Com o extraordinário evento da beatificação de Chiara Luce Badano, a primeira jovem do Movimento dos Focolares a alcançar esta meta, realizada sábado, dia 25 de setembro, abriu-se o encontro anual dos responsáveis dos Focolares do mundo inteiro. Difícil imaginar um melhor início para os habituais três dias de retiro espiritual dos responsáveis, provenientes de 78 países, representando as 182 nações onde o Movimento está presente. No total 345 participantes. A presidente, Maria Voce, deu abertura dizendo: “Gostaríamos de nos retirar com Jesus, juntos, para dar um passo novo rumo à santidade”. A sua palestra inicial foi uma reflexão sobre a Vontade de Deus, segundo ponto da “espiritualidade da unidade”, escolhido para ser aprofundado e colocado em prática durante este ano, em todo o Movimento. E deu duas indicações a serem atuadas: a tensão à santidade, sublinhada por Bento XVI em uma mensagem aos membros do Movimento, no dia 23 de abril passado, quando Maria Voce foi recebida pelo Santo Padre. E a unidade, para “contribuir à realização da oração de Jesus ao Pai: ‘Que todos sejam um’ (cf. Jo 17,21), mirando a fraternidade universal”. Intercaladas com muitos momentos alegres de comunhão, na plenária e nos grupos de aprofundamento, foram proferidas diversas palestras, entre as quais a do filósofo e teólogo espanhol, prof. Jesús Moran, “O sim do homem a Deus: nas raízes da existência”, na qual emergiu “que a estrutura do homem é feita para dizer sim a Deus, um sim que o torna plenamente pessoa”, como afirmou um dos presentes. O mesmo tema foi abordado pela socióloga brasileira Vera Araujo, em suas repercussões no campo social. A socióloga salientou “os lugares onde a Vontade de Deus se manifesta: na vida cotidiana, profissional, nos sinais dos tempos”, entre outros. E evidenciou a importância de vivificar todas as instituições com o amor evangélico, “porque por meio delas é possível alargar a rede de relacionamentos verdadeiramente humanos”. Os trabalhos prosseguirão até o dia 17 de outubro, com um programa rico e multiforme, aprofundamentos sobre o tema da formação e notícias da vida do Movimento em todo o mundo. Representantes da Ásia darão um panorama especial sobre este continente, em continuidade com os eventos do início do ano de 2010, por ocasião da viagem de Maria Voce e Giancarlo Faletti à Coréia, Japão, Filipinas, Tailândia e Paquistão. (http://www.focolareasiatour.it/pt/) Fotos de Thomas Klann
Essa frase consta também no Antigo Testamento (Lv 19,18). Para responder a uma pergunta capciosa, Jesus se insere na grande tradição profética e rabínica que indagava sobre o princípio unificador da Torá, ou seja, sobre o ensinamento de Deus contido na Bíblia. Um contemporâneo de Jesus, Rabbi Hillel, tinha dito: “Não faça com seu próximo aquilo que detestaria fosse feito a você, nisto se resume toda a lei. O resto é apenas interpretação” (Shabbat 31a). Para os mestres do judaísmo, o amor ao próximo provém do amor a Deus, que criou o homem à sua imagem e semelhança – por essa razão, não se pode amar a Deus sem amar a sua criatura; esse é o verdadeiro motivo do amor ao próximo e é “um princípio grande e geral na lei” (Rabbi Akiba, comentários rabínicos a Lv 19,18). Jesus reforça esse princípio e acrescenta que o mandamento de amar o próximo é semelhante ao primeiro e maior de todos os mandamentos: amar a Deus com todo o coração, com toda a mente e com toda a alma. Ao afirmar que existe uma relação de semelhança entre os dois mandamentos, Jesus os une definitivamente. Isso será feito também por toda a tradição cristã. É o que confirma o apóstolo João de modo lapidar: “Quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).
“Amarás teu próximo como a ti mesmo.”
