Movimento dos Focolares

Jerusalém: A cidade de todos

Das vozes dos habitantes de Jerusalém, uma perspectiva que descobre sementes de esperança na cidade mais disputada do mundo para além do que as notícias nos mostram diariamente. https://vimeo.com/320465249

Façamos um balanço da fraternidade

Façamos um balanço da fraternidade

Roberto Catalano do Centro para o Diálogo Inter-religioso dos Focolares nos oferece uma leitura do contexto, do percurso histórico e geopolítico que acompanhou a redação do histórico documento sobre a Fraternidade humana para a paz e a convivência em comum, co-assinado pelo Papa Francisco e pelo Imã de al-Azhar, Ahamad al-Tayyib em Abu Dhabi, no dia 4 de fevereiro passado. A fraternidade universal ainda é um objetivo primário para a humanidade? Que valor tem nesta época dominada por bolhas digitais, confins pessoais e coletivos cada vez mais delineados, novos protecionismos econômicos e assim por diante? A declaração de Abu Dhabi assinada pelo Papa Francisco e pelo Imã de al-Azhar restitui a fraternidade ao centro do tabuleiro geopolítico e também mediático: o tom claro e concreto do documento-declaração repropõe a fraternidade como objetivo para a família humana inteira e não só para as duas religiões cristã e muçulmana. Roberto Catalano nos explica contexto e percursos desta que é uma etapa de fundação do diálogo para a paz mundial. Qual é o valor da declaração assinada pelo Papa Francisco e pelo Imã al-Tayyib em Abu Dhabi no dia 4 de fevereiro passado? O documento sobre a fraternidade representa um marco e propõe um texto que permanecerá paradigma de referência. Impossível não reconhecer o seu valor profundamente inovador. Mais uma vez nos encontramos diante de uma ‘première absoluta’ do Papa Bergoglio. Nunca antes na história da Igreja acontecera que um papa assinasse um documento em comum com um líder de outra religião. A assinatura aconteceu num contexto preciso, caracterizado por abraços, discursos, caminhadas de mãos dadas dos líderes da Igreja Católica e de al-Azhar. O texto compartilhado interpela não só profissionais da área e líderes religiosos, mas todos os fiéis e os habitantes do mundo. Roberto CatalanoOs Emirados Árabes são um pouco uma fachada deste mundo globalizado: a península arábica é o coração do Islã, mas conta também com uma crescente presença de trabalhadores provenientes de outros países e culturas… Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos e lugar da assinatura do documento é a última extremidade da península arábica. Todos estes estados têm um significado importante seja no tabuleiro da economia seja no da geopolítica. Em poucas décadas, a posse do petróleo permitiu um progresso vertiginoso inclusive graças a uma mão-de-obra proveniente de países como as Filipinas, a Índia, o Paquistão, o Bangladesh. A península arábica é o coração do Islã, mas apresenta um verdadeiro mosaico muçulmano. Dominante é a presença do Reino Saudita, imagem do Islã sunita que se identifica com o wahabismo, que, também em nível internacional, apoia o salafismo. À frente de tudo isto, está um fenômeno novo de comunidade cristã. De fato, enquanto as Igrejas cristãs tradicionais e apostólicas do Oriente Médio vivem momentos dramáticos que frequentemente obrigam os cristãos a fugir, a região dos Emirados está se povoando de uma nova cristandade, uma verdadeira fachada da cristandade de hoje. A maioria dos católicos são filipinos e indianos, mas também do Oriente Médio. Estamos no período da globalização e a Igreja nos Emirados é uma das suas expressões mais características. Também na recente viagem do Papa Francisco ao Marrocos foram recordados os 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o Sultão Malik al-Kamil. Este papa parece ter empreendido uma espécie de “peregrinação de paz”… É bem assim. Também Abu Dhabi se insere neste aniversário, como sinal do desejo de ser «irmão que busca a paz com os irmãos» para «ser instrumentos de paz». A Declaração Conciliar Nostra Aetate afirma que no «decorrer dos séculos, surgiram não poucas dissenções e inimizades entre cristãos e muçulmanos» e, portanto, o Concílio dispôs exortar «a todos a que, esquecidos os acontecimentos passados, sinceramente ponham em prática a mútua compreensão. Em benefício de todos os homens e em ação conjunta, defendam e promovam a justiça social, os valores morais, bem como a paz e liberdade». Em Ratisbona, em 2006, uma citação de Bento XVI causou um doloroso e complexo litígio com o mundo muçulmano. Muitos consideraram a frase citada por Ratzinger como uma ofensa em relação ao Corão, mesmo se se referia à relação entre fé e razão e entre religião e violência. Abriu-se uma estação um tanto quanto tempestuosa, dentro da qual a universidade de al-Azhar interrompeu os contatos com o Vaticano. Nos anos que se seguiram, com grande paciência diplomática, se reataram as relações, inspirando-se na Evangelii Gaudium, que, após ter definido o diálogo inter-religioso como um «dever para os cristãos, como para as outras comunidades religiosas» (EG 250), afirmara a relevância do relacionamento entre cristãos e muçulmanos. Finalmente, em maio de 2016, o Imã al-Tayiib está no Vaticano. Significativo o seu comentário de improviso: «Retomamos o caminho de diálogo e fazemos votos de que seja melhor de quanto era antes». A resposta ao gesto de acolhida de Francisco não se fez esperar. Em 2017, o imã acolheu o Papa Francisco no Cairo, convidando-o a uma Conferência Internacional para a Paz. Naquela ocasião, o Papa, após ter afirmado com força «só a paz é santa e nenhuma violência pode ser perpetrada em nome de Deus, porque profanaria o seu Nome», sugeriu três orientações que, «podem ajudar o diálogo: o dever da identidade, a coragem da alteridade e a sinceridade das intenções». Progressivamente nasceu um profundo entendimento espiritual entre os dois líderes religiosos.

