Movimento dos Focolares

Outubro 2014

Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede. Jesus já se vê como pão. Portanto, é este o motivo final de sua vida aqui na terra. Ser pão para ser ingerido. E ser pão para nos comunicar a sua vida, para nos transformar Nele. Até esse ponto é claro o significado espiritual dessa palavra, com suas referências ao Antigo Testamento. Mas o discurso se torna misterioso e duro quando, mais adiante, Jesus diz, a respeito de si mesmo: “O pão que eu darei é a minha carne, entregue pela vida do mundo” (Jo 6,51b) e “se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6,53). É o anúncio da Eucaristia, que escandaliza e distancia muitos discípulos. Mas é o maior dom que Jesus quer dar à humanidade: a sua presença no sacramento da Eucaristia, que confere saciedade à alma e ao corpo, a plenitude da alegria como fruto da íntima união com Jesus. Quando estamos nutridos por esse pão, nenhum outro tipo de fome tem mais razão de existir. Todo desejo nosso de amor e de verdade é saciado por aquele que é o próprio Amor, a própria Verdade. Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede.” Portanto, esse pão nos nutre de Jesus já a partir desta terra, mas nos é dado para que possamos, por nossa vez, saciar a fome espiritual e material da humanidade que nos rodeia. O mundo recebe o anúncio de Cristo não tanto da Eucaristia quanto da vida dos cristãos nutridos por ela e pela Palavra. E eles, pregando o Evangelho com a vida e com a voz, tornam Cristo presente no meio dos homens. A vida da comunidade cristã, graças à Eucaristia, torna-se a vida de Jesus. Uma vida, portanto, capaz de doar aos outros o amor, a vida de Deus. Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede.” Com a metáfora do pão, Jesus nos ensina também o modo mais verdadeiro, mais “cristão” de amar o nosso próximo. Com efeito, o que significa amar? Amar significa “fazer-se um” com todos, “fazer-se um” em tudo aquilo que os outros desejam, nas coisas mais pequeninas e insignificantes e naquelas que talvez não tenham importância para nós, mas importam aos outros. E Jesus exemplificou maravilhosamente esse modo de amar, fazendo-se pão para nós. Ele se faz pão para entrar em todos, para tornar-se comestível, para “fazer-se um” com todos, para servir, para amar a todos. Também nós, portanto, devemos “fazer-nos um” até o ponto de nos deixarmos ingerir. O amor é isto: “fazer-se um” de modo que os outros se sintam nutridos pelo nosso amor, confortados, aliviados, compreendidos.

                                                      Chiara Lubich

      Este comentário à Palavra de Vida foi publicado originalmente em agosto de 2000.

Velhice. Talvez é ainda mais belo.

Velhice. Talvez é ainda mais belo.

20140928-01

Foto: Antonio Oddi

«Abrindo a Sagrada Escritura e lendo no Antigo Testamento a descrição que Deus faz de alguns animais, percebemos que poeta algum ou pintor conseguiu cantá-los ou pintá-los de modo tão vivo e esplêndido. Era preciso o olho de Quem os criou para inspirar tais descrições majestosas. O nosso talvez não esteja educado para ver o belo, ou só vê o belo de um certo setor da vida humana, e da natureza, porque não educamos a alma. Mas, aos olhos de Deus, o que será mais bonito? A criança que te fita com olhinhos inocentes, tão semelhantes à límpida natureza e tão vivos, ou a jovem que resplandece como o viço de uma flor recém-desabrochada, ou o ancião encarquilhado e encanecido, já alquebrado, quase inapto a tudo, talvez tão-somente à espera da morte? O grão de trigo, tão promissor, quando, tênue mais do que um fio de erva, agarrado aos grãos irmãos, envolvendo e compondo a espiga, espera amadurecer e desvincular-se, só e independente, na mão do agricultor ou no seio da terra, é belo e cheio de esperança! Mas é igualmente belo quando, já maduro, é escolhido entre os outros, por ser melhor, para, enterrado, dar vida a outras espigas, ele que, a esta altura, traz a vida. É belo, é o eleito para as futuras gerações das messes. Mas, quando enterrado, emurchecendo, reduz o seu ser a pouca coisa, mais concentrada, e lentamente morre apodrecendo, para dar vida a uma plantinha, diferente dele, mas que dele contém a vida, talvez seja mais belo ainda. Belezas diversas. Contudo, uma ainda mais bela do que a outra. E a última, a mais bela. Deus verá assim as coisas? Aquelas rugas que sulcam a fronte da velhinha; aquele caminhar recurvo e tremulante, aquelas poucas palavras, densas de experiência e sabedoria; aquele doce olhar de menina e mulher ao mesmo tempo, porém mais bondoso que de uma e de outra, é uma beleza que nós não conhecemos. É o grão de trigo que, apagando-se, está prestes a se acender para uma nova vida, diversa da de antes, em novos céus. Penso que assim Deus veja as coisas, e que o avizinhar-se do Céu seja de longe mais atraente do que as várias etapas do longo caminho da vida que, no fundo, só serve para abrir aquela porta». Do livro – Chiara Lubich, Ideal e Luz Pensamento, espiritualidade, mundo unido. Editoras Cidade Nova e Brasiliense – São Paulo, 2003, Pág. 207-208

