Quem é Jesus abandonado para mim

© A.M Baumgarten

© A.M Baumgarten
Em muitos lugares do planeta ocorrem guerras sangrentas, que parecem intermináveis, atingindo as famílias, os grupos étnicos e os povos. Glória, de vinte anos, conta: “Recebemos a notícia de que um povoado tinha sido incendiado e muitas pessoas tinham ficado sem nada. Com os meus amigos comecei uma campanha para juntar coisas úteis: colchões, roupas, mantimentos. Partimos para lá e depois de oito horas de viagem encontramos as pessoas na maior desolação. Escutamos as suas histórias, enxugamos lágrimas, abraçamos, confortamos… Uma família nos confiou: “Eles queimaram a nossa casa onde estávamos com a nossa filhinha; tivemos a sensação de morrer com ela. Agora, no amor de vocês, encontramos a força para perdoar os homens que provocaram isso!”. Também o apóstolo Paulo fez uma experiência: justamente ele, o perseguidor dos cristãos1, encontrou o seu caminho de um modo totalmente inesperado, deparou com o amor gratuito de Deus que depois o enviou como embaixador de reconciliação em seu nome2. Tornou-se assim testemunha apaixonada e confiável do mistério de Jesus morto e ressuscitado, esse Jesus que reconciliou consigo o mundo para que todos pudessem conhecer e experimentar a vida de comunhão com Ele e com os irmãos.3 E por meio de Paulo a mensagem do Evangelho atingiu e fascinou até mesmo os pagãos, considerados os mais distanciados da salvação: reconciliai-vos com Deus! Apesar dos erros que nos desencorajam ou das falsas certezas que nos iludem, convencendo-nos de que não precisamos disso, também nós podemos permitir que a misericórdia de Deus – que é um excesso de amor! – cure o nosso coração e nos torne finalmente livres para partilhar esse tesouro com os outros. Assim nós poderemos dar a nossa contribuição ao projeto de paz que Deus tem para com a humanidade inteira e toda a criação e que supera as contradições da história, como sugere Chiara Lubich em um escrito seu: “(…) Com a morte de seu Filho na cruz, Deus nos deu a prova suprema de seu amor. Por meio da cruz de Cristo, Ele nos reconciliou consigo. Essa verdade fundamental da nossa fé conserva ainda hoje toda a sua atualidade. É a revelação que toda a humanidade espera: Deus está próximo de todos com o seu amor e ama apaixonadamente a cada um. O nosso mundo tem necessidade desse anúncio, mas só poderemos fazê-lo se antes o anunciarmos e voltarmos a anunciá-lo a nós mesmos, até nos sentirmos envolvidos por esse amor, mesmo quando tudo nos poderia levar a pensar o contrário. (…) Todo o nosso comportamento deveria dar credibilidade a essa verdade que anunciamos. Jesus disse claramente que, antes de levarmos a nossa oferta ao altar, deveríamos nos reconciliar com nosso irmão ou irmã, se eles tiverem algo contra nós (cf. Mt 5,23-24). (…) Amemo-nos como Ele nos amou, sem nos fecharmos, sem alimentarmos preconceitos, estando dispostos a reconhecer e a apreciar os valores positivos do nosso próximo, prontos a dar a vida uns pelos outros. Este é o mandamento por excelência de Jesus, o distintivo dos cristãos, tão válido hoje quanto nos tempos dos primeiros seguidores de Cristo. Viver esta Palavra significa nos tornarmos reconciliadores”.4 Se vivermos dessa forma, nossos dias serão enriquecidos por gestos de amizade e reconciliação na nossa família e entre as famílias, na nossa Igreja e entre as Igrejas, em todas as comunidades civis e religiosas das quais fazemos parte. Letizia Magri 1 Cf. At 22,4ss. 2 Cf. 2Cor 5,20. 3 Cf. Ef 2,13s 4 Cf. versão integral em Cidade Nova, janeiro de 1997.
O que significou para vocês conhecer Chiara Lubich e que reflexos teve, na vida de cada um e na família, o relacionamento com ela e a sua espiritualidade? Danilo: “Nós crescemos, Anna Maria e eu, em um ambiente cujos hábitos eram muito arraigados na tradição. Existia a família, mas, muitas vezes, era unida por uma convenção social. Quando conhecemos Chiara nós compreendemos que ser cristãos significava, primeiramente, fazer uma opção. Por isso sofremos muito para liberar-nos do modo corrente de pensar daquela época, do apego à própria função, ao próprio círculo social, ao título profissional. Eu seguia uma carreira promissora e teria me tornado um engenheiro famoso, mas, para viver o Evangelho de maneira radical, nós começamos a hospedar os pobres, a fazer a comunhão dos bens: tudo isso era um escândalo porque rompia com os costumes de uma cidade burguesa. Por isso meus pais não entenderam a nossa escolha e se opuseram. Lembro-me que, um dia, fui a um povoado nas montanhas, para fazer uma palestra: eu era o presidente diocesano da Associação dos Homens Católicos. Eu carregava comigo um sofrimento muito grande, estava com o coração partido. Logo que acabou a palestra eu entrei na igreja e me deparei com uma imagem de Jesus Abandonado. Tive a imediata compreensão de que, para ser cristão é necessário passar também por aqueles momentos dolorosos”.
