Movimento dos Focolares
A escolha de Vincenzo: cuidar dos pacientes menores

A escolha de Vincenzo: cuidar dos pacientes menores

Vincenzo«Há mais de três meses faço um estágio em oncologia pediátrica, um departamento onde nunca sabes se aquelas crianças que estás acompanhando hoje, irás encontrar amanhã. Não é nada fácil viver constantemente em contato com o sofrimento inocente, ao ponto de por à prova a escolha de estudar enfermagem pediátrica. No primeiro dia, sentia-me disposto a tudo. Mas, quando coloquei o pé no departamento, encontrei uma menina maravilhosa. Tem um tumor maligno dos piores, em estágio terminal. Não tenho a mínima ideia de como enfrentar a situação. Nunca, como naquele momento, senti-me inútil e incapaz, convencido de não poder fazer nada de bom por ela. No mesmo departamento, há ainda outras crianças, e o dia parece passar muito rápido, porém, cada vez que entro no quarto daquela menina experimento o mesmo senso de impotência e de incapacidade. Chegamos às 14h, horário do fim do turno. Não posso ir embora sem ter feito alguma coisa por ela. Mas, o que? Procurando por em prática a espiritualidade da unidade, tinha experimentado que no amor o que vale é amar e que não é necessário fazer coisas grandiosas, basta começar com um gesto simples, sem ter grandes pretensões. Mas tudo o que poderia fazer por aquela pequena paciente já tinha feito. Por que então sentia ainda o dever de fazer mais? Pela manhã, ao entrar no hospital, tinha passado por uma pequena capela. Penso: talvez amar aquela criança signifique rezar por ela. Vou até lá, entro e sento-me num dos últimos bancos, mas não sei como e o que pedir. Fico ali, em silêncio, com um aperto no coração, que me oprime. E pouco a pouco sinto que Jesus toma sobre si todo o meu sofrimento. Agora, com o coração livre, sinto que posso entregar aquela menina a Deus, e depois vou mais uma vez despedir-me dela, para demonstrar a minha solidariedade. Desde então, continuo a ir frequentemente àquela capela. É ali que encontro a luz para enfrentar, e também para compreender ao menos um pouco, o mistério do sofrimento inocente, aquele com o qual me confronto tão frequentemente. E é em Jesus crucificado e ressuscitado que encontro a força e a atitude certa para me aproximar das crianças e dos seus familiares. Muitas vezes não entendo o que fazer por eles, mas depois a resposta chega sempre pontualmente. Um dia, é hospitalizada uma menina de dez anos que já tinha passado por vários hospitais. Suspeitava-se de uma doença grave no sangue e tudo se confirma. De repente, desaba sobre ela e a sua mãe, como uma bomba, um diagnóstico sem esperança. Sinto a importância de estar perto delas e de participar completamente daquela situação, ajudando-as como posso. Fico no hospital depois que o meu turno termina. Durante o dia, não posso fazer quase nada por ela. Mas quando tenho um momento livre dos meus compromissos no departamento, vou até o seu quarto, para ouvir aquela mãe e dar-lhe confiança, e também para distrair a menina. E cada vez vejo nos seus olhos um véu de serenidade que antes não existia, uma nova força de esperança para enfrentar a difícil provação que as espera. É isso que acontece em muitas outras situações, aproveitando de cada ocasião para estar um pouco de tempo com as “minhas” crianças, não só para dar-lhes os medicamentos e administrar as terapias, mas para vê-las sorrir e enfrentar com um pouco mais de serenidade o seu difícil caminho».

