Caríssimos, todos vocês que estão hoje em Loppiano!, Mando-lhes uma carinhosa saudação neste 1º de maio de 2006, festa dos jovens e nova etapa do nosso caminho rumo ao mundo unido! O programa que se propuseram é atual e exigente, quase um desafio: «Uma cidade não basta!». Vocês pediram que eu dissesse uma palavra. Caríssimos jovens, vocês sabem que, quando eu tinha a idade de vocês, recebi de Deus o dom de lhe doar a minha vida para fazer crescer na Terra um povo novo, nascido do Evangelho. Começamos de Trento, a nossa cidade. E vocês, hoje? Se quiserem transformar uma cidade, a primeira coisa é unir-se a quem tem o seu mesmo ideal. Coloquem Deus acima de tudo. Prometam-se o amor recíproco até estar prontos a dar a vida um pelo outro e defendam este Pacto custe o que custar. Jesus, presente entre vocês, indicará os passos a serem dados, os apoiará nas inevitáveis dificuldades. A seguir, tomem as medidas da cidade. Juntos procurem os mais pobres, os abandonados, os órfãos, os presos, os marginalizados, e dêem, dêem sempre: uma palavra, um sorriso, o próprio tempo, os seus pertences… Essa atitude atrairá o cêntuplo prometido por Jesus. A ninguém deixem só. Partilhem tudo com os seus amigos: momentos de alegria e de vitória, de dor e de fracasso, para que a luz não se apague. Rezem e perdoem, porque, embora custe ir contra a correnteza, aí se encontra a raiz profunda do sucesso. Porém, “uma cidade não basta”. Sim, com Deus, uma cidade é pouco demais. Foi Ele quem criou as estrelas, que guia os destinos dos séculos e com Ele podemos mirar mais longe, à pátria de todos, ao mundo. Que cada nosso respiro seja para isso, inclusive cada gesto nosso, o nosso descanso e o nosso caminhar!. Que no final da vida não tenhamos que nos arrepender de termos amado pouco demais! Coragem! Já sabem quanto confio em vocês! O mundo está em suas mãos e será como vocês o construírem hoje. Chiara
O grande Encontro de jovens em Loppiano deste ano contempla a cidade como um lugar de fraternidade, para construí-la e experimentá-la para além das divisões. Também o encontro na Mariápolis Arco-Íris em Portugal marca a construção de um mundo unido, neste período caracterizado por medos e conflitos.
Loppiano (Itália) – A cidade como lugar e laboratório de fraternidade em 360°. É este o foco da 36°. edição do encontro anual de 1° de maio de 2006 em Loppiano, com a presença de milhares de jovens italianos e europeus.
Programa – o momento central do programa foi a mensagem de Chiara Lubich com o título “Uma cidade não basta”. Numerosos foram os testemunhos provenientes das regiões quentes do planeta. O teatro das chamadas “guerras esquecidas”: jovens provenientes da Colômbia, Iraque, Burundi, Bielorussia e Coréia, foram chamados a contar as suas histórias e seus testemunhos de paz, solidariedade e recomposição social. Um espaço especial foi dedicado à Economia de Comunhão e em particular ao diálogo com empresários italianos que transferiram parte de suas atividades para o novo Pólo Empresarial, que será inaugurado em outubro próximo e acolherá cerca de trinta empresas que aderiram ao Projeto.
O encontro se “duplica” – Neste ano o encontro de Loppiano foi realizado em dois dias. No dia 30 de abril, a partir das 15 horas, aconteceram 7 workshops de aprofundamento: da economia de comunhão ao diálogo inter-religioso e cultural; ecologia; esporte; música; arquitetura; comunicação. Eram estas as “áreas de interesse” propostas à reflexão e à ação dos jovens que participaram do evento.
Arco-Íris (Portugal): ‘Link para a unidade’ foi o título escolhido pelos jovens portugueses. É um link que pode construir uma comunicação nova através das novas tecnologias, que os jovens por um mundo unido de Portugal propõe aos jovens de toda a Península Ibérica. Uma comunicação moldada ao diálogo para construir um mundo de paz. A participação dos jovens está em constante crescimento com relação à edição de 2002.
A Mariápolis de Loppiano – É a primeira das 33 mariápolis permanentes dos Focolares a surgir nos 5 continentes. Situada sobre as colinas toscanas, nas proximidades de Florença, no município de Incisa Valdarno, com escolas, empresas, centros artísticos, conta hoje com cerca de 900 habitantes de 70 nações. São estudantes e professores, profissionais, artesãos, agricultores, artistas, famílias, religiosos e sacerdotes. Estão presentes ainda cristãos de diversas Igrejas e seguidores de outras religiões. Pela sua característica de internacionalidade é um lugar privilegiado para o diálogo entre os povos e as culturas.
