Movimento dos Focolares

7 de dezembro: O «Sim para sempre»

Era o dia 7 de dezembro de 1943. Chiara recorda o momento, quando, ainda ao alvorecer, sozinha, encontrava-se no Colégio Seráfico dos Capuchinhos: na capela um sacerdote a esperava. No momento da comunhão tinha pronunciado o seu sim a Deus, para sempre, a rocha sobre a qual tudo começou: Imaginem uma jovem apaixonada, invadida por aquele amor que é o primeiro, o mais puro, que ainda não foi declarado, mas que começa a arder no peito, com uma única diferença: a jovem enamorada assim sobre esta terra tem diante dos olhos a imagem do seu amado. Esta, porém, não vê o seu amado, não o ouve, não o toca, não sente o seu perfume com os sentidos do corpo, mas com os da alma através dos quais o Amor, com A maiúsculo, penetrou e a invadiu totalmente. Por isso sente uma alegria característica, que dificilmente se volta a experimentar na vida: alegria secreta, serena, exultante. A capela estava decorada da melhor maneira. Ao fundo destacava-se a Virgem Imaculada. Antes da comunhão eu vi, num segundo, o que eu estava para fazer: eu tinha atravessado uma ponte consagrando-me a Deus. A ponte desmoronava atrás de mim; nunca mais poderia voltar para o mundo. Eu me casava, eu desposava Deus. E era aquele Deus que mais tarde se manifestaria Abandonado: sangue, certamente, mas sangue da alma. Creio que percorri o caminho de volta para casa correndo. Só me detive – creio – perto do bispado para comprar três cravos vermelhos para o crucifixo que me aguardava no quarto. Seriam sinal da festa comum.  

dezembro de 2008

Você se lembra? É a oração que Jesus dirige ao Pai no Horto das Oliveiras e que dá sentido à sua paixão, depois da qual veio a ressurreição. Essa frase exprime em toda a sua intensidade o drama que se passa no íntimo de Jesus. Revela a ferida interior provocada pela repugnância profunda da sua natureza humana diante da morte que o Pai quis para ele.
Mas Cristo não esperou esse dia para adequar a sua vontade à vontade de Deus. Ele fez isso durante toda a vida.
Se foi essa a conduta de Cristo, essa deve ser a atitude de cada cristão. Também você deve repetir na sua vida:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”

Talvez você ainda não tenha pensado nisso, mesmo sendo batizado, mesmo sendo filho da Igreja.
Talvez você tenha reduzido essa frase a uma mera expressão de resignação, que se pronuncia quando não se pode fazer mais nada. Mas essa não é a sua verdadeira interpretação.
Veja bem. Na vida você pode escolher uma destas duas direções: fazer a própria vontade ou optar livremente por fazer a vontade de Deus.
Então você terá diante de si duas possibilidades: a primeira, que será logo decepcionante, porque você vai querer escalar a montanha da vida com suas idéias limitadas, com seus próprios recursos, com seus pobres sonhos, somente com as suas forças.
A partir daí, mais cedo ou mais tarde, virá a experiência da rotina de uma existência marcada pelo tédio, pela mediocridade, pelo pessimismo e, às vezes, pelo desespero.
A partir daí virá a experiência de uma vida monótona – apesar dos seus esforços para torná-la interessante – que nunca chegará a satisfazer suas exigências mais profundas. Isso você tem que admitir, não pode negar.
A partir daí, no final de tudo, ainda virá uma morte que não deixará rastro algum, mas apenas algumas lágrimas e depois o esquecimento inexorável, total e universal.
A segunda possibilidade é aquela em que também você repete:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”

Veja bem: Deus é como o sol. Do sol partem muitos raios que atingem cada homem: representam a vontade de Deus para cada um. Na vida, o cristão, e também todo homem de boa vontade, é chamado a caminhar rumo ao sol, na luz do seu próprio raio, diferente e distinto de todos os outros. Assim realizará o projeto maravilhoso, pessoal, que Deus preparou para ele.
Se também você agir assim, vai se sentir envolvido numa divina aventura, nunca sonhada. Você será ao mesmo tempo ator e espectador de algo grandioso que Deus realiza em você e, por meio de você, na humanidade.
Tudo o que lhe acontecer, como sofrimentos e alegrias, graças e desgraças, fatos de relevo (como sucessos e sorte, acidentes ou mortes de entes queridos), fatos corriqueiros (como o trabalho do dia-a-dia em casa, no escritório ou na escola), tudo, tudo vai adquirir um significado novo porque lhe será oferecido pelas mãos de Deus que é Amor. Tudo o que ele quer, ou permite, é para o seu bem. E se, de início, você acreditar nisso somente com a fé, depois enxergará com os olhos da alma como que um fio de ouro a ligar acontecimentos e coisas, a tecer um magnífico bordado, que é  o projeto que Deus preparou para você.
Talvez você se sinta atraído por esse modo de ver as coisas, talvez queira sinceramente dar à sua vida o sentido mais profundo.
Então ouça.
Antes de tudo vou lhe dizer quando você deve fazer a vontade de Deus.
Pense um pouco: o passado já se foi e você não pode mais alcançá-lo; só lhe resta colocá-lo na misericórdia de Deus. O futuro ainda não chegou; você vai vivê-lo quando ele se tornar atual. Apenas o momento presente está em suas mãos. É justamente nele que você deve procurar viver a frase:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”

