29 Fev 2012 | Sem categoria
Maria e John vivem há muitos anos na Itália. «Nós nos perguntamos – contaram ao dar o próprio testemunho por ocasião do aniversário de Renata Borlone – se, embora certos de sermos feitos um para o outro, poderíamos ser testemunhas de unidade na nossa família: eu americano e Maria austríaca, mergulhados na sociedade italiana». As diversidades entre eles são muitas e parecem contrapor-se: o novo continente americano e o velho mundo da Europa; a língua: entre si não falam nem alemão nem inglês, mas uma terceira língua, o italiano. Diversidade de cultura, de família de origem, de formação profissional e intelectual, de idade (13 anos de diferença), e ainda – é John que continua a contar – «simplesmente eu sou um homem e ela é uma mulher, com caráter, exigências e sensibilidades diferentes». «Um episódio emblemático dessa diversidade aconteceu justamente durante a lua de mel, na Sicília – ele continua -. Era tudo lindo, encantador… chegamos em Selinunte e Maria exclamou, entusiasmada: “Que lindos estes templos, falam de um passado maravilhoso”. E eu: “Para que servem estas pedras velhas e colunas meio quebradas? Seria melhor demoli-las para construir um grande edifício”. Onde seria o nosso ponto de encontro? Convencidos do projeto de amor que Deus tinha para nós intuimos que não seriam nem os templos (= história), nem os arranha-céus (= terra jovem e nova), nós nos encontraríamos na acolhida entre nós».
«E saber “acolher-se” foi o que Renata ensinou-nos com a sua vida. Ela possuia uma arte especial para escutar, para ela o outro estava absolutamente em primeiro lugar. Sentia-me totalmente acolhida, entendida, amada». É Maria que conta, narrando alguns momentos difíceis vividos no matrimônio. «Não entendia mais o meu marido. O seu modo de ser e de pensar me colocava em crise, mas nós já tinhamos quatro filhos pequenos. Uma noite eu tinha a impressão de não conseguir mais, e corri até Renata. Lancei sobre ela a minha grande dúvida: tinha errado ao casar-me com John! Como sempre ela me escutou, tomando sobre si o meu sofrimento, e depois, com uma certeza inabalável, ela me recordou que quando havia me casado eu tinha certeza que John era a pessoa certa para mim, apesar das nossas diferenças. Naquela noite eu adquiri novas forças. Sim, nós iríamos conseguir amar-nos até o fim!». «Ainda hoje, após 40 anos de vida juntos – John conclui – experimentamos o quanto é verdadeiro que se acolhemos as nossas diversidades, no positivo, como algo que pode nos enriquecer e completar, então nasce e renasce uma nova harmonia entre nós».
28 Fev 2012 | Sem categoria
Prof. Luigino Bruni, em seu artigo publicado na revista Nuova Umanità, o senhor descreve de maneira singular a pessoa do empresário. Poderia explicar-nos como as figuras do investidor, do manager, do especulador, terminaram por confundir-se com a do “empresário-inovador”?
Muito depende da revolução das finanças que investiu a economia (práxis e teoria) nos últimos 20 anos (…) por efeito da globalização. O ocidente desacelerou seu crescimento, mas não quis reduzir os consumos. A finança criativa prometeu, então, uma fase de crescimento dos consumos sem crescimento de renda, com novos instrumentos técnicos. Com isso muitos empresários transformaram-se em especuladores, pensando em ter lucros especulando, deixando os seus tradicionais setores e a sua vocação. Uma segunda razão foi a uniformização das culturas empresariais, que seguiram o rastro do forte poder da cultura anglo-saxã. A tradição europeia, e italiana, de gestão das empresas era caracterizada por uma grande atenção à dimensão comunitária e social, devido à presença de um paradigma católico-comunitário. Juntamente com a primeira causa, a revolução financeira, isto fez com que os managers assumissem uma função cada vez mais central nas grandes empresas, em detrimento dos empresários tradicionais. Atualmente existe uma enorme exigência de lançar um modo novo de ser empresário – se queremos sair da crise – e reduzir o peso dos especuladores. Partindo da Teoria do desenvolvimento econômico de Schumpter, o senhor descreve o mercado como um “revezamento virtuoso” entre inovação e imitação (…), porém, para o inovador o lucro está essencialmente circunscrito no tempo que passa entre a inovação e a imitação. Como evitar que tal “revezamento virtuoso” termine por causar um dano recíproco entre empresas?
Neste aspecto a política tem uma função importante, e também as instituições, que devem fazer com que este revezamento seja virtuoso e não vicioso, com a normatização oportuna e a garantia da concorrência e do funcionamento correto dos mercados. Mas uma função igualmente importante é a da sociedade civil; com a própria opção de compra os cidadãos-consumidores devem premiar as empresas que tem comportamentos eticamente corretos, e “punir” (mudando a escolha da empresa) aquelas que têm atitudes predatórias e agressivas. O mercado funciona e produz frutos quando está em constante relação com as instituições e com a sociedade civil. Enfim, o senhor delineia as características da “concorrência civil”, na qual a competição não é jogada na fórmula: Empresa A contra Empresa B para conseguir o cliente C, mas sim na fórmula: Empresa A pró cliente C e Empresa B pró cliente C. Pode explicar os efeitos positivos que este modo diferente de ver a concorrência produz? E poderia nos dar exemplos de “concorrência civil”?
