O Papa: cristãos e muçulmanos, avancem, com coragem, no diálogo.
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Giordani: a misericórdia no «Magnificat»
No centro deste potente hino que é o Magnificat, onde se reúne o ardor dos profetas com a profecia da redenção, está inserida uma menção à misericórdia divina, que pode parecer um acréscimo retórico. Ao invés, me parece que aquela alusão à misericórdia do Pai, no centro do hino, tenha um valor capital, e contenha a explicação daquela concisa, exuberante lista de fatos divinos, que dá à improvisação poética da jovenzinha de quinze anos, que guardava e maturava Jesus no ventre, uma beleza inaudita e uma imediação constante. Na primeira parte, Maria exalta o «Poderoso que fez coisas grandiosas» para a sua «serva», de modo que as gerações vindouras, todas, a declararão bem-aventurada. Deus fez o milagre da encarnação do Verbo através de uma menina pobre, humilde, de uma desconhecida aldeia de Israel; ato do qual virá a salvação para a humanidade de todos os tempos. Então ela observa: «o seu nome é santo – e a sua misericórdia (se estende) de geração em geração…». Portanto, a redenção nasce de um ato de piedade do Pai divino para com os homens. Se ele realizou aquele prodígio de amor, que só um Deus podia realizar, de fazer com que nascesse o Filho na terra, de uma jovenzinha do povo e de fazer com que ele morresse num patíbulo pelo bem da humanidade, se deve a um ato de misericórdia, se deve a um milagre daquela misericórdia, que é o amor elevado ao ápice. Ele exige que se perdoe o irmão não até sete vezes, mas até setenta vezes sete: em prática, sempre, infinitamente; que se ame o irmão até dar a vida por ele. Deus «socorreu Israel, seu servo, – lembrando-se de sua misericórdia…». Numa palavra, tudo, no governo divino, se reconduz à misericórdia. E se verá isso confirmado e esclarecido na conduta daquele Jesus, por cujo amor Maria fala, seja quando ele dará de comer às multidões e curará enfermos, seja quando flagelará os mercantes no templo e bramará vocábulos ásperos contra os fariseus e os soberbos. É o hino da total revolução cristã. Mas o aspecto mais revolucionário dela está justamente no que é o seu princípio: a misericórdia. Por ela não destrói, mas cria, porque o amor por Deus e pelo homem não produz senão o bem. O Magnificat especifica as diretrizes do processo de evolução, transformação e renascimento, em que social e politicamente, além de espiritualmente, se traduz o ideal evangélico. Uma transformação que parte do amor, e se concretiza na misericórdia. Um semelhante ideal assume hoje um caráter de urgência e de atualidade nova. Irrompem de toda a parte ideologias e contestações, guerrilhas e revoltas: urgem aspirações grandes e belas e se introduzem programas destrutivos e de ódio. Maria ensina como orientar e construir esta revolução. É uma mulher, a mãe de Deus, que ensina com a palavra e a vida: a vida da mãe da misericórdia. O exemplo dela vale tanto mais, hoje, quanto mais se revaloriza a feminilidade. Maria nos ensina a estrada da misericórdia. A este ponto, já é evidente a inutilidade e o absurdo das guerras, isto é, do ódio, e a necessidade de sistemas racionais, feitos de tratativas, de diálogo e, sobretudo, de intervenções e dons, por quem pode em favor de quem não pode. Vemos isso: o envio de armas e de dinheiro em favor deste ou daquele povo serve para alimentar os conflitos, nos quais as pessoas penam, agonizam e morrem; e para depositar germes de ódio contra os próprios doadores. A perspectiva daquela jovenzinha, que entoava entre gente pobre o Magnificat, ou seja, o método da misericórdia, é uma perspectiva de inteligência divina e humana, a única capaz de resolver o problema de um mundo ameaçado por uma última definitiva catástrofe, provocada pela estupidez do ódio, droga de suicídio. Para reaver a paz, afinal, com o bem-estar, é preciso que nós tratemos das chagas materiais e morais de quem sofre, tanto do lado de cá quanto de lá do Oceano, na Europa e na Ásia, na América e na África, usando uma piedade, fruto de compreensão; uma caridade, que não é fraqueza, mas remoção de injustiças e de egoísmos para fazer da coexistência uma convivência, das nações uma família. Assim quer Jesus, o filho de Maria, como garante também a sua Mãe. Igino Giordani, em «Mater Ecclesiae» n. 4/1970 www.iginogiordani.infoDireito e Ambiente
Aumentam os artesãos da paz
«Nós, aqui, estamos todos empenhados em ajudar a inserção dos refugiados no país – escrevem da Alemanha –. Alguns dão aulas de alemão, outros colocam à disposição um alojamento, outros ainda o seu tempo para ficar com eles. Justamente nestes dias estamos esperando a chegada de 9 menores não acompanhados, provenientes da Síria e Afeganistão. Por seis meses vão morar no nosso centro de Ottmaring, e serão seguidos por assistentes sociais da cidade».
«Aqui em Dallas – escrevem do Texas – fizemos uma marcha pela paz para angariar fundos para os refugiados sírios”. «Já nós – dizem em seguida de Houston – pensamos em nos encontrar para um dia de ‘team building’: através de jogos, dinâmicas, trabalhos de grupo, etc. aprendemos como se faz para ser uma ‘esquadra’. No dia 22 de novembro, ao invés, organizamos uma oração inter-religiosa pela paz. Havia judeus, muçulmanos, hindus, cristãos. Conosco também estava o arcebispo».
