A primeira manifestação, em ordem cronológica, será na Itália, em Roma, dia 12 de março, na Sala do Palácio dos Grupos Parlamentares, em Montecitório. Durante a manhã, 300 jovens dos Focolares, de várias partes do mundo, cristãos, pertencentes a outras religiões e de convicções não religiosas, apresentarão depoimentos individuais e de grupo sobre a situação sócio-política do próprio país e sobre a fraternidade vivida como resposta aos conflitos, em diálogo com a presidente da Câmara dos Deputados, Laura Boldrini, o secretário geral do Instituto Universitário Europeu, Pasquale Ferrara, e Luigino Bruni, professor de Economia Política na LUMSA, de Roma. À tarde, mais de 300 pessoas atuantes na vida política e na administração pública participarão do encontro de reflexão, testemunho e diálogo à luz das principais ideias-força do pensamento de Chiara Lubich.
Na França, em Estrasburgo, um seminário de três dias, 13 a 15 de março, refletirá sobre o tema da fraternidade como categoria política, com especial relevo às questões ligadas à cidade. Serão relatores, Jean-Louis Sanchez, delegado geral da ODAS (Observatório Nacional de Ação Social); Jo Spiegel, prefeito de Kingersheim, e Antonio Baggio, cientista político e docente no Instituto Universitário Sophia (Itália).
Em Madri (Espanha) haverá dois eventos, dias 13 e 14 de março. O primeiro será no mesmo lugar onde Chiara Lubich falou dia 2 de dezembro de 2002: a sede do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia. Ocontexto será o do Seminário “A função da União Europeia na paz e na justiça mundial”. No dia seguinte, no auditório do Centro Mariápolis, se prosseguirá com aprofundamentos temáticos, entre os quais “A escolha dos ‘últimos’: critério prioritário de ação política”.
Na Coreia do Sul, dia 14 de março, em Seul, um encontro na sede do Parlamento, entre deputados e pessoas comprometidas na administração pública, fará um balanço do caminho rumo a uma política de fraternidade, iniciado há dez anos.
No mesmo dia, em Curitiba (Brasil), deputados, prefeitos e simples cidadãos serão protagonistas de um fórum sobre “O Pensar e o Agir Político de Chiara Lubich”. Entre outros, falarão o prefeito da cidade, Gustavo Fruet, e o deputado federal Luiz Carlos Hauly; o Secretário de Justiça e Direitos Humanos do Estado do Acre, Nilson Mourão e o prefeito de Sorocaba (SP), Antônio Carlos Pannunzio.
Outros eventos ocorrerão no Canadá, Colômbia, Honduras, Alemanha, Portugal, República Tcheca, Espanha, Tanzânia, Hungria, Estados Unidos, e outros ainda.
Na pluralidade de manifestações que compõem o evento, em todo o mundo, é proposto um diálogo que pretende colocar o acento sobre o valor essencial da unidade, que não é homologação mas fruto do confronto. «Eu tenho um sonho – afirmava Chiara Lubich -. Imaginem como seria o mundo se, além de que entre os indivíduos, também entre os povos, as etnias, os estados, fosse colocada em prática a “regra de ouro”: amar, por exemplo, a pátria do outro como a própria». As suas palavras encontram um eco no mundo inteiro, na vida pessoal e na ação política de todos aqueles que assumiram como próprio o mesmo sonho.
«O próximo aniversário nos dará ocasião de evidenciar muitas experiências positivas existentes no mundo – afirma a presidente dos Focolares, Maria Voce – onde políticos, administradores e cidadãos trabalham juntos ao serviço do bem comum».
E exprime o desejo que «seja os jovens – que muitas vezes olham hoje para a política com temor e desinteresse – seja os adultos, redescubram a política como uma vocação “alta”, que alarga o próprio coração a todas as pessoas, as mais sofredoras, mais sozinhas, que tem mais dificuldades ou são marginalizadas, não só do próprio país mas da humanidade». «Que a participação nestes eventos – conclui em uma mensagem – assinale para todos um novo compromisso, mais consciente, para engajar-se em primeira pessoa e construir, junto a tantos outros de boa vontade, um mundo melhor, um mundo novo».
