Movimento dos Focolares

México: visitas virtuais às comunidades cristãs

Nestes dias em que se celebra, no hemisfério norte, a Semana de Oração pela Unidade Cristã 2022, recebemos do México o relato de como foi idealizado o projeto ecumênico “Visitas Virtuais às comunidades cristãs”, que há um ano promove a unidade entre as diferentes Igrejas. “O México é um país de maioria católica. Ao viver a espiritualidade da unidade, descobrimos o anseio pela unidade dos cristãos, e há vários anos cultivamos bonitos relacionamentos ecumênicos”. São palavras de Dolores Lonngi, esposa de Pablo, ambos voluntários no Movimento dos Focolares, que acompanham, já há muitos anos, o diálogo ecumênico no México. Junto com sua filha, Úrsula, focolarina, em fevereiro passado iniciaram o projeto “Visitas virtuais às comunidades cristãs”, com a finalidade de estender o ecumenismo para além da Semana de Oração pela unidade e iniciar um caminho de fraternidade e comunhão de experiências. Saber como cada tradição vive e exprime a fé, na sociedade na qual se encontra, e identificar os modos de colaborar para o bem de toda a sociedade, foram o objetivo deste projeto desde o início. Úrsula, como aconteceram as visitas virtuais e por onde vocês começaram? “Para conduzir o projeto foi criada um Comissão Central formada por nós, pelo Oficial de Ecumenismo para a Igreja Anglicana no México e Presidente do Conselho Inter-religioso nacional, pelo Secretário da Comissão de Diálogo ecumênico e inter-religioso da Conferência Episcopal Mexicana, por uma professora de Teologia Ecumênica da Universidade Pontifícia do México e outra, de Ecumenismo, da Universidade Anahuac, da cidade de Querétaro, além de um sacerdote da Confraternidade dos Missionários Ecumênicos. A primeira visita foi à Igreja Anglicana, e depois passamos às Igrejas católicas orientais. Todas nos doaram verdadeiras “pérolas” (a história, os ministérios, o testemunho de fé e de caridade de jovens e adultos). Na Igreja Anglicana estavam presentes vários sacerdotes anglicanos e o bispo anglicano emérito do Uruguai, D. Miguel Tamayo, que contou sobre os encontros de bispos de várias Igrejas, promovidos pelo Movimento dos Focolares. Em cada uma das nossas “visitas virtuais” tivemos um momento de diálogo em pequenos grupos, o que proporcionou conhecer-nos melhor e tecer relacionamentos de amizade com pessoas de Igrejas diferentes”. Pablo, quais os momentos mais significativos e que tipo de pessoas participaram? “No programa do ano houve um momento de oração, por ocasião da Pentecostes (período no qual celebramos a Semana de Oração pela Unidade Cristã no hemisfério sul) e outras sete visitas virtuais a várias Igrejas, na última quinta-feira de cada mês, além de um festival ecumênico de leituras bíblicas e cantos, no início do Advento. Para difundir a iniciativa nas redes sociais e com a intenção de gerar uma comunidade ecumênica, abrimos canais Whatsapp, Telegram e Facebook que já nos primeiros meses do projeto chegaram a mais de 10.500 pessoas do Equador, Peru, Argentina, Venezuela, Colômbia, Costa Rica, Honduras, Estados Unidos, além de muitas cidades do México. Dolores, o que essa experiência deixou em vocês? “Ficamos muito surpresos pela grande resposta que a iniciativa teve e felizes por ter dado nossa pequena contribuição ao crescimento do espírito de unidade nas e entre as nossas Igrejas. Percebemos que assim podemos realizar o que já o Concílio Vaticano II propunha, no n. 5 da Unitatis Redintegratio: ‘O cuidado de reestabelecer a comunhão diz respeito à Igreja inteira, seja os fieis seja os pastores, e toca cada um segundo as próprias possibilidades, tanto na vida cristã de cada dia quanto nos estudos teológicos e históricos. De alguma maneira, tal cuidado já manifesta o liame fraterno que existe entre todos os cristãos e conduz à plena e perfeita unidade, conforme o desígnio da vontade de Deus’”.