Birminghan, metrópole multiétnica do centro da Inglaterra onde a presença de pessoas de várias culturas e religiões torna-se uma forja de diálogo. A cidade é, por si mesma, laboratório de relações inter-religiosas baseadas na estima recíproca e na descoberta dos valores do outro. O arcebispo católico, Bernard Longley, junto com o Conselho de líderes de outros credos em Birminghan, comprometeu-se em primeira pessoa no campo inter-religioso e várias vezes exprimiu o desejo de que o carisma da unidade possa dar a sua contribuição, na Igreja e no diálogo ecumênico e inter-religioso. Em outubro de 2015 colocou à disposição dos Focolares uma casa na diocese de Birminghan. Desde então os membros da comunidade de Londres se organizam, a cada dois meses, para ir lá e animar muitas atividades. O início foi com o projeto “Start Now”, da banda internacional Gen Verde, e se deu continuidade com muitas outras iniciativas. Em janeiro, uma
voluntária do Movimento, especialista no mundo da educação, animou, com outros, o primeiro de quatro workshops na escola fundamental Sikh, para 70 garotos e garotas de 7-8 anos. O tema era precisamente o dos valores. «Os Sikhs sentem uma forte ligação conosco – ela conta -. Dizem que nós, como eles, procuramos modelar uma sociedade baseada na fusão do humano e do divino. Veem no relacionamento com o Movimento uma sintonia que os ajuda a aprofundar os valores e colocá-los em prática». No workshop houve a possibilidade de aprofundar esses valores com as crianças, ajudando-as a vivê-los.
A iniciativa culmina um relacionamento que já dura muito tempo. Há anos a comunidade dos Sikh, guiada por Bhai Sahib Bhai Mohinder Singh, mantem uma ligação constante com o Focolare de Birminghan. A relação se aprofunda e cresce a estima recíproca. «Bhai Sahib Ji sempre nos diz – escreve uma focolarina – que Chiara Lubich é a sua inspiração. Conserva a foto dela na sua escrivaninha». Sikhs e focolarinos recentemente participaram também de uma conferência inter-religiosa. Na ocasião, Bhai Sahib Ji apresentou um projeto para promover a reconciliação e o perdão. Aquele dia foi uma ocasião para estreitar relacionamentos de amizade entre membros de vários credos e religiões, que agora desejam manter-se em contato.
Sempre em janeiro, o Dr. Mohammad Shomali, muçulmano, convidou alguns focolarinos para falar a um grupo de cerca trinta muçulmanos, numa mesquita de um bairro de Birminghan. O seu desejo era “colocar juntas as pessoas que mais ama e estima: a sua comunidade e o focolare”. Falou-se do diálogo da Igreja com o Islamismo e propôs-se a espiritualidade da unidade, compartilhando também algumas experiências sobre a Palavra. Muitos muçulmanos ficaram entusiasmados e querem ficar em contato com o focolare. «Convidaram-nos para o domingo sucessivo, para o projeto “visite a minha mesquita”», eles contaram. «Nestas semanas, nas quais encontramos tantos novos amigos de outras religiões – concluem – recordamos uma carta de Chiara, de 23 de novembro de 1980, onde ela dizia, entre outras coisas: “… se nas cidades de vocês existe uma mesquita ou uma sinagoga, ou qualquer outro lugar de culto não cristão, saibam que aquele é o lugar de vocês…”. É o projeto da fraternidade entre todos. Inclusive entre fieis de religiões diferentes».