No site oficial do evento, www.politcsforunity.com, será possível seguir em direta alguns dos encontros. Está disponível um mapa online das manifestações e uma síntese de textos de Chiara Lubich, selecionados pelo Comitê científico. A hashtag do evento é #politics4unity.
Neste dia, todos recordaremos em nosso coração as inumeráveis figuras de mulheres que marcaram a nossa vida, começando por quem nos fez nascer e, a seguir, a esposa, a noiva, as irmãs, as avós, as tias, as babás, as professoras, as religiosas, catequistas, amigas de escola, enfermeiras, os caixas, as domésticas e agora também as astronautas.
Hoje queremos celebrar a mulher publicando alguns pensamentos deMaria Voce, presidente dos Focolares, retirados de duas entrevistas que ela concedeu à emissora brasileira TV Nazaré e à Revista Cidade Nova, em abril de 2014, por ocasião da sua viagem ao Brasil.
«O papel da mulher na Igreja começou com Maria, começou com Maria entre os apóstolos na primeira comunidade de Jerusalém. No transcorrer da história da Igreja, nós vimos sempre uma prevalência do sexo masculino principalmente nas funções de governo, sobretudo inclusive pela exclusividade do ministério sacerdotal aos homens. Isto fez de modo que os sacerdotes, num certo sentido, se identificassem particularmente com a hierarquia da Igreja e, portanto, a mulher fosse considerada de um certo modo uma presença menos importante na própria Igreja.
Acho que houve uma evolução neste sentido não somente na Igreja, mas também na humanidade, na sociedade: as mulheres aos poucos conquistaram papéis importantes. Talvez estes papéis importantes em alguns contextos e em algumas culturas já existiam, evidentemente, mas na cultura ocidental a mulher teve que conquistar posições».
«Deus criou o homem à sua imagem, mas o criou homem e mulher, o que significa que quis criar duas criaturas que fossem diferentes. Porém as criou nesta diversidade para que fossem complementares uma à outra e que, embora na diversidade das funções, na diversidade dos papéis, testemunhassem a filiação do homem por Deus, portanto com a mesma dignidade. Parece-me que isto pouco a pouco está emergindo: na política, na sociedade. Nunca como neste período assistimos na política ao surgimento de figuras importantes, que assumem presidência de Estados e de países importantes.
A presença da mulher na Igreja deve crescer, sobretudo na possibilidade de testemunhar o seu carisma específico, que é o de demonstrar que o amor é mais importante do que o governo; que não se pode governar sem o amor».
«Uma maior incidência da presença feminina poderia dar efeitos positivos não só na Igreja, mas também na sociedade. Quando a mulher está presente numa empresa, no governo notamos a sua presença, justamente porque relaciona e constrói na sua complementaridade a dádiva que é o homem e a dádiva que é a mulher. O Papa Francisco é um exemplo de quem sabe apreciar a contribuição feminina. A doçura, a ternura de que ele sempre fala, são características mais femininas do que masculinas».
«A capacidade de suportar, de acolher, de doar, são típicas da mãe, que dá à luz um filho e depois, quando é o momento o deixa livre. E esta capacidade de apego e de desapego influi positivamente também no governo.
Alguém me perguntou: “Como você consegue conciliar o amor e o governo“. Respondi que não se pode governar sem amor. Quando se exerce o poder sem o amor, não é governo, é opressão».
