Movimento dos Focolares

Eu não podia tirar o corpo fora

Às vezes as relações mais próximas são as mais difíceis. É a experiência de Miso Kuleif e de seu pai. “Sempre tive uma relação difícil com meu pai, nem eu nem o resto da família conseguimos estar de acordo com ele e por isso sofremos muito. Mesmo assim, num preciso momento da minha vida fiz uma descoberta: ele realmente gostava de mim e eu também gostava dele”. Assim Miso Kuleif, 25 anos, nascida na Jordânia e há mais de vinte anos residente na Itália, com sua família, inicia sua narrativa. O pai de Miso, por muito tempo teve graves problemas de saúde, mas a guinada aconteceu há cerca de três anos, quando soube que deveria enfrentar, com urgência, um transplante de fígado. Já que na Jordânia é possível fazer este tipo de procedimento com um doador vivo, o que não se permite na Itália, o pai decidiu operar-se em sua terra natal. “O problema – continua Miso – era encontrar um doador, e pessoas dispostas a fazerem os exames de compatibilidade. Quando soube eu não pensei muito. Viajei com ele para submeter-me aos exames”. “Onde encontrei a força? Ajudou-me o fato de viver, há alguns anos, a espiritualidade da unidade – explica. Conheci os Focolares em minha cidade, por meio do Movimento Diocesano, que leva esta espiritualidade a várias dioceses e paróquias, entre as quais a minha. Nos encontros, muitas vezes nos propúnhamos a amar, como ensina o Evangelho, dispostos a dar a vida uns pelos outros. Agora eu não podia tirar o corpo fora. Se temos a possibilidade de salvar uma vida, não podemos deixar de fazê-lo”. Miso então deixa a Itália e interrompe a Universidade, sem saber quando poderia voltar. Ao chegar na Jordânia a experiência é dura. “Eu estava lá, sozinha, cercada por uma família à qual eu tinha impressão de não pertencer. Se tivesse que ser operada, todas as pessoas que teria desejado ter perto não estariam comigo”. Mas ela vai adiante. Os exames, porém, revelam que Miso não é compatível. Pouco tempo depois encontra-se um doador: é o irmão do pai, o único, depois de Miso, que aceitou ser avaliado. “Precisei um pouco de tempo para metabolizar esta experiência. Inclusive graças a tantas pessoas do Movimento que estiveram comigo, consegui desenvolver a consciência de quanto quero bem ao meu pai, ainda que me seja difícil admitir isso. Odiar alguém é muito mais fácil, mas muito mais deletério. O verdadeiro problema não era a situação em si, mas como eu a enfrentei. Aprendi que é sempre possível ser felizes, que isso depende de nós. No Evangelho está escrito: ‘gratuitamente recebestes, dai gratuitamente’. Agora me dou conta da importância destas palavras. Se a minha vida houvesse transcorrido de outro modo, talvez tudo tivesse sido mais simples, mas eu não seria aquela que sou hoje”.

Evangelho vivido: “Busca a paz sem desistir”

A Palavra de Vida deste mês é um convite à acolhida e à generosidade para com todos Escutar Ultimamente, por causa de uma doença, tenho dificuldades para falar e, para mim, comunicar é vital! Não posso fazer mais do que um certo limite, mas, isto sim, posso acolher e escutar profundamente quem vem me visitar. Às vezes as pessoas me contam muitos sofrimentos, mas, ao irem embora, parecem aliviadas. E então agradeço a Deus por esta minha condição. (Marisa – Itália) Pulôver O meu marido estava se preparando para viajar para um congresso e precisava de um par de sapatos e de um pulôver. Os sapatos conseguimos comprar, mas para o pulôver não tivemos tempo, porque nos pareceu mais importante ir a um encontro com um grupo de famílias, onde compartilhamos as nossas experiências de evangelho vivido. Pois bem, justamente lá, no grupo, uma senhora levou dois pulôveres para quem precisasse. Experimentando-os, para nossa grande surpresa, serviram ambos para o meu marido. (D. M. – Sérvia) Oração O meu marido e eu estávamos procurando uma moradia para o meu irmão que estava para se casar, mas preços e condições tornavam difícil a escolha. O tempo passava e crescia em mim a preocupação. Como eu gostaria de ajudá-lo! Um dia, o nosso filho menor nos sugeriu uma coisa na qual não tínhamos pensado: pedir a Deus o que tanto estávamos precisando. Assim fizemos. Poucas horas depois, o meu irmão me chamou todo contente: tinha encontrado o apartamento justo! (M. N. – Líbano)