 Maria Grazia Berretta

Chiara Lubich em diálogo com o mundo: a palavra se torna um dom

No dia 21 de janeiro de 2022, no auditório da sede internacional do Movimento dos Focolares (Rocca di Papa – Itália) será apresentado o livro “Chiara Lubich em Diálogo com o Mundo: Perspectivas interculturais, linguísticas e literárias em seus Escritos”, publicado pela Editora Rubbettino.  “Os escritos dos autores definidos como ‘mestres do espírito’ “frequentemente são considerados apenas como livros de edificação espiritual (…), oferecidos ao público em versões antológicas e com aparatos críticos concisos”. Na realidade, muitas vezes são obras de grande valor literário, testemunhos de uma linguagem viva, criativa e corajosa[1]“. Com estas palavras, Anna Maria Rossi, linguista, docente e colaboradora do Centro Chiara Lubich, introduz o leitor em um caminho de conhecimento, proposto pelo livro “Chiara Lubich em Diálogo com o Mundo, Perspectivas interculturais, linguísticas e literárias em seus escritos” (publicado pela editora Rubbettino), organizado por ela e por Vincenzo Crupi. Essa obra reúne os textos apresentados durante a Conferência homônima, realizada em Trento -Itália – de 24 a 25 de setembro de 2020, por ocasião do Centenário do nascimento de Chiara Lubich. A proposta de publicar esse livro “foi bem acolhida e sem reservas, pois considerada em plena conformidade com as diretrizes da coleção “Iride” da editora Rubbettino. Surgiu com o objetivo primordial de “se tornar um ponto de encontro entre pesquisadores italianos e estrangeiros para suprir a exigência de informação dialética” sobre o melhor que se produz no âmbito da crítica literária, linguística e filologia”, afirma Rocco Mario Morano, diretor da Coleção. “O volume sobre Chiara Lubich”, prossegue ele, “acrescenta a essa linha de pesquisa o mérito da vastidão e da profundidade de análises encontradas nos ensaios dos 25 pesquisadores que, de várias partes do mundo, fizeram bom uso da experiência de leitura e da própria sensibilidade e competência nos vários campos da disciplina, objeto de estudo”. Ao descrever a sua experiência espiritual, Chiara Lubich, a autora, acrescenta Morano, tem especial atenção ao uso de “modelos de escritura elaborados de acordo com a necessidade primária de comunicar seus próprios movimentos interiores e seus próprios pensamentos, permeados de uma rica espiritualidade e de uma grande religiosidade (…). Consequentemente surge a exigência de submeter seus textos a uma revisão contínua, a fim de permitir que aqueles que deles se beneficiam penetrem nos significados mais profundos em todas as suas nuances (…), um aperfeiçoamento que nunca exclui (…) o desejo vivo e a imensa alegria de oferecer a Palavra como um ato de amor a todos os homens de boa vontade do mundo inteiro, independentemente de suas crenças religiosas, políticas e filosóficas”. O livro, que será apresentado em 21 de janeiro de 2022 na sede internacional do Movimento dos Focolares. Na primeira parte aprofunda a leitura desses textos escritos por Chiara Lubich entre 1949 e 1951, mais conhecidos como “Paraíso 49”. Através de uma cuidadosa análise textual e de um estudo detalhado da linguagem mística, a palavra transmite a mensagem de uma experiência muito profunda que “a partir de imagens e metáforas”, diz Anna Maria Rossi, “oferece pistas para estabelecer paralelos intertextuais”. Mas a palavra também é vista como um meio que conduz a um ideal, à unidade. A segunda parte do livro, de fato, analisa os escritos de Lubich, revelando-a como uma “mulher de diálogo”, sempre voltada para o outro, atenta à dimensão multicultural dos seus interlocutores; uma mulher capaz de edificar com a palavra, de construir demolindo as diferenças, vivendo em plenitude o amor evangélico. Um amor que, até mesmo na passagem de uma língua para outra, através da delicadíssima tarefa de tradução, prevê o confronto, um intercâmbio com o outro, a existência de uma relação entre tradutor e autor, como explica Regina Célia Pereira da Silva, docente de Língua Portuguesa na Universidade para Estrangeiros de Siena – Itália, especializada em Tradução, Estratégias e Tecnologias da Informação Linguística: “As palavras de Chiara não provêm de uma simples teoria religiosa, mas são fruto de uma vida real, concreta, que jorrou do encontro com o divino. Somente se o tradutor fizer a mesma experiência, de doar-se comunicando, poderá compreender tais realidades, vivendo-as, não individualmente, mas coletivamente”. Para restituir ao mundo uma experiência de tamanha grandeza, respeitando os desejos do autor e eliminando qualquer possibilidade de ambiguidade na linguagem, não é suficiente se expressar na mesma língua, mas é necessário que o tradutor dê a própria ideia, se esvazie, esteja disposto a perdê-la; é necessário estabelecer um diálogo entre “o autor, tradutor e os  destinatários alvo do texto que – continua Regina Pereira – pressupõe uma dinâmica nova que é típica de Chiara Lubich (…) penetrar na necessidade do outro para compartilhá-la e, se possível, dar o primeiro passo. Isso requer humildade e amor. A relação autor-tradutor faz parte da nova comunicação baseada naquele nada que, por estar vazio, acolhe totalmente o outro com sua identidade e bagagem cultural. O tradutor ou o leitor entra no texto, no autor e adquire a experiência dele que o enriquece”.

