Movimento dos Focolares

março de 2008

Eis aí uma maravilhosa frase de Jesus que, de certo modo, todo cristão pode aplicar a si mesmo e que, se for praticada, é capaz de fazê-lo progredir muito na “Santa Viagem” da vida.
Sentado junto da fonte de Jacó, na Samaria, Jesus está para concluir o seu diálogo com a Samaritana. Os discípulos, ao voltarem da cidade vizinha, aonde tinham ido buscar mantimentos, ficam admirados ao ver o Mestre conversando com uma mulher. No entanto, nenhum deles pede explicações. Depois que a Samaritana vai embora, eles insistem: “Rabi, come!” Jesus intui o que eles estão pensando e explica-lhes o porquê de sua atitude: “Eu tenho um alimento para comer que vós não conheceis”.
Os discípulos não entendem; pensam no alimento material e se perguntam entre si se, durante a ausência deles, alguém teria trazido comida para o Mestre. Então, Jesus diz abertamente:

“O  meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar plenamente sua obra”

Para que nos mantenhamos vivos, é preciso que nos alimentemos todos os dias, e Jesus não nega isso. E aqui ele fala justamente de alimento, ou seja, que se trata de uma necessidade natural. Mas fala a respeito para afirmar a existência e a exigência de outro alimento, um alimento mais importante, do qual ele não pode abrir mão.
Jesus desceu do Céu para fazer a vontade Daquele que o enviou e para realizar a sua obra. Não tem idéias e projetos próprios, mas os de seu Pai. As palavras que ele pronuncia e as obras que realiza são as do Pai; não faz a própria vontade, mas a vontade Daquele que o enviou. Essa é a vida de Jesus. Sua fome é saciada quando ele realiza isso. Agindo assim, fica nutrido.
A plena adesão à vontade do Pai caracteriza toda a sua vida, até à morte de cruz, que é o momento em que levará realmente a termo a obra que o Pai lhe confiou.

“O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar plenamente sua obra”

Jesus considera como seu alimento fazer a vontade do Pai, porque, atuando-a, “assimilando-a”, “alimentando-se dela”, identificando-se com ela, recebe dela a Vida.
E qual é a vontade do Pai, a sua obra, que Jesus deve realizar plenamente?
É dar ao homem a salvação, dar-lhe a Vida que não morre.
Jesus, pouco antes, comunicou à Samaritana uma semente dessa Vida, por meio de sua conversação e do seu amor. De fato, logo os discípulos hão de ver essa Vida germinar e espalhar-se, porque a Samaritana vai transmitir a outros samaritanos a riqueza descoberta e recebida: “Vinde ver um homem… Não será ele o Cristo?” (Jo 4,29).
E Jesus, falando à Samaritana, revela o plano de Deus, que é Pai: que todos os homens recebam o dom da sua vida. É essa a obra que Jesus tem pressa de realizar, para confiá-la, depois, aos seus discípulos, à Igreja.

“O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar plenamente sua obra”

Será que também nós podemos viver essa Palavra, tão própria de Jesus, a ponto de refletirmos em nós, de modo todo especial, o ser, a missão e o zelo dele?
Certamente! É preciso que também nós vivamos o fato de sermos filhos do Pai, por meio da Vida que Cristo nos comunicou, e assim nutrir nossa vida com a sua vontade.
Podemos realizar isso cumprindo, momento por momento, aquilo que Ele quer de nós, realizando-o perfeitamente, como se não tivéssemos outra coisa para fazer. De fato, Deus não nos pede mais do que isso.
Então, alimentemo-nos daquilo que Deus quer de nós, momento por momento, e assim experimentaremos que esse modo de agir nos sacia: dá-nos paz, alegria, felicidade; dá-nos – e não é exagerado dizê-lo – uma antecipação da felicidade eterna.
Assim também nós contribuiremos com Jesus, dia após dia, para realizar as obras do Pai.
Será o melhor modo de vivermos a Páscoa.