 Quando você viaja – e também a vida é uma viagem –, permanece sentado tranqüilamente em seu lugar. Nem lhe passa pela cabeça a idéia de ficar caminhando para frente e para trás no ônibus ou no vagão do trem.
Essa atitude seria de quem quisesse viver a vida sonhando com um futuro ainda inexistente, ou pensando no passado que jamais voltará.
Não, o tempo caminha por si mesmo. É preciso concentrar-se no presente; então chegaremos à plena realização de nossa vida terrena.
Você me perguntará: mas como posso distinguir entre a vontade de Deus e a minha?
No presente não é difícil saber qual é a vontade de Deus. Vou lhe indicar um caminho: preste atenção à voz do seu íntimo, uma voz sutil, que talvez você tenha sufocado muitas e muitas vezes, e que se tornou quase imperceptível. Mas, procure ouvi-la bem – é voz de Deus (cf. Jo 18,37; cf. Ap 3,20). Ela lhe diz que este é o momento de estudar, ou de amar algum necessitado, ou de trabalhar, ou de vencer uma tentação, ou de cumprir um dever de cristão ou outro dever de cidadão. Ela o convida a dar ouvidos a alguém que lhe fala em nome de Deus, ou a enfrentar corajosamente situações difíceis…
Ouça, ouça. Não sufoque essa voz. É o tesouro mais precioso que você possui. Siga-a.
E, então, você construirá momento por momento a sua história, que é ao mesmo tempo história humana e divina, porque feita por você em colaboração com Deus. E você verá maravilhas. Verá o que Deus pode realizar numa pessoa que diz com toda a sua vida:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”

Chiara Lubich

Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em agosto de 1978.

INSTITUTO SOPHIA: CONJUGAR DOUTRINA E VIDA NO SINAL DA UNIDADE

O instituto Sophia, uma instituição de alta cultura, nasce de um paradoxo: «deixar os livros no sótão» de Chiara Lubich… Maria Emmaus Voce: A Chiara tinha um grande desejo de conhecer a verdade e esperava conhecê-la através do estudo da filosofia. Um dia sentiu dentro de si que Jesus lhe pedia não buscar a verdade nos livros, mas segui-lo, já que Ele é a Verdade encarnada. Por isso optou por deixar seus livros no sótão, renunciar ao sonho do estudo, para dedicar-se completamente a Jesus. Sentiu também que Jesus prometia revelar-lhe sua Verdade, seu Saber e desta revelação – Jesus – extrairia depois todas as conseqüências, ou seja, o carisma da unidade. Precisamente da profunda convicção de que o carisma da unidade que Jesus doou a Chiara tem em si a capacidade de gerar uma doutrina que ilumina os diversos âmbitos do saber, nasce hoje um instituto universitário. Sophia pretende ser um laboratório de formação e pesquisa no qual estão em contato as relações profundas entre vida e pensamento, entre estudo e experiência. O que isso significa concretamente? Maria Emmaus Voce: A tentativa de viver a unidade entre estes aspectos significa que aqueles que se inscrevem neste instituto universitário já vêm com uma condição prévia, a de estar dispostos a amar os outros, estar abertos a todas as pessoas, a prescindir da cultura, da religião, do mundo e da própria etnia. Os estudantes do Sophia aceitam fazer e fazem uma experiência de vida na qual descobrem que não podem estar abertas umas às outras só como pessoas, mas que inclusive as próprias culturas podem estar abertas umas às outras. Descobrem também que cada disciplina está ligada profundamente às outras e o fundamento de todo o saber é a Sabedoria, ou seja, a visão de Deus sobre os homens e sobre a realidade humana. Que expectativas, tanto pessoais como do Movimento, você sente diante do nascimento do Sophia? Maria Emmaus Voce: Desejamos formar homens e mulheres que saibam conjugar a doutrina com a vida e sejam, portanto, capazes de oferecer uma contribuição para a unidade – ser homens e mulheres construtores de unidade –, aonde a sociedade lhes conduzir, através dos próprios caminhos profissionais e atividades sociais. Esperamos verdadeiramente que estas pessoas, integradas como catalisadores em qualquer grupo social, possam pouco a pouco ser um ponto de atração, um fulcro em torno do qual se construam células de unidade que aumentem cada vez mais na sociedade, até que «todos sejam um». Esta é a oração de Jesus ao Pai, é o sonho da Chiara, o nosso e, portanto, também o meu pessoal. Por Chiara Santomiero