“Um grave acidente e me encontro hospitalizada. Foi a primeira vez que experimentei um sofrimento tão grande”. É o depoimento de Irmã Felicitas, proveniente das Filipinas. Doente, como os doentes. Todavia, exatamente no hospital ela “experimentou o amor de Deus expresso nas pessoas que foram visitar-me. Uma delas me levou a Eucaristia, que naquele momento era ‘tudo’ para mim. O capelão manifestou a sua acolhida e disponibilidade. Circundada do amor de todos eu correspondi com o meu amor: formou-se uma cadeia de reciprocidade”. A experiência de Irmã Felicitas evidencia o efeito da espiritualidade de comunhão como possível resposta às exigências da vida de comunidade e de apostolado em meio ao mundo: “Existe uma extraordinária coincidência entre o que a Igreja e o mundo solicitam à vida consagrada”, afirma Irmã Antonia Moioli, responsável pelas consagradas do Movimento dos Focolares. “A semente que Chiara plantou dentro de nós germina e, algumas vezes, floresce e torna-se uma voz profética que indica o caminho para a humanidade confusa, e torna-se ‘castelo exterior’ irradiante de amor”. “Crescer na espiritualidade da unidade e vivê-la – solicita o prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, cardeal João Braz de Aviz, às religiosas e aos religiosos que aderem ao Focolare – porque quando os carismas encontram-se tomam vida e a Obra de Maria [Movimento dos Focolares] faz brilhar os carismas, os ilumina. Não são necessárias palavras – continua – basta ser testemunhas do Evangelho vivido, é este o caminho da transformação. A vocação específica dos consagrados e das consagradas é a de abrir caminhos proféticos enquanto testemunham os valores do Reino. É isto que a Igreja e a humanidade de hoje esperam e, para isto, é necessário retornar ao próprio carisma e vivificá-lo”. Giuseppe Zanghì (Peppuccio), estudioso e filósofo vê em Chiara Lubich a portadora de uma luz, que criou as condições de uma nova cultura, que brota de Jesus Abandonado: é Ele o Deus do homem contemporâneo. “A sua reflexão – explica ainda Irmã Antonia – impulsiona-nos a ser faróis na noite, sentinelas que anunciam a aurora. Será possível realizar a vocação profética típica da vida consagrada? Mosteiros e comunidades no passado foram centros prestigiosos de cultura e espiritualidade; é possível olhar, também hoje, a esta realidade antiga e nova como a um desafio?” “Aqui encontramos até mesmo cofre repleto de dons – afirma Maria Voce, presidente dos Focolares. Juntos nós podemos doar estes tesouros a toda a Igreja e ao mundo inteiro, que necessita ver como os cristãos se amam para acreditar em Cristo. Esta riqueza que Deus nos dá, tornando-nos família sua é para a humanidade. Este é o sentido do termo ‘sair’, que o Papa Francisco continua a evidenciar-nos”. “A fraternidade universal da humanidade começa pela fraternidade entre nós, em cada convento, em cada comunidade, em cada congregação, em carda ordem e, depois, em toda a Igreja”. O Congresso das consagradas abre-se a um futuro a ser construído não sozinhas, mas, junto a muitos, para ser testemunhos de um amor que desafia as diferenças.
O bispo não reúne o povo ao redor de sua própria pessoa ou de suas ideias, mas ao redor de Cristo, foi o que afirmou o Papa Francisco ao encontrar os Bispos Amigos dos Focolares. O carisma da unidade próprio do Movimento – disse o Papa – “é fortemente ancorado à Eucaristia, o que confere-lhe o seu caráter cristão e eclesial”.
“Sem a Eucaristia a unidade perderia o seu polo de atração divina e se reduziria a um sentimento e a uma dinâmica unicamente humana, psicológica, sociológica. A Eucaristia, ao contrário, garante que Cristo esteja no centro, e que seja o seu Espírito, o Espírito Santo que mova os nossos passos e as nossas iniciativas de encontro e de comunhão”.
O serviço fundamental dos bispos – acrescentou o Papa – é o de reunir “as comunidades ao redor da Eucaristia, à dúplice mesa da Palavra e do Pão de vida”.
“O bispo é princípio de unidade na Igreja, mas isto não acontece sem a Eucaristia: o bispo não reúne o povo ao redor da sua própria pessoa, ou de suas ideias, mas ao redor de Cristo presente na sua Palavra e no Sacramento do seu Corpo e Sangue”.
“Dessa forma, conformado à Cristo – afirmou – o bispo torna-se Evangelho vivo, Pão repartido para a vida de muitos com a sua pregação e o seu testemunho. Quem nutre-se com fé de Cristo Pão vivo é impulsionado pelo seu amor a dar a vida pelos irmãos, a sair, ir ao encontro de quem é marginalizado e desprezado”.