Velhice. Talvez é ainda mais belo.

Contemplar, sair, fazer escola: as 3 palavras de Francisco aos Focolares

RealAudioMP3 Alegria, emoção, surpresa e também curiosidade. Muitos e diferentes os sentimentos e as expectativas dos 500 participantes da assembleia geral dos Focolares em audiência com Papa Francisco. O grupo é composto por pessoas provenientes de 137 países, são católicos, cristãos de outras igrejas, também alguém sem um referencial religioso. 1_0_827615Assim falou a Presidente Maria Voce apresentando a Assembleia reunida na Sala Clementina, no Vaticano, para o Papa: “As pessoas que estão aqui presentes, de várias idades, culturas, vocações, leigos e consagrados, virgens e casados, viveram uma experiência apaixonante de comunhão na qual, devido a um constante e sempre renovado amor recíproco, percorreram um caminho de discernimento comunitário, escutando o Espírito Santo, individualizando as linhas a serem seguidas para poder dar uma resposta às dores e às esperanças da humanidade de hoje com o nosso específico carisma de unidade”. Significativa a sua referência à Evangelii Gaudium: “Foi quase uma escola-laboratório para exercitar-nos a partilhar, a pensar e trabalhar com Jesus entre nós, redescobrindo-nos um povo que nasceu do Evangelho e por isso chamado a viver e testemunhar o nosso carisma e a doá-lo a todos. A sua exortação apostólica foi, sem dúvida, um dos faróis que iluminou os nossos trabalhos”. Outra nota significativa que testemunha o caráter “ecumênico” da assembleia dos Focolares:  “Sentimo-nos particularmente solicitados a pesquisar com confiança, novas possíveis vias para um Movimento de irmãos e irmãs de várias Igrejas às quais pertencem.” E papa Francisco, encorajando a viver plenamente o carisma da unidade, assim se exprimiu. Udienza20142609_2 “Contemplar”, “sair”, “fazer escola” – os três pontos fundamentais indicados pelo Papa Francisco ao Movimento dos Focolares, (..) O Papa recordou que o núcleo da mensagem e vida dos Focolares mantém hoje em dia toda a sua actualidade. A cinquenta anos do Concílio Vaticano II, a Igreja está chamada a percorrer uma nova etapa da evangelização, testemunhando o amor de Deus por cada pessoa, a começar pelos mais pobres e excluídos, e para fazer crescer – com a esperança, a fraternidade e a alegria – o caminho da humanidade em direcção à unidade. O Papa evocou “o carisma da unidade que o Pai quer dar à Igreja e ao mundo” como uma característica central da Obra de Maria – conhecida como Movimento dos Focolares – tendo palavras de “afeto e reconhecimento” em relação à fundadora, Chiara Lubich, “extraordinária testemunha deste dom” – disse. Convidando os “Focolares” a colaborar no esforço que hoje se pede à Igreja – de oferecer “com responsabilidade e criatividade” o próprio contributo para a evangelização, Papa Francisco apontou nesse sentido três palavras chave: contemplar, sair, fazer escola. Antes de mais, contemplar. Precisamos… de contemplar Deus e as maravilhas do seu amor, de permanecer n’Ele… Contemplar significa também viver na companhia dos irmãos e irmãs, partilhar com eles o Pão da comunhão e da fraternidade… O Santo Padre encorajou os membros do Movimento dos Focolares a permanecerem fiéis a este ideal de contemplação, na procura da união com Deus e no amor mútuo com os irmãos e as irmãs, alimentando-se das riquezas da Palavra de Deus e da Tradição da Igreja. A segunda palavra, muito importante porque exprime o movimento da evangelização, é sair. “Sair” como Jesus saiu do seio do Pai para anunciar a palavra do amor a todos, até doar-se por inteiro no madeiro da cruz. Há que aprender de Jesus “esta dinâmica do êxodo e do dom, do sair de si, do caminhar e semear sempre de novo”… Para tal, é preciso tornar-se perito na “arte” do “diálogo”, que não é fácil de aprender… Com a ajuda de Deus, é preciso enfrentar as afrontas e dificuldades, como diz a Carta aos Hebreus. É preciso sair com coragem ao encontro d’Ele fora do acampamento, levando a sua desonra. O Senhor nos espera, na provações e nos gemidos dos nossos irmãos, nas chagas da sociedade e nas interrogações da cultura do nosso tempo. Finalmente, “fazer escola”. E aqui Papa Francisco recordou o convite que João Paulo II dirigiu a toda a Igreja, no início do novo milénio, a tornar-se “casa e escola de comunhão”… Vós tomastes a sério esta indicação. Há que formar, como exige o Evangelho, homens e mulheres novos. Para tal, ocorre uma escola de humanidade à medida da humanidade de Jesus. É Ele, de facto, o Homem novo… Chiara Lubich gostava de usar uma expressão que mantém hoje grande actualidade. Ela dizia que eram precisos “homens-mundo”… Homens e mulheres com a alma, o coração, a mente de Jesus – e portanto capazes de reconhecer e de interpretar as necessidades, preocupações e esperanças que habitam o coração de cada um.

