Movimento dos Focolares

Chiara Lubich: Só Deus é tudo!

Em outubro de 1946, Chiara Lubich escreveu a irmã Josefina e irmã Fidente que procuravam colocar em prática o espírito do Movimento que nascia. Neste trecho da carta percebe-se o entusiasmo e o ardor dos primeiros tempos e nos impulsiona, ainda hoje, a colocar Deus em primeiro lugar na nossa vida. “Deus da minha alma, meu Amor, meu Tudo, fala Tu a estes dois pequenos corações. Fala com a Tua Divina Voz. Diz-lhes que só Tu és Tudo e que TU HABITAS NELES! Diz-lhes que não Te procurem fora delas, mas que Te encontrem sempre nos seus corações! Tu sabes, Jesus, como eu as amo e como queria estar sempre com elas. (…) SÓ DEUS É TUDO! E esta Verdade deve ser vivida na maior Paixão pela Pobreza! Quando é que Te amamos, Senhor? Quando Te encontramos. Quando é que Te encontramos com certeza? Quando confiamos só em Ti e loucamente lançamos o olhar para o alto e Te procuramos só a Ti: Deus-Pai nosso! E agora que, despojadas de tudo, as tuas Esposas estão convictas de que só Tu bastas, diz só agora aos seus corações que aceitem também (como eu também aceito com alegria e reconhecimento) o amor ardente que eu tenho por elas, e o desejo imenso de fazer dos seus corações aquilo que o meu coração quer ser para Ti! (…) Queridas irmãzinhas, A vossa vida, tantas vezes parecida à de Jesus vivo, operante, amante na casinha de Nazaré, quanto bem poderia fazer! Mas, vós não sabeis que uma alma que ama de modo que a sua vida seja uma contínua vida a dois (Jesus e a alma), faz tanto como se pregasse ao mundo inteiro? Agora, já despojadas das vossas misérias, que diariamente irão dar a Deus, estão livres para amar, AMEM! Ele quer viver convosco. Nada mais deseja do que esta vida a dois. (…)”

Chiara Lubich

(Chiara Lubich, em Cartas dos primeiros tempos, nas origens de uma nova espiritualidade, Editora Cidade Nova – Portugal, 2011, págs. 116 a 118)

X Encontro Mundial das Famílias: chamados a ser alimento para a Igreja

X Encontro Mundial das Famílias: chamados a ser alimento para a Igreja

O amor familiar: vocação e caminho para a santidade. É esse o tema do X Encontro Mundial das Famílias, que está acontecendo em Roma de 22 a 26 de junho de 2022. A voz e o testemunho de alguns casais de “Famílias Novas”, setor do Movimento dos Focolares, que participarão do evento. Um momento de festa e de partilha para ser abraçados pela Igreja, “família de famílias” (AL 87) e para se sentir integrante desse povo que está a caminho. De 22 a 26 de junho de 2022, Roma recebe o X Encontro Mundial das Famílias, evento que nasceu por vontade de São João Paulo II em 1994 e que se repete a cada três anos desde então sempre em lugares diferentes. O encontro, como anunciado pelo Papa Francisco em uma mensagem por vídeo, acontecerá no formato “multicêntrico e difuso”, respondendo as exigências ditadas pela pandemia e o desejo de muitos de participar. No mundo, de fato, haverá várias famílias seguindo o evento nas suas respectivas dioceses, já outras terão a alegria de viver esse momento presencialmente. “É a terceira vez que participamos do Encontro Mundial das Famílias, e toda vez levamos para casa uma verdadeira mala de dons.”

Dori e Istvan Mezaros, Serbia.

Istavan e Dori Mezaros (Sérvia), são os pontos de referência para o Movimento Famílias Novas da Europa Oriental e falam sobre a importância e a alegria de estar presentes nesse evento. “Em 2018, em Dublin (Irlanda), descobrimos o tesouro maravilhoso que o Santo Padre nos deu com a exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’, um verdadeiro guia para se usar cotidianamente no âmbito familiar. Hoje somos gratos a Deus por poder estar em Roma, seja para viver um momento de alegria plena, mas também para compartilhar com o Santo Padre e com a Igreja universal a dificuldade que a família vive. Queremos entender como nos aproximar das famílias de maneira nova, como acompanhá-las, sobretudo se estiverem feridas.” O tema escolhido pelo Papa Francisco para este X Encontro Mundial das Famílias é “O amor familiar: vocação e caminho para a santidade”. Uma vocação colocada à prova hoje mais do que nunca.