Maria Grazia Berretta

[1] Rossi, Anna Maria in Chiara Lubich em Diálogo com o mundo, perspectivas interculturais, linguísticas e literárias nos seus escritos, organizado por Anna Maria Rossi, Vincenzo Crupi, Editora Rubbettino, 2021, p. 11.

Chiara Lubich: Onde há caridade e amor, ali está Deus

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (18-21 de janeiro de 2022) começa no hemisfério norte. Os cristãos do Oriente Médio, que prepararam propostas para esta semana, dizem: “O novo caminho para as Igrejas é o caminho da unidade visível que buscamos com sacrifício, coragem, audácia para que, dia após dia, “Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15,28)”. Em uma entrevista realizada pela TV bávara em 1988, em Montet (Suíça), Chiara Lubich falou justamente sobre como progredir no caminho da unidade cristã. Se nós falamos de unidade entre os cristãos, devemos pensar que o primeiro promotor não foi um cristão de uma Igreja ou de outra: é o Espírito Santo que impele os cristãos à unidade. Portanto, o programa antes de ser nosso é de Deus. Então, somos realmente pessoas prudentes e sabias, se seguirmos Deus. E o seguimos, escutando a sua voz que fala dentro de nós, que nos diz: primeiro este passo, depois aquele. As Igrejas seguem esses dois caminhos: construir a unidade na caridade, o diálogo da caridade que é típico de Atenágoras e Paulo VI, e depois o diálogo na verdade entre as Igrejas ou entre grupos de Igrejas. O que nós queremos é manter na base o ideal da caridade, porque mediante a caridade, se estabelece a presença de Cristo no nosso meio. Onde há a caridade e o amor, ali está Deus. Pois bem, se Jesus está no nosso meio, ele pode sugerir, iluminar também os teólogos a fim de que descubram os meios para se unirem e encontrar uma única verdade, a uma única verdade, talvez vista sob vários prismas. O que é necessário? É preciso continuar nesta linha. Aproveitando este impulso que as Igrejas receberam, prosseguindo o diálogo da caridade e sobre esta base o diálogo na verdade e da verdade. Em relação a unidade da humanidade, eu vejo que existem tantos impulsos em direção à unidade, também nós damos uma pequena contribuição. Sinto que muitas barreiras devem desmoronar, pois caindo as barreiras muitas coisas são resolvidas. (…) Se nós difundirmos o cristianismo e o reavivarmos nas nossas Igrejas, e conseguirmos dar um testemunho melhor de Cristo. E se difundirmos os princípios cristãos mediante o diálogo com outras religiões e pessoas de boa vontade, é certo que seremos cada vez mais “um”, porque Jesus veio à terra para criar a fraternidade universal, mas como será, só Deus sabe.

Chiara Lubich

(Chiara Lubich, Una spiritualità per la unità dei cristiani, Città Nuova, 2020, p. 122-123)