Guatemala: eleições às portas

Mês de abril passado foi descoberta uma enorme fraude contra o Estado por parte de funcionários do Serviço de Administração Tributária (SAT), com a conivência da alta cúpula política. A colaboração estreita entre o Ministério Público e a Comissão internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG) permitiu que dezenas de implicados fossem levados à julgamento por corrupção. Entre os mais conhecidos, a Vice-presidente. Os fatos provocaram nos cidadãos uma onde de indignação nunca vista nos últimos 60 anos, e que continuou a crescer. Em coincidência com esses acontecimentos, Raúl e Cecilia Di Lascio, argentinos, encontraram a comunidade dos Focolares, dias 22 e 23 de agosto passado. Ele, arquiteto e empresário da Economia de Comunhão, ela, membro da comissão internacional do Movimento Político pela Unidade. Neste encontro foram aprofundados os grandes temas da economia e da política, à luz do carisma da unidade. Estar reunidos durante esta efervescência social inédita, fez com que os momentos de diálogo entre cidadãos de todas as idades sobre assuntos relacionados à política fossem uma ocasião de abertura a esse mundo, em geral visto muito mal. Evidenciou-se a visão de Chiara Lubich quando fundou o Movimento Político pela Unidade: os grandes valores que a ação política manifesta quando é vivida como serviço e dedicação ao bem comum. Seja assumindo um cargo político, seja no agir cotidiano de cada cidadão. Olhar para a política a partir da ótica da fraternidade, que libera atitudes corajosas e comprometidas nas relações sociais, encheu os participantes de esperança, reforçada pelo intercâmbio de experiências que se vivem em várias partes do mundo. Nos dias sucessivos a sociedade guatemalteca se autoconvocou para novos protestos populares. Pedia-se a renúncia do presidente – solicitada também pela Igreja católica e por várias igrejas cristãs – após terem emergido as ligações com a corrupção. Muitas empresas, escolas e universidades interromperam as atividades para favorecer a participação, e assim também o Centro Mariápolis e a Escola Fiore. A concentração das pessoas no Parque Central de Guatemala foi maciça: durante o dia, mais de 100 mil pessoas. «Sente-se que no coração da Guatemala existe um vazio que não foi preenchido. Devemos unir-nos para que aconteça uma mudança», diz Willy. É louvável que tanta gente consiga manifestar-se de maneira pacífica: «É muito bonito que as empresas tenham fechado para que as pessoas pudessem participar – explica Saturnino -. Como guatemalteco eu vibrava quando se gritava: “Guatemala! Guatemala!”, ou se cantava o hino nacional». «Parecia ver uma nova consciência de responsabilidade – afirma a professora Lina -. Não queremos deixar passar a oportunidade de mudar as coisas, sabendo que dessa vez é possível». Para muitos foi encorajador ver famílias inteiras que não tiveram medo de levar as crianças. «Famílias, ricos junto com pobres – comentou Sandra – população indígena, jovens com adultos e crianças, estudantes dispostos a superar a violência para alcançar o objetivo de todos!». O objetivo que Alex define como «um país melhor». As últimas notícias atestam que o Presidente da República perdeu a imunidade, demitiu-se “pelo bem da sociedade”, e agora está preso. No dia seis de setembro os cidadãos serão chamados às urnas e tudo leva a supor que esta passagem acontecerá de maneira pacífica e democrática. De Filippo Casabianca, Cidade da Guatemala