João Francisco e Soraia Giovàni, Brasil

“No nosso país, a Argentina, quando uma família nasce, a primeira dificuldade é encontrar estabilidade econômica; a grande pobreza, a falta de trabalho e a inflação não ajudam os jovens nessa busca”, contam Liliana e Ricardo Galli, que foram por muitos anos animadores e responsáveis em vários níveis de Famílias Novas na Argentina, e hoje conduzem o curso internacional para famílias na mariápolis permanente internacional do Movimento dos Focolares em Loppiano (Itália). “Além disso”, continuam, “quando a família se alarga, os filhos chegam e crescem, não se pode contar com alguma ajuda institucional que acompanhe os cônjuges nessa etapa, sem esquecer que o forte secularismo, fruto do individualismo e do consumismo, não ajuda os jovens a ter um planejamento. O desafio, portanto, é sustentar a família, vê-la como projeto comunitário e cuidar da comunidade. Viver em rede com outras famílias ajuda a manter vivo esse amor familiar e a não se sentir sozinhos”.

Ricardo e Liliana Galli, Argentina

“O amor vivido nas famílias é uma força permanente para a vida da Igreja”, lê-se no “Amoris Leatitia” (AL 88) e para poder ser alimento é necessário fazer com que essa união seja sustentada, como contam João e Soraia Giovani, responsáveis de Famílias Novas por muitos anos no Brasil. “Desde que nos casamos, a fé nos guiou no relacionamento com Deus e entre nós. Para nós, o matrimônio é um caminho para a santidade que construímos todos os dias. Acolhemos os nossos filhos com muita alegria e, juntamente com outras famílias, procuramos colocar em prática as palavras do Evangelho, crescendo na fé. É claro que não faltaram desafios durante esses 25 anos de casamento e algumas vezes não tínhamos respostas, mas a vontade de ser fiéis ao amor de Deus foi um farol. Aprendemos sempre a nos dizer tudo e nos momentos de dificuldade soubemos pedir ajuda. Duas palavras do Evangelho nos guiam até hoje: ‘O Senhor opera maravilhas em quem é fiel’ e ‘Todo o que nele crer não será confundido’. A graça do matrimônio é estupenda e agradecemos a Deus pela nossa vida juntos.”

Maria Grazia Berretta

Focolare EcoPlan, uma intuição poderosa

Focolare EcoPlan, uma intuição poderosa

“Nós nos comprometemos a verificar a sustentabilidade ecológica de nossas estruturas e atividades (…). Queremos nos dedicar à formação de uma consciência ambiental que conduza a estilos de vida mais sustentáveis”. A “conversão ecológica” é uma das metas estabelecidas pelo Movimento dos Focolares na Assembleia Geral de 2021. Em resposta a esta necessidade urgente, nasceu o Focolare EcoPlan. “O Movimento dos Focolares está profundamente comprometido com a conversão ecológica através de ações concretas e fomentando o diálogo com todos para a proteção de nosso planeta”, disse Margaret Karram, na abertura da quinta Cúpula de Halki há alguns dias. “Estimulados por nossa Assembleia Geral no início de 2021, decidimos tomar medidas corajosas através da criação de um plano ecológico dentro de nossas comunidades para provocar mudanças e tornar nossas vidas e nossas atividades mais sustentáveis. Deste modo, em 3 de junho de 2022, em Estocolmo, o Movimento dos Focolares pôde apresentar seu próprio documento – Focolare EcoPlan – representando o compromisso de suas comunidades com o meio ambiente, motivado pela espiritualidade que o anima. Foi entregue oficialmente a Iyad Abu Moghli (jordaniano), Conselheiro Sênior Geral do PNUMA, diretor da Faith for Earth Initiative (Iniciativa Fé pela Terra, ndt), que disse que o EcoPlan é “uma abordagem ecológica ambiciosa e abrangente”. Através do EcoPlan, os Focolares desejam ampliar, conectar e expandir o trabalho ambiental que já existe dentro do Movimento.