Evangelho vivido: dons preciosos

Doar-se, e dar ao outro o que de mais precioso possuímos, é o maior gesto que o homem, ao sair de si mesmo, pode realizar; é fazer a experiência dos Reis Magos que, do distante Oriente, chegaram à gruta levando preciosos dons para honrar o Rei dos Reis. As consequências de compartilhar Sou médica e há três anos estou aposentada. Nos últimos anos da minha atividade, antes da pandemia, servi em um centro de vacinação. Era um trabalho que exigia muito de mim.  Eu estava bastante cansada e esperava ansiosamente poder me aposentar. A chegada da pandemia, o início da campanha de vacinação em massa, o pedido de disponibilidade das forças necessárias (pessoal médico e enfermeiros, inclusive aposentados) suscitou em mim um forte chamado para voltar à ação, e me comprometer concretamente para frear esta onda que estava nos arrastando. Comecei a campanha de vacinação em um grande centro. É um trabalho envolvente. Come médica, eu devo fazer a anamnese preventiva e dar garantia para uma vacina segura. Trata-se de abrir o coração, além de que a mente e os conhecimentos científicos, escutar até o fim a pessoa que está diante de mim, entendê-la e acompanhá-la numa escolha consciente do que é melhor para o seu bem, e o da coletividade. Pude compartilhar muitas situações dolorosas de doenças, de histórias e situações familiares, de medo, ansiedade, desilusões, ideias e projetos destruídos pela pandemia, de morte de pessoas queridas, mas também de alegrias, esperança, liberação, encorajamento, confiança na ciência e na comunidade. As expressões que escutava eram: “obrigado, vocês nos salvaram, nos deram a paz… não via a hora de vir me vacinar… estou emocionada… eu me vacino por mim e pelos outros”. Em especial, a expressão de um senhor me deu a medida daquilo que pode ser o meu serviço à humanidade. Ele disse: “Eu sou uma pessoa que não acredita, mas se Deus existe, eu o encontrei hoje, em você”. Agradeci a Deus por este retorno, principalmente porque experimento a força da unidade em tudo o que faço e este testemunho é o testemunho de Deus-Trindade, que se manifesta por meio daquele “Focolare ambulante” que quis levar comigo. (M. P. – Itália) Açúcar e sapatos Chegando em casa, uma noite, vi as minhas filhas preocupadas: uma parente tinha vindo pedir açúcar, e tinha levado o pouco que ainda tínhamos. Eu as tranquilizei dizendo que ela precisava mais do que nós. Poucos minutos depois chegou uma conhecida com uma sacola cheia de alimentos para nós. Entre as várias coisas havia o dobro do açúcar que tínhamos dado. Algum tempo depois, com os primeiros salários, finalmente tínhamos conseguido comprar um par de sapatos para nossa filha mais velha. Um dia, voltando da escola, ela me disse que pensava em dá-los de presente a uma colega que tinha os sapatos estragados: “Mamãe, você nos ensinou que, para os pobres, devemos dar as coisas melhores”, ela disse. Sabendo quanto sacrifício tinham custado aqueles sapatos eu fiquei perplexa, mas senti que não podia contradizê-la. Três dias depois uma senhora nos trouxe um par de sapatos do mesmo número. Ela tinha comprado para sua filha, mas eram pequenos demais. Nossa filha olhou para mim, surpresa e feliz. Desde quando procuramos viver as palavras de Jesus, experimentamos que Deus é Pai e nos conduz pela mão. (C. E. – México)

Aos cuidados de Maria Grazia Berretta

(retirado de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, anno VIII, n.1, gennaio-febbraio 2022)

