20 Jan 2023 | Sem categoria
O Caminho sinodal entrou na etapa continental. O Movimento dos Focolares deu a sua contribuição por meio de uma reflexão e de um trabalho desenvolvido a nível mundial. Para saber mais sobre o conteúdo da síntese apresentada, entrevistamos Francisco Canzani, Conselheiro do Centro Internacional do Movimento dos Focolares para o aspecto “sabedoria e estudo” e coordenador da Comissão para o Sínodo. Qual é a avaliação do trabalho desenvolvido no Movimento dos Focolares para o Sínodo? É uma avaliação muito positiva. Mais de 15000 membros do Movimento participara da primeira etapa do percurso sinodal, distribuídos em 520 comunidades do mundo inteiro. Chegaram 21 sínteses regionais que demonstram a profundidade da reflexão e o interesse demonstrado pelo Movimento dos Focolares em todas as culturas. A esse trabalho interno do Movimento – em resposta aos materiais propostos pela Secretaria do Sínodo, que nos havia pedido uma contribuição específica – somou-se a participação de muitos pertencentes ao Movimento em suas dioceses e paróquias. Foi particularmente relevante o envolvimento no percurso de reflexão de pessoas de diversas Igrejas cristãs e de fiéis de diversas religiões. Chegaram também duas contribuições importantes de grupos de diálogo entre cristãos e pessoas sem convicções religiosas que ocorrem no âmbito do Movimento. De que maneira esse aprofundamento pode nos ajudar a adquirir práticas de sinodalidade dentro do Movimento? Pode-se participar do percurso sinodal justamente “caminhando juntos”. A experiência de refletir e colocar em comunhão as nossas experiências, preocupações e perguntas já é por si muito válida. Surgiram temas importantíssimos: corresponsabilidade, missão, jovens, opções para os pobres, vida comunitária, papel das mulheres na Igreja que, em grande parte, estiveram presentes também na Assembleia Geral do Movimento, que ocorreu entre janeiro e fevereiro de 2021, mas que ainda precisam de atuação, encarnação. O processo sinodal foi uma etapa seguinte de um caminho de atualização da nossa vida nos tempos que Deus nos dá para viver. Concluída essa contribuição como Movimento, como podemos participar da etapa atual, isto é, da etapa continental? É fundamental que todos “entremos” em profundidade na Sintese que nos foi proposta pela Secretaria do Sínodo para a etapa continental, que a leiamos, meditemos, que possamos responder as suas perguntas ainda em comunidade. Percebemos, entre outras coisas, a grande sintonia que há com o documento síntese que enviamos como Movimento dos Focolares à Secretaria do Sínodo. Para participar da etapa atual, podemos continuar participando de todos os eventos que a nossa igreja local nos propõe. Há algum subsídio que possa ajudar os membros do Movimento a aprofunda o tema da sinodalidade? Acho que é importante que todos consultem o documento síntese que enviamos como Movimento dos Focolares à Secretaria do Sínodo. Fizemos inclusive um vídeo de apresentação que ajuda a entendê-lo melhor. Depois, como eu já disse, é fundamental ler o documento da etapa continental e continuar refletindo sobre as temáticas apresentadas ali. Além disso, seria realmente útil que as comunidades do Movimento pudessem responder as perguntas postas no documento, as mesmas que toda a Igreja se coloca. Também é importantíssimo nos formar para a sinodalidade. Para isso, o Instituto Universitário Sophia, por meio do seu centro de pesquisa Evangelii Gaudium, inicia um curso on-line articulado sobre a temática. Acho que todos podemos – e talvez devemos – fazê-lo.