Em seguida o Papa agradeceu, de modo especial, aos bispos vindos “das terras ensanguentadas da Síria e do Iraque, como também da Ucrânia”:
“No sofrimento que estais vivendo com o vosso povo, experimentais a força que vem de JesusEucaristia, força de ir adiante unidos na fé e na esperança. Na celebração cotidiana da Missa estamos unidos a vós, oramos por vós oferecendo o Sacrifício de Cristo; e dali tomam força e significado também as inúmeras iniciativas de solidariedade em favor das vossas Igrejas”.
Papa Francisco, encorajou, enfim, os bispos amigos dos Focolares a levarem adiante o empenho “em favor do caminho ecumênico e do diálogo inter-religioso” e agradeceu-lhes pela contribuição dada “a uma maior comunhão entre os vários movimentos eclesiais”.
O recém eleito cardeal Francis Xavier Kriengsak Kovithavanij, arcebispo de Bancoc, moderador do encontro dirigira ao Papa em nome do grupo dizendo-lhe entre outras coisas: “Na atual situação do mundo sentimos que tanto nós quanto as nossas igrejas particulares devem ser capazes da escuta e do diálogo. Sentimos que não por acaso Deus nos colocou em contato com a humanidade ferida por multíplices males. Trazemos no coração, hoje, diante do senhor, sinais de muitas lágrimas, gritos de desespero e sinais de buscas”.
E ainda: “Diante dos grandes desafios de hoje nos sentimos pequenos e, às vezes, impotentes. Mas estamos confiantes em um amor maior que nos chamou, nos amou muito a ponto de dar-nos a medida divina do amor, a de estar prontos a dar a vida e, se necessário, morrer pelos outros. Este passo está sendo vivido pelo nosso irmão, bispo amigo que está na Líbia, Dom Innocenzio Martinelli que não se encontra entre nós porque quer permanecer lá, não obstante o real perigo de vida. Este passo foi dado também por dois bispos amigos, na Síria, Mor Gregorios Yohanna Ibrahim, siro-ortodoxo e o Metropolita Boulos Yazigi, grego-ortodoxo do Patriarcado de Antioquia, sequestrados há cerca dois anos e esquecidos pela opinião pública”.
O Papa Francisco dirigiu uma especial saudação a Maria Voce, presidente dos Focolares, que estava presente na Sala Paulo VI, junto com os bispos. Ela havia chegado de um encontro com 150 representantes de movimentos evangélicos, realizado na Alemanha, e apresentou ao Papa o cumprimento de todos eles e a esperança no comum empenho em direção à unidade. O Papa agradeceu: “Muito bem! Muito importante o trabalho ecumênico que vocês levam adiante”.
O Papa Francisco tinha diante dele uma parte do mundo formada por 34 países: da Ásia (Tailândia, Mianmar, Índia) ao Oriente Médio (Líbano, Síria, Iraque, Argélia); da África (República dos Camarões, Etiópia, Uganda, Madagascar, Tanzânia, África do Sul) às Américas (USA, Haiti, Panamá, Equador, Brasil, Uruguai) e da Europa (Alemanha, Espanha, França, Itália, Luxemburgo, Holanda, Áustria, Suíça, República Tcheca, Moldova, Romênia, Eslovênia, Eslováquia e Ucrânia).
No encontro (3-6 de março 2015 em Castelgandolfo – Itália), pronunciarão também a presidente do Movimento dos Focolares, Maria Voce e o copresidente Jesús Morán. No programa, também testemunhos e projetos de uma pastoral mais atenciosa às relações entre os bispos e os fiéis, ao compromisso pela unidade dos vários Movimentos existente tanto na Igreja Católica quanto em outras igrejas, ao diálogo com outros cristãos e com as várias religiões.