Elaborado por Stefania Tanesini

Um oásis de paz para crianças-soldado

Um oásis de paz para crianças-soldado

Na Colômbia uma Fundação para as crianças obrigadas a combater ou trabalhar nas plantações de coca. “Criar um lugar onde as crianças pobres encontram dignidade, possam pensar em realizar os seus sonhos e trilhar uma estrada onde se formem com uma mentalidade de justiça e paz”. Com estes objetivos Padre Rito Julio Alvarez, sacerdote da diocese de Ventimiglia-Sanremo, criou em 2006, no coração da região de Catatumbo, no nordeste da Colômbia, a Fundação Oásis de Amor e de Paz. logo ONG 2017Localizada em uma das áreas mais carentes da região, onde Padre Rito nasceu e viveu durante 20 anos, a ONG quer oferecer uma oportunidade de resgate a muitas crianças que são alistadas nas milícias de guerra ou constrangidas a trabalhar nas plantações de coca naquele país. Esse objetivo amadureceu da experiência pessoal de Padre Rito, que – lê-se no site da Fundação http://www.oasisdeamorypaz.org/ – “desde pequeno conheceu a guerrilha, os grupos revolucionários ilegais que muitas vezes passavam pela aldeia e procuravam convencer as crianças menores a alistarem-se. Alguns de seus colegas, com 11 ou 12 anos, cederam aos agrados dos revolucionários e foram mortos nos confrontos com o exército regular. Também o seu melhor amigo de infância foi embora com os grupos armados e foi morto aos 14 anos. Não se teve notícias nem mesmo do seu corpo, que foi abandonado”. “Nos anos 90 – conta – os cidadãos do território iludiram-se pensando que, plantando coca, mudariam de vida, ao invés isso agravou a situação. Em 1999, chegaram os paramilitares e houve grandes massacres”. Tornando-se sacerdote em 2000, da Itália Padre Rito observava o sofrimento da sua gente ferida pela guerra pelo controle das plantações de coca, na qual combatiam paramilitares, grupos armados do governo e guerrilheiros. Num território de 250 mil habitantes cerca de 13 mil foram mortos em poucos anos. Também seus familiares foram constrangidos a deixar aquelas terras e muitos de seus amigos morreram. Bambini Sfruttati Coca Foap OngSentia uma grande necessidade de ajudar aquelas pessoas. Juntamente com seus familiares decidiu construir uma casa para as crianças-soldado e para aquelas que trabalhavam nas plantações de coca em Catatumbo. “Começamos em 2007 – recorda – num pequeno barraco onde acolhemos inicialmente 10 meninos. Não tínhamos nada de dinheiro, mas muita boa-vontade. Organizamos as camas, minha irmã fazia o papel de mãe e cozinhava. Minha mãe emprestou-me os talheres, os prato, as panelas e a roupa de cama. Foi assim que se iniciou a nossa aventura”. Hoje, a Fundação tem duas sedes, projetos de criação de peixes e de gado e plantações de bananas e café. Centenas de crianças são acolhidas: alguns tornaram-se formadores e são responsáveis pela ONG. Um deles, que tinha entre os parentes um traficante da região, empenhou-se na política. “Tenho a satisfação de ver na Fundação aquelas crianças que vi recolhendo folhas de coca com as mãos cheias de feridas – é o pensamento emocionado do Padre Rito – aqui elas crescem e vivem  num ambiente de paz, sentem-se seguras e podem pensar num futuro diferente. Tudo isso empulsiona-me a ir em frente sem medo. A confiança no Senhor dá-me a certeza de que esta obra poderá continuar”.