Carlos Mana
Contribuição do Movimento dos Focolares com a Secretaria do Sínodo – Descarregar PDF https://youtu.be/qV9ij6pJF80
18 Jan 2023 | Sem categoria
Lançada a primeira edição do prêmio anual promovido pela Fundação Chiara Badano Você gosta de ajudar concretamente os outros? Você tem a ideia de um projeto de solidariedade e não vê a hora de fazê-lo acontecer? Pois bem, existe algo que pode lhe interessar. No dia 29 de outubro de 2022, durante o aniversário de nascimento da Bem-aventurada Chiara Luce Badano, a Fundação que mantém viva a sua memória instituiu a primeira edição do Prêmio Solidariedade. É um evento anual para promover projetos de solidariedade em qualquer lugar do mundo. Desde pequena, Chiara Luce demonstrou a sua paixão pelos mais necessitados, os mais frágeis, os marginalizados da sociedade, especialmente idosos e crianças. Por esse motivo, a Fundação Chiara Badano decidiu instituir esse prêmio. O objetivo é sustentar e incentivar projetos para a promoção de ações positivas voltada às faixas mais debilitadas da população (idosos, portadores de deficiência, imigrantes…) e a atuação no combate à exploração e à violência contra mulheres e crianças, novas pobrezas e para a proteção do planeta. O prêmio irá identificar, cada ano, um projeto inovador sobre temas específicos de destaque social, com o objetivo de difundir seus conteúdos e torná-lo patrimônio comum. A finalidade será apoiar o projeto por meio de uma contribuição financeira de 2 mil euros, incentivá-lo através de uma comunicação eficaz nas redes sociais e abri-lo a novas formas de apoio. Podem aderir ao prêmio, organizações e grupos, inclusive informais, compostos na sua maioria por jovens abaixo de 30 anos, com um projeto que promova e apoie a cultura e a prática da solidariedade. A data final para a apresentação dos projetos (20 de janeiro de 2023) foi prorrogada até 20 de fevereiro de 2023. Para maiores informações leia o edital. A Fundação Chiara Badano promove ainda o Prêmio Art, uma ocasião para que os jovens possam exprimir – através de talentos artísticos – de que modo o estilo de vida de Chiara Luce os fascinou e inspirou. Em março de 2023 sairá o edital para a sexta edição. www.chiarabadano.org
Lorenzo Russo
17 Jan 2023 | Sem categoria
Aprender a fazer o bem significa tomar posse de um alfabeto que nos permite compreender a vontade de Deus na nossa vida e ir ao encontro do outro. É um alfabeto feito de gestos, e a justiça nada mais é do que o tesouro precioso a buscar, a joia desejada e a meta deste nosso modo de agir. O acidente Estava voltando para almoçar em casa quando o carro à minha frente começou a desgovernar e depois capotou. Parei e saí do carro para prestar ajuda. Graças à chegada de outras pessoas que socorreram, os acidentados foram retirados do veículo, ensanguentados; era uma senhora idosa, um homem jovem e um menino. Por medo de ser envolvido no acidente, porém, ninguém se ofereceu para levá-los ao hospital. Devia ser eu! Eu sou muito emotivo e às vezes só ver o sangue me faz desmaiar. Mas, desta vez era preciso ter coragem e agir. Para aceitar os feridos, o Pronto Socorro pedia uma soma que naquele momento eu não tinha. Mas eu podia fazer um cheque… era um risco, mas não era possível abandoná-los. Então assinei o cheque e, depois de ter tido certeza que os feridos estavam bem assistidos (como o bom samaritano), fui embora. Eu me sentia leve, como depois de fazer uma prova: tinha superado o obstáculo da minha emotividade e, principalmente, tinha ajudado a irmãos em um momento crucial. Experimentei a verdadeira alegria do Evangelho. (Marciano – Argentina) Renascimento A adolescência rebelde de um de nossos filhos, a sua depressão, os ataques de pânico, as amizades destrutivas e as dependências, tinham aberto uma grande ferida na nossa família. Dentro de mim crescia um rio de raiva, de sentimentos hostis que, transbordando, faziam-me agir negativamente com meu marido e os outros filhos. Como mãe consciente de ter falhado, eu me fechei cada vez mais em mim