Chiara Lubich

A força transformadora da Palavra de Deus

A mensagem evangélica pode se tornar “força transformadora e humanizante em regiões de risco”. Foi o testemunho dado pelos bispos, provenientes do mundo inteiro e reunidos de 24 a 29 de fevereiro, no Centro Mariápolis de Castelgandolfo. Eram cerca de 90 os participantes, entre bispos e cardeais, de 42 países, neste 32º Congresso internacional, que este ano teve como tema: “A Palavra está viva: pessoas, ambientes, estruturas que se transformam”. Na quarta-feira, 27, após terem participado da audiência geral com o Santo Padre, alguns bispos, representando diversas áreas geográficas, participaram de uma entrevista coletiva realizada na sede da Federação Italiana de Imprensa. Ao tomar a palavra, o cardeal Ennio Antonelli, arcebispo de Florença, afirmou: “Por meio dos muitos testemunhos pudemos constatar como a Palavra renova a vida das famílias, dos jovens, das paróquias, uma renovação profunda, na comunhão“. “Cresceu em nós a convicção de que o testemunho da Palavra de Deus, escutada, vivida, encarnada na vida, a troca de experiências suscitadas pela Palavra, é um caminho muito importante para a evangelização hoje. As pessoas não querem só ouvir falar de Jesus, querem vê-lo – como escreveu João Paulo II, na Novo Millennio Ineunte. E os Movimentos, de um certo modo, fazem “ver”, tocar, a presença do Senhor, a potência da sua palavra que cria vida nova”. O Arcebispo de Palmas (TO), Dom Alberto Taveira Correa, por sua vez, evidenciou a importância do diálogo e fez referência às seitas, salientando que, neste contexto, “o empenho é duplicado: formar cada cristão à vida do Evangelho e construir relacionamentos inclusive com as pessoas que seguem esses grupos, buscando estabelecer um diálogo”. Dom Paul Verzekov, arcebispo emérito de Bamenda (República dos Camarões), deu o próprio testemunho do empenho da Igreja na difícil obra de reconciliação, e narrou que “em quatro países (Togo, Benin, Congo e Republica Democrática do Congo) respondendo ao desejo do povo, e com a autorização da Santa Sé, as comissões nacionais para a mediação e reconciliação são presididas por bispos católicos, sem nenhuma intenção de substituir os governos”. Continuando, Dom Verzekov acenou à ação pacificadora dos movimentos e comunidades, como a Comunidade de Santo Egídio, em Moçambique, e o trabalho desenvolvido pelo Movimento dos Focolares, difundido em todo o continente graças ao “compromisso do Evangelho na vida cotidiana”. Citou a vasta ação de evangelização desenvolvida pelos próprios chefes tribais, em Fontem (República dos Camarões), e em outras aldeias, com a participação de todo o povo, e os frutos de reconciliação e convivência pacífica que são realidade nestas regiões de seu país. O bispo maronita de Baalbek, Dom Simon Atallah, falou sobre a grave situação política e religiosa do Líbano, dizendo que “enquanto os jovens haviam acreditado que as armas poderiam abrir caminhos de esperança para o país, agora são justamente os jovens, muçulmanos e cristãos, que estão descobrindo que a verdadeira força está na religião. Eles viram que não existe esperança nem nas armas nem na política”. “O importante – continuou – é levar as pessoas a lerem os acontecimentos à luz da Palavra, e saber encontrar na religião não o ódio, mas o amor que existe no outro”. Em seguida falou da redescoberta do Evangelho e do Alcorão, de encontros entre jovens das duas religiões e citou o movimento “Esperanças da Juventude”, que reúne grupos cristãos e muçulmanos, com encontros de até mil jovens: “Eles lêem juntos as palavras do Evangelho e do Alcorão sobre a solidariedade,a fraternidade, o amor ao próximo”. Falando sobre as crescentes perseguições aos cristãos na Índia, especialmente no estado de Orisha, o arcebispo de Nova Déli, Dom Vincent Michael Conceição, disse que “não podemos culpar os hindus, mas apenas certos grupos extremistas, que, além do mais, existem em todas as religiões. Infelizmente os partidos políticos estão usando as religiões e esses grupos para os próprios objetivos”. “Criam obstáculos para as conversões porque acreditam que aconteçam por coação ou com incentivos desonestos. Discutimos este problema nas conferências episcopais e estamos procurando entender como dar uma resposta. Participar deste encontro de bispos, neste contexto, reforça a minha convicção que a resposta a todos os problemas é o amor, é a força mais potente, porque é participação à própria vida de Deus, que é Amor. Estas atrocidades contra os cristãos – acrescentou – são uma nova oportunidade para testemunhar o amor cristão, o amor aos inimigos”. O cardeal Miloslav Vlk, arcebispo de Praga e moderador do Congresso, falou também de esperança: “Para mim estes encontros reforçam a esperança, e sobretudo abrem um horizonte mundial; podemos ver já atuado o que está escrito no Apocalipse: ‘Eis que faço novas todas as coisas. Os germens já estão surgindo, vocês não os vêem?’”. Dando testemunho desta esperança, o cardeal falou ainda sobre o período, a partir de 1952, quando uma vez terminada a escola média, não havia nenhuma possibilidade para quem não fazia parte da juventude comunista, e como ele foi iluminado pela Palavra: “Submetei-vos à potente mão de Deus, a fim de que os exalte no tempo oportuno”. Desde então muitas portas foram abertas. E concluiu: “A Palavra de Deus se realiza sempre. Esta é a minha grande esperança, mais do que isso, é uma certeza que me acompanhou por toda a vida”. Da Agência Zenit, 28 de fevereiro de 2008