No Nepal, para criar liames

No Nepal, para criar liames

O que os leva a viajar para vivenciar um “focolare temporário” é o desejo de compartilhar a descoberta que deu sentido e alegria às suas vidas. A fim de que outros possam experimentar que viver pela fraternidade universal é a mais linda das aventuras. São jovens, adultos e famílias que, em pequenos grupos, partem para países distantes, onde os esperam comunidades e lugarejos, para percorrerem juntos um trecho de estrada e fazer a experiência da acolhida e da troca entre culturas diferentes, na doação ao outro e no “fazer-se um”, nas alegrias e das dores. Porque – estão convencidos – o homem realiza plenamente a si mesmo amando o seu próximo. E a fraternidade é possível inclusive entre pessoas de credos e convicções diferentes: “Faça aos outros o que gostaria que fosse feito a você” é a Regra de Ouro que todos os homens podem assumir como própria. Esses pequenos grupos são os assim chamados “Focolares temporários”, tradução itinerante dos tradicionais focolares, centros nodais do Movimento em um território e coração da sua vida interna. Nos últimos anos surgiram dezenas deles. No rastro dos “pioneiros” do Movimento dos Focolares, que a partir dos anos 1950 foram enviados por Chiara Lubich aos vários continentes para levar o carisma da unidade. Como apóstolos modernos. No Nepal, ponto de encontro entre as populações mongóis da Ásia e as caucasianas das planícies indianas, com uma espiritualidade profunda, com o cristianismo e o hinduísmo que flanqueiam o budismo, um grupo de focolarinos realizou a sua viagem. De 20 de outubro a 7 de novembro de 2018, da capital, Katmandu a Dharan, no sul, e depois mais ao norte, a Pokhara. Mais do que tudo, criando liames. Provenientes da Índia, Itália e Grã-Bretanha, imediatamente os membros do Focolare imergiram-se na cultura nepalesa. Quando chegaram estava se realizando o Festival hindu Dashain, o maior festival hindu, que envolve o país inteiro, e participaram do rito da Tika, recebendo a benção tradicional. Em Daharan o grupo foi recebido em algumas paróquias, contou a história do Movimento e falou do compromisso pela fraternidade universal. Grande entusiasmo das pessoas encontradas, assim como dos sacerdotes. Na capital, dois jovens nepaleses uniram-se ao grupo. Eles haviam participado do Genfest 2018, em Manila, e compartilharam sua experiência com os estudantes de uma escola dirigida pelos padres jesuítas. Em Pokhara o encontro com algumas famílias hindus, pobres e sem recursos: harmonia e dignidade enchiam aquelas casas. Os focolarinos falaram do ideal da unidade, antes de serem convidados para almoçar, escutando músicas tradicionais. Em seguida o grupo visitou o bispo, D. Paul Simick, Vigário Apostólico do Nepal, que se mostrou feliz pela presença deles no país e os convidou a encontrarem-se com os sacerdotes. Uma viagem, ao Nepal, de enriquecimento mútuo, com o encontro entre o ideal da unidade e a cultura local. Um ditado budista a descreve de forma muito eficaz: Aqueles que tem pensamentos “altos” não estão felizes de ficar no mesmo lugar, mas como os cisnes deixam suas casas e voam para uma casa mais alta.

Claudia Di Lorenzi

O presente e o futuro de Fontem

Há meses acompanhamos com apreensão como está evoluindo a situação da primeira Mariápolis permanente africana. Entramos em contato com Margaret Long e Etienne Kenfack, que em nome da comunidade nos fazem o ponto da situação. “2018 foi, para Fontem, um ano difícil pelos choques que até agora estão em andamento na região norte ocidental e sul ocidental do país e que não dão sinais de se aplacarem. Muitos dos habitantes tiveram que deixar as casas e se proteger na floresta ou nas cidades vizinhas, o colégio está fechado faz tempo e o hospital funciona em regime reduzido. “Desde quando nós focolarinos partimos de Fontem no mês de outubro passado, – decisão não fácil, mas assumida juntos na certeza de que era a coisa justa – explica Margaret Long, muitos outros se mudaram, sobretudo famílias que queriam dar aos próprios filhos a possibilidade de frequentar as escolas, o que na cidadezinha não era mais possível. Infelizmente não estamos em condições de dizer quando a vida poderá ser retomada como antes. Estamos em contato diário com quem ficou lá: Aracelis Nkeza e Mbe Tasong Charles levam em frente a vida da comunidade do Focolare”. “No que se refere ao hospital – continua Etienne Kenfack – o atual estado de perigo não nos permite garantir proteção e segurança a quem trabalha ali. Portanto, nos dirigimos às autoridades sanitárias para entender como ir adiante e, baseados nos conselhos deles compartilhamos a situação com os funcionários e encerramos a relação de trabalho segundo a normativa vigente na República dos Camarões. Aqueles que quiseram continuar o trabalho, decidiram isso livremente, sob a própria responsabilidade pessoal; é por isso que a estrutura continua a garantir um serviço básico mínimo à população. Ao perguntarmos como será o futuro da cidadezinha, Margaret responde que existe em todos uma grande esperança de que a vida retome e que as pessoas voltem à normalidade. “A proximidade daqueles muitos que rezam no mundo inteiro ou nos escrevem nos dá muita força”. Poderia surgir a dúvida se o conflito, além de destruir vidas humanas, bens materiais e sonhos, não esteja comprometendo também a missão de Fontem como farol de unidade e diálogo intercultural para o continente africano, assim como Chiara Lubich a tinha visto. Etienne especifica que desde os primeiros anos 1960, Chiara comparava a cidadezinha a uma luz que brotava do amor mútuo vivido por todos: “Hoje, cinquenta anos depois, a impressão é de que este amor e a solidariedade entre todos tenham crescido, aliás, se poderia dizer que quanto mais perigo e precariedade existem, mais crescem”. Margaret acrescenta que muitas coisas mudaram na África desde aqueles inícios: “Naqueles tempos, a espiritualidade da unidade tinha chegado só a Fontem, enquanto que hoje atingiu todos os países do Continente. Há a cidadezinha de Man (Mariápolis Vittoria) na Costa do Marfim, que testemunha o diálogo intercultural, e também a Mariápolis Piero no Quênia, centro de formação para a espiritualidade da unidade para todo o Continente Africano; além disso, muitos focolarinos que estavam em Fontem, agora estão partindo para reforçar outros focolares do continente. “Apesar dos contínuos desafios, das incertezas de cada dia, de não saber como irão terminar as coisas, temos a certeza de que o desígnio de Deus para Fontem não se interrompeu, mas como diz o Papa Francisco, estamos só no início e o Espírito Santo, que renova todas as coisas, seguramente renovará também Fontem”.