Um vereador, presidente do partido da maioria da cidade argentina de Mar Del Plata (Argentina), vê que dois jovens entram no seu escritório e se apresentam como ativistas da oposição. O vereador os recebe com curiosidade. Os dois jovens, com simplicidade explicam que desejam assegurar-lhe o respeito pelas suas posições, mas, que eles querem exercitar de maneira construtiva a função política de oposição. O vereador, surpreso diante de uma declaração insólita, pergunta onde eles aprenderam a fazer política daquela maneira. Os dois jovens explicam que são alunos de uma das escolas de formação do Movimento Político pela Unidade(MPPU). Pouco tempo depois, também o vereador começou a frequentar a escola política local do MPPU.
Dificilmente Chiara Lubich terá conhecido este pequeno episódio, que se perde no oceano de vários outros pequenos fatos que muitos membros do MPPU provenientes de numerosos países poderiam citar. Não obstante isto se pode, sem dúvidas, considerá-lo como um efeito típico do encontro com o pensamento e o espírito do carisma da unidadedo qual Chiara foi portadora e que assume como paradigma o ideal da fraternidade universal. De que forma? Preparando cidadãos e, portanto, uma sociedade civil, sensível à vida da comunidade política na qual estão inseridos. Em outras palavras, uma cidadania ativa.
Uma imersão na história. Na “Mariápolis” realizada no vale de Primiero [Itália], no verão de 1959, durante dois meses, por poucos ou muitos dias, se alternaram um total de cerca doze mil pessoas, provenientes de 27 países dos cinco continentes. Naqueles dias Chiara afirmou: “Neste nosso tempo… no qual cada povo deve ultrapassar a própria fronteira e mirar mais além; chegou o momento no qual se deve amar a pátria do outro como a própria.” Palavras corajosas no tempo em que os efeitos do tremendo conflito mundial eram ainda visíveis, palavras inspiradoras de novas relações entre povos e governos. Amar a pátria do outro como a própria é ainda uma idéia potente, uma diretriz de ação, iniciada pelos mais fracos e mais pobres.
Filadélfia (USA), 2003. Na “Jornada da interdependência”, realizada naquela cidade, Chiara escreveu na sua mensagem: “De vários pontos da terra, hoje, eleva-se o grito de abandono de milhões de refugiados, de milhões de afamados, de milhões de explorados, de milhões de desempregados que são excluídos e como que ‘decepados’ do corpo político. É esta separação e não somente a estreiteza e as dificuldades econômicas que os tornam ainda mais pobres e que aumenta – se possível – o desespero deles. A política não terá alcançado o seu objetivo, não terá mantido fé à sua vocação até quando não terá reconstituído esta unidade e estas feridas abertas no corpo político da humanidade.” Mas, para atingir esta meta será necessária a fraternidade, porque “somente a liberdade e igualdade, diante dos desafios do presente e do futuro da humanidade, somente elas não serão suficientes (…). Igualdade e liberdade serão sempre incompletas e precárias, até que a fraternidade não será parte integrante dos programas e dos processos políticos de cada região do mundo.”
Não são meras palavras, aquelas de Chiara, mas, o resultado da experiência de um Movimento que no seu desenvolvimento estendeu o seu olhar sobre o mundo, fazendo próprias “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje.”
Será, portanto, a sociedade civil sobre a base de cidadãos animados pelo espírito de fraternidade, como confiou Lubich, a colocar limites e conteúdo à liberdade e igualdade, os três pilares da nossa civilização.