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O EcoPlan, que foi desenvolvido em parceria com a FaithInvest e a EcoOne, visa inspirar os membros e as comunidades do Movimento dos Focolares a reexaminarem seus estilos de vida em relação à salvaguarda das pessoas e do planeta através dos vários aspectos da espiritualidade da unidade. Representa também uma declaração pública de compromisso ecológico, agora e nos próximos anos, como resposta aos objetivos expressos pela última Assembleia Geral dos Focolares. Apresentado no 50º aniversário do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) em 3 de junho de 2022, em Estocolmo, juntamente com planos similares de outras organizações como parte dos Planos de Fé para Pessoas e Planeta, que também incluem os planos que a Plataforma de ação Laudato Sì vem coletando ao longo do ano passado, após o histórico encontro do Papa e outros líderes religiosos, em 4 de outubro de 2021, no Vaticano. Como primeira ação para ajudar as comunidades locais do Movimento dos Focolares a desenvolverem planos ecológicos locais de acordo com a cultura dos diversos lugares, nasceu o Seed Funding Programme (Programa de Financiamento de Sementes, ndt), um projeto de financiamento gerenciado diretamente pelos jovens. Os projetos podem ser apresentados até 30 de junho de 2022. Estocolmo+50 Há 50 anos, foi realizada em Estocolmo a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano. Nessa ocasião, pela primeira vez, foi enfatizado que, para melhorar de forma sustentável as condições de vida, os recursos naturais devem ser salvaguardados para o benefício de todos, e a cooperação internacional é necessária para atingir esse objetivo. A ênfase foi dada à solução de problemas ambientais, mas sem esquecer os aspectos sociais, econômicos e de desenvolvimento. Logo depois, nasceu o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), sediado em Nairóbi, Quênia. Por 50 anos, o PNUMA tem coordenado um esforço mundial para enfrentar os maiores desafios ambientais do planeta. Seu poder de convocação e sua rigorosa pesquisa científica proporcionaram uma plataforma para que os países se engajem, atuem com ousadia e avancem na agenda ambiental global. “Pedimos demais de nosso planeta para manter modos de vida insustentáveis”, disse o Secretário Geral da ONU, António Guterres. “A história tem mostrado o que pode ser alcançado quando trabalhamos juntos e colocamos o planeta em primeiro lugar”. No início de junho de 2022, a Conferência de Estocolmo+50 foi realizada como um momento de reflexão e revitalização para a ecologia e o cuidado com o planeta. Neste contexto, as grandes religiões do mundo quiseram expressar seu compromisso com o planeta com uma declaração interreligiosa dirigida à reunião internacional da ONU em Estocolmo+50. Mais de 200 líderes religiosos e representantes das religiões do mundo – incluindo a New Humanity (Nova Humanidade, ndt), representando o Movimento dos Focolares – pediram na reunião do PNUMA que o ecocídio ou a destruição do meio ambiente fosse considerado um crime internacional, uma vez que ataca a vida humana. Isto deve ter consequências criminais para os responsáveis e, assim, tornar-se um efeito dissuasivo e preventivo. Através do credenciamento da New Humanity como consultora do PNUMA, estiveram presentes pelos Focolares na reunião de Estocolmo Nausikaa Haupt, Christine Wallmark (ambas suecas) e Nino Puglisi (italiano de Viena).

                                                                                                                      Carlos Mana

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https://youtu.be/HzgZdaI5ANs

Movimentos e novas comunidades: peças preciosas no mosaico da Igreja

No dia 20 de junho de 2022 realizou-se, em Roma, o congresso “A identidade dos Movimentos e das Novas comunidades no caminho sinodal da Igreja”, promovido pela Pontifícia Universidade Lateranense e pelo Instituto Universitário Sophia. Aumentar e aprofundar o diálogo entre os dons hierárquicos e carismáticos, entre Igreja institucional, Movimentos e Novas Comunidades. O augúrio do cardeal Marc Oullet é que estes tempos, caracterizados pelo caminho sinodal, alarguem a consciência dos carismas em todas as comunidades eclesiais. Estas palavras do Prefeito da Congregação para os bispos e Presidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, exprimem bem a importante etapa que significou o congresso “A identidade dos Movimentos e das Novas Comunidades no caminho sinodal da Igreja”, realizado ontem na Pontifícia Universidade Lateranense, e promovido juntamente com o Instituto Universitário Sophia. As qualificadas intervenções concentraram-se no caminho e nas questões abertas sobre estas novas expressões do Espírito, que pedem respostas atualizadas e que saibam confrontar-se com um mundo em uma mudança constante e rápida. O cardeal Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, identificou em quatro pontos os desafios que este caminho apresenta hoje: fidelidade dinâmica ao carisma, unidade, sinodalidade e missionariedade: “As perspectivas novas que o Espírito Santo abre diante de nós apresentam-se sempre como desafios, algo que não deixa tranquilos porque o Espírito é dinamismo, é criatividade, é vida”.