Velhice. Talvez é ainda mais belo.

Congo, um dia na prisão

20140609-01As 3 histórias seguintes nos permitem vislumbrar uma maneira de viver completamente diferente daquela a qual estamos habituados.  Isto, não somente em relação ao cárcere, mas à solidão, o abandono, à corrupção, à dificuldade de ter acesso aos bens primários e por outro lado, uma onda de vida que atinge comunidades inteiras, de grupos de crianças, de famílias. Experiências iluminadas pelo Evangelho, e por uma única palavra: “ Estava preso e me vieste visitar”( Mt.25,37). Kikwit. A primeira visita à prisão, neste ano foi feita pela comunidade local: todos juntos, cerca de 300 pessoas. “Depois de uma comunhão dos nossos bens – escrevem  Jean Kuvula e Nicole – roupas, sapatos, sabão, sal, marcamos um encontro na entrada da penitenciária. O conjunto musical “Gen Unité” havia se preparado para os cantos da Santa Missa. Depois que nós nos acomodamos, entraram os presidiários, em grupos. Depois da missa, solene e muito bela, o diretor apresentou-nos. Qual o motivo da nossa visita? Queremos partilhar deste momento doloroso que vocês vivem  e dizer-lhes, que Deus os ama. Nós rezamos por vocês. Gostaríamos que tivessem a certeza  que Jesus fará com que saiam daqui e não pratiquem mais o mal”. Distribuam as roupas a quem precisa, o resto dos bens, entregamos ao diretor. Contamos depois experiências da Palavra de Vida, com a proposta de entregar o folheto, a cada mês. Muitos choraram de emoção. Agradecendo-nos, o diretor disse-nos que muitos prisioneiro são abandonados por todos”. Os e as gen4 ( as crianças do  Movimento dos Focolares) de Kikwit também tem o hábito de visitar os prisioneiros da prisão central, a cada ano, na Vigília de Natal. “As crianças tinham levado roupas, sapatos, víveres – escreve Jean – e curiosamente  levaram muitos sapatos de adultos, o que mostrava que os pais apoiavam esta ação. Um gen4 tomou apalavra explicando: “ Tinha fome, e você me deu de comer. Tinha sede e você me deu de beber. Estava na prisão e você me visitou. Foi por causa disso que nós viemos. Vocês são Jesus que viemos visitar”. Um outro gen4: “Maman Chiara nos dizia para amar a todos e festejar o aniversário de Jesus. Jesus que vai nascer amanhã quer consolar vocês que estão sofrendo. Ele diz para vocês perseverarem no amor e quer que vocês possam sair. “Jesus quer que vocês se arrependam e que não façam mais o mal, para não voltar para a prisão”. Depois destas palavras houve um grande silêncio. Um prisioneiro perguntou de onde vinham porque nunca tinha visto tantas crianças ( cerca de 200) representantes de todas as paróquias de Kikwit, vindos para encontrar os prisioneiros. O diretor agradeceu a todos os gen4 dizendo que era Deus que os havia mandado, porque no dia anterior, “não havia nada para comer.” 20140609-02Em Goma se desenvolve o projeto de uma refeição no cárcere central. A família André Katoto e Julie, responsáveis locais, conta: “Na nossa última visita na prisão central, em abril de 2014,descobrimos que faltavam porções regulares de alimentos. Os presos recebem mantimentos de suas famílias e tem autorização para vendê-los  dentro  da penitenciária, onde permanecem  espalhados pelo chão e no pátio. Este sistema é tolerado pela direção  e justifica as autoridades estaduais a não fornecer alimento. Nasceu assim a ideia de criar  uma refeição na prisão, mas como concretizar?! Procuramos entrar em contato com o ministro estadual da justiça. Encontramos com ele casualmente no hospital. Foi a oportunidade de apresentar a nossa ideia como solução duradoura ao problema de acesso aos bens primários. O ministro assegurou-nos seu apoio e enviou-nos dois conselheiros seus para estudar a viabilidade do projeto. Estamos agora à espera  do início desta atividade.