Nascida em Londres, anglicana, focolarina

Nascida em Londres, anglicana, focolarina

CathyLimebearDurante uma viagem a Harefield (Grã Bretanha) – onde está o hospital onde eu estudava enfermagem – chamou-me atenção a maneira de ser de uma colega. Aproximar-se dela não foi uma das coisas mais simples porque sou tímida, e muitas vezes rodeada de amigos tão ‘selvagens’ como eu. Mas, aquela colega não desprezava a minha companhia, ao contrário, um dia convidou-me para almoçar. E assim nos tornamos amigas. Fazia tempo que o meu cristianismo não me satisfazia: eu frequentava a igreja por um sentido de dever, para ficar com a consciência tranquila. Ela, ao contrário, me falava de uma fé alegre, autêntica, que compartilhava com outros jovens da sua idade, uma fé iluminada pelo amor. Um dia ela chegou ao hospital trazendo um violão para festejar o aniversário de uma enfermeira com a qual, notoriamente, não era fácil o relacionamento. E eu disse a mim mesma: “Mas, se esta colega chega a este ponto, talvez valha a pena saber o que a impulsiona a agir desta forma”. E ela me falou que se sentia fortalecida pela espiritualidade da unidade. E assim, tal como minha colega, comecei a conviver com as pessoas do Focolare e muitas vezes, ou melhor, sempre descobria novas ocasiões para doar-me: doava algumas das minhas roupas ou alimentos a quem precisava, oferecia-me para ajudar quem estava em tratamento ou para outros serviços e assim por diante. Estes pequenos gestos, fruto do Evangelho que também eu comecei a colocar em prática, me proporcionaram muita alegria. Ainda sem saber bem o que era o Movimento dos Focolares, eu percebi que havia encontrado a minha casa. Mas, eu poderia fazer a escolha total que faziam as focolarinas? Elas são católicas, eu, anglicana… No meu íntimo ressoou uma voz: “Por que não? Basta que você pronuncie o seu sim a mim”. Senti-me como alguém que se atira em um abismo, mas, ainda assim, disse o meu sim a Deus, feliz por querer segui-Lo para sempre. Conclui o curso de enfermagem, me especializei em obstetrícia, seguindo um grande desejo de contribuir à transformação da sociedade. Eu pensava que com aquele diploma eu poderia trabalhar no exterior e já havia economizado uma soma para a viagem. Quando entrei no focolare doei aquele dinheiro a quem estava precisando e comecei a minha formação para ser focolarina. A minha primeira destinação foi o focolare de Leeds, onde fiquei cinco anos. Lá eu trabalhava em um bairro perigoso. Vindo de um ambiente abastado, em relação aos pobres eu tinha uma idéia poética: eu não sabia como as pessoas viviam “realmente” na pobreza. Eu me ocupava de uma jovem que já tinha um filho. Todas as vezes que ela comparecia para os exames de rotina eu notava que sempre usava a mesma roupa e o collant muito rasgado. Procurei estabelecer com ela uma amizade que favorecesse a sua abertura, que pudesse falar-me da sua situação, onde morava… E assim, certa vez, fui visitá-la. Fui recebida pelo seu companheiro, uma pessoa agressiva e anti-social. Chocada com a sua atitude, com a sujeira e a desordem daquela casa eu não sabia o que dizer para iniciar uma conversa. Quando, dentro da casa, notei que havia um grande depósito de água que serve para criação de peixes, comecei a falar de peixes e assim a tensão diminuiu. Na visita sucessiva eu levei algumas roupas e, depois, indo visitá-la outra vez, aquela jovem estava usando as roupas que eu levara e queria que eu visse isto. Atualmente moro no focolare de  Welwyn Garden City (nas proximidades de Londres) e continuo a trabalhar no setor da Saúde Pública Nacional (NHS). Nestes últimos anos, aqui na Inglaterra, houve uma grande desorganização quanto à política da saúde pública e não é fácil continuar levando ao ambiente de trabalho aquela transformação que impulsionava o inicio da minha carreira. Mas, mesmo com essas desordens eu procuro fazer cada coisa como um gesto de amor a Deus, presente nos irmãos. Viver em comunidade com pessoas que fizeram também a minha escolha de vida é uma excelente oportunidade, muito importante também para o meu trabalho. E, também, para crescer juntas na unidade e na fé em Deus Amor, doando-nos ao próximo, indo além do fato de sermos católicas ou anglicanas”.

Campanha ambiental de Religiões pela Paz

Campanha ambiental de Religiões pela Paz

Religions_for_Peace logoA mudança climática é um dos maiores desafios morais do nosso tempo. Os líderes das diversas religiões se unem para apoiar uma campanha mundial, com a finalidade de atingir até 2050 a meta de 100% das energias renováveis. «Religiões pela Paz (RPP) – declara a sua apresentação – trabalha para transformar os conflitos violentos, sustentar o desenvolvimento humano, promover uma sociedade mais justa e harmoniosa, e proteger a Terra. RPP dispõe de um Conselho mundial formado por líderes religiosos de alto nível provenientes de todas as regiões do mundo, seis organismos inter-religiosos e nacionais». A presidente do Movimento dos Focolares, Maria Voce, está entre os copresidentes de Religiões pela Paz. Consciente da responsabilidade moral do cuidado do nosso planeta, assinou a petição, e convida todos os que desejarem, a unirem-se à campanha dirigida aos chefes de Estado de cada país. Para assinar a petição online: http://faithsforearth.org/ escolhendo o próprio país.

Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação

20150831-aUm gesto decididamente ecumênico o do Papa Francisco,dedicar um dia mundial de oração pelo cuidado com a criação. Ele não apenas percebeu na crise ecológica atual uma das mais gritantes urgências do nosso tempo, mas desejou salientar a improrrogável exigência de agir – em ecologia assim como nos outros desafios que interpelam a humanidade – não mais fragmentados e isolados, mas juntos. A ideia do “Dia de Oração” havia sido sugerida pelo ortodoxo Ioannis, de Pergamo, que participou da apresentação da encíclica Laudato sì , no mês de junho passado. E para evidenciar o valor agregado à oração que é o “si consenserint” (“se pedirdes unidos”) do Evangelho, na carta com a qual institui o Dia de Oração (6.8.2015), o Papa inicia: «Compartilhando com o amado irmão, o Patriarca Ecumenico Bartolomeu, as preocupações pelo futuro da criação, e acolhendo a sugestão de seu representante, o Metropolita Ioannis…». Demonstra com isso que não é importante de quem veio a ideia, porque pode-se sempre aprender uns dos outros. E para reafirmar o conceito, no final do documento o Papa solicita ao cardeal Koch, presidente do Conselho para a Unidade dos Cristãos para «cuidar da coordenação com iniciativas similares tomadas pelo Conselho Mundial de Igrejas». O Conselho Ecumênico das Igrejas (CEC) dedica ao período que vai de 1º de setembro (primeiro dia do ano litúrgico na tradição ortodoxa) a 4 de outubro (dia de São Francisco de Assis na tradição católica), o lema “O tempo para a criação”, com ações pela questão ambiental e a sua relação com a justiça e a paz. Significativa, portanto, a opção do Papa de celebrar o Dia de Oração todos os anos no dia 1º de setembro, a mesma data dos ortodoxos e dia inicial do “tempo” dedicado pelo CEC a esse tema. Assim como é significativo o seu auspício de que unam-se também outras igrejas e comunidades eclesiais, a fim de que se torne uma ocasião frutuosa para «testemunhar a nossa crescente comunhão». Esse evento, que oferece «a preciosa oportunidade para renovar a adesão pessoal à própria vocação de guardião da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado», justamente porque destinado a envolver cristãos pertencentes a várias denominações, que se manifestam numa só voz, torna-se um ulterior passo concreto para lançar ao mundo uma comum mensagem cristã. A paixão pela Criação caracteriza o empenho dos Focolares, que com a sua rede internacional EcoOne oferece a todos os que trabalham no campo ambiental um espaço de diálogo, no pensamento e nas iniciativas concretas. E é também expressivo o trabalho do Movimento no campo ecumênico, especialmente nas regiões onde é mais elevada a concentração de pessoas de igrejas e denominações diferentes. O Dia de Oração representa, portanto, para os Focolares, um providencial e maravilhoso compromisso planetário, que reúne em oração todos os seus membros, para implorar de Deus a salvaguarda da Casa que hospeda a grande Família Humana. Mas também para detectar, juntamente com pessoas de boa vontade, quaisquer que sejam seus credos e convicções, novas estratégias e novas respostas voltadas ao ambiente e, partindo dele, à realização de um mundo mais unido.

Chiara Lubich: Eu tenho um sonho

«Observando o que o Espírito Santo fez conosco e com muitas outras obras espirituais e sociais que hoje são ativas na Igreja, é impossível não esperar que Ele continue agindo com a mesma generosidade e magnanimidade. E isso não só pensando em novas obras que nascerão do Seu amor, mas no desenvolvimento daquelas já existentes, como a nossa. Para a nossa Igreja, sonho com um clima mais condizente com o seu ser Esposa de Cristo; uma Igreja que se apresente ao mundo mais bonita, mais unida, mais santa, mais carismática, mais familiar, mais íntima, mais configurada a Cristo seu Esposo. Sonho que ela seja um farol para a humanidade e que todo o povo de Deus se santifique num modo jamais visto. Sonho que o despertar – que hoje se constata – na consciência de milhões de pessoas de uma fraternidade vivida, cada vez mais ampla na terra, torne-se amanhã, no decorrer do terceiro milênio, uma realidade geral, universal. Por isso, sonho com o desaparecimento das guerras, das lutas, da fome, dos mil males do mundo. Sonho com um diálogo de amor entre as Igrejas cada vez mais intenso, que nos faça avistar a composição da única Igreja. Sonho com o aprofundamento do diálogo vivo e ativo entre pessoas das mais diferentes religiões, ligadas entre si pelo amor, “regra de ouro” presente em todos os livros sagrados. Sonho com a aproximação e o enriquecimento recíproco das várias culturas no mundo, a fim de que deem origem a uma cultura mundial que coloque em primeiro plano os valores que sempre foram a verdadeira riqueza de cada povo e que esses valores se imponham como sabedoria global. Sonho que o Espírito Santo continue a inundar as Igrejas e a potencializar as “sementes do Verbo”, que existem fora delas, de modo que o mundo seja invadido por contínuas novidades de luz, de vida, de obras que só Ele sabe suscitar. A fim de que um número cada vez maior de homens e mulheres se encaminhe por retos caminhos, conflua para o seu Criador, coloque o próprio espírito e coração a Seu serviço. Sonho com relacionamentos evangélicos não só interpessoais, mas entre grupos, Movimentos, Associações religiosas e leigas, entre povos, entre países, de maneira que se torne lógico amar a pátria alheia como a própria e lógico tender a uma comunhão de bens universal: pelo menos como ponto de chegada. (…) Sonho já com uma antecipação de céus novos e da terra nova, como é possível aqui. Sonho alto, mas temos um milênio para vê-lo realizar-se». Chiara Lubich De: Attualità. Leggere il proprio tempo, Città Nuova, Roma 2013, pp. 102-103