30 Set 2005 | Palavra de Vida, Sem categoria
É uma frase magistral, que projeta a nossa vida em Deus; e de lá, com a luz e a força que irradia, ela nos lança a serviço da humanidade. É a resposta que Jesus dá a uma pergunta formulada por um grupo de fariseus e por alguns homens de Herodes: deve-se ou não pagar o tributo às forças de ocupação romana? Essa pergunta era um estratagema para fazê-lo cair numa cilada. Se Jesus respondesse que sim, os fariseus o acusariam de colaboracionismo com o inimigo e assim Ele perderia a confiança do povo. Se respondesse que não, os herodianos, ligados à autoridade romana, diriam que Ele é um subversivo e o acusariam de ser agitador. Então Jesus pede para ver a moeda de prata com a qual se pagava o imposto e pergunta de quem são a imagem e a inscrição gravadas nela. Eles respondem que são do imperador. Se são do imperador, continua Jesus, que devolvam então a César aquilo que é de César. Desta forma Ele reconhece o valor do Estado e de suas instituições. Porém, sua resposta vai bem mais além, indicando aquilo que realmente é importante: devolver a Deus o que já é dele. Da mesma forma que na moeda romana está gravada a imagem do imperador, também no coração de cada ser humano está impressa a imagem de Deus: Ele nos criou à sua imagem e semelhança! Portanto, nós lhe pertencemos e a Ele devemos voltar. Somente a Ele deve ser dado o tributo total e exclusivo da nossa pessoa. O mais importante não é pagar o imposto ao imperador romano, mas dar a Deus a própria vida e o próprio coração.
“Devolvei, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus.”
Como podemos, então, viver esta Palavra de Vida? Renovando o apreço, o senso de responsabilidade e o empenho pela “coisa pública”, respeitando as leis, protegendo a vida, conservando os bens da coletividade: prédios públicos, ruas, meios de transporte… Mas, também, oferecendo a contribuição ativa, crítica e decidida de idéias, propostas, sugestões para um desenvolvimento cada vez melhor do bairro, da cidade, do país, sem ficar esperando de braços cruzados; prestando a nossa ação de voluntariado nas estruturas de saúde, de cidadania; fazendo o nosso trabalho com maior perfeição. Se executarmos as nossas tarefas com competência e amor, poderemos realmente servir Jesus nos irmãos e nas irmãs, e contribuir para que o Estado e a sociedade respondam ao projeto de Deus para a humanidade e estejam plenamente a serviço do homem.
“Devolvei, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus.”
André Ferrari, um contador de Milão (Itália), soube fazer do escritório, no Banco onde trabalhava, o lugar de atuação dessa Palavra de Vida. Ele escreveu: “Toda manhã, quando faltam poucos minutos para as 8:30h, bato o meu cartão, entro no prédio, e começo ali a minha labuta diária. Mas, como é estranho o meu trabalho: ir e vir, subir escadas, esperar diante de portas fechadas, receber e entregar fichas; e isso há tantos anos… Se eu mantiver a caridade, apesar dos contratempos, das cartas a serem refeitas três vezes, terei feito toda a minha parte, porque sinto que foi Jesus mesmo quem me colocou aqui”. “Sou um contador” – dizia ele, dirigindo-se com simplicidade a Jesus – “e te sirvo como contador. Eis a minha vida, Senhor, quero fazer com que ela se torne inteiramente Amor!”. Um dia, uma senhora idosa que, diante do seu guichê, sempre se sentiu tratada não como uma cliente anônima, mas como uma “pessoa”, desejando demonstrar a própria gratidão, lhe trouxe um saquinho de ovos. André morreu aos 31 anos, num hospital de Turim, após um acidente de moto. “Tenho mesmo que morrer assim, sozinho, sem ver ninguém dos meus?” A freira respondeu que era preciso aceitar a Vontade de Deus. Ao ouvir esta palavra, André se reanimou e disse, sorrindo: “Aprendemos a reconhecê-La sempre como nosso Ideal, mesmo nas pequenas coisas,” – e acrescentou, dando uma piscadela com aquele humor que lhe era característico – “inclusive no vermelho de um semáforo”. Ele obedeceu a Deus e naquela obediência de amor foi ao seu encontro. Chiara Lubich
27 Set 2005 | Sem categoria
22 Set 2005 | Sem categoria
22 Set 2005 | Sem categoria
15 Set 2005 | Sem categoria
Professor Benjamin Barber,
Senhoras e Senhores, caros amigos,
Ressoa ainda no meu coração a segunda Jornada da Interdependência em Roma, e com alegria desejaria estar com vocês em Paris. Estou através de uma mensagem.
Essa nossa terceira etapa não podia deixar de convocar a arte e a cultura ao coração da Interdependência, porque ela cria para nós relacionamentos profundos entre as pessoas e os povos.
O encontro, hoje irreversível, entre as civilizações, há tempo nos obrigou a sair das visões culturais nas quais tínhamos vivido. Percebemos que, muitas vezes, elas eram inadequadas e parciais, porque faltavam os relacionamentos entre os povos. Tudo isto foi para um bem.