Um compromisso do coração que leva a um testemunho público? Hoje não tem sentido que os cristãos apresentem-se fragmentados. Já incidem pouco, e incidirão cada vez menos se não estiverem unidos para testemunhar o único Evangelho, o mandamento do amor recíproco. E, se nós cristãos não sabemos dar esse testemunho, o mundo não poderá encontrar Deus, porque não poderá encontrar aquele Jesus que está presente onde existem cristãos unidos no amor mútuo. Se o encontrarem a fé nascerá neles, mudarão de atitude, no modo de comportar-se, mudará a busca da paz e de soluções de justiça, o empenho pela solidariedade entre os povos. Qual é o ponto central da Declaração de Ottmaring? A referência ao encontro de Lund, na Suécia, do dia 31 de outubro passado, porque foi um evento extraordinário, do qual, talvez, não se tenha toda a consciência. Como Movimento, sentimos a necessidade de fazer emergir o espírito de Lund, sintetizado na Declaração conjunta, que pede para que cresça a confiança recíproca a o testemunho comum da mensagem do Evangelho, para testemunhar aos homens o amor de Deus. É este, em absoluto, o compromisso que assumimos. Em Lund assistimos a um gesto importante realizado pelos responsáveis da Igreja Católica e da Federação Luterana Mundial, ou seja, de alto nível. Mas se fica apenas no alto nível, se não desce à concretização na vida das comunidades, resta uma bela recordação histórica, mas não conseguirá ter incidência nas situações de hoje. O Movimento, então, compromete-se em recolher a herança de Lund e a difundir o seu espírito? Certamente. E desejamos ainda que essa nossa Declaração chegue aos responsáveis das Igrejas, para dar-lhes um motivo a mais de esperança, que saibam que no mundo existem pessoas que querem viver desse modo. O ecumenismo é uma necessidade dos tempos. Não se pode questionar se caminha ou não. Deve ir adiante. Porque responde à necessidade de Deus que as pessoas têm, ainda que insconscientemente. Uma resposta eficaz é estar unidos, ao menos entre cristãos. De outra forma é uma grave omissão. A senhora agiu logo e entregou a Declaração ao prefeito de Augsburg e à responsável da Igreja evangélica luterana da cidade. Começamos pelo local. Lund foi de um nível muito alto, com os responsáveis máximos. Nós podemos fazer com que desça o espírito da Declaração de Ottmaring na dimensão local, atual, daquilo que é possível fazer logo. Leia a Declaração Ottmaring
Uma concentração de cidades medievais e vilarejos entre as mais belas do país, com suas antigas tradições, tesouros naturais e arte; são sinais de uma cultura milenar que se entrelaçam com histórias de uma população trabalhadora, ligada às suas origens. Esta é a Itália central, que foi atingida no ano passado por uma série de terremotos que devastaram cidades inteiras e que continua, ainda hoje, com tremores de terra. A região de Fermo, no centro da Itália, reúne quarenta municípios, a partir da cadeia montanhosa de Sibillini, e se estende até as praias da costa do Mar Adriático. Em noites claras, da Catedral de Fermo, com os seus 200 anos de vida, é possível vislumbrar as luzes do país vizinho, a Croácia. Também a Arquidiocese tem origens antigas: fundada no final dos anos de 1500, mas com registros no III século, é a mais populosa das dioceses da região e reúne mais de 120 paróquias, em 58 municípios nas três regiões de Ascoli Piceno, Fermo e Macerata. Nesse contexto, o Movimento Diocesano deu seus primeiros passos em 1973. É um ramo do Movimento dos Focolares que opera a serviço da igreja local, propondo-se a irradiar o carisma da unidade, para contribuir à realização, juntamente com outras atividades da igreja, de uma “Igreja-comunhão”. Em todo o território dos arredores da cidade de Fermo, o terremoto causou desmoronamentos, evacuações, e muito medo. Cerca de 200 igrejas foram fechadas por serem impróprias para utilização. Loredana, do Movimento Diocesano, relata a experiência lado a lado com as pessoas afetadas pelo terremoto. «No litoral, numerosos parques de campismo e parques de férias tornararam-se o lar de cerca de 25.000 pessoas. Em um acampamento, em Porto S. Elpidio, foi colocado o centro operacional da proteção civil para esta área. A cidade recebeu mais de mil pessoas, famílias inteiras com crianças e idosos, outros milhares passaram por aqui antes de serem transferidos para outras estruturas costeiras. Para adquirir o básico necessário fizemos uma coleta entre nós voluntários e organizamos um pequeno bar para os desabrigados e os voluntários. Uma vez que esta primeira fase de emergência foi superada, o prefeito e o secretário da cultura reuniram representantes de escolas para pedir apoio para a organização de workshops e atividades recreativas. Do Movimento Diocesano estavam presentes três colaboradores, mas sabíamos que podíamos contar com a ajuda de muitos. Com eles, organizamos atividades para as crianças e aulas para os adolescentes, encontrando todos os dias os professores e trazendo as sobremesas preparadas por nossas mães e avós. Durante este período, construimos um forte relacionamento com os professores, crianças, adolescentes e suas famílias. Notamos que um grande número de desalojados são pessoas idosas. Em Monte San Giusto, por exemplo, cerca de 120 desalojados foram recebidos, entre estes 42 anciãos de um lar de idosos, dentre os quais 30 dependentes de cadeiras de rodas. Dois de nós (uma assistente social e uma guarda municipal) dedicaram-se, colocando-se na escuta profunda de suas necessidades. Muitas iniciativas pessoais foram realizadas. Os jovens de Porto S. Elpidio, por exemplo, fizeram pequenas árvores de Natal que puderam presentear as famílias alojadas em um acampamento. E com as várias atividades pudemos arrecadar uma contribuição de 1200 euros para o projeto “RImPRESA”, para apoiar pequenas atividades produtivas daquela região .