Fevereiro de 2008

Jesus, cercado pela multidão, sobe a encosta e proclama o seu célebre “Sermão da Montanha”. As primeiras palavras, “Felizes os pobres no espírito, felizes os mansos…”, já indicam a novidade da mensagem que Ele veio trazer.
São palavras de vida, de luz, de esperança que Jesus confia aos seus discípulos para que sejam iluminados por elas, e para que suas vidas adquiram sabor e significado.
Transformados por essa grande mensagem, eles são convidados a transmitir a outros os ensinamentos recebidos e transformados em vida.

“Quem praticar e ensinar (estes mandamentos) será considerado grande no Reino dos Céus.”

Hoje, mais do que nunca, a nossa sociedade precisa conhecer as palavras do Evangelho e deixar-se transformar por elas. Jesus deve poder repetir novamente: não irai-vos contra os irmãos; perdoai e vos será perdoado; dizei sempre só a verdade, de tal modo que o juramento se torne desnecessário; amai os vossos inimigos; reconhecei que tendes um só Pai e que sois todos irmãos e irmãs; tudo aquilo que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles.

É esse o significado de algumas das muitas palavras do “Sermão da Montanha”, que, se fossem vividas, bastariam para mudar o mundo.
Jesus nos convida a anunciar o seu Evangelho. Mas antes de “ensinar” as suas palavras, nos pede que as “observemos”. Para termos credibilidade, devemos nos tornar “peritos” do Evangelho, ser “Evangelho vivo”. Só então poderemos testemunhá-lo com a vida e ensiná-lo com a palavra.

“Quem praticar e ensinar (estes mandamentos) será considerado grande no Reino dos Céus.”

Qual o melhor modo de viver essa Palavra? É deixar que o próprio Jesus nos ensine a vivê-la, atraindo a Sua presença em nós e entre nós com o nosso amor mútuo.

Será Ele a nos sugerir as palavras no nosso contato com as pessoas, a nos indicar os caminhos e a nos abrir as brechas para poder entrar no coração dos irmãos e das irmãs, a fim de testemunhá-lo onde quer que estejamos, mesmo nos ambientes mais difíceis e nas situações mais complicadas. Veremos o mundo – aquela pequena parte do mundo onde vivemos –, transformar-se, converter-se à concórdia, à compreensão, à paz.

O importante é manter viva entre nós a Sua presença por meio do nosso amor recíproco, escutando com docilidade a Sua voz, a voz da consciência que sempre nos fala, se soubermos fazer silenciar as outras vozes.

Ele nos ensinará como “observar” com alegria e criatividade até mesmo os preceitos “mínimos”, aprimorando assim com perfeição a nossa vida de unidade. Que os outros possam repetir de nós o que antigamente se dizia dos primeiros cristãos: “Vede como se amam, e estão prontos a dar a vida um pelo outro” (Tertuliano, Apologeticum, 39,7). Vendo como os nossos relacionamentos se renovam pelo amor, os outros acreditarão que o Evangelho é capaz de gerar uma sociedade nova.

Não podemos guardar para nós o dom recebido: “Ai de mim, se não anunciar o Evangelho” (Cf. 1Cor 9,16b), somos chamados a repetir com Paulo. Se nos deixarmos guiar pela voz interior, descobriremos possibilidades sempre novas para comunicar: falando, escrevendo, dialogando. Que o Evangelho volte a brilhar por meio das nossas pessoas, nas nossas casas, nas nossas cidades, nos nossos países. Florescerá uma vida nova também em nós; a alegria crescerá nos nossos corações; o Ressuscitado resplandecerá mais… e Ele nos considerará “grandes no seu Reino”.

Isso é demonstrado, de modo excelente, pela vida de Ginetta Calliari. Tendo chegado ao Brasil em 1959, com o primeiro grupo do Movimento dos Focolares, ela fica chocada pelo forte impacto causado pelas graves desigualdades do País. Intensifica a vivência do amor mútuo, vivendo as Palavras de Jesus. Dizia: “Ele nos abrirá o caminho”.  Com o passar do tempo, ao seu redor se desenvolve e se consolida uma comunidade que hoje conta centenas de milhares de pessoas de todas as categorias e idades, desde moradores de favelas a pessoas de classes privilegiadas, que se colocam a serviço dos mais pobres. Assim, puderam surgir obras sociais que, em várias cidades, conseguiram transformar o cenário das favelas. Um pequeno “povo” unido a demonstrar que o Evangelho é verdadeiro: esse foi o dote que Ginetta levou consigo quando partiu para o Céu.
 