Velhice. Talvez é ainda mais belo.

Família, um recurso inesgotável

20140925-01Eles falaram diante do cardeal Maradiaga, presidente da Caritas Internacional, do arcebispo Vicenzo Paglia, do Pontifício Conselho para a Família, e de 150 participantes do seminário (Roma, 18 de setembro de 2014), provenientes de várias partes do mundo. Pediu-se a esta família de Maddaloni (Caserta-Itália), uma pequena cidade definida “em risco” – marcada pela dolorosa experiência de perder um filho com a idade de três anos – que desse o próprio testemunho sobre como reconstruir a esperança e a solidariedade nas famílias hoje. De fato, Giuseppe, o terceiro filho deles, morreu após complicações de uma simples gripe, com apenas três anos e três meses. «Quando me deram a notícia eu achei que estava sonhando; depois uma dor lancinante e a certeza que devíamos viver unidos aquela situação, em primeiro lugar eu e Gino. Vivi esses momentos sentindo uma forte presença de Deus, o qual, mesmo permitindo aquela dor, tomava-me em seus braços. Uma família, com a qual compartilhávamos um percurso de fé, fez-nos a proposta de passar algum tempo juntos em Loppiano, uma pequena cidade do Movimento dos Focolares perto de Florença». Para Gino foi diferente: «Com a morte de Giuseppe me senti desiludido, não só como pai, mas também como médico, já que por profissão ajudo muitos a curar-se. E eu não pude fazer nada por meu filho! Portanto, o sentimento era escuridão, dor. Mas deixei-me guiar por Elisa e de bom grado a acompanhei. ” Imersos na vida de Loppiano «sentimos crescer em nós a força para transformar nossa dor em Amor». Vieram outros dois filhos: «Se não tivéssemos a firme certeza de que tudo o que havia acontecido, também a perda de Giuseppe, fora por um plano de Deus que nos amava, nunca teríamos tido a força para dar à luz outros filhos». Com alguns parentes e amigos iniciam uma fundação intitulada “Giuseppe”, que tem como um de seus objetivos o desenvolvimento da cultura do acolhimento nas famílias «para responder a um apelo de Chiara Lubich, que nos convidou a esvaziar os orfanatos e dar uma família para cada criança». Esta fundação «não nasceu para lembrar o nosso filho, mas pela necessidade de continuar a doar o amor que não podíamos mais dar para ele. Queríamos que o motor da fundação fosse a “cultura da partilha”». A adoção temporária consiste em acolher temporariamente uma criança na própria família, na espera de que sejam resolvidas as dificuldades da família de origem. Em meados dos anos 90, quando a experiência começou, esta era uma proposta de vanguarda na Itália. Começou-se com a formação das famílias que fariam o acolhimento (cerca de 100 famílias), com o devido apoio psicológico e material, até chegar à construção de uma casa-família para crianças em situação de abandono. Foi uma das primeiras estruturas deste tipo na região. Desde então trabalha-se em sinergia com o governo local e com instituições religiosas, pedindo a cada membro da fundação o espírito de hospitalidade e serviço. «Ainda recordamos a nossa primeira adoção temporária, conta o casal Ferraro: uma menina de 9 meses, Adjaratu. Ecoam até agora as palavras do diretor de serviços sociais: “Vocês não conhecem que caminho perigoso estão abrindo!” Na verdade, não encontramos perigos. Encontramos dificuldades e sofrimentos, sempre superados procurando viver com radicalismo aquele amor evangélico que nos havia impulsionado a trabalhar e que, nesses 20 anos, tornou-se cada vez mais visível, com suas confirmações surpreendentes».