mesma. Uma boa amiga, vendo-me naquele estado, aconselhou-me conversar com um sacerdote. A graça chegou precisamente naquela conversa. Como se Deus rompesse as grossas paredes do coração onde as minhas lágrimas estavam trancadas, chorei muito, desabafei todas as coisas terríveis acontecidas a nosso filho naqueles anos. Naquele dia, a liturgia trazia uma frase de Ezequiel que confirmou o meu renascimento: “Eu vos darei um coração novo e colocarei dentro de vós um espírito novo; tirarei da vossa carne o coração de pedra e vos darei um coração de carne” (Ez 36,26). Na oração reencontrei a paz para poder ser um ponto seguro, ao lado dos meus filhos. (W. Z. – Polônia) Perdão Uma pessoa, minha conhecida, recebeu do irmão a notícia da morte improvisa da esposa dele, e o pedido para que fosse encontrá-lo. Ela nunca tinha tido bons relacionamentos com a cunhada, especialmente desde quando havia impedido ao marido que fosse visitar a própria mãe, antes que morresse. Algumas suas amigas lhe diziam que fazia bem em não ir ver um irmão que não tinha se comportado bem com toda a família. A senhora, muito religiosa, de sua própria maneira, começou a rezar pela cunhada e mandar celebrar missas de sufrágio… mas não se mexeu: não conseguia perdoar o irmão. Como convencê-la que havia uma contradição em seu cristianismo? Justamente naquele mês a Palavra de Vida estava centralizada no amor mútuo. Como uma tentativa, levei a ela o folheto com o comentário, que explicava como viver aquele mandamento evangélico. Depois de alguns dias ela chegou na minha casa, toda sorridente. Veio me contar que depois de ter lido aquele folheto não pode mais resistir: foi até seu irmão e se reconciliou com ele. (D. P. – Brasil)
A cura di Maria Grazia Berretta
(retirado de “Il Vangelo del Giorno’, Città Nuova, anno IX – n.1- janeiro-fevereiro 2023)
16 Jan 2023 | Sem categoria
Estar “com pressa” de ir ao encontro do outro, como a Virgem Maria. Este é o cerne da mensagem da próxima Jornada Mundial da Juventude (JMJ) que acontecerá em Lisboa (Portugal) de 1 a 6 de agosto de 2023. Algumas curiosidades sobre os preparativos. “Queridos jovens, sonho que na JMJ vocês possam reviver a alegria do encontro com Deus e com os irmãos. Depois de longos períodos de distância e de isolamento, em Lisboa – com a ajuda de Deus – reencontraremos juntos a alegria do abraço fraterno entre os povos e entre as gerações, o abraço da reconciliação e da paz, o abraço de uma nova fraternidade missionária!”. Este é o desejo com que o Papa Francisco, da Basílica de San Giovanni in Laterano (Roma), se dirigiu aos jovens de todo o mundo, em 15 de agosto de 2022, por ocasião da Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, explicando o aprofundamento do tema escolhido para a próxima Jornada Mundial da Juventude: “Maria levantou-se e partiu depressa” (Lc 1,39). Em tempos tão difíceis, em que a humanidade, provada pelo trauma da pandemia, é dilacerada pelo drama da guerra, o episódio evangélico da Visitação é o caminho pelo qual percorrerão os passos de muitos jovens que, de 1 a 6 de agosto de 2023, participarão no encontro internacional em Lisboa. Será um momento de grande alegria e uma oportunidade para testemunhar, meditar e compartilhar juntos os passos de Maria. Mas como estão os preparativos para esta JMJ? Mariana Vaz Pato, uma jovem designer de Lisboa, que faz parte de uma equipe do Movimento dos Focolares que se ocupa da organização, conta-nos: “Quando soube que a JMJ ia ser em Portugal, reagi a esta notícia com muita alegria. Desde logo, decidi fazer parte desta equipa porque sentia que podia dar o meu tempo para a construção deste grande evento”. Mariana, o que está acontecer nos bastidores neste momento? Nos bastidores há muito trabalho feito e muito por fazer. O espírito geral que se vive é de grande entusiasmo, queremos que esta seja uma jornada marcante e inspiradora para todos. Neste momento, o maior foco são as inscrições, que abriram há pouco tempo, e que temos de divulgar para que ninguém fique de fora.