A sinodalidade na América Latina

A sinodalidade na América Latina

A Igreja na América Latina fez uma experiência inédita na realização da Assembleia Eclesial: um caminho feito por todo o Povo de Deus, num processo que teve seu ponto forte no final de novembro passado, e que agora continua para atuar as orientações pastorais evidenciadas. “Vivemos uma verdadeira experiência de sinodalidade, na escuta recíproca e no discernimento comunitário daquilo que o Espírito Santo deseja dizer à sua Igreja. Caminhamos juntos reconhecendo a nossa poliédrica diversidade, mas, principalmente, aquilo que nos une e, no diálogo, o nosso coração de discípulos olhou para a realidade que o continente vive, nos seus sofrimentos e esperanças”. Assim afirmaram os 885 membros da Assembleia Eclesial da América Latina e Caribe, realizada de 21 a 28 de novembro, de modo virtual e presencial, no México, com representantes de todos os países do continente americano. “No dia 24 de janeiro de 2021 – diz Susana Nuim, focolarina uruguaia, coordenadora do Cebitepal, órgão da Conselho Episcopal da América Latina e Caribe (CELAM) que se dedica à formação – o Papa Francisco abriu o processo desta primeira assembleia eclesial, com a indicação de que tomasse parte todo o Santo Povo de Deus, isto é, cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas, leigos e leigas, incluindo todas as gerações e todas as culturas”. Um caminho que envolveu todas as dioceses, as paróquias, as comunidades e os movimentos em um tempo de “escuta”. Chegaram 70 mil respostas coletivas ou individuais que serão reunidas em um livro. Deste material saíram as grandes linhas sobre as quais trabalhou-se nos vários grupos. “Na minha opinião – continua Susana Naim – os grupos constituíram um espaço muito interessante, pelo compromisso e o interesse dos participantes. Trabalhávamos durante três horas seguidas, com muita liberdade de expressão, com vontade de mudança”. “Para mim foi uma verdadeira experiência de sinodalidade – intervêm Sandra Ferreira Ribeiro, focolarina brasileira, corresponsável no Centro Uno, a secretaria para o diálogo entre cristãos de diferentes Igrejas do Movimento dos Focolares -. Todo dia, nos trabalhos de grupo, havia uma nova pergunta a ser respondida com base na temática vista na primeira parte do dia. No nosso grupo éramos 14 pessoas de vários países, vocações e idades, todos conectados via Zoom. Inicialmente ouvíamos o pensamento de cada um, depois procurávamos identificar uma prioridade naquilo que viera em relevo, fazendo uma síntese”. Um trabalho intenso e fecundo, com breves pausas de intervalo que às vezes eram até deixadas de lado para continuar o diálogo, e assim enviar à equipe de coordenação alguma reflexão pessoal. Os recursos online permitiram uma participação maior, ainda que isso tenha representado um limite no conhecimento mútuo, aquele que nasce espontaneamente “nos corredores”, nos intervalos e que faz também parte da sinodalidade. Os momentos de oração, muito bem preparados especialmente pelas religiosas e religiosos, exprimiram as contribuições culturais com símbolos e expressões musicais, sempre fundamentados na Palavra. Como em qualquer caminho sinodal houve inclusive espaço para a discordância, para a troca entre pontos de vista às vezes divergentes, mas que nunca levaram a confrontos ou rupturas. De maneira expressa decidiu-se não redigir um documento final, porque há ainda muito o que colocar em prática no Documento de Aparecida (2007). Além disso, esta Assembleia é apenas um passo no caminho iniciado que deve continuar, e continuará. A decisão foi lançar uma mensagem a todo o Povo de Deus da América Latina e Caribe, que contém os desafios e as orientações pastorais prioritárias, que vão do novo impulso enquanto Igreja em saída ao protagonismo dos jovens e das mulheres; da promoção da vida humana, da concepção à morte natural, à formação à sinodalidade. Desafios que incluem a escuta e o acompanhamento dos pobres, excluídos e descartados, com a finalidade de redescobrir o valor dos povos originários, a inculturação e a interculturalidade; prioridade em colocar em prática os sonhos de “Querida Amazônia”1 pela defesa da vida, da terra e das culturas originárias e afrodescendentes. E, não por último, dar cuidadosa atenção às vítimas de abusos ocorridos no contexto eclesial, e trabalhar para a prevenção. Entre os convidados, estavam presentes o cardeal Marc Ouelet, prefeito da Congregação para os Bispos e presidente da Pontifícia Comissão para a América Latina; o cardeal Mario Grech, secretário geral do Sínodo dos Bispos; representantes das conferências episcopais regionais, que acompanharam os trabalhos com grande interesse. “Foi um momento privilegiado para poder encontrar a Igreja da América Latina – conclui Sandra Ferreira Ribeiro -. No meu grupo havia bispos, sacerdotes, religiosos, leigos. Reencontrei a Igreja justamente nos seus membros, nas pessoas que exprimiam as próprias ansiedades e preocupações. Foi emocionante ver a Igreja latino-americana viva, dinâmica, e o seu desejo de levar a fraternidade, o Reino de Deus. O desejo de levar, verdadeiramente, Jesus a todos”.

Carlos Mana

 Para baixar a mensagem final: https://www.cec.org.co/sites/default/files/MENSAJE%20FINAL-Asamblea-Eclesial.pdf 1 “Querida Amazônia” é uma exortação apostólica pós-sinodal de 2020, do Papa Francisco, em resposta ao Sínodo dos Bispos da região Pan-Amazônica, realizado em Roma, em outubro de 2019.

