No turbilhão das notícias rápidas sobre a guerra no Líbano, as histórias individuais se perdem e os rostos humanos se apagam por trás de tantos deslocamentos e notícias sobre bombardeamentos. E a realidade, como revelam os testemunhos, é muito mais profunda e dolorosa do que os noticiários mostram. Neste “tempo de guerra”, centenas de milhares de libaneses vivem em uma condição de deslocamento constante, como se fosse um destino que muda a cada nova onda de violência. Mas, em meio a essa escuridão, surgem também rostos humanos que buscam restituir o significado à vida.
Desde o início da escala e com a expansão dos ataques aéreos e das ordens de evacuação, o deslocamento não é mais um evento isolado, mas se tornou um estilo de vida. Estão sendo evacuadas não somente áreas isoladas, mas regiões inteiras, do sul de Bekaa até o coração da capital Beirute. Nesse cenário, o número de deslocamentos passa dos milhões, em uma das maiores ondas de deslocamento interno na história recente do país. São muitas as vítimas civis.
Por trás desses números, se escondem histórias humanas que resumem a tragédia. Zeina Chahine conduziu algumas entrevistas para contar as dores das pessoas e, ao mesmo tempo, a grandeza da ação humanitária que se torna encontro, consolo e força coletiva contra a injustiça.
Marwan, um dos refugiados do sul, resume a experiência com uma frase dolorosa: “Estamos desaparecendo lentamente”. Não é só uma metáfora, mas a descrição de uma vida que está sendo consumida gradualmente, em que as pessoas perdem a casa, o trabalho e a estabilidade, sem perder completamente a esperança… mas ela se desgasta. Marwan acrescenta que até a ideia de retorno mudou: não sonha mais com sua casa, mas simplesmente em voltar, de qualquer forma possível.
Já Nawal conta sobre o momento da fuga forçada: um telefonema no meio da noite, poucos minutos para pegar o que é possível carregar e a fuga sob os bombardeamentos. “O que devemos levar?”, é uma pergunta que resume a impotência diante da velocidade do desabamento. Uma pequena mala em vez de uma vida inteira deixada para trás. Ela também, como muitos outros, não se deslocou somente uma vez, mas repetidas vezes, até que o retorno à “tábula rasa” se tornou parte da própria experiência.
As crianças e os jovens também pagam preço. Suleiman, 16 anos, não está na escola, está em um refúgio temporário, e resume a guerra dizendo: “É a minha cruz nesta vida”. Palavras que mostram como a guerra não rouba apenas o presente, mas também a inocência da idade.
Mas ao lado dessa dor também vive outra imagem, não menos presente: aquela da solidariedade humana. Entre escolas transformadas em centros de acolhimento e cantos superlotados da cidade, emergem voluntários e iniciativas individuais que buscam preencher o vazio da ausência. Pessoas que dormem no chão, com falta de bens essenciais, e tentativas graduais de fornecer colchões e cobertores. A necessidade não é somente de comida e água, mas também de tudo o que preserva a dignidade humana, como produtos de higiene pessoal… porque também nos deslocamentos o ser humano precisa se sentir com dignidade.
Abir, mãe e voluntária, vê a ajuda como um dever humano antes de tudo. Diz que o que mais toca é “o medo nos olhos das pessoas”, aquela ansiedade constante de um futuro incerto. Mas, ao mesmo tempo, observa também o forte impulso à solidariedade: “As pessoas correm para ajudar, sem pedir nada”. Em um contexto em que as instituições às vezes são limitadas, as iniciativas individuais se tornam a primeira linha de defesa da humanidade.
Esse encontro entre dor e solidariedade revela uma forte contradição: a guerra divide as pessoas, mas, ao mesmo tempo, cria espaços inesperados de solidariedade. É como se a sociedade, nos momentos de colapso, descobrisse a si mesma por meio de seus indivíduos.
E, apesar das diferenças das opiniões, o ponto comum permanece sendo o sentimento de desenraizamento e a rejeição à guerra e às suas tragédias. Com o passar do tempo, também a forma da esperança muda: de “se Deus quiser, voltaremos a encontrar nossas casas” para simplesmente “se Deus quiser, voltaremos”. Uma esperança que diminui, mas não se apaga.
Uma pergunta está na ponta da língua de todos: “Para onde iremos amanhã?”. Não é uma pergunta sobre um destino preciso, mas sobre o próprio destino.
E, apesar da dor, esses testemunhos revelam uma verdade dupla: a guerra fere profundamente o ser humano, sim, mas não consegue apagar a humanidade. Entre uma tenda e um refúgio, entre perda e nostalgia, nasce outra forma de resistência: a resistência da solidariedade.
Assim, enquanto alguns murcham lentamente, outros brotam com o que podem de solidariedade, mantendo a vida possível. Porque a fé, na fraternidade humana, é uma realidade que temos no nosso interior, vivendo e praticando, transmitida pelos nossos pais e avós, até se tornar sangue nas nossas veias e parte da nossa civilização.
por Rima Saikali
Al Madina Al Jadida
Está ativa a emergência Oriente Médio. Cada contribuição permite confortar muitas famílias atingidas pelo flagelo da guerra: muitas perderam a casa, outras procurar refúgio em estruturas que abrem as portas apesar de ter recursos cada vez mais limitados.
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Fotos: ©Pexels-Mohamad-Mekawi




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