Movimento dos Focolares

Reflexão de Chiara Lubich sobre a Palavra de vida do mês julho de 2005

Deus é Amor. Essa é a certeza mais inabalável que deve guiar a nossa vida, mesmo quando a dúvida nos assalta diante de grandes calamidades naturais, diante da violência de que a humanidade é capaz, diante dos nossos insucessos e fracassos, diante dos sofrimentos que nos afligem pessoalmente.
Que Deus é Amor, Ele mesmo nos demonstrou e continua a fazê-lo de mil modos: dando-nos a criação, a vida (e todo bem a ela vinculado), a redenção por meio do seu Filho, a possibilidade da santificação por meio do Espírito Santo.
Deus nos manifesta o seu Amor sempre: está próximo a cada um de nós, acompanhando-nos e sustentando-nos passo a passo nas provações da vida. Isso nos é confirmado pelo Salmo de onde foi tirada esta Palavra de Vida, que fala da insondável grandeza de Deus, do seu esplendor, do seu poder e, ao mesmo tempo, da sua ternura e da sua imensa bondade. Ele é capaz de façanhas prodigiosas e, ao mesmo tempo, é um pai repleto de atenções, e mais dedicado do que uma mãe.

“O senhor ampara todos os que caem e reergue todos os combalidos.”

De quando em quando todos nós temos de enfrentar situações difíceis, dolorosas, quer na nossa vida pessoal, quer nos relacionamentos com os outros. E às vezes constatamos toda a nossa fragilidade.  
Encontramo-nos diante de muros de indiferença e de egoísmo. Sentimo-nos de mãos atadas diante de acontecimentos que parecem superar as nossas forças.
E quantas circunstâncias dolorosas cada um tem de enfrentar na vida! Quanta necessidade de que um Outro se preocupe com elas! Pois bem, nesses momentos a Palavra de Vida pode nos socorrer.
Jesus deixa que experimentemos a nossa incapacidade, certamente não com a intenção de nos desencorajar, mas para fazer-nos experimentar o extraordinário poder da sua graça, que se manifesta justamente quando parece que as nossas forças não vão resistir, a fim de nos ajudar a entender melhor o seu amor. Porém, com uma condição: que tenhamos uma total confiança Nele, como uma criancinha confia na sua mãe; um abandono ilimitado, que nos faz sentir nos braços de um Pai que nos ama assim como nós somos. E para Ele tudo é possível.
E nem mesmo a consciência dos nossos erros nos pode bloquear, porque Deus, sendo amor, nos levanta toda vez que caímos, como fazem o pai e a mãe com o seu filhinho.

“O senhor ampara todos os que caem e reergue todos os combalidos.”

Apoiados nesta certeza, podemos lançar Nele qualquer preocupação, qualquer problema, conforme o convite das Escrituras: “Lançai sobre ele toda a vossa preocupação, pois Ele é quem cuida de vós”.
Também para nós, no início do Movimento, quando a pedagogia do Espírito Santo nos ensinava a dar os primeiros passos no caminho do amor, “lançar toda preocupação no Pai” era coisa de todos os dias e de várias vezes ao dia.
Lembro que eu dizia que não podemos segurar na mão uma brasa, mas logo a jogamos fora, pois do contrário ela queima. Assim também, com a mesma rapidez, lançávamos no Pai toda preocupação. E não lembro de nenhuma preocupação que Ele não tenha resolvido, quando lançada no seu coração.
Mas não é sempre fácil crer, e crer no seu amor.
Durante este mês esforcemo-nos por viver assim em todas as situações, mesmo nas mais intrincadas. Assistiremos vez por vez à intervenção de Deus, que nunca nos abandona, mas cuida de nós. Experimentaremos uma força jamais conhecida, capaz de liberar em nós aptidões novas e imprevistas.

 

Chiara Lubich

 

Reflexão de Chiara Lubich sobre a Palavra de vida do mês junho de 2005

Enquanto saía de Cafarnaum, Jesus viu um cobrador de impostos chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos. Mateus exercia um trabalho que o tornava odioso aos olhos do povo e que o igualava aos agiotas e exploradores que se enriqueciam à custa dos outros. Os escribas e fariseus o colocavam no mesmo nível dos pecadores públicos, tanto que censuravam Jesus por ser “amigo dos publicanos e pecadores” e por comer junto com eles.

Contrariando toda convenção social, Jesus chamou Mateus a segui-lo e aceitou o convite para almoçar na sua casa, da mesma forma como fez mais tarde com Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos de Jericó. Quando pediram que Jesus explicasse essa atitude, Ele disse que veio para curar os doentes e não os que têm saúde, e que veio chamar não os justos, mas os pecadores. Também desta vez o seu convite era dirigido justamente a um deles:

“Segue-me.”

Jesus já havia feito esse chamado a André, Pedro, Tiago e João, às margens do lago. O mesmo convite Ele dirigiu depois, com palavras diferentes, a Paulo, na estrada de Damasco.

Mas Jesus não se limitou àqueles chamados; no decorrer dos séculos Ele sempre atraiu a si homens e mulheres de todos os povos e nações. E continua a fazê-lo ainda hoje: Ele se apresenta na nossa vida, nos encontra em lugares diferentes, de modos diferentes, e nos faz ouvir novamente o seu convite a segui-lo.

Jesus nos chama a estar com Ele porque deseja estabelecer um relacionamento pessoal; e ao mesmo tempo nos convida a colaborar com Ele no grande projeto de uma nova humanidade.