A minha equipa tem estado a trabalhar para vários momentos do programa da JMJ. Um deles é a preparação de uma catequese à luz do carisma da unidade, nesta fase estamos a trabalhar nos conteúdos ligados ao tema da Jornada, com as orientações do Dicastério para os leigos, a família e a vida. Outro momento é um stand na Cidade da Alegria (Feira das Vocações), onde os peregrinos vão encontrar conteúdos interativos e experiências de todo o mundo, ligadas às várias etapas da vida de Maria. Com as Gen Verde, estamos a preparar outro momento – os workshops do Start Now – que vão acontecer num bairro social, numa zona periférica da cidade de Lisboa, e que culminará num dos palcos do Festival da Juventude. Além do programa principal da JMJ, sentimos a necessidade de oferecer à igreja um encontro pós-JMJ, onde os participantes poderão fazer uma experiência de interioridade de tudo aquilo que viveram na Jornada. Este encontro vai ser na Cidadela Arco-Irís e é aberto a qualquer jovem que queira participar. Além disso, estamos também envolvidos em outros grupos de acolhimento de peregrinos, gestão de voluntários e no coro oficial. O que significa para um jovem hoje “levantar-se” e partir depressa? O tema desta jornada apela-nos a ir em missão, tendo Maria como exemplo, que respondeu à chamada de Deus. Penso que, para os jovens, “levantar-se” significa ser missionários. Ou seja, estar pronto para partir, sair de si mesmo (do conforto do estar sentado), ir ao encontro do próximo, não ficando indiferente aos problemas que existem à nossa volta. Também essa JMJ é confiada a alguns Santos Padroeiros ou testemunhas da fé, figuras de referência que têm este processo em curso. Por que é tão importante hoje aspirar à santidade? Acho que aspirar à Santidade é aspirar à felicidade. Para os jovens é importante ter um modelo de vida a seguir e os Santos são a prova de que é possível ter um estilo de vida cristão e diferenciador do que vemos à nossa volta. Por exemplo, para mim, a padroeira da jornada mais marcante é a beata Chiara Badano por ter vivido uma realidade próxima da minha. O modo como ela vivia contra a corrente e a sua confiança em Deus são inspiradores, e mostram-nos que é possível ter uma vida de Santo também no mundo de hoje. Para maiores informações visita o site: JMJ Lisboa 2023
Maria Grazia Berretta
12 Jan 2023 | Sem categoria
No dia 31 de dezembro de 2022, faleceu Luisa Del Zanna, uma das primeiras focolarinas de Florença. Nasceu em 1925, em uma família cristã com 8 filhos. Tendo conhecido a espiritualidade da unidade, ela imediatamente a abraçou. Em 1954, ingressou no focolare de Florença. Nos anos seguintes, viu o nascimento de várias comunidades do Movimento, que acompanhou com dedicação. A partir de 1967, viveu em Rocca di Papa (Itália) onde Chiara Lubich, fundadora dos Focolares, a chamou para cuidar de sua secretaria, do arquivo, serviços que coordenou até 2007, e do nascente Centro de Comunicação Santa Chiara, junto a um dos primeiros focolarinos, Vitaliano Bulletti. “Guardiã dos ‘tesouros dos Focolares’ – lê-se em um artigo de 2008 na Città Nuova – Luisetta, um nome que te acaricia, que te faz pensar em uma criatura delicada e gentil. E o é verdadeiramente, em sua figura muito pequena, Luisa Del Zanna, uma daquelas pessoas a quem habitualmente se confiam tarefas importantes pela sua discrição, competência, lealdade, cujo valor nem sempre se compreende, porque não aparecem, mas sem as quais certas engrenagens acabam atrapalhando…”. Nos seus primeiros anos de vida no focolare, trabalhou como professora num pequeno povoado das montanhas do norte da Itália, onde chegava a pé ou montada em um burrinho. A experiência que publicamos aqui é justamente daqueles anos, mantendo o estilo original de quando foi escrita, em 1958, até na forma. “Por favor, a estrada para Bordignano?[1]” Depois de quatro horas de ônibus, cheguei àquele povoado do município que não havia conseguido localizar no mapa topográfico (escala 1:100.000). Nenhuma agência de notícias foi capaz de mencionar, nem os horários dos vários meios de transporte o referiram. E, no entanto, a folha de nomeação era clara: “Vossa Excelência está convidada a prestar serviço na sexta-feira, 7 de outubro, na escola primária de Bordignano, no município de Firenzuola”. E o nome foi escrito em letras maiúsculas, não se poderia errar.