Organizado por Stefania Tanesini

“Gerar a igualdade para suscitar a paz”

Por ocasião do 52° Dia mundial da paz, e em apoio à mensagem do Papa intitulada “A boa política está ao serviço da paz”, propomos uma mensagem de Chiara Lubich de 2002, quando interveio no Colosseu em Roma (Itália) durante um encontro com os jovens pela unidade do Movimento dos Focolares. Qual é a chave para promover a paz? Viver a regra de ouro para construir a fraternidade universal. https://vimeo.com/148653351 […] A paz. Mas será que a paz é um tema de tão grande atualidade? Claro que sim, e talvez mais do que nunca. E não só pelas dezenas de guerras em curso no nosso planeta, mas também porque hoje a paz sofre uma ameaça diferente, mais disfarçada. […] A situação, portanto, é séria. Se as coisas estão assim, não é suficiente opor-se a tamanho perigo unicamente com as forças humanas. É necessário empregar as forças do Bem, com B maiúsculo. Todos vocês sabem o que é esse Bem: é, em primeiro lugar, Deus, e tudo o que se refere a Ele: o mundo do espírito, dos grandes valores, do amor verdadeiro, da oração. […] A paz é hoje um bem tão precioso que todos nós, adultos e jovens, pessoas de grandes responsabilidades e simples cidadãos, devemos protegê-la. […] Naturalmente, para saber como nos comportarmos, é preciso conhecer bem as causas mais profundas da atual e dramática situação. Também vocês sabem que no mundo não reina a justiça, que existem países ricos e pobres, famintos, enquanto o plano de Deus sobre a humanidade seria que fôssemos todos irmãos, numa só e grande família com um único Pai. […] Então, como criar maior igualdade, como suscitar uma certa comunhão de bens? É óbvio que os bens não se movem, se não se moverem os corações. É preciso, portanto, difundir o amor mútuo, que gera a fraternidade. É preciso invadir o mundo com o amor, começando por nós mesmos. Assim vocês devem fazer, jovens. Mas, alguém aqui poderia me perguntar. “O amor mútuo é compatível com o estilo de vida que as nossas culturas nos transmitiram?” Sim, é compatível. Leiam os seus Livros Sagrados e encontrarão – pois está presente em quase todos – a denominada “Regra de ouro”. O cristianismo a conhece nos seguintes termos: «“Não faças aos outros aquilo que não gostarias que fosse feito a ti” (Lc 6,31). O hebraísmo: «Não faça a ninguém o que você não gosta» (Tb 4,15). O Islamismo: «Ninguém é um verdadeiro fiel se não deseja para o irmão o que deseja para si mesmo» (Hadith 13, Al Bukhari). E o hinduísmo: «Não faça aos outros o que causaria dor se fosse feito a você» (Mahabharata 5: 1517). São frases que significam: respeitem e amem o próximo. Portanto, se um jovem muçulmano amar, se um jovem cristão amar, se você, hebreu, amar, se um jovem hindu amar, certamente vão conseguir amar-se reciprocamente. E assim entre todos. Eis realizada uma porção da fraternidade universal. […] Amar é um dos grandes segredos do momento. Amar com um amor especial. Não basta aquele dirigido unicamente à própria família e aos amigos, mas é preciso amar a todos, simpáticos e antipáticos, pobres e ricos, pequenos e grandes, da nossa pátria ou de outra, amigos ou inimigos… a todos. E ser os primeiros a amar, tomando a iniciativa, sem esperar ser amados. E amar não só com palavras, mas concretamente, com fatos. E amar-se mutuamente. […] Se fizerem assim, se todos fizermos assim, a fraternidade universal se alargará, a solidariedade florescerá, haverá uma melhor distribuição dos bens, e poderá resplandecer no mundo o arco-íris da paz, sobre aquele mundo que, daqui a poucos anos, estará nas mãos de vocês. Chiara Lubich  (Collegamento CH – 5 de dezembro de 2015)