Novembro de 2008

Não pensemos que, por estarmos neste mundo, podemos viver ao seu sabor como um peixe na água. Não pensemos que, pelo facto de o mundo nos entrar em casa através de certos programas de rádio ou da televisão, nos seja permitido ouvir todos os programas e ver todas as transmissões que fazem. Não pensemos que, por andarmos pelas estradas do mundo, podemos olhar impunemente para todos os cartazes e comprar no quiosque ou na livraria, indiscriminadamente, qualquer tipo de publicação. Não pensemos que, por estarmos no meio do mundo, podemos imitar e assumir os modos de viver do mundo: experiências fáceis, imoralidade, aborto, divórcio, ódio, violência, roubo.
Não, não. Nós estamos no mundo. E isso é evidente.
Mas não somos do mundo (2).

E isso implica uma grande diferença. Classifica-nos entre aqueles que não se alimentam das coisas mundanas e superficiais, mas das que nos são expressas, dentro de nós, pela voz de Deus que está no coração de cada pessoa. Se a escutarmos, faz-nos penetrar num reino que não é deste mundo. Um reino onde se vive o amor verdadeiro, a justiça, a pureza, a mansidão, a pobreza. Onde vigora o domínio de si mesmo.
Porque é que muitos jovens fogem para o Oriente, para a Índia, por exemplo? É porque tentam encontrar ali um pouco de silêncio e aprender o segredo de algumas figuras importantes, grandes na espiritualidade, que, pela profunda mortificação do seu “eu” inferior, deixam transparecer um amor (…) que impressiona todos os que deles se aproximam. É a reacção natural à confusão do mundo, ao barulho que reina fora e dentro de nós, que já não dá espaço para o silêncio, para se ouvir Deus.
Coitados de nós! Mas será mesmo preciso ir à Índia, quando há dois mil anos Cristo nos disse: «nega-te a ti mesmo… nega-te a ti mesmo…»?

A vida cómoda e tranquila não é para o cristão. Se quisermos seguir Cristo, ele não pediu nem nos pede menos do que isto.
O mundo invade-nos como um rio na época das cheias, e nós temos que ir contra a corrente. O mundo para o cristão é um matagal cerrado, e é preciso ver onde se põem os pés. E onde é que devemos pôr os nossos pés? Sobre aquelas pegadas que o próprio Cristo, ao passar nesta Terra, nos deixou assinaladas: são as Suas Palavras. Hoje, Ele diz-nos de novo:

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo…».

Por causa disso, talvez se venha a ser alvo de desprezo, de incompreensão, de zombarias, de calúnias. Podemos ter que nos isolar, que aceitar a desconsideração, que abandonar um cristianismo de fachadas.
Mas Jesus continua:

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me».

Quer queiramos, quer não, o sofrimento amargura a nossa existência. Também a tua. E, todos os dias, chegam-nos pequenos ou grandes sofrimentos. Gostarias de te livrar deles? Revoltas-te? Dão-te vontade de te lamentares? Então, não és cristão.
O cristão ama a cruz, ama o sofrimento, mesmo entre lágrimas, porque sabe que tem valor. Não foi em vão que, entre os muitos meios de que Deus dispunha para salvar a humanidade, escolheu o sofrimento. Mas Ele – lembra-te –, depois de ter levado a cruz e de ser nela crucificado, ressuscitou.
A ressurreição é também o nosso destino (3). Se aceitarmos com amor – em vez de o desprezarmos – o sofrimento que nos vem da nossa coerência cristã e todos os outros que a vida nos traz, havemos de experimentar, então, que a cruz é o caminho, já nesta Terra, para uma alegria nunca antes experimentada. A vida da nossa alma começará a crescer. O reino de Deus em nós adquirirá consistência. E lá fora, pouco a pouco, o mundo vai desaparecendo aos nossos olhos e parecer-nos-á de cartão. E já não vamos ter inveja de ninguém.
Nessa altura já nos podemos considerar discípulos de Cristo:

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me».

E, como Cristo a quem seguimos, seremos luz e amor para as chagas sem número que dilaceram a humanidade de hoje.
Chiara Lubich

Palavra de Vida, Julho de 1978. Publicada em Essere la tua Parola, Chiara Lubich e cristiani di tutto il mondo, Roma 1980, pp. 67-69;

2) cf. Jo 17, 14;

3) cf. Jo 6, 40.