Chiara Lubich

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Cardeal Bertone: A comunhão, base da Igreja

Cardeal Bertone: A comunhão, base da Igreja

Um diálogo intenso, espontâneo, profundo, marcou o encontro do cardeal Tarcisio Bertone com mais de 600 sacerdotes diocesanos focolarinos, provenientes de 54 países, no Centro Mariápolis de Castelgandolfo. Foi a primeira vez que, como secretário de Estado, o cardeal Bertone visitou o Movimento dos Focolares no seu Centro Internacional. Foi convidado para um diálogo com os sacerdotes, reunidos para o seu encontro anual. O cardeal escutou os depoimentos de alguns “focolares sacerdotais” sobre os efeitos que o carisma da unidade provoca nos diferentes contextos eclesiais e sócio-culturais. A Irlanda, um panorama de crescente secularização onde se instaura um relacionamento renovado com o bispo e com os outros sacerdotes, um forte empenho nas universidades, no campo ecumênico e inter-religioso, uma presença eficaz no mundo da mídia. A Suíça, onde desabrocham vocações suscitadas pelo testemunho da unidade; a vida em comum entre sacerdotes torna-se ponto de referência para outros presbitérios e antídoto para as crises da vocação, cresce a freqüência à liturgia dominical. Na Itália (Ascoli Piceno) a colaboração entre sacerdotes e leigos animados pela espiritualidade de comunhão infunde vida nova na cidade, como aconteceu no mês de outubro passado: por ocasião de um evento promovido pelos jovens do Movimento dos Focolares, foi possível envolver as instituições civis e a população. Seis sacerdotes, de várias partes do mundo, dirigiram perguntas ao Secretário de Estado sobre a atuação do magistério de Bento XVI, os desafios atuais da Igreja no mundo, as lacunas das comunidades eclesiais e as prioridades nas escolhas pastorais. E ainda a função dos Movimentos eclesiais, a atuação da “Igreja-comunhão”, a formação nos seminários, a ajuda a sacerdotes em dificuldades. E enfim o seu relacionamento pessoal, diário, com o Papa. “A inconsistência da fé”, “o isolamento e a solidão”. São os maiores desafios encontrados pelos cristãos de hoje. O cardeal refez-se ao uma reflexão do então cardeal Ratzinger, publicada em um livro recente, onde afirma que “a extrema provação da solidão incomunicável é o inferno”. “Isto significa que a solidão nós começamos a tê-la aqui, e portanto que o inferno começa aqui”. Fez duas citações. Sartre: “Os outros para mim são o inferno”. Gabriel Marcel: “Os outros para mim são o céu”. “Então – acrescentou – o céu, o paraíso nós iniciamos aqui, com a espiritualidade de comunhão, com o carisma de comunhão. O contrário da solidão”. Como resposta ao relativismo: “É preciso nunca se cansar de buscar a verdade e as testemunhas da verdade”. Uma pergunta pessoal: “O senhor é um ilustre filho de São João Bosco. De que modo esta “filiação carismática” o ajuda no seu atual ministério? “O carisma salesiano sempre me ajudou, desde menino. Depois entrei na congregação, assimilei este espírito de família, a capacidade de escuta e acolhida, de confiança”. Sobre os Movimentos eclesiais: “Os Movimentos tem plena cidadania na Igreja. A presença deles, viva, eficaz, transformante, suscita a atenção inclusive nos não cristãos”. Voltando o olhar aos carismas novos e antigos: “O Senhor continua a ser criativo, a criação está em ato, no universo, no cosmo… está em ato principalmente por meio da ação do Espírito”. E convidou a “potencializar o espírito e a práxis de comunhão entre novos carismas e institutos históricos”. Uma “saudação muito calorosa” a Chiara Lubich foi dirigida pelo cardeal Bertone após ter reconhecido a missão fundamental dos fundadores na vida da Igreja.