Como atuar, portanto, a necessária atualização a ser feita em muitos âmbitos: formação dos membros, atividades de evangelização, atividades de ajuda e cura das feridas mais profundas da sociedade? As respostas e contribuições apresentadas pelos representantes dos Movimentos e Novas Comunidades, em sua variedade e complementariedade, ofereceram um panorama do estágio atual destas realidades eclesiais.  Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares, salientou que “neste momento em que a Igreja inteira se orienta a um estilo sinodal, somos chamados a um passo ulterior: caminhar unidos, não apenas dentro das nossas realidades, mas junto com todos”. Somente colocando-se em rede, sendo uma dádiva para a Igreja e para a humanidade, os Movimentos descobrirão de maneira nova a própria identidade. Mary Healy, docente de Sagrada Escritura (Seminário Maior do Sagrado Coração, Detroit, USA), destacou os três principais frutos trazidos pelos Movimentos e Novas Comunidades, a partir do Concílio Vaticano II: formação, evangelização e primado da dimensão carismática; dons trazidos à Igreja e à humanidade, fundamentados no encontro pessoal e comunitário com Cristo. Falando sobre “Os movimentos eclesiais e as novas comunidade, no kairós do atual processo sinodal”, Mons. Piero Coda, teólogo e Secretário Geral da Comissão Teológica Internacional, e docente no Instituto Universitário Sophia, evidenciou um desafio ainda aberto: o caráter provisório da configuração dessas realidades eclesiais, em referência ao seu reconhecimento na ordem canônica. “O cuidado da Igreja nesta fase é um prelúdio para estruturas novas e mais maduras, no atual e dinâmico contexto eclesiológico”.
A alguns representantes dos Movimentos e Novas Comunidades foi confiada a sessão sobre “Fundação, desenvolvimento e encarnação do Carisma”. Moysés Louro de Azevedo Filho, da Comunidade Católica Shalom – fundador e moderador geral da Comunidade, apresentou o espírito e as finalidades desta expressão eclesial que “é portadora de um carisma cuja síntese é a palavra pronunciada por Jesus quando encontra os discípulos no cenáculo: “Shalom, rumo a uma santidade comunitária”. Daniela Martucci, vice-presidente da Comunidade Novos Horizontes colocou em relevo o coração do carisma: a escuta do grito de Jesus Crucificado e Abandonado nos pobres, nos últimos e descartados, assim como o do amor de um Homem Deus que continua a repetir: “amai-vos como eu vos amei”. Iraci Silva Leite, evidenciou a centralidade da Palavra de Deus que orienta a experiência da Fazenda da Esperança; Palavra que “nos une, especialmente no esforço de viver o amor entre nós e de doar a quem sofre a presença de Jesus”. Michel-Bernard De Vregille, da Comunidade Emanuel, abordou o tema das crises que atravessaram e atravessam as realidades eclesiais: “Muitas vezes corre-se o risco de querer contrapor carisma e instituição – ele afirmou. No entanto, a centelha da Igreja hierárquica e institucional, e a centelha do carisma, são feitas para se encontrarem e tornar-se uma linda chama para iluminar o mundo com a presença do Ressuscitado”. Sobre o aspecto da encarnação, o prof. Luigino Bruni, economista, concentrou-se sobre o desafio “narrativo” dos carismas que nascem em um período histórico muitas vezes descrito com modalidades típicas do tempo de fundação. “É preciso atualizar-se juntamente com o carisma – afirmou – sem perder, porém, o contato com o seu núcleo fundamental. Um novo capital narrativo virá do pluralismo das linguagens, dos vários experimentos, do diálogo entre sensibilidades diferentes: jovens e adultos, acadêmicos e pessoas comuns, Igreja e movimentos, etc.”.
Na parte da tarde os trabalhos focalizaram a forma como os carismas podem e devem fermentar todos os aspectos da vida dos membros e das comunidades, dos espirituais aos organizativos, da inclusão de membros de diferentes vocações à formação, até à administração dos bens e a todas as formas de responsabilidade e de governo. A Prof. Elena di Bernardo, ordinária de Direito Canônico (Institutum Utriusque luris, Pontifícia Universidade Lateranense) ofereceu um Excursus altamente qualificado sobre as relações entre teologia e direito canônico, assim como se realizaram e desenvolveram no decorrer do tempo. “Deve-se pressupor que a identidade em si, de um Movimento ou realidade eclesial – ela observou – considere-se plenamente adquirida quando todos os aspectos carismáticos constitutivos dela tenham recebido uma configuração jurídica adequada”. Os trabalhos foram concluídos com a relação da Dra. Linda Ghisoni, Subsecretária do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, intitulada “Leigos hoje na eclesiologia de comunhão”. Ela evidenciou duas polaridades sobre as quais é necessário colocar a atenção: pessoa-instituição e práxis-estatutos. Para a primeira, observou que “a entidade, Movimento ou Nova Comunidade, será preservada se a ela forem garantidos o carisma originário, as finalidades próprias nas quais conjugar oração e apostolado e, principalmente, será preservada se existir o cuidado com as pessoas que a compõem. Este último jamais poderá ser alternativo ao bem da instituição!”. Sublinhando quanto a experiência nos ensine, com sofrimento, que cada vez que se pretendeu preservar o “bom nome” da comunidade, sacrificando as pessoas individualmente e os seus direitos, foram cometidas aberrações, prejudiciais para toda a instituição, e concluiu: “A pessoa no centro, sempre, constitui um investimento sobre a comunidade ou movimento”. A outra polaridade, por sua vez, diz respeito a práxis e estatutos: se é verdade que “a vida, sem dúvida, antecipa qualquer definição normativa”, é verdade também que deve ser evitado todo legalismo ou demonização do direito que, “longe de ser um mal necessário a ser suportado redigindo um elenco de artigos, constitui um via de liberdade para todos: para os membros e para os que são chamados, em primeira pessoa, a serem os seus garantidores, especialmente para quem recobre cargos de governo, em todos os níveis”.