O segredo de Palmira

O segredo de Palmira

Palmira Frizzera, uma das primeiras companheiras de Chiara, nos deixou no dia 05 de janeiro de 2022, mas viverá nas recordações e na vida de muitos – focolarinas, focolarinos, jovens, famílias – que foram acompanhados por ela em sua formação na Mariápolis Foco (Montet, Suíça), a mariápolis permanente do Movimento dos Focolares, onde viveu por mais de 40 anos. Recordamos, por meio de suas palavras, alguns momentos que marcaram seu caminho de vida. “Senhorita, nada mais pode ser feito pelos seus olhos.” O médico deu a Palmira Frizzera um diagnóstico muito duro alguns meses depois da sua chegada ao primeiro focolare na Praça dos Capuchinhos em Trento. Palmira tinha 18 anos quando, três anos antes, em 1945, havia conhecido o primeiro grupo de focolarinas. Tinha um problema nos olhos há muito tempo e, por causa dele, não realizou seu sonho de partir como irmã missionária para Índia. E agora, esse problema se reapresentava com gravidade. Depois de várias visitas a especialistas, naquele dia havia ido a um oculista de Trento, acompanhada por outra das primeiras companheiras de Chiara Lubich, Natalia Dallapiccola. “O médico me examinou minuciosamente”, contou Palmira a um grupo de meninas em 2004, “e depois disse: o olho direito já está perdido e está a ponto de perder o olho esquerdo”.

© CSC Audiovisivi

Que balde de água fria! “Assim que saí daquela consulta, ainda nas escadas, caí em prantos, eu soluçava e dizia para mim mesma: ficarei cega com apenas 21 anos, e justamente agora que encontrei o ideal mais bonito da minha vida, que ninguém pode tirar de mim. Agora que encontrei a alegria de viver e que gostaria de gritar ao mundo inteiro, devo me tornar cega. E chorava.” Estava chovendo e, debaixo do guarda-chuva, Natalia a segurava pelo braço e a acompanhava em silêncio. “Em um certo momento”, continua, “parei no meio da rua e disse: Mas Natalia, como é que estou chorando tanto porque perderei a vista? Para ver Jesus no irmão, esses olhos não me servem, preciso dos olhos da alma e esses, se não quiser, não perderei jamais (…). Vou fazer agora um pacto com Jesus e você será testemunha. Se dou mais glória a Deus com os olhos, que ele deixe-os para mim; mas se dou mais glória sem os olhos que ele os tome, porque quero fazer somente a sua vontade. Depois, pensei: Jesus no Evangelho não disse que é melhor ir para o Paraíso sem olhos do que para o inferno com dois olhos? A partir daquele momento, não sofri mais”. “Depois, escrevi a minha experiência para Chiara Lubich”, continua Palmira, “cheia de alegria, porque eu estava feliz, não me faltava realmente nada”. Nesse ínterim, outros especialistas foram consultados, entre eles um que, depois de tê-la examinado atentamente, lhe disse que a doença era grave, mas unilateral, ou seja, havia atingido apenas o olho direito, o qual provavelmente perderia, mas o esquerdo estava saudável e não corria perigo algum. “Foi assim”, continua Palmira, “que perdi o direito, mas o esquerdo nunca me causou, em todos esses anos, o menor problema. Ficou entendido que eu teria dado mais gloria a Deus com os olhos. E, para dizer a verdade, com este olho esquerdo sempre enxerguei por dois”. E conclui: “Muitas vezes temos medo de dar algo a Jesus, um afeto, um apego, alguma coisa dos estudos. Quando, em vez disso, valeria a pena dar-lhe tudo sempre, porque Ele não se deixa vencer pela nossa generosidade que é sempre pouca em comparação à sua, pois Deus é Amor e ele responde sempre com o cêntuplo”.

© CSC Audiovisivi

Nos anos seguintes, Palmira teve diversas responsabilidades pelo Movimento dos Focolares na Itália. Em 1981, Chiara Lubich pediu-lhe que fosse, juntamente com outros focolarinos, a Montet, na Suíça, onde estava nascendo uma mariápolis permanente. Deveria permanecer apenas três dias para avaliar os trabalhos necessários de reestruturação. Passados os três dias, os outros partiram e ela ficou sozinha, em um apartamento em Estavayer-le-Lac, a cidade vizinha. A um certo ponto, sentindo um desconforto diante da grandeza do que a esperava, se ajoelhou e recitou o Pai-Nosso. Recorda: “Quando cheguei na frase ‘seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu’, a disse em voz alta e encontrei uma paz que ainda não perdi”. Aqueles três dias se transformaram em 40 anos. Palmira construiu a mariápolis permanente junto com outros, acompanhou e formou gerações de jovens. Com simplicidade e franqueza, suas características peculiares, se perguntava em 2017: “Eu consegui? Não sei. Sempre procurei amar com o coração para não me enganar, porque com a cabeça sempre posso errar, mas, se ama-se com o coração, prontos a vida, não. Acredito que quem ama, nunca erra”.

Carlos Mana