A pessoa com quem falei – um homem alto e robusto – olhou para mim interrogativamente: “Como disse?” e me fez repetir a pergunta. Ele pensou que tinha entendido mal. Depois apontou: “Está vendo aquele morro ali? Atrás dele tem mais dois e depois tem o B… Vou lá de novo agora para levar a correspondência”. Não hesitei um instante em perceber que ele estava caminhando naquela direção: as botas que calçava e o rosto bronzeado deixavam claro. Tive um momento de desânimo: olhei para aquela colina, para as botas daquele homem, compreendi que não havia outro meio, tomei coragem. “Vou com o senhor”, disse com decisão. O carteiro pareceu não entender, como antes, mas partiu e eu o segui. Foram três longas horas de viagem, interrompidas apenas por breves momentos de descanso no topo das íngremes subidas; onde o vale se abria havia fortes rajadas de vento. Finalmente cheguei: três casas de pedra alinhadas e, no alto de uma rua arborizada, a igreja com a torre e o sino. Cumprimentei um senhor idoso, sentado com o cachimbo na boca, na soleira da porta. Disse a ele que era a professora. Ele se levantou e foi me acompanhar. Entramos por uma porta quebrada na segunda daquelas casas enfileiradas, todas propriedades do velho; a primeira era um armazém, equipado com tudo (exceto algumas coisas que eu não tinha e das quais realmente precisaria). Havia botas ferradas, fósforos, ratoeiras (de várias espécies), pão, cadernos, enfim, de tudo. Subimos uma escada e entramos na escola. Era uma sala grande, algumas mesas empilhadas num canto (nunca tinha visto nada daquele tipo: até seis crianças cabiam em uma só delas), uma cadeira bagunçada, um quadro-negro quebrado: eram esses todos os móveis. – A sua casa é por aqui – explicou-me o velho – pode ficar feliz! Este ano há água corrente. Eu mesmo a coloquei, às minhas custas! Ele me conduziu até uma cozinha; a lareira apagada se destacava em um canto. Eu estava com frio. Começava a escurecer: procurei o interruptor da luz para acender, mas não encontrei. (Aprendi, nos dias que se seguiram, a usar um lampião e a trabalhar e escrever à luz daquela língua de fogo trêmula.) Naquele mesmo dia, procurei o padre (soube que a Pieve era a sua igreja, a mais bonita das que existem no vale e nas colinas circundantes) e implorei-lhe que anunciasse na missa dominical, que as aulas iriam começar. “Eh, dona, é época de colheita. Agora tem a castanha e depois a azeitona; os meninos ajudam muito nesses trabalhos. Vai se falar da escola só em janeiro! – acrescentou. Para mim parecia impossível. Há algum tempo, tinha aprendido a não recuar diante das dificuldades, pelo contrário – tinham me dito – elas servem de trampolim – e vi que era verdade. Encontrei outra maneira de avisar as pessoas que tinha chegado. Identifiquei as casas dos meus alunos entre aquelas casas espalhadas e isoladas e fui até lá. A primeira foi a casa de Angiolino e Maria. Para mim daquela visita ficou uma vaga lembrança de preto e fumaça. Lá estava Maria agachada num canto nas cinzas da lareira (estava com a garganta inflamada), escondia o rosto com o bracinho para que eu não a visse. Angiolino estava de pé: num canto, de cabeça baixa, e acompanhava a conversa que eu tinha com minha mãe. Durante a conversa fiquei sabendo da desconfiança daquelas pessoas na escola e mais ainda na professora. Escutei por um bom tempo, em silêncio. Esforcei-me para entender a fala daquela mulher num dialeto duro, ressentido, quase incompreensível. Soube que o menino havia abandonado a escola há dois anos, sem ter concluído os estudos elementares, devido às pegadinhas que pregava nos