Viajando pela Galileia, Jesus pergunta aos discípulos o que pensam dele. Pedro, em nome de todos, confessa que Ele é o Cristo, o Messias esperado há séculos. Para evitar toda possibilidade de equívoco, Jesus explica claramente como pretende atuar a sua missão. Libertará, sim, o seu povo, mas pagando em primeira pessoa: deverá sofrer muito, ser rejeitado, ser morto e, três dias depois, ressuscitar. Pedro, como muitos outros, imaginava o Messias como alguém que agiria como poder e força, vencendo os romanos e dando à nação de Israel seu devido lugar no mundo. E recrimina Jesus que, por sua vez, o repreende: “Não tens em mente as coisas de Deus, e sim, as dos homens” (cf 8,31-33). Jesus retoma o caminho, dessa vez rumo a Jerusalém, onde se cumprirá o seu destino de morte e ressurreição. Agora que seus discípulos sabem que Ele irá para morrer, será que ainda querem segui-lo? As condições que Jesus coloca são claras e exigentes:
Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”
Todos tinham ficado fascinados por Ele, o Mestre, enquanto lançavam as redes para a pesca ou estavam à mesa dos impostos. Tinham abandonado barcos, redes, a mesa, pai, casa, família, para segui-lo. Viram milagres, ouviram palavras de sabedoria. Seguiram-no animados por alegria e entusiasmo. No entanto, seguir Jesus significava compartilhar plenamente sua vida e seu destino: o insucesso e a hostilidade, até mesmo a morte, e que tipo de morte! A mais dolorosa, reservada aos assassinos e aos mais atrozes delinquentes. Uma morte que as Escrituras definiam “maldita” (cf Dt 21,23). Até o nome “cruz” aterrorizava. É a primeira vez que essa palavra aparece no Evangelho. Quem sabe que impressão ela deixou naqueles que o escutavam. Agora que Jesus afirmou claramente sua própria identidade, pode mostrar com igual clareza a identidade do seu discípulo. Se o Mestre ama seu povo até o ponto de morrer por ele, também o discípulo deverá deixar de lado seu próprio modo de pensar, para compartilhar em tudo o caminho do Mestre, a começar pela cruz.
Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”
Ser cristão significa ser outro Cristo: que haja “o mesmo sentir e pensar que no Cristo Jesus”, que “humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de cruz!” (Fl 2,5.8), até poder dizer com Paulo: “Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20); não saber outra coisa “a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Cor 2,2). É Jesus que continua a viver, a morrer, a ressuscitar em nós. Mas, como seguir Jesus de modo a se tornar como o Mestre?
O primeiro passo é “renunciar a si mesmo”, ao próprio modo de pensar: não pensar de acordo com os homens, mas de acordo com Deus. Às vezes procuramos o sucesso fácil e imediato, olhamos com inveja a quem faz carreira, sonhamos em ter uma família unida e em construir ao nosso redor uma sociedade fraterna, uma comunidade cristã, mas sem ter de pagar por tudo isso um caro preço. Renunciar a si mesmo significa entrar no modo de pensar que Jesus mostrou: a lógica da semente que deve morrer para produzir frutos, da alegria maior que se encontra ao dar do que ao receber, do oferecer a vida por amor, do tomar sobre si a própria cruz:
Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”
A cruz de “cada dia”: uma doença, uma demissão, a incapacidade de administrar problemas familiares ou profissionais, o insucesso em criar relacionamentos autênticos, a sensação de impotência diante dos grandes conflitos mundiais, a indignação diante dos constantes escândalos na sociedade… Ninguém precisa procurar a cruz: ela vem quando menos esperamos e da forma que nunca imaginamos. O convite de Jesus é “tomá-la”: não aceitá-la com resignação, como um mal inevitável, não deixá-la cair sobre nós, esmagando-nos, nem sequer suportá-la com atitude estoica e desprendida. Mas acolhê-la como possibilidade de viver em comunhão com Ele inclusive naquela dor, porque, com a sua cruz, Jesus tomou sobre seus ombros todas as nossas cruzes. Portanto, em todo sofrimento podemos encontrar Jesus.
A esse respeito Igino Giordani considera que a cruz “pesa menos se Jesus nos faz as vezes de Cireneu”. E pesa ainda menos, continua, se a carregarmos juntos: “Uma cruz carregada por uma criatura, no fim esmaga; carregada juntamente por várias criaturas tendo Jesus no meio, ou seja, tomando Jesus por Cireneu, torna-se leve: jugo suave”.
Portanto, tomar a cruz, sabendo que Ele a carrega conosco, é relação, é pertencer a Jesus até à plena comunhão com Ele, até nos transformarmos em “outros Ele”. É assim que seguimos Jesus e nos tornamos verdadeiros discípulos. Então a cruz será também para nós “força de Deus” (cf 1Cor 1,18), caminho de ressurreição. Em cada fraqueza encontraremos a força, em cada escuridão, a luz, em cada morte, a vida, porque encontraremos Jesus. Fabio Ciardi