Movimento dos Focolares
“Città Nuova”, um projeto chamado fraternidade

“Città Nuova”, um projeto chamado fraternidade

“Città Nuova”, revista do Movimento dos Focolares, na sua edição italiana, celebrou os seus 50 anos com um Encontro nacional em Roma, na Sala Umberto, segunda-feira, dia 13 de novembro de 2006. “Città Nuova, um projeto chamado fraternidade” foi o título do evento que concluiu uma série de iniciativas realizadas nas principais cidades italianas. “Gratidão e apoio” para a revista, foi o que expressou o prefeito de Roma, Walter Veltroni, definindo Cittá Nuova “uma ponte, uma voz que procurou dizer palavras importantes, promotoras da idéia do diálogo, do amor, da fraternidade”. Uma revista que promoveu “a idéia da cidade como lugar de convivência e coexistência entre seres humanos diferentes”, continuou o seu primeiro cidadão, que recordou Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, neste momento internada no Hospital Gemelli : “Chiara sempre está próxima da cidade, e de mim pessoalmente. Estamos ao seu lado com amizade e imensa admiração. Città Nuova é uma das suas grandes invenções”. No sua calorosa saudação, Dom Cláudio Giuliodori, diretor da Secretaria das comunicações sociais da CEI, exprimiu reconhecimento a Chiara Lubich, sua promotora, e à “fecundidade da experiência humana e cristã” do Movimento dos Focolares; e prosseguiu augurando que “a abundante semeadura feita nestes 50 anos, com paixão e inteligência, possa continuar a produzir frutos para uma cidade cada vez mais digna do homem”. Giuseppe Garagani, diretor da revista, abriu o encontro com a apresentação de uma síntese histórica, acompanhado por Giannino Dadda, administrador do complexo editorial da Editora Città Nuova. Com uma gravação em vídeo de Chiara Lubich, extraída de um discurso de 2003, foi indicada a figura de “Maria, transparência de Deus”, como modelo possível, no qual os comunicadores podem se inspirar. O programa foi articulado em três mesas redondas moderadas por Pietro Cocco, jornalista da Rádio Vaticano e pelos redatores de Città Nuova, Paolo Loriga e Michele Zanzucchi. A primeira delas, sobre o tema da fraternidade, teve a participação dos membros do Centro de Estudos do Movimento dos Focolares: Vera Araújo, Luigino Bruni, Alberto Lo Presti e Pe. Piero Coda, da Universidade Lateranense. Sobre “Diálogo: tática ou arte” dialogaram Mario Marazziti, porta-voz da Comunidade de Sant’Egídio, Shahrzad Housmand, teóloga muçulmana, Lisa Palmieri Billig, membro da American Jewish Committee e Eugenio Cappuccio, diretor cinematográfico. A última mesa redonda, sobre a função de Città Nuova junto à mídia teve as intervenções dos jornalistas Luigi Accatoli (Corriere della Sera) e Ignazio Ingrao (Panorama), do professor Gianpiero Gamaleri (Universidade Roma Três) e Vincenzo Santarcangelo (Editora São Paulo). O professor Gamaleri descreveu Città Nuova como uma árvore que dá sombra e frutos a muitos, um sinal de esperança que tem um grande futuro diante de si.

Novembro de 2006

Na linguagem comum, a palavra “justiça” refere-se ao respeito pelos direitos humanos, à exigência de igualdade, à equidade na distribuição dos recursos humanos, aos órgãos encarregados de fazer respeitar as leis.
Mas, será que Jesus se refere a esse tipo de justiça no Sermão da Montanha, o sermão onde se encontra essa bem-aventurança? Certamente também, mas como conseqüência de uma justiça mais ampla, que implica a harmonia dos relacionamentos, a concórdia, a paz.
A fome e a sede significam as necessidades elementares de cada indivíduo: são o símbolo de um anseio profundo do coração humano, jamais completamente satisfeito. Segundo o Evangelho de Lucas, Jesus teria dito simplesmente: “Felizes vós, que agora passais fome”1. Já Mateus explica que a fome do homem é fome de Deus, o único que pode saciá-lo plenamente, como tão bem entendeu santo Agostinho que, no início das Confissões, escreveu a famosa frase: “Tu nos criaste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti”2.
O próprio Jesus disse: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba”3. Ele, por sua vez, alimentou-se da vontade de Deus4.
Justiça, no sentido bíblico, significa portanto viver em conformidade com o plano de Deus para a humanidade: ele a projetou e quis que fosse como uma família unida no amor.

«Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados»

O desejo e a busca da justiça estão desde sempre inscritos na consciência do homem, foram colocados por Deus mesmo no seu coração.  Mas, apesar das conquistas e dos progressos realizados ao longo da história, como ainda está longe a plena realização do projeto de Deus! As guerras que também hoje se combatem, assim como o terrorismo e os conflitos étnicos, são o sinal das desigualdades sociais e econômicas, das injustiças, dos ódios.
Os obstáculos para a harmonia da convivência humana não são apenas de ordem jurídica, ou seja, devidos à falta de leis que regulem esse convívio; dependem de atitudes mais profundas, morais, espirituais, do valor que damos à pessoa humana, de como consideramos o outro.
O mesmo acontece na área econômica: o crescente subdesenvolvimento e a distância cada vez maior entre ricos e pobres, com a iníqua distribuição dos bens, não são fruto apenas de certos sistemas produtivos, mas também e sobretudo de opções culturais e políticas: são um fato humano, são decisões conscientes.
Quando Jesus convida a dar também o manto a quem pede a túnica, ou a caminhar dois quilômetros com aquele que quer ser acompanhado por um5, ele está indicando um “algo a mais”, uma “justiça maior”, que supera aquela da prática legal, uma justiça que é expressão do amor.
Sem amor, sem respeito pela pessoa, sem atenção às suas exigências, os relacionamentos pessoais podem até ser corretos, mas podem também tornar-se burocráticos, incapazes de dar soluções satisfatórias às exigências humanas. Sem o amor jamais existirá justiça verdadeira, partilha de bens entre ricos e pobres, atenção à situação particular de cada homem e de cada mulher e à situação concreta na qual se encontram. Os bens não caminham por si sós; são os corações que devem movimentar-se e fazer movimentar os bens.

«Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados»

Como podemos viver esta Palavra de Vida?
Considerando o próximo por aquilo que ele realmente é: não só um ser humano com os seus direitos e a sua fundamental igualdade diante de todos, mas como imagem viva de Jesus.
Amá-lo, ainda que seja um inimigo, com o mesmo amor com o qual o Pai o ama, e por ele estar disposto ao sacrifício, até mesmo supremo: “Dar a vida pelos próprios irmãos”6.
Vivendo com ele na reciprocidade da doação, partilhando os bens espirituais e materiais, até que todos se tornem uma única família.
Então, o nosso sonho por um mundo fraterno e justo, tal como Deus o imaginou, se tornará realidade. O próprio Jesus virá para viver em nosso meio, e nos saciará com a sua presença.

«Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados»

Vejamos como um trabalhador descreveu o seu pedido de demissão: “A firma em que trabalho se associou com outra do mesmo setor. Depois dessa fusão, fui solicitado a rever a lista dos empregados, porque na nova organização do trabalho, três deles deveriam ser demitidos.
No entanto, essa decisão não me parecia fundamentada. Pelo contrário, parecia-me muito precipitada, irrefletida, tomada sem nenhuma consideração pelas conseqüências de caráter humanitário que ela traria aos envolvidos e às suas famílias. O que fazer? Lembrei-me da Palavra de vida. A única saída era fazer como Jesus: ser o primeiro a amar. Comuniquei que não assinaria aquelas três demissões, a custo de ser eu mesmo demitido.
Não só não quiseram me demitir, como pediram o meu parecer sobre como remanejar os funcionários na nova organização. Eu já havia preparado o novo plano de pessoal, que agilizava e tornava muito útil a atuação de todos nos diversos setores. O plano foi aprovado e ninguém perdeu o trabalho.”

Chiara Lubich

1) Cf. Lc 6,21;
2) Livro I, 1,1;
3) Jo 7,37;
4) Cf. Jo 4,34;
5) Cf. Mt 5,40-41;
6) Cf. João Paulo II, Sollecitudo rei socialis, n. 40.