professores. Falei algumas coisas: tinha vindo por eles, a escola era gratuita, os meninos teriam a tarde livre para ajudar no trabalho da roça. “Vamos ver – disse a mulher – vou mandar a Maria”. Ao me despedir, disse ao menino: “Gostaria de deixar a escola bonita para as crianças que virão, se puder vir me ajudar… eu te espero”. Não houve necessidade de muitos outros convites. As crianças começaram a chegar uma a uma, os irmãos aos pares, incertos, temerosos. Elas haviam conversado sobre a escola encontrando-se para os jogos, nos campos, enquanto cuidavam do rebanho, ou debruçando-se juntos na floresta para colher castanhas. “Você vem também? É legal, sabe!” “É bom, a professora não bate!” A escola tornou-se acolhedora em pouco tempo com a válida ajuda de Angiolino. A natureza de outubro oferecia um rico material ornamental na variada coloração de suas folhas. Estabeleci minhas relações com os alunos e as relações dos alunos entre si segundo o mandamento de Jesus: “Amai-vos uns aos outros…”. Foi a base de todo o trabalho daquele ano. A escola se tornou um pequeno paraíso. O livro preferido era o Evangelho e a inteligência daquelas crianças, desacostumada e fechada ao raciocínio humano, abriu-se à lógica evangélica com surpreendente espontaneidade. Aquele método foi desafiador. “Pro eis sanctifico me ipsum” (Por eles eu me santifico), assim o disse Jesus, caso contrário não surtiria efeito. No final do ano, percebi que a vida evangélica dos pequenos não havia parado dentro dos muros da escola, mas tinha transbordado para o lar, para a família. Percebi isso pela saudação agradecida dos pais que não ficaram indiferentes a esse sopro de vida alegre que os filhos traziam entre eles quando voltavam para casa. O exterior áspero que os fazia parecer insensíveis a mim havia desaparecido das almas e, inconscientemente, essa mesma vida havia entrado nelas.
Experiência da Luisa Del Zanna
[1] Bordignano, no município de Firenzuola (Firenze, Italia).
3 Jan 2023 | Sem categoria
No período de sua atuação como presidente do Movimento dos Focolares, de 2008 a 2021, Maria Voce teve a possibilidade de conhecer e encontrar várias vezes o Papa Ratzinger. “A impressão, quando fui recebida em audiência no seu escritório, foi a de entrar numa sala de casa, onde se podia falar e ser acolhidos com amor, eu diria, com uma amorosa atenção. Ao mesmo tempo com uma fineza elegante, cuidado, delicadeza”. Diante da notícia do falecimento do Papa Bento XVI, as lembranças de Maria Voce, ex-presidente do Movimento dos Focolares, vão imediatamente ao dia 13 de abril de 2010, quando foi recebida pelo Papa, juntamente com o então copresidente, Pe. Giancarlo Faletti. “Era o segundo ano depois da morte da nossa fundadora, Chiara Lubich – continua Maria Voce -. O copresidente e eu fomos colocar nas mãos do Papa a vida do Movimento. E nos demos conta que ele conhecia bem muitas de suas realidades. Nós também contamos a ele sobre a viagem a vários países asiáticos, que havíamos feito recentemente. Ele mostrou seu contentamento inclusive pela etapa feita na China, já que este país era uma grande fronteira para a Igreja. Alegrou-se por aquilo que o Movimento fazia para ajudar o caminho de reconciliação entre os bispos chineses e o Papa. Deu-nos a sua benção e nos impulsionou a prosseguir no caminho da santidade. Pessoalmente, tocou-me sempre a sua delicada gentileza e ao mesmo tempo a acolhida calorosa e familiar. Tinha um grande senso de harmonia, vindo, talvez, do seu amor pela música, e que se via inclusive na decoração do seu escritório: um lugar acolhedor como uma casa, sagrado como uma igreja”.