Stefania Tanesini

Chiara Lubich: fixar o coração em Deus

Jesus afirmou que nós já somos purificados em virtude da Palavra que Ele nos anunciou. Portanto, não são tanto os rituais que purificam a alma, mas a Sua Palavra, na medida em que somos capazes de colocá-la em prática. Ela nos conduz a ter sempre o coração fixo somente em Deus. A Palavra de Jesus não é como as palavras humanas. Cristo está presente nela, assim como, embora de outro modo, está presente na Eucaristia. Pela Palavra Cristo entra em nós e, na medida em que a deixamos agir, nos torna livres do pecado e, consequentemente, puros de coração. A pureza, portanto, é fruto da Palavra vivida, de todas aquelas Palavras de Jesus que nos libertam dos chamados apegos, nos quais invariavelmente caímos se não temos o coração fixo em Deus e nos seus ensinamentos. Podem ser apegos às coisas, às criaturas ou a nós mesmos. Mas se o coração está voltado somente para Deus, o resto perde interesse. Para obter êxito nessa tarefa, pode ser útil repetir a Jesus, a Deus, durante o dia, a invocação do Salmo: «És tu, Senhor, o meu único bem»[1]. Experimentemos repeti-la frequentemente e, sobretudo, quando os diversos apegos ameaçarem arrastar o nosso coração para aquelas imagens, sentimentos e paixões que podem ofuscar a visão do bem e nos tirar a liberdade. Gostamos de olhar certas publicidades, de assistir certos programas de televisão? Não. Digamos: «És tu, Senhor, o meu único bem», e este será o primeiro passo que nos fará sair de nós mesmos, ao redeclararmos o nosso amor a Deus. Deste modo, teremos crescido em pureza. Percebemos, às vezes, que uma pessoa ou uma atividade se interpõe, como um obstáculo, entre nós e Deus, poluindo o nosso relacionamento com ele? É o momento de repetir-lhe: «És tu, Senhor, o meu único bem». Isto nos ajudará a purificar as nossas intenções e a reencontrar a liberdade interior. A Palavra vivida nos torna livres e puros porque é amor. É o amor que purifica, com o seu fogo divino, as nossas intenções e todo o nosso íntimo, pois, na linguagem bíblica, o “coração” é a sede mais profunda da inteligência e da vontade. Mas, existe um amor que é um mandamento de Jesus, o qual nos permite viver esta bem-aventurança. É o amor recíproco, o amor de quem está pronto a dar a vida pelos outros, a exemplo de Jesus. Esse amor, pela presença de Deus — o único que pode criar em nós um coração puro[2] —, cria uma corrente, um intercâmbio, uma atmosfera cuja nota dominante é justamente a transparência, a pureza. É vivendo o amor recíproco que a Palavra age com seus efeitos de purificação e de santificação. A pessoa isolada não é capaz de resistir por muito tempo às solicitações do mundo; enquanto, no amor mútuo, encontra o ambiente sadio capaz de proteger a sua pureza e toda a sua autêntica vida cristã.