Todo ser humano é – o Evangelho inteiro afirma isso claramente – nosso "próximo", homem ou mulher, amigo ou inimigo, a quem se deve respeito, consideração, apreço. O amor ao próximo é universal e pessoal ao mesmo tempo. Abraça toda a humanidade e se especifica “naquele que está ao seu lado”. Mas, quem pode nos dar um coração tão grande, quem pode suscitar em nós uma benevolência tão grande a ponto de considerarmos como nossos “próximos” inclusive as pessoas com quem não temos nada a ver, de nos fazer superar o amor-próprio, para vermos a nós mesmos nos outros? É um dom de Deus, ou melhor, é o próprio amor de Deus que “foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Logo, não se trata de um amor comum, não é simples amizade nem apenas filantropia, mas é aquele amor que foi derramado em nossos corações já no batismo, aquele amor que é a vida do próprio Deus, da Santíssima Trindade, e do qual podemos participar. O amor, portanto, é tudo. Mas para podermos vivê-lo bem, é necessário conhecer as suas qualidades, que sobressaem do Evangelho e da Sagrada Escritura em geral, e que vamos tentar sintetizar em alguns aspectos fundamentais. Antes de tudo, Jesus, que morreu por todos, amando a todos, nos ensina que o verdadeiro amor deve ser dirigido a todos. Não é como o amor que muitas vezes vivemos, meramente humano, que tem um raio de alcance restrito: a família, os amigos, os vizinhos… O amor verdadeiro que Jesus pede não admite discriminações; não faz distinção entre a pessoa simpática e antipática; para esse amor não existe o bonito e o feio, o adulto e a criança, o conterrâneo e o estrangeiro, o irmão da própria Igreja ou de outra, da própria religião ou de outra. Esse amor ama a todos. É isso que devemos fazer: amar a todos. E ainda, o amor verdadeiro toma a iniciativa; não espera ser amado, como em geral acontece com o amor humano, que nos leva a amar aqueles que nos amam. Não, o amor verdadeiro toma a iniciativa, como fez o Pai quando, sendo nós ainda pecadores – e, portanto, quando ainda não amávamos –, mandou o Filho para nos salvar. Sendo assim, amar a todos e tomar a iniciativa no amor. O amor verdadeiro reconhece também a presença de Jesus em cada próximo. No juízo final, Jesus nos dirá: “Foi a mim que o fizestes” (cf Mt 25,40). Isso vale para o bem que fazemos e, infelizmente, também para o mal. O amor verdadeiro ama o amigo, mas também o inimigo; faz-lhe o bem, reza por ele. Jesus deseja também que o amor, trazido por Ele à terra, se torne recíproco: que um ame o outro e vice-versa, de modo que se alcance a unidade. Todas essas qualidades do amor nos levam a entender e viver melhor a Palavra de Vida deste mês.
“Amarás teu próximo como a ti mesmo.”
O amor verdadeiro ama o outro como a si mesmo. Isso deve ser seguido ao pé da letra: temos realmente que ver no próximo um “outro nós” e fazermos ao outro o que faríamos a nós mesmos. O amor verdadeiro é o que sabe sofrer com quem sofre, alegrar-se com quem se alegra, carregar os pesos dos outros e, como diz Paulo, sabe “fazer-se um” com a pessoa amada. Dessa forma, é um amor não só de sentimento ou de palavras bonitas, mas que se exprime em fatos concretos. Quem possui outra fé religiosa também procura agir assim, segundo a conhecida “regra de ouro”, que existe em todas as religiões. Ela exige que façamos aos outros o que gostaríamos que fosse feito a nós. Gandhi a explica de modo muito simples e eficaz: “Não posso fazer mal a você sem ferir a mim mesmo” (cf. Wilhelm Mühs, Palavras do Coração, Cidade Nova, São Paulo, 1998). Este mês, portanto, deve ser uma oportunidade para reavivarmos o amor ao próximo, que tem os mais diferentes rostos: o vizinho, a colega de escola, o amigo, o parente mais próximo. Mas tem também o rosto daquela humanidade angustiada dos países em guerra ou das vítimas de catástrofes naturais, que a televisão traz às nossas casas. Antes eram desconhecidos e muito distantes, mas agora também eles se tornaram nossos próximos. O amor vai nos sugerir, em cada circunstância, o que fazer e, aos poucos, dilatará o nosso coração segundo a medida do coração de Jesus.
Chiara Lubich
Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em outubro de 1999.
A escolha do lugar foi acertada: nos arredores de Montevidéu, capital do Uruguai, encontra-se o Centro Mariápolis “O Pelicano”, lugar encantador, ideal para um fim de semana de trabalho num ambiente relaxante. O evento reuniu, nos dias 11 e 12 de setembro, mais de 150 pessoas do Paraguai, Argentina e Uruguai. Empresários, estudantes, operários, economistas interessados em aprofundar os elementos fundamentais do projeto EdC.