 Claudia Di Lorenzi

Educar é fazer do mundo um lugar melhor

Educar é fazer do mundo um lugar melhor

Amine Mohammed Sahnouni, jovem sociólogo argelino, vê a educação como um processo: “É preciso dar às crianças mais responsabilidade, confiar nelas e orientá-las a fim de que suas capacidades de liderança se desenvolvam desde pequenos”. “O pilar do nosso trabalho são as crianças, a quem sempre nos dedicamos com o objetivo de que cresçam fortes, porque são o futuro”. Por ocasião de uma conferência voltada ao campo da educação, promovida na Itália pelo Movimento dos Focolares, no dia 2 de março passado, Amine Mohammed Sahnouni, jovem sociólogo argelino, fala do seu compromisso educativo em favor dos jovens: para construir um mundo melhor é preciso começar por eles. Amine AlgeriaAmine, você disse que para obter resultados é importante ter uma “vision”, objetivos a longo prazo, e, se possível, compartilhá-los com outros. Qual é a sua “vision” no campo educativo? Acredito que nós sociólogos somos os médicos da sociedade, e como tais deveríamos ir a campo e enfrentar fenômenos sociais de todos os tipos. Nesta perspectiva a minha meta é ‘fazer do mundo um lugar melhor”, não só para nós, mas também para as gerações futuras. Todos podemos fazê-lo, mas somente se começamos a mudar a nós mesmos, inclusive a partir das pequenas coisas. Se queremos construir uma sociedade justa é essencial dedicar-se à formação dos jovens. Quais os conteúdos, competências e metodologias a propor? Os meus pais me encorajam, apoiam e guiam sempre. Transmitiram-me o senso de responsabilidade desde quando eu era criança. Lembro ainda das palavras do meu pai: “Amine, faça com que tenhamos orgulho de você”. Dizia sempre para colocar Alá, Deus, em primeiro lugar, em tudo o que fazia, somente assim teria sido uma pessoa de sucesso. Então, na minha opinião, o primeiro pilar da educação é a família. Depois, há algumas competências sobre as quais é preciso trabalhar: é preciso dar mais responsabilidade às crianças, ter confiança nelas e orientá-las, a fim de que suas capacidades de liderança se desenvolvam desde pequenos; é preciso mostrar confiança, apoiá-las e usar palavras positivas, de maneira que possam desenvolver a autoestima, os seus desejos e objetivos. Devemos encorajar nas crianças o pensamento crítico e ensiná-las a compartilhar suas opiniões na frente dos outros. Todas essas competências são adquiridas somente trabalhando em campo, inclusive por meio de programas de intercâmbio onde se encontram jovens de países diferentes, e também mudando o método de ensino tradicional, para tornar a aprendizagem fácil e divertida. Os líderes religiosos, as instituições e Ongs exigem atenção ao ambiente, mas as suas iniciativas resultam insuficientes. No entanto fala-se da nomeação ao Nobel da Paz para a jovem sueca Greta Thunberg, promotora das caminhadas juvenis pelo clima, em toda a Europa. Significa que precisamos dos jovens para acordar os adultos? Admiro muito a coragem e determinação dessa garota, que apesar de ser muito jovem tem plena consciência dos problemas ambientais, e isso é muito raro hoje, inclusive entre os adultos. Esta grande “combatente” está enviando uma mensagem forte ao mundo, tenho muito respeito por ela, deveríamos inspirar-nos em seu exemplo. Com efeito, eu acredito que as grandes conquistas partem de pequenas coisas. Montar numa bicicleta e atravessar a Argélia, da fronteira com o Marrocos até a fronteira da Tunísia, pode ser um modo de solicitar o compromisso pelo ambiente. Você pode nos contar como foi? Nós somos um grupo de amigos cheios e paixão e motivação, e com o desejo de inspirar os jovens. Desde 2012 a nossa filosofia é: se queres uma mudança duradoura começa a mudar a ti mesmo. Com o tempo os nossos objetivos cresceram e decidimos enfrentar o desafio de um projeto novo: atravessar a Argélia de leste a oeste em 15 dias. Um projeto que nasceu para sensibilizar ao cuidado com o ambiente, promover os valores da cidadania, educar por meio do esporte. Eu e meus dois amigos, Elhadi e Naim, fizemos um vídeo sobre o nosso projeto e numa só semana o vídeo se difundiu tão rapidamente que as pessoas começaram a entrar em contato conosco e oferecer ajuda. Também durante a viagem – em agosto de 2017 – recebemos muito apoio e os resultados foram incríveis: dois milhões de seguidores nas redes sociais e na TV; colaboramos com mais de 15 associações, espaços para crianças e clubes de ciclistas. Sentimos Alá, Deus, conosco todos os dias e pedimos a ele coragem, apoio e força para levar a missão até o fim. Foi também uma experiência espiritual, recebemos orações de todos os argelinos e o apoio das nossas famílias. Em apenas duas semanas suscitamos outras campanhas de sensibilização, e depois do projeto muitas pessoas seguiram o nosso caminho.