Chiara Lubich

(Chiara Lubich, in Parole di Vita, Città Nuova, 2017, pag. 616-618) [1]             Cf. Sal 16, 2. [2]             Cf. Sal 50, 12

Evangelho vivido: “És tu o meu Senhor, fora de ti não tenho bem algum” (Sl 16 [15],2)

Dar a Deus um lugar central e ter a certeza de não vacilar. Viver na plenitude o que este salmo exprime é a maior consolação que se possa receber: sentir-nos guiados e saber, no profundo do coração, que somente Ele faz bem todas as coisas. Sementes de paz No nosso condomínio estavam crescendo as reclamações ligadas à administração, aos consertos, ao barulho. Um dia refleti sobre as palavras de um sacerdote: a paz – ele dizia – começa dentro de nós, na consciência, onde está a semente da verdade que é Deus, semente que desabrocha com a caridade colocada em prática nas várias situações da vida. Conversando sobre isso, em família, pensamos em fazer, todo dia, uma pequena melhoria no prédio, mas sem que ninguém visse quem era o autor. Por exemplo, tirar as folhas amarelas das plantas, no ingresso e colocar água nelas, limpar os vidros e as molduras dos quadros, no saguão, que talvez nunca tivessem sido espanados desde que tinham sido colocados ali. Claro, eram funções de quem era pago para as limpezas, mas na primeira reunião de condomínio o síndico comentou que há algum tempo todos sentiam o ambiente mais acolhedor, estavam inclusive surgindo ideias sobre como pintar as escadas. Quando eu contei isso, os meus filhos ficaram entusiasmados. Uma contribuição para melhorar o mundo pode começar até mesmo pelo próprio condomínio. (C. – Croácia) O “fagotto” Desde o início da nossa vida de família, tudo foi sempre colocado em comum. Um dia, minha esposa e eu sentamos juntos para organizar a economia familiar. Muito além de cifras áridas, cada saída e cada entrada assinalavam um crescimento na qualidade da relação entre nós. Envolvemos nisso também os nossos filhos. Sendo assim, tornou-se normal que o par de sapatos que se usava pouco fosse direcionado a alguém que estava precisando, ou que entre as saídas indispensáveis houvesse sempre uma soma para colocar à disposição do próximo em dificuldade. Um passo a mais foi o chamado “fagotto”: estar atentos para não acumular nada que não fosse estritamente necessário. Somente depois percebemos a importância deste ato. Percebemos que tínhamos entrado em contato com muitas pessoas que precisavam de tudo. Até um lápis, um livro, um cobertor, tornavam-se sinal de atenção ao próximo. Este modo de fazer renovou a nossa vida. (L. R. – Holanda) Ter confiança Eu tinha perdido o emprego, mas estava confiante que a Providência de Deus teria feito com que encontrasse outro. Não era verdade que eu tinha experimentado muitas vezes o “dai e vos será dado” (Lc 6,38), como resposta à tentativa de colocar em prática o amor evangélico? Naquele mesmo dia eu deveria contar a minha experiência de vida cristã, na paróquia. Depois de ter mencionado que estava procurando um trabalho, uma jovem que participava do encontro me avisou que na empresa de seu pai estavam procurando um funcionário. Foi assim que, confiando, eu encontrei um trabalho. (F. I. – Itália)

De Maria Grazia Berretta

(Retirado de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, anno VIII, n.2, maio-junho 2022)