Velhice. Talvez é ainda mais belo.

Entrevista a Maria Voce e Jesús Morán

Intervista_MariaVoce_JesusMoran«Desejo à nova presidente, que saiba escutar sempre o Espírito Santo e, portanto, que possa construir tudo “em unidade”», foi o que declarou Maria Voce poucos dias antes da sua reeleição, sem saber que estas palavras se tornariam as iniciais do seu segundo mandato. Aproveitando um dos intervalos da assembleia do Movimento dos Focolares, ainda em andamento (terminará no próximo dia 28 de setembro), as várias edições de Cidade Nova entrevistaram Maria Voce, que acaba de ser reeleita como presidente, e Jesús Morán, copresidente. As perguntas referem-se à vida do Movimento e aos grandes desafios que o esperam. Citamos abaixo alguns trechos; neste link encontra-se a entrevista completa na língua italiana. Como ouvir e colocar em prática o que o Papa Francisco está dizendo a Igreja e à sociedade de hoje? Maria Voce: «Devemos fazê-lo a partir do carisma da unidade: também nós devemos pensar nos pobres e marginalizados, mas a partir da nossa especificidade. Fiquei entusiasmada quando o Papa Francisco disse em Redipuglia (Itália) que “a guerra é uma loucura”. É uma doença, portanto deve ser curada. Que tipo de cura nós, focolarinos, podemos oferecer? O que temos é o nosso carisma, que nos convida a construir relações de paz, de conhecimento recíproco, mesmo entre pessoas que não querem se ver, que se odeiam, para contribuir ao caminho rumo à unidade». Jesús Morán: «Nós não nos caracterizamos pela busca frenética por espaços de poder, não é o nosso estilo. Procuramos sobretudo iniciar os processos. O Papa Francesco compara a Igreja não tanto com uma esfera, mas com um poliedro, afirmando, assim, que as tendências mais importantes muitas vezes surgiram na periferia. Parece-me que tudo isso esteja perfeitamente de acordo com uma obra que tem um forte princípio de unidade. A própria Chiara (Lubich) iniciou muitas realidades na periferia, como verificamos pelo exemplo da Economia de Comunhão, que nasceu no Brasil, ou do ecumenismo que obteve novas perspectivas a partir dos encontros de Chiara com Atenágoras em Istambul; em Fontem [Camarões] emergiu a inculturação “à moda focolarina”…  Também nós podemos viver este princípio, isto é, é ir para as periferias e perceber aquele algo que está emergindo e que, depois, torna-se universal». Como responder aos grandes desafios da situação no Oriente Médio, na qual os focolarinos estão na linha de frente? Maria Voce: «Tenho a impressão de que o Movimento está fazendo muito mais do que parece. Eu recebi estes dias uma carta das focolarinas de Damasco, que me pediam a permissão para ir encontrar a comunidade de Aleppo, onde já estão alguns focolarinos. Eu disse que sim, mesmo se os riscos são inegáveis​​: o carisma da unidade pode e deve estar presente nesses lugares para construir relacionamentos, para levar um pouco de paz. Obviamente as soluções políticas em nível internacional são necessárias, bem como a ajuda humanitária que   está chegando e é relativamente bem distribuída; o Movimento contribui para erradicar o ódio dos corações dos homens, uma operação sem a qual nunca poderão ser encontradas soluções políticas verdadeiras e duradouras». «Se há algo que o carisma pode fazer é difundir a cultura do encontro, da confiança recíproca, do amor, ajudando os necessitados, independentemente da religião ou do status social, da fronteira que o divide. Também devemos nos perguntar o que o carisma da unidade tem a dizer diante desses conflitos, qual a sua possível incidência… Lembro-me que Chiara, citando um episódio verdadeiro, ocorrido