Ele não se importa com as nossas fraquezas, os nossos pecados, as nossas misérias. Ele nos ama e nos escolhe tais como nós somos. É o seu amor que vai nos transformar e dar forças para responder-lhe, e coragem para segui-lo como aconteceu com Mateus.

E para cada um de nós Ele tem um amor particular, um projeto de vida, um chamado especial. É algo que se percebe no coração por meio de uma inspiração do Espírito Santo ou através de determinadas circunstâncias, ou por um conselho ou indicação de alguém que nos quer bem… Embora manifestando-se nos modos mais diferentes, a mesma palavra continua ecoando:

“Segue-me.”

Lembro de quando também eu percebi esse chamado de Deus.

Foi numa gelada manhã de inverno, em Trento, Itália. Minha mãe pediu à minha irmã caçula que fosse buscar o leite, a dois quilômetros de casa. Mas fazia frio demais e ela não teve coragem. Também minha outra irmã se recusou a ir. Então eu me adiantei: “Mamãe, eu vou!” Dizendo isso, peguei a garrafa e saí. A meio caminho aconteceu um fato um pouco especial: tive a impressão de que o Céu como que se abrisse e que Deus me convidasse a segui-lo. “Entrega-te inteiramente a mim”, foi o que senti no coração.

Era o chamado explícito, ao qual eu quis responder imediatamente. Falei sobre isso com o meu confessor, o qual permitiu que eu me doasse a Deus para sempre. Era o dia 7 de dezembro de 1943. Nunca serei capaz de descrever o que me passou no coração naquele dia: eu tinha desposado Deus. Dele eu podia esperar tudo.

“Segue-me.”

Esta palavra não se refere apenas ao momento no qual decidimos a nossa opção de vida. Dia após dia Jesus continua a dirigi-la a nós. “Segue-me”, é o que Ele parece sugerir-nos diante dos mais simples deveres do dia-a-dia; “Segue-me” – naquela provação que devo abraçar, naquela tentação a superar, naquele serviço que devo fazer…

Como podemos responder concretamente ao seu apelo?

Fazendo o que Deus quer de nós no momento presente, pois cada instante contém sempre uma graça especial. 
O nosso empenho para este mês, portanto, será entregar-nos à vontade de Deus com decisão; doar-nos ao irmão e à irmã que devemos amar; doar-nos ao trabalho, ao estudo, à oração, ao repouso, às atividades que devemos desempenhar. 

Devemos aprender a escutar no profundo do coração a voz de Deus que fala também com a voz da consciência, dispostos a sacrificar tudo para atuar aquilo que Ele deseja de nós em cada momento, e que essa voz nos revelará.
Faze que te amemos, ó Deus, não só todo dia cada vez mais – porque podem ser pouquíssimos os dias que nos restam –, mas faze que te amemos em cada momento presente com todo o coração, a alma e as forças, fazendo sempre a tua vontade.
Este é o melhor sistema para seguir Jesus.

 

Chiara Lubich

 

“Enviados”, mesmo de um leito de hospital

Por causa do agravamento da minha doença, tive que me internar novamente no hospital. Como estava fraca, tudo era mais difícil e parecia quase insuportável. Também o diagnóstico e a terapia não passavam de tentativas contínuas, e eu precisava sempre me superar e confiar em Deus, seguindo os médicos em cada idéia nova que eles tinham. Durante um final de semana, encontrei-me sozinha no quarto do hospital: que maravilha poder repousar um pouco e ‘respirar’! Mas, na terça-feira seguinte, o quarto ficaria novamente cheio. Preparei-me, prometendo a Jesus que teria visto e amado a Ele nas novas pacientes, quem quer que fossem. Queria me identificar com a Palavra de Deus e, para poder anunciar o Evangelho, deveria evangelizar, por primeiro, a mim mesma. Ele me levou a sério…! No início, parecia que me ‘faltava o ar’, era pior do que eu poderia imaginar. Não existia um momento de silêncio e eu passava as noites sem dormir. Descobri a preciosidade do momento presente, se não fosse assim eu não teria conseguido. Eu me sentia um pouco como ‘enviada’: também do leito do hospital, no qual me encontrava, podia fazer chegar o amor de Deus aos médicos e pacientes. Pouco a pouco, comecei a descobrir o positivo nas pessoas, os valores presentes em cada uma, apesar do era difícil para mim aceitar nelas. De repente, uma delas, aliás, a mais difícil, me disse o quanto era importante para ela ter um bom relacionamento com a companheira de quarto, e acrescentou: “Mas nós nos damos bem!”. Ela não tinha percebido nada e gostava de estar comigo. Constatei o quanto é importante não parar nos próprios limites, mas começar logo a amar, acreditando que Deus fará o resto. Percebi o quanto crescemos interiormente desde modo e nos tornamos fortes. Continuei assim por três semanas. Vi os efeitos! A fisioterapeuta estava maravilhada por me ver tão feliz, os médicos me olhavam com simpatia e se sentiam livres de fazer as terapias que eles julgavam que poderiam me ajudar, a ex-companheira de quarto me trouxe um presentinho dizendo que tinha rezado por mim na Igreja, para que eu não tivesse que fazer uma quimioterapia, como era previsto. Agora estou em casa e tenho uma paz e uma serenidade novas. (M. – Alemanha) Extraído do livro “Quando Dio interviene. Esperienze da tutto il mondo” – Editora italiana Città Nuova 2004