Mas, existe a outra face da medalha. Estas mudanças encontraram-nos freqüentemente despreparados e espalhou-se assim uma forte insegurança, uma inquietação que chegou até a intolerância pelo medo de perder, juntamente com o nosso modo de pensar, também os valores mais profundos.
Mas não é assim.
Entre as ruínas materiais e espirituais da Segunda Guerra Mundial, eu e as minhas primeiras companheiras descobrimos que o Amor é o único Ideal que não desmorona. Este Amor é Deus, que dá sentido e sustenta todas as coisas.
Arrastadas por esta extraordinária experiência, começamos a amar quem estava ao nosso lado e encontramos sempre, em qualquer latitude, um eco imediato em homens e mulheres de qualquer cultura, fé, tradição. Sim, porque no fundo do coração de cada pessoa está – talvez escondido, mas presente – o DNA do Amor.
Esta visão nos revela que somos irmãos e irmãs de cada homem e mulher que encontramos, porque filhos de um único Deus que é Amor. E nos dá a capacidade de entrever na história tantos fragmentos de fraternidade em ação – como aqui, nessa Jornada.
O amor é a alavanca que deve ser usada para enfrentar o atual desafio histórico da diversidade cultural.
Um amor que ama todos, que move os corações à uma comunhão de bens, que ama a pátria alheia como a própria, que constrói estruturas novas, até fazer retroceder guerras, terrorismos, lutas, fome, e os inúmeros males do mundo.
Um amor que mantêm diálogos vivos e ativos entre as pessoas de várias religiões, baseados sobre a “Regra de ouro” – “faça aos outros o que gostaria fosse feito a você” – presente em todos os livros sagrados, reconstruindo a história espiritual da humanidade.
Um amor que faz dos homens e mulheres dessa terra “pessoas que contém a dimensão mundial”, capazes de fazer dos próprios valores um dom e de valorizar e estimar os valores das outras culturas, para compor aquele consenso global, tão necessário nos dias de hoje.
E a humanidade viverá uma interdependência fraterna, como uma única família, que saberá criar estruturas adequadas para exprimir a dinâmica entre unidade e diversidade.
Peço a Deus, fonte do Amor, que nos conduza à realização desse sonho.
Chiara Lubich
15 Set 2005 | Sem categoria
É uma verdadeira honra e prazer para mim estar hoje aqui, entre vocês, representando Chiara Lubich, fundadora e presidente do Movimento internacional dos Focolares.
É algo mais do que uma profunda amizade o que liga Chiara Lubich ao Professor Barber: é uma partilha recíproca de objetivos.
Desde a primeira jornada da interdependência de Filadelfia, evidenciou-se o quanto o objetivo geral do Movimento dos Focolares: “contribuir para a unidade da família humana”, pudesse sustentar fortemente os ideais da Interdependência.
Chiara Lubich vê a fraternidade universal como raiz e garantia de uma verdadeira interdependência entre os povos. Os recentes e trágicos acontecimentos do mundo, demonstram o quanto esta seja a insubstituível garantia de um futuro de paz. A interdependência fraterna necessita porém, da colaboração de todas as forças, não apenas políticas, mas certamente também culturais e espirituais. O título escolhido para esta terceira Jornada da Interdependência, “A arte e a cultura no coração da Interdependência”, teve em mim uma profunda ressonância, como um sinal profético.
Eram os anos sessenta quando, bailarina no Teatro alla Scala, de Milão, próxima a partir para um período de estudos no Teatro Bolshoi de Moscou, encontrei o Movimento dos Focolares. O seu estilo de vida descortinou diante de mim novíssimos horizontes, que se podem exprimir com estas palavras de Camus:
“ …aquele que escolheu o destino de artista porque sentia-se diferente, logo aprenderá que não pode nutrir a sua arte e a sua própria diversidade senão reconhecendo a sua semelhança com os outros. O artista se forja neste perene vai e vem entre si mesmo e os outros; na metade do caminho entre a beleza da qual não se pode abstrair e a comunidade da qual não se pode subtrair”.
Através da minha longa carreira internacional pude experimentar quanto o relacionamento, a fraternidade, foram fonte de inspiração, por exemplo na criação de uma escola de balé clássico de nível profissional, em colaboração com um bailarino romeno, com a descoberta, sempre surpreendente, do enriquecimento recíproco que nasce do desapego da própria inspiração e cultura, para acolher a do outro.
Mas este paradigma da fraternidade suscitou ainda, dentro do Movimento dos Focolares, iniciativas e encontros entre artistas de diferentes idades, tendências e culturas, que vivem uma troca de talentos, inspirações e realizações; estas iniciativas são sentidas particularmente pelos jovens, que aspiram a novas expressões artísticas, abertas ao transcendente.
Chiara Lubich teve uma singular expressão a este propósito: “ (…) o artista é talvez o mais próximo a Deus… ele é capaz de transmitir o que existe de mais belo sobre a terra: a alma humana”.
O Movimento dos Focolares gostaria de contribuir para que se revelasse a mais alta vocação do artista, que o impele a buscar na sua alma – dilatada pelo amor, pela comunhão com os outros – uma arte que testemunhe o sofrimento e a angústia da humanidade, mas que revele também as aspirações mais profundas e de infinito, que cada homem traz consigo; uma arte sinal de esperança para o mundo.