Da Califórnia avisam que no jantar anunciado em Los Angeles, em benefício dos refugiados do Oriente Médio, havia uma centena de pessoas de culturas e igrejas diferentes. Após ter rezado pelas vítimas dos atentados em Beirute e Paris, os jovens apresentaram algumas iniciativas em favor dos refugiados, realizadas no mundo, no cenário de United World Project, a plataforma internacional em que encontram visibilidade iniciativas grandes e pequenas, como inclusive este jantar. No diálogo, a convicção unânime de que cada um pode ser semeador de esperança nos próprios ambientes. Um jantar deste tipo será feito também em São Francisco, em dezembro. «Desde o dia 30 de outubro – comunicam da Espanha – no Centro Luminosa (próximo a Madri) todos os sábados à noite se faz uma oração comunitária pela paz, cada vez animada por um grupo diferente (jovens, famílias, sacerdotes, etc.). É o ponto de partida para depois nos empenharmos, não com palavras, mas com fatos e com uma nova medida e ardor, pela paz». Muito vivazes os ecos que chegaram de Bahia Blanca (Argentina) após a anunciada manifestação na praça do dia 20 de novembro. A ideia, simples e ousada, era convidar todos, mas realmente todos, para conscientizar sobre como se constrói a paz. O lançamento, divulgado por uma rádio local, saltou para as redes sociais. Às 19h30min a praça central começa a se encher de cores e música. Faixas, pôsteres, panfletos, propõem o que é preciso fazer para resolver os conflitos com o diálogo e assim gerar a paz: dar um sorriso, falar sem gritar, contar algo humorístico, aceitar as ideias de quem pensa diferente, fazer ao outro o que você gostaria que fosse feito a você, etc. No palco se alternam canções (um coro se ofereceu para se apresentar graças ao convite no Facebook), breves discursos, animação. «A experiência de hoje é só um primeiro passo que nos confirma que quando estamos juntos as pequenas coisas podem se tornar poderosas. Portanto, é urgente começarmos a nos mexer começando do dia a dia». Sempre na Argentina, na província de Paraná, a comunidade local organizou duas noites ecumênicas de oração pela paz e pelos perseguidos por causa da fé, animadas por membros de igrejas diferentes com os quais estão em contato. Com testemunhos de refugiados e das famílias que os acolheram, além da oração, tão necessária e sentida, queriam dar visibilidade à caminhada feita juntos para sensibilizar à acolhida e à inclusão. E enquanto que de Tókio (Japão) contam que no “Syrian Café” – um espaço de encontro e de diálogo – angariaram uma boa quantia para enviar a Damasco, chega a notícia que em Assunção (Paraguai) de18 a 20 de dezembro haverá um acampamento pela paz organizado pelo Movimento Juvenil pela Unidade, a ramificação júnior dos Focolares.
Misericórdia: o olhar de alguém que não tem fé
A abertura de um Jubileu pôs na ribalta, para muito além do âmbito vaticano, a palavra misericórdia, que aos ouvidos de um leigo ressoa como ultrapassada e carregada de significado especificamente religioso. Uma pessoa que não tem fé tende a não aceitar a-priori os significados místicos dos quais a palavra é geralmente investida, especialmente agora que se levanta a inquietante e mundana centralidade, e na sua mente alternam-se os vários sinônimos e outras palavras assumidas como tais, que consentiriam levá-la para além da fronteira da cristandade: piedade, compaixão, empatia, e muitos outros, numa crescente confusão que os dicionários on-line não ajudam a decifrar. Vem imediatamente o impulso de identificá-la precisamente com a piedade, o sentimento de quem tem compaixão, de quem compreende emocionalmente os sofrimentos dos outros como próprios e desejaria aliviá-los (entre outras coisas precisamente com o cristianismo o significado da palavra piedade aproximou-se àquele de misericórdia). Mas então porque não empatia, que não é um sentimento, mas uma capacidade de compreender plenamente o estado de ânimo dos outros, de pôr-se no lugar dos outros, especialmente depois das descobertas das neurociências sobre os neurônios-espelho que tendem a confirmar que a empatia não se origina de esforços intelectuais mas faz parte do código genético da espécie? As palavras piedade, misericórdia e compaixão, como quase todas as palavras que se respeitam, têm o seu dúplice significado positivo e negativo: basta pensar na caracterização depreciativa em expressões do tipo “tenho piedade de ti”, “tenho compaixão de ti” equivalentes a “tenho pena de ti” e “tu és nojento”, ou ao uso antigo de chamar de “misericórdia” o punho curto com o qual se inflige a morte ao inimigo ferido (um golpe de graça?). Diz-se que a misericórdia é compaixão, mas compaixão ativa, substanciada em ações e em obras. E pode também representar um conceito fundamental, chave da vida cristã, como sublinhou o ilustre cardeal W. Kasper. Mas então é preciso distinguir uma misericórdia cristã e uma misericórdia laica – está última fundamentada nos valores humanitários – que, mesmo caminhando juntas e entrelaçando-se, pertencem de qualquer modo a duas ordens diferentes, que devem ser respeitadas na sua natureza. Portanto, não se trata de contrapor as boas obras laicas àquelas cristãs, mas «de procurar aquela harmonia escondida que traz alívio al mundo»; e uma harmonia – como o diálogo – «não acontece na homogeneidade, mas vive na diversidade…». Mario Frontini