Quais as outras ocasiões em que encontrou o Papa Bento XVI, como presidente dos Focolares? “Em 2008 recebeu, a mim e ao copresidente Faletti, logo após a Assembleia Geral dos Focolares, na qual tínhamos sido eleitos, a primeira após a morte da nossa fundadora. Depois me convidou, viajando no mesmo trem, com numerosas autoridades, para a “Jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo”, realizada em Assis (Itália) em 27 de outubro de 2011, nos 25 anos da primeira Jornada, realizada pelo Papa João Paulo II, em 1986. E, enfim, participei da sua última audiência, dia 27 de fevereiro de 2013, depois do anúncio da sua demissão”. Quais as suas reflexões diante daquela decisão do Papa? “Quando ele se apercebeu de não possuir mais as forças para cumprir o seu papel, teve a coragem de deixar o lugar a outros que, segundo seu parecer, tinham mais forças e possibilidades de fazer melhor. Uma escolha, como eu disse
também naquele momento, que me pareceu revelar um concentrado da sua reflexão teológica e espiritual. Evidenciou a primazia de Deus, o sentido de que a história é guiada por Ele. E nos direcionou a colher os sinais dos tempos e responder a eles com a coragem de opções sofridas, mas inovadoras. Com uma clara nota de esperança pela “certeza de que a Igreja é de Cristo”. Penso que não erro ao afirmar que a Igreja para a qual o Papa Bento sempre olhou, inclusive ao cumprir essa escolha, é uma “Igreja-comunhão”, fruto do Vaticano II, mas também numa visão prospectiva, “cada vez mais expressão da essência da Igreja”, como ele mesmo havia sublinhado. E este “cada vez mais” nos diz que ainda não a realizamos plenamente, e convida cada um de nós a trabalhar nesta direção com sempre maior responsabilidade”. No dia seguinte à sua eleição como Pontífice, Chiara Lubich escreveu: “Pelo conhecimento direto que tenho dele, que possui dotes especiais para receber a luz do Espirito, não deixará de surpreender e superar qualquer previsão”. Na sua opinião, qual foi a contribuição mais significativa trazida pelo Papa Bento XVI à Igreja? O que esta diz à Igreja de hoje e àquela que o Sínodo está preparando para o futuro? “O Papa Ratzinger soube perceber a realidade dos Movimentos na Igreja como a “primavera do Espírito”. Foi fundamental o seu discurso, ainda como cardeal, no Congresso dos Movimentos, antes do grande encontro de Pentecostes 1998, com o Papa João Paulo II. Um texto seu, de 1969, que faz parte de um ciclo de aulas para a rádio, é impressionante pensando nos tempos de hoje; revela a sua profunda espiritualidade e essencialidade, numa perspectiva que estará presente em seu coração durante todo o pontificado. Ele afirmava que estavam se preparando tempos muito difíceis para a Igreja, que a sua verdadeira crise tinha só começado e deveria lidar com grandes convulsões. Mas, o então cardeal Ratzinger, se dizia convicto daquilo que restará no final: não a Igreja do culto político, mas a Igreja da fé. Ela não será mais a força social dominante, na medida que era até pouco tempo atrás. Mas a Igreja verá, ele concluía, um novo florescimento e se mostrará como a casa do homem, onde encontrar vida e esperança além da morte”.
Anna Lisa Innocenti