A Mariápolis Arco-Íris – Situada em Abrigada, a 45 km de Lisboa, surgiu em 1997. A sua construção está se realizando progressivamente graças à contribuição generosa de muitos. Desde o início contou com o apoio e incentivo de autoridades civis e religiosas, sendo considerada pela Câmara Municipal de Alenquer, um projeto de “interesse público”. Além de ser um espaço privilegiado para o diálogo com pessoas de outras convicções e culturas, é também um ponto de encontro para os jovens. Existe um empenho comum de colocar em prática a única lei da Mariápolis: o amor evangélico para mostrar que uma convivência pacífica e fraterna, entre pessoas das mais diversas idades e condições sociais é possível.
Como é grande o coração de Deus. As divisões entre povos e nações, entre línguas e etnias para ele não existem, pois somos todos filhos seus e temos a mesma dignidade. Até os primeiros cristãos de Jerusalém custavam a entender essa mentalidade aberta e universal. Sendo todos eles originários de um mesmo povo, que tinha a consciência de ser o povo eleito, sentiam dificuldade em estabelecer um relacionamento de autêntica fraternidade com outros povos. E tinham ficado escandalizados quando souberam que Pedro, em Cesaréia, tinha entrado na casa de Cornélio, um oficial romano, um estrangeiro. De fato, não deveria haver nada em comum com os estrangeiros. Mas para Deus ninguém é estrangeiro. Ele “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre os justos e injustos”1. Deus ama todos sem distinção. Foi justamente isto que Pedro afirmou diante do soldado romano, superando ele mesmo os preconceitos que o separavam de pessoas de outros povos:
«Deus não faz discriminação entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença»
Se Deus age assim, também nós, seus filhos, deveríamos agir como ele e escancarar o coração, quebrar todas as barreiras, libertar-nos de toda a escravidão. Sim, porque muitas vezes somos escravos das divisões entre pobres e ricos, entre gerações, entre brancos e negros, entre culturas e nacionalidades. Quantos preconceitos temos contra os imigrantes, contra os estrangeiros! Quantas restrições diante de quem é diferente de nós. Daí nascem a insegurança, o medo de perder a própria identidade, as intolerâncias… Pode haver barreiras ainda mais sutis entre a nossa família e as famílias vizinhas, entre pessoas do nosso grupo religioso e as de convicções diferentes, entre bairros de uma mesma cidade, entre partidos, entre clubes esportivos… Daí surgem as desconfianças, os rancores cegos e profundos, inimizades doentias… Com um Deus que não faz distinção de pessoas, como não buscar a fraternidade universal? Sendo filhos do mesmo Pai, podemos nos descobrir como irmãos e irmãs de cada homem e mulher que encontramos.
«Deus não faz discriminação entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença»
Portanto, se somos todos irmãos e irmãs, devemos amar a todos, começando por aquele que está ao nosso lado, sem jamais desistir. Então, o nosso amor não será um amor platônico, abstrato, mas um amor concreto, feito de serviço. Um amor capaz de ir ao encontro do outro; de iniciar um diálogo; de assumir as suas dificuldades, os seus pesos, as suas preocupações até que o outro se sinta entendido e acolhido na sua diversidade e livre para exprimir toda a riqueza que leva consigo. Um amor que mantém relacionamentos vivos e ativos entre pessoas das mais variadas convicções, baseados na “Regra de Ouro”– “Faça aos outros aquilo que gostaria fosse feito a você” – presente em todos os livros sagrados e escrita nas consciências. Um amor que move os corações até chegar à comunhão dos bens, que ama a pátria dos outros como a própria, que constrói estruturas novas, na esperança de que é possível fazer retroceder guerras, terrorismo, lutas, fome, e os incontáveis males do mundo.
