a presente pesquisa, pela primeira vez, constrói e instrui um dossiê histórico e interpretativo do relevante fenômeno representado pelo Movimento dos Focolares […] O trabalho é acurado, pontual, completo dentro do possível […] indiscutível e excelente sob o perfil histórico». Entrevistado por Lorenzo Prezzi para settimananews.it, Bernhard Callebaut (Bruges, 1953), com estudos de direito, filosofia e sociologia na Universidade Católica de Lovaina, atualmente professor no Instituto Universitário Sophia, próximo a Florença, do qual é também Program Director do Grupo de pesquisa Religions in a Global World, explica o sentido da obra: «Acho que a pura narrativa testemunhal, na qual se sente muito viva a pessoa, continue sendo sempre válida. Não acho que um livro como o meu possa cancelar da minha história o choque benéfico experimentado diante da leitura de algumas páginas do primeiro livro da Lubich (Meditações), páginas que estimulavam a viver as mensagens que continham. Após esta premissa, creio que, num segundo momento, devam ser respeitadas aquelas exigências de entender, de contextualizar, de ligar o fenômeno em si a uma história pregressa e colher, pelo menos um pouco, a sua perspectiva futura».
Os primeiros vinte anos da história dos Focolares são perscrutados a partir das “iluminações” de Chiara Lubich, que se tornaram em seguida núcleos centrais da sua espiritualidade. «O carisma é sempre concedido a alguém particularmente, também aqui» explica Callebaut. «Só depois de um certo tempo a Lubich percebeu que na verdade aquele dom era dado a ela e a ninguém mais, ao menos não desta forma forte, límpida, arrebatadora. Mas, com o tempo, percebeu também que os seus primeiros companheiros, que eram enviados por toda a parte – na Itália inicialmente, depois na Europa e nos outros continentes – se tornavam, também eles, de algum modo, portadores, multiplicadores do carisma, “pequenas fontes” por sua vez». «Nos dias de hoje – e no meu livro é documentado amplamente – o coração do carisma da Lubich está ligado a ter identificado – por dom – e depois profundamente examinado, como nunca na história de dois milênios de vida cristã, o significado daquele ápice da paixão que constitui o momento do grito de abandono de um homem-Deus». A história dos Focolari é, no início, uma história feita também de uma longa e sofrida expectativa do reconhecimento formal por parte da Igreja. «No início dos anos Cinquenta o Santo Ofício examina os papéis e documentos sobre os Focolares e inicia uma série de confrontos com a jovem fundadora. Para pôr à prova ela e os seus, e mensurar a sua fidelidade à Igreja, lhe pede para dar um passo atrás, de não exercer mais a função de responsável do Movimento. O seu entourage nunca ocultará quem é realmente a alma do Movimento e não houve crise de liderança durante todos aqueles anos, até quando Paulo VI resolveu definitivamente a questão. Em 1965 a Lubich assinará a sua primeira carta como presidente dos Focolares. Hoje, à distância de tempo, se inicia a colher que por detrás da sua estatura de portadora de espiritualidade, havia também uma densidade pouco comum de pensamento ». Em anos mais recentes, a intuição carismática da fundadora se traduz inclusive numa série de propostas concretas como contribuição à resolução de questões sociais ou culturais. Como a Economia de Comunhão, «que realiza a opção preferencial pelos pobres e, ao mesmo tempo, valoriza quem sabe contribuir para a vida econômica com o talento não comum do empreendedorismo», ou a fundação do Instituto Sophia, «como contribuição interessante aos debates e às tribulações do pensamento contemporâneo». Hoje, todos os membros dos Focolares de algum modo levam e multiplicam» o carisma de Chiara Lubich «para realizar o ut omnes». E Callebaut conclui: «Tem trabalho para alguns séculos, me parece».
Callebaut Bernhard, Tradition, charisme et prophétie dans le Mouvement international des Focolari. Analyse sociologique, Paris, Nouvelle Cité, 2010, LXXXIII + 537 p. Trad. it. La nascita dei Focolari. Storia e sociologia di un carisma (1943-1965), Città Nuova – Sophia, Roma 2017, pp. 640. Leia a entrevista completa de Lorenzo Prezzi, em italiano: http://www.settimananews.it/spiritualita/focolari-movimento-carisma-storia/
As rugas do desencanto «Após anos de matrimônio percebi que o homem que vivia ao meu lado não era mais aquele que me tinha feito perder a cabeça. Mas agora havia os filhos e a vida tinha ido em frente. Um dia, uma amiga minha me disse: «Eu te vejo envelhecer mal. Ao invés de crescer no amor, estão aumentando as rugas do desencanto». Era verdade, no lugar do amor e da doação tinha colocado princípios de justiça. Procurei mudar de atitude para com meu marido e descobri que, mais do que nunca, precisava de mim e do meu apoio. Agora as coisas mudaram. Em família circula entre todos um amor maior». (M.F. – Polônia) A farmácia «Os empregados da farmácia onde eu trabalhava antes tinham sido despedidos. Todos, menos eu. Os novos administradores, porém, foram movidos mais pelo interesse do que pelo bem dos clientes. Também a atmosfera mudara rapidamente. Por alguns meses me dediquei a melhorar os relacionamentos entre os empregados e com os clientes. Um tempo precioso, durante o qual aprendi a ser mais misericordiosa. Depois, também para mim se apresentou a demissão. Apesar disso, eu confiava na Providência, que não me desiludiu: inesperadamente uma outra farmácia me ofereceu o lugar de um empregado que tinha se aposentado». (C.T. – Hungria) Os meus pacientes “difíceis” «Há diversos anos trabalho como médico num instituto especializado para pacientes em estado vegetativo, em geral traumatizados em seguida a um acidente. O percurso de recuperação do coma é muito complexo e não é nem mesmo descontado que aconteça. Aos familiares que me perguntam se o seu parente acordará, respondo, em geral, que não podemos prever o que poderá acontecer, e que só Deus conhece o futuro deles. Nós, operadores, somos só instrumentos nas suas mãos. É impossível ficar indiferentes diante de tais tragédias. Às vezes, a minha fé como cristão vacilou. Porém, acho que estes pacientes “difíceis” tenham uma função social importante: para parentes e amigos, se tornam um centro de agregação da família e suscitam neles a capacidade de doação». (Elio – Itália) Ressurreição «Droga, prostituição … Há dois anos seguia o meu amigo Mario no seu calvário. Ele tinha se afastado de Deus, mas respeitava o meu modo de viver a fé. Quando acabou num hospital, eu ia visitá-lo assiduamente. Ele me perguntou: «Por que você faz isso? Venho de um mundo completamente diferente do seu!». Durante a internação pôde refletir e, um dia, me disse: «Estava procurando me convencer de que Deus não existe, porque isto me obrigaria a mudar de vida. Agora, porém, não posso mais ir em frente assim. Você é a única pessoa realmente feliz que eu jamais poderia ter encontrado. Gostaria muito de viver como você». Eu lhe propus que tentasse pôr em prática uma Palavra do Evangelho, uma de cada vez. Eu também tentava fazer assim, e funcionava! Tendo em vista que confiava em mim, aceitou experimentar. Sobretudo lhe resultava difícil mudar o sentido da palavra “amar”, que para ele tinha significado se prostituir por dinheiro. Foi um caminho difícil, entre quedas e novos inícios. Um dia se aproximou do sacramento da confissão. Depois estava radiante. Então, o acidente, no qual perdeu a vida. Deus o esperava lá. Mas já estava preparado». (S.V. – Suíça)