Claudia Di Lorenzi

Moçambique: “Ficamos aqui, decididos a ajudar essas pessoas”

No fim de março, a Coordenação do Movimento dos Focolares para Emergências foi acionada para ajudar as comunidades atingidas pela inundação no sudeste da África, em particular, na missão de Dombe. Ildo Foppa, o responsável, nos mandou uma mensagem. “Temos aqui quatro casas de recuperação, uma escola agrícola e um centro diurno, que foram completamente cobertos pela água. Perdemos tudo: móveis, documentos, animais, tratores. Agora, estamos alojados em nosso pequeno hospital, que se salvou juntamente à igreja, à casa das irmãs e ao colégio. Estamos cuidando de 1300 pessoas que estão hospedadas em duas escolas. Há muitas necessidades. Precisamos sobretudo de barracas, comida, cobertores, barcos simples para atravessar o rio. Muita gente morreu nas proximidades da nossa missão, principalmente crianças. São bem mais do que foi comunicado. Quando o nível da água baixou, foram encontrados corpos pendurados nas árvores. Ontem, encontrei na rua um jovem desesperado, que não sabia aonde ir, procurando sabe-se lá quem. Quando me contou sua história, não consegui me conter, levei-o para a missão para morar conosco: “A água subiu de repente”, me disse, “peguei meu filho de oito meses, minha mulher e meus dois irmãos e subimos em uma árvore. De repente, a árvore caiu e vi um por um ser arrastado pela água. Só eu me salvei porque me segurei em um tronco. Fiquei 30 horas na água, a cinco quilômetros de casa”. Seu nome é Silvestre e tem 22 anos. Escutamos histórias como essa todos os dias. Ficamos aqui, decididos a ajudar essas pessoas que já sofriam muito antes. Mas algo me diz que algo grande e bom nos espera. Pedimos que rezem para que tenhamos saúde e força o suficiente para ir para frente nessa missão que Deus nos confiou. Um grande abraço!”

Ildo Foppa

  Para quem quiser contribuir, oferecemos duas opções: Azione per un Mondo Unito ONLUS (AMU) IBAN: IT58 S050 1803 2000 0001 1204 344 Banco Popolare Etica BIC: CCRTIT2T Emergenza Mozambico (Emergência Moçambique)   Ou: Azione per Famiglie Nuove ONLUS (AFN) IBAN: IT55 K033 5901 6001 0000 0001 060 Banco Prossima Código SWIFT/BIC: BCITITMX Emergenza Mozambico (Emergência Moçambique)