«Deus não faz discriminação entre as pessoas. Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença»
Foi o que experimentaram Fiore, uma das minhas primeiras companheiras de Roma, e Moira, uma jovem índia católica da Guatemala, a primeira de onze irmãos, descendente dos maias Kakjchichel. Os nativos são muito discriminados e isso cria um forte complexo de inferioridade diante dos mestiços e principalmente diante dos brancos. Veja o que Moira conta sobre o seu encontro com Fiore, que “não tinha preferências” e falava ao coração das pessoas, fazendo cair todo tipo de barreira: “Nunca vou esquecer a acolhida calorosa de Fiore. O seu amor por mim era um reflexo do amor de Deus. A minha cultura indígena e a educação familiar recebida me condicionaram a ser bastante fechada e dura com as pessoas, distanciando quem estava ao meu lado. Fiore foi para mim uma mestra, guia, modelo; ajudou-me a sair de mim mesma, para dirigir-me confiantemente aos outros. Ela me sugeriu também que eu retomasse os estudos e não só: sustentou-me e encorajou-me a ir em frente quando, devido a dificuldades de cultura e de método, sentia a tentação de deixar tudo. Foi dessa forma que consegui obter o diploma de secretária executiva. Sobretudo ela me tornou consciente da minha dignidade humana. Fez-me superar o complexo de inferioridade que, sendo índia, eu carregava dentro de mim como uma marca de fogo. Desde menina, eu sonhava lutar pela minha gente para resgatá-la. Com Fiore, entendi que eu devia começar por mim mesma: ser ‘nova’, se eu quisesse ver nascer um ‘povo novo’.” Amando assim, com um Deus que não faz distinção de pessoas, podemos concretizar – como Moira – novos sonhos: “Com o meu sim a Deus me tornaria capaz de abrir uma porta para levar o Ideal da unidade a todo o meu povo. Posso afirmar que vejo isso já em parte realizado na minha família”2.
Chiara Lubich
1) Cf. Mt 5, 45; 2) MATILDE COCCHIARO, Un fiore raro. Ada Ungaro, Roma 2003, p.151-153
«Existe um profundo fosso entre o budismo e o cristianismo. Mas apesar disso, como budista da tradição Mahayana, pude compreender muitos aspectos do significado profundo do sofrimento de Jesus crucificado. Há uma convergência, no plano existencial, entre a experiência budista da compaixão e a experiência do amor no cristianismo». Assim se exprimiu o Dr. Tomonobu Shinozaki, reitor do Gakurin Seminary da Rissho Kosei-kai (RKk), na sessão dedicada ao sofrimento, no 2º Simpósio budista-cristão, sediado em Osaka, no centro da Rissho Kosei-kai, de 24 a 27 de abril de 2006. De fato, a palestra que aprofundou o centro do mistério cristão: Jesus que na cruz chega a gritar o abandono do Pai, ponto fundamental da espiritualidade dos Focolares, atraiu um grande interesse dos participantes. O 2º Simpósio, que teve por título: «Dharma e compaixão budista-Ágape cristão» contou com a participação de 90 pessoas. Estavam representadas antigas escolas tradicionais do budismo japonês e as jovens organizações leigas; pelo budismo Therevada participaram monges e leigos da Tailândia. O Movimento dos Focolares foi representado por um grupo do Centro para o Diálogo inter-religioso e do Centro de Estudos, junto com membros da Tailândia, Coréia, Filipinas, Estados Unidos e Japão. No Monte Hiei, berço do budismo japonês – Na conclusão do simpósio, os participantes foram recebidos pelos monges da Tendai-shu nos lugares em que, 1.200 anos atrás, teve início a escola Tendai: o Monte Hiei. Visitaram a sepultura do fundador, Saicho, e aprenderam um dos seus ensinamentos: «O ápice da compaixão é esquecer-se de si mesmo e servir aos outros». Um dos frutos que emergiram do simpósio foi ver o florescimento de um diálogo intrabudista, entre monges do Therevada, monges de várias escolas japonesas e leigos, como os da Rissho Kosei-kai e da Myochikai. Phramaha Boonchuay, reitor da Universidade budista Chulallon-korn de Chiangmai (Tailândia), declarou: «Demos mais um passo à frente em todos os sentidos. Fiquei impressionado com o fato de que o budismo no Japão tenha tantos serviços concretos, promovidos pelos templos ou pelos mosteiros; algo que podemos aprender com eles». O reverendo Masami-chi Kamiya, diretor do grupo para o diálogo inter-religioso da Rissho Kosei-kai, afirmou que a RKk desejava estabelecer um relacionamento de diálogo com os budistas da tradição Therevada e isto foi possível graças a este encontro. Rumo a uma fraternidade espiritual cada vez mais profunda – Foi ressaltado, de modo especial, como o amor vivido entre todos é o melhor terreno para desenvolver um conhecimento recíproco e um diálogo autêntico. Sentiu-se um forte impulso do Espírito para ir em frente, rumo a uma fraternidade cada vez mais profunda.