Primeiramente contribui para que se estabeleça um clima afetivo diferente nos intercâmbios de mercado. A nossa leitura e visão do mundo é muito importante para os comportamentos que assumimos. Se vemos o mercado como uma luta a ser vencida, quando vivemos momentos de intercâmbio, no mercado ou no trabalho, a nossa tendência é aproximar-nos dessas esferas com uma atitude mental e espiritual que influencia muito os resultados que vamos obter e a felicidade (ou infelicidade) que sentimos. Se, ao contrário, vemos o mercado como um grande network de relações cooperativas, favorecemos a criação de bens relacionais, inclusive nos momentos “econômicos” da nossa vida, e a felicidade individual e coletiva aumenta. Além disso, fazer uma leitura do mercado como cooperação é mais consonante com a visão dos grandes clássicos da história do pensamento econômico (Smith, Mill, Einaudi, e hoje Sen ou Hirschman) e mais próximo a quanto milhões de pessoas experimentam todo dia trabalhando ou negociando, e não apenas na economia social. E como exemplos de “concorrência civil” eu citaria o microcrédito, a cooperação social, a economia de comunhão, o comércio équo e solidário. São exemplos dessa concorrência civil, ao menos como fenômenos macroscópicos.
20 Fev 2012 | Sem categoria

PLAY VIDEO (Italian soundtrack)
“É preciso que o homem faça emergir de novo em si mesmo, em nome de Deus que o criou, a consciência da sua sociabilidade, do seu caráter social, sem o qual ainda não seria verdadeiramente homem. De fato, outro elemento constitutivo do homem, segundo a Bíblia, além da comunhão com Deus e de ser chamado a procurar o alimento e a dedicar-se ao trabalho, é a sociabilidade – as relações com os outros: com a mulher e com os irmãos. E sabemos o que significa no pensamento de Deus “sociabilidade” com os irmãos. Significa amar os irmãos como a si mesmos: como a si mesmos, não menos. Aliás, amá-los com um amor que, pelo fato de provir de várias pessoas, torna-se recíproco e, sendo inspirado por Cristo, gera a unidade. Aqui se pode compreender a importância que demos há pouco ao fato de caminharmos juntos na vida, sendo um só coração e uma só alma. É nesta medida que pode ser útil também para a solução dos atuais problemas do mundo do trabalho a nossa espiritualidade coletiva, nascida do Evangelho. Mediante esta espiritualidade o homem, e portanto cada membro do mundo do trabalho (do proprietário ao administrador, do diretor aos técnicos, dos funcionários aos operários), cada pessoa, para ser solidária com os outros, ama a todos de modo a tornar-se uma só coisa com eles. Graças a ela, somos levados a nos compreendermos uns aos outros, a assumir como nossas as dificuldades e os problemas alheios, a encontrar juntos as soluções. Esta espiritualidade leva-nos ainda a descobrir, de comum acordo, novas formas de organização do trabalho. De consequência, todos juntos passam a compartilhar e a participar também dos meios de produção e dos frutos do trabalho. Com que consequências? Se antes, por exemplo, um operário isolado sentia que o trabalho industrializado esmagava e anulava a sua personalidade, porque não via o fruto da sua inteligência e das suas mãos, agora para ele – que sente como seu, verdadeiramente seu, tudo aquilo que diz respeito também aos outros – o trabalho não pode deixar de adquirir um significado, ou melhor, um maravilhoso significado. É preciso, portanto, redescobrir esta consciência social […] vasta. Ainda mais, como a economia de cada país está ligada à das outras nações, torna-se necessária – como afirma também o Papa – uma consciência social de dimensão planetária. Mas quem é que pode ajudar o homem a realizar isso plenamente? A considerar-se membro da grande família humana “sem renegar as origens da sua família, do seu povo e da sua nação, nem as obrigações que daí derivam (…)”[1], desde que o homem, rompendo a comunhão com Deus com o pecado, comprometeu e voltou a comprometer gravemente a comunhão com os irmãos e, portanto, a solidariedade humana? Quem é que pode fazer isso? Somente Cristo Senhor – que muitas vezes delimitamos à nossa vida privada – e o Seu amor sobrenatural e universal, que se considera um fator limitado à vida de piedade e que, pelo contrário, é um fermento indispensável para toda a existência humana nas suas múltiplas expressões. É somente com o seu amor que se pode edificar com segurança um mundo onde prevaleçam a justiça e a paz. E, no que se refere ao trabalho, é somente com o seu amor que o egoísmo e o ódio, considerados por vezes lei essencial da vida social, poderão ser eliminados. É com o seu amor que se verá que nas comunidades de trabalho é mais eficaz a unidade do que o contraste para melhorar o trabalho. Com o seu amor, a vida da própria sociedade não será compreendida como luta contra alguém mas como empenho para progredir juntos. Portanto, somente uma nova civilização, baseada no amor, poderá dar uma solução inclusive aos complexos problemas do mundo do trabalho. […]” Chiara Lubich, Roma, 3 de junho de 1984
[1] cfr.João Paulo II, Discurso à OIT, Genebra, 15.06.1982.