Em todos os países senti-me em casa

Profundo conhecedor do continente asiático onde viveu quase 30 anos e do qual falava várias línguas, Silvio Daneo, falecido recentemente, deu uma importante contribuição no âmbito do diálogo interreligioso, não apenas no Movimento dos Focolares. Nos últimos anos, era comprometido em favor dos mais sós e marginalizados. Agora descansa no cemitério de Loppiano, Itália. “Não é fácil concentrar em poucas linhas uma vida intensa e aventurosa como a sua. No seu último livro, publicado recentemente, afirmava ter vivido sete vidas!, descobrindo constantemente a riqueza do divino em cada pessoa encontrada”. Com estas palavras Maria Voce, Presidente dos Focolares, recordou Silvio Daneo, que viveu muitos anos da sua vida para difundir a espiritualidade da unidade em muitos países, desde a América do Norte à Ásia: Estados Unidos, Filipinas, China, Hong Kong, Macau, Taiwan, Índia, Tailândia, Paquistão e ainda Singapura, Malásia, Indonésia e Vietnã. A primeira viagem foi aos 21 anos, em 1962. A direção era os Estados Unidos para iniciar, juntamente com outros dois focolarinos, o primeiro centro masculino do Movimento na América do Norte. Quatro anos depois, voou para a outra parte do mundo: com Guido Mirti, conhecido no Movimento como Cengia, chegou nas Filipinas. Na Ásia, no decurso dos anos, contribuiu para o nascimento dos Focolares em muitos países. Tinha um amor incondicionado pelas pessoas, sem esquemas pré-estabelecidos, voltado para o bem da pessoa humana: ajudava todos com coração generoso para que pudessem perceber o amor divino através do serviço concreto e quotidiano. Poucos discursos e muitas ações concretas. Uma vez, acompanhou um jovem do Movimento a um templo budista para a sua ordenação. Dormiu no chão por várias noites, comendo aquilo que os monges lhe ofereciam, suportando as temperaturas mais elevadas, sendo picado pelos mosquitos. Foi um gesto que marcou o início do diálogo interreligioso na Tailândia. Silvio deu uma contribuição fundamental para o conhecimento dos monges budistas tailandeses. Em 1995, organizou o primeiro encontro entre o monge budista Phra Mahathongrattanathavorn e Chiara Lubich continuando a acompanhar depois o seu desenvolvimento até que a saúde o permitiu. Silvio conhecia muçulmanos, hindus, gurus e relacionava-se com todos procurando sempre o bem das pessoas que tinha diante de si. Pessoalmente, senti-me muito enriquecido pela sua pessoa: devo a ele a abertura que sinto dentro de mim para as grandes religiões e o não sentir barreiras diante de pessoas que têm uma crença diferente da minha. “Descrevi repetidas vezes – escreveu num dos seus últimos livros – que, em cada país asiático em que vivi e do qual procurei assimilar cultura e tradições, fui enriquecido pelo conhecimento das várias tradições religiosas. Tive muitas ocasiões de conhecer pessoas praticantes das mais diferentes crenças religiosas, e precisamente dos seus testemunhos de vida, de oração, de meditação, de coerência, de dedicação aos outros, de honestidade no agir quotidiano, nasceu dentro de mim a exigência de conhecer o conteúdo das doutrinas ensinadas pelas respectivas religiões”. Em 1990, trabalhamos juntos na abertura de uma rua comercial no Vietnã, com sucesso. Em Bangkok, um dia, ele surpreendeu-nos quando curvou-se para tratar as feridas de alguns trabalhadores que construíam a estrada na frente da casa: ajoelhou-se, desinfetou as feridas deles e fez os curativos. Era um gesto impensável naquele tempo que impressionou aqueles trabalhadores simples. Depois, por iniciativa propria estes trabalhadores construíram a rampa de acesso entre a casa e a estrada, sem aceitar nenhum pagamento, com grande surpresa de todos. Silvio encontrou bispos, sacerdotes, Imã, Rabinos e monges, cumprimentando-os muitas vezes nos idiomas de origem deles. “Se alguém quisesse elogiar-me – escreveu Silvio Daneo na introdução do seu último livro – involontariamente cometeria um erro. Estou convencido, ao menos espero, de ter sido nada mais do que um instrumento, muitas vezes pouco dócil. (…) Todo o mérito e o reconhecimento vão a Ele, a Deus, o único capaz de realizar coisas grandes. Nos últimos anos em Roma, marcado pela doença, não desanimou, consumando-se pelos encarceirados, pelas pessoas sós, abandonadas, recolhendo alimentos e muitas outras coisas que pudessem ser úteis a elas. Há cerca de um ano, ao encontrá-lo, juntamente com um grupo de monges budistas tailandeses, pude perceber como a doença o tinha purificado. Continuava com o mesmo sorriso inconfundível e um rosto luminoso, apesar do grande sofrimento. Porque a vida é também isso – pensei – saber chegar até ao fim conservando aquilo que conta, sabendo transformar em amor, cada vez mais forte, todo o sofrimento que vem ao nosso encontro.

Luigi Butori