Cardeal Bertone: A comunhão, base da Igreja

“Vamos colorir a cidade”: em todos os continentes, uma ação do Movimento Juvenil pela Unidade

A programação é exigente: a “conquista” da cidade. Há alguns anos os jovens do Movimento Juvenil pela Unidade resolveram arregaçar as mangas nas próprias cidades, aonde, como sabemos, está em jogo o grande desafio da convivência humana. O lema é “Colorir a cidade”. O campo de ação preferencial são as regiões cinzentas das cidades. O objetivo: colori-las com a criatividade do amor, nos cinco continentes, com um método que se exprime no conceito: “Pensar global e agir local”, como a sociedade hoje exige. Em Milão os jovens se dedicaram a um campo de refugiados. Em Ruanda os objetivos são um orfanato, o departamento de pediatria de um hospital, os aidéticos. Na Califórnia (EUA), numa escola com tendências racistas, fundaram um clube para difundir a cultura do respeito pela diversidade. Na Índia, jovens cristãos e hindus, juntos, procuram ajudar os jovens e adolescentes deficientes. Ma vamos ver o que aconteceu com um grupo de jovens africanos que decidiram visitar as meninas do presídio de Iringa, na Tanzânia: «A primeira dificuldade que encontramos foi convencer os guardas a nos deixar entrar. A segunda foi poder entregar a elas os presentes que havíamos colocado em comum: frutas, sal, sabão… mas também a “Palavra de Vida”, as nossas experiências e canções. Caminhamos por três quilômetros até chegar diante dos guardas, no portão de entrada. Eles estavam armados e não havia nem sombra de um sorriso em seus rostos. Lembrando-nos que também neles deveríamos reconhecer a presença de Jesus, os cumprimentamos, sorrindo. “Todas não podem entrar. As que forem escolhidas não poderão cantar lá dentro”… mas nos deixaram entrar com os presentes. Lemos a Palavra de Vida com as detentas e demos testemunho da transformação que ela produz em nossas vidas. Enquanto falávamos do amor de Deus, que é dirigido a todos, e que também nós podemos retribuir a Ele, os guardas escutavam em silêncio. No final, a alegria das presidiárias explodiu em cantos e danças: era a maneira de nos agradecer. Os guardas, sem palavras, se interrogavam: “Quem são esses jovens?”. Voltamos para casa felizes, com forças renovadas para continuar colorindo a cidade». Città Nuova n. 1- 2008

Um grande desígnio sustenta a família

Quando Deus criou o gênero humano, plasmou uma família. Quando o Escritor sagrado quis manifestar o ardor e a fidelidade do amor de Deus para com o povo eleito, serviu-se de símbolos e analogias familiares. Quando Jesus se encarnou, foi circundado por uma família e quando, em Cana, iniciou a sua missão, estava festejando o início de uma nova família. São constatações simples que revelam, porém, a preciosidade e a importância da família no pensamento de Deus. Ele não só lhe atribuiu grande dignidade, como desejou que fosse “à Sua imagem”, entrelaçando-a com o mistério da Sua própria vida, que é Unidade e Trindade de Amor. Portanto, um grande desígnio sustenta a família e a faz seguir os passos da Santa Família de Nazaré. Espaço de amor que parte e retorna, de comunhão, de fecundidade e ternura, a família é sinal, símbolo, modelo de toda e qualquer forma de associação humana. Não é retórico afirmar que a família é o primeiro bem social. Na cotidiana gratuidade que dá sentido e valor às suas funções de geração e educação, a família injeta no tecido social aquele bem insubstituível que é o capital humano, tornando-se assim um recurso eficaz da humanidade. E não só. Ela sabe abrir a casa e o coração aos dramas que a sociedade vive e sabe levar o calor familiar aos lugares em que as estruturas e as instituições, mesmo com toda a boa vontade, não podem chegar. Mas se o seu desígnio é grandioso, igualmente grande deve ser o compromisso de atuá-lo. Hoje, mais do que nunca, vemos a família revelar ao mundo a própria fragilidade. Vemos esposos que, diante das primeiras dificuldades da vida a dois, deixam de acreditar no próprio amor. Vemos filhos que, privamos do convívio dos pais, encontram dificuldade em alçar vôo rumo a um futuro sólido. Vemos idosos que, afastados do núcleo familiar, se sentem sem cidadania e sem identidade. Hoje, como nunca, a família deve ser amada, protegida, sustentada. É preciso lembrar-se sempre e buscar forças no seu desígnio original, que a prevê unida “para sempre”… uma dimensão que a consolida e a realiza. É preciso dar significado à vida familiar com uma espiritualidade de comunhão, congênita à família, pequena comunidade de amor. São necessárias correntes de opinião fundamentadas em valores, com políticas familiares correspondentes. Estes são os votos que deponho nas mãos de Maria Santíssima, sede da Sabedoria e mãe de família, para o bem da família hoje e para a realização de toda a família humana.