na Colômbia, disse que podemos deter as mãos de um terrorista simplesmente fazendo um ato de amor. Devemos fazer tudo isto comprometendo-nos a fazer mais e melhor, todos juntos». Jesús Morán: « Essencialmente, trata-se de desenvolver os nossos típicos diálogos. Estes dias na assembleia, no meu grupo de reflexões, havia um muçulmano: ter um irmão de outra religião com quem compartilhar tudo não é uma questão trivial, um irmão que se sente representante do Movimento dos Focolares muçulmano. É um milagre! Esta presença do Movimento dos Focolares em terras islâmicas deve, portanto, ser desenvolvida, assim como deve ser promovido o nosso diálogo interreligioso. Parece pouco? Talvez, mas creio que seja algo fundamental. Uma chance que temos é a de ter contatos diretos com as pessoas do Movimento nesses lugares de sofrimento: é importante dar voz à realidade verdadeira, ao que está sendo vivido, através das palavras dos protagonistas. Isto significa muitas vezes transmitir uma visão dos fatos e dos problemas diferente daquela geralmente difundida pela mídia». A Igreja e a sociedade se deparam com a questão da família. Neste campo, o Movimento dos Focolares tem uma longa experiência para oferecer … Maria Voce: «Não podemos reduzir a questão da família na Igreja a um tema exclusivamente sacramental. Os sacramentos são sinais eficazes da graça, mas são sinais e pode haver outros também. Uma pessoa me escreveu depois de ouvir a introdução do meu tema sobre a Eucaristia, uma mulher separada que vive com um homem divorciado com filhos, a qual sente fortemente que é cristã e católica, e sente o desconforto por esta sua posição que, em certo sentido, coloca-a fora da Igreja Católica. Ela diz: “Eu nunca me senti fora dela e continuo a frequentar a Igreja. Quando vou pedir a bênção do sacerdote que está distribuindo o sacramento, Jesus entra também em mim. Eu tento viver, fazer a minha parte. Estou percorrendo um caminho”». «Deus nos pede para ajudar a todos a seguirem o seu próprio caminho para a santidade, isto é, para se aproximar de Deus com os meios disponíveis (…). Chiara nos explicou as “fontes de Deus“: não enfatizou apenas a sua presença na Eucaristia, mas também outras presenças de Deus no mundo, como na Palavra e no irmão. Creio que o Movimento possa conter estas famílias; mas, uma vez que faz parte da Igreja, contendo essas pessoas, fazemos com que se sintam menos distantes, pois são abraçadas por uma porção da Igreja. Mais tarde, poderão ser propostas outras experiências, outros caminhos; vamos ver o que o Sínodo vai dizer. Mas parece ilusório pensar que surgirão soluções extraordinárias; creio que surgirão experiências plausíveis e eficazes, não tanto soluções universais». Jesús Morán: «A questão da família antes de ser uma questão sacramental é antropológica. Está em causa o próprio plano de Deus sobre o homem, sobre a relação entre homem e mulher, sobre a relacionalidade como tal, portanto sobre a dinâmica do dom, das relações (que poderíamos definir “trinitárias”). Certamente são questões sérias e o Papa também afirmou isso: que o Sínodo não está sendo feito para resolver o problema dos divorciados, não é isso o que nos preocupa, porque poderão ser encontradas soluções já testadas nos séculos passados​​. O problema é muito mais grave: o que acontece com o homem de hoje, como cresce, que tipo de relacionalidade aprende e onde a aprende? Este é o verdadeiro problema da família. Conforta-nos saber que mesmo muitas vozes leigas, não necessariamente católicas, colocam a ênfase nesta questão da relacionalidade e no futuro da família e da humanidade».