Após uma ilustração da Economia de Comunhão, a sua história de quase 20 anos, seus aspectos empresariais, sociais e acadêmicos, os pólos industriais com suas empresas e atuais desafios, prosseguiu-se com uma série de experiências dos protagonistas, com a apresentação de algumas das empresas que aderem à EdC. Maria Elena Gonzàles, do Paraguai, dirigente da “Todo Brillo” (Tudo Limpo), iniciou: “Não lhes falarei da nossa empresa, mas da empresa de um Outro”, aludindo ao já conhecido “sócio invisível”, Deus, que acompanha os empresários da Economia de Comunhão. Com uma simplicidade desconcertante ela relatou as origens humildes da sua empresa de limpeza, da fidelidade aos valores ínsitos na EdC, inclusive nos tempos duros da crise, e de como conseguiram superá-los com o esforço de todos. Atualmente a empresa tem 420 empregados, o que, para o Paraguai, não é pouco. As experiências de duas empresas uruguaias, “Sempre più su”, de roupas esportivas, e “Domus Aurea”, construtora, são comoventes, e até heróicas, num mercado competitivo e, por vezes, cruel. Contaram como distribuem os lucros em função das necessidades reais dos trabalhadores e como procuram viver a “cultura da partilha”, não obstante as limitações financeiras. Em seguida foram apresentadas quatro empresas argentinas: “A Sagrada”, empresa agrícola de Buenos Aires que dedica-se à produção e comercialização de laticínios de qualidade; uma cooperativa metalúrgica e a empresa de eletrodomésticos “Breccia”, de Mendoza, cidade aos pés da cordilheira dos Andes, e enfim a Dimaco, sobre a qual falaram os dez funcionários, todos presentes no Seminário. John Mundell, de Indianapolis (USA), presidente e fundador da Mundell & Associados, apresentou, numa conexão telefônica, a sua empresa especializada em consultoria ambiental. Contou como procuram colocar em prática os pontos fortes da EdC e como avaliam o compromisso dos funcionários com base nestes propósitos. Falou dos relacionamentos positivos com a concorrência, da correção recíproca vivida inclusive com os empregados, da importância de partilhar as experiências de trabalho dentro da empresa, como um meio para transmitir os valores da EdC. Com grande convicção o empresário americano afirmou: “As empresas da EdC tem sucesso, progridem, pelo valores que colocam em prática, e não apesar desses valores”, que exigem sacrifício, agir na legalidade, ir contracorrente, às vezes tomando decisões anti-econômicas. Tudo para permanecer fieis aos valores cristãos. Na conclusão do Seminário, como afirmaram, voltou-se o olhar aos “novos desafios que se apresentam à Economia de Comunhão, para encorajar-nos a prosseguir no caminho iniciado e não perder o encontro marcado com a história”.
Na época das frágeis paixões civis e das incertezas existenciais, a Igreja apresenta uma jovem mulher – Chiara Badano, morta aos 19 anos, assolada por uma doença assustadora – como exemplo da possibilidade de sair dos torpores da alma e da vida, esvaziados de alegria e esperança. Nestes tempo, em que a fé cristã está voltando a ser um caminho estreito a ser escolhido, só aparentemente a jovem beata é uma questão de interesse puramente católico, que se exaure nos confins de um ritual religioso. Pelo modo como Chiara terminou a sua vida, que improvisamente tornou-se breve demais para não suscitar lamentações, a sua beatificação traz mensagens fortes e perpassa questões comuns a homens e mulheres, de qualquer lugar e convicção. Chiara Badano não é um exemplo de cristianismo entendido como resíduo de lendas enganadoras para os simples, é, ao contrário, exemplo de liberdade de espírito encarnada nas dinâmicas cotidianas do nosso viver, na nossa contemporaneidade, enquanto nas sociedades mais secularizadas questiona-se se a fé religiosa não é uma evasão supérflua. Um cristianismo que transforma a vida porque envolve a mente e o coração. Antes de tudo dos jovens, mas de todos os inquiridores de sentido.
Beatificando uma jovem, a Igreja coloca-se em uma séria escuta da exigência de autenticidade, que parte dos jovens diante de todo tipo de autoridade. A jovem Chiara aprendeu a sabedoria da vida não tanto de teorias abstratas, quanto de uma decisão típica da adolescência, que os adultos vivem com desencanto: arriscar tudo e logo no amor, com o desejo de torná-lo eterno. O que é o denominador comum nos santos, prescindindo da idade. Todos são enamorados por Jesus Cristo, que escolhem como bem total da própria vida. E deste seguimento se desencadeia uma vida com energias impensáveis, consumada pela felicidade dos outros. Os santos alcançam a própria felicidade consumando-se no serviço ao próximo, especialmente os fracos e pobres, considerados imagens viventes de Deus. Trata-se de uma felicidade misteriosa e resistente ao mal e aos sofrimentos, que permeiam a vida de todos.
Com a santidade não é proposta uma vida mágica ou de poderes paranormais, mas um caminho que todos, sem distinção, podem percorrer, vivendo o Evangelho e o maior mandamento que ele contem: amarás a Deus com todas as forças e aos outros como Jesus os amou. Chiara Badano é uma jovem que se enamorou com ardor de Jesus Cristo. Viveu e morreu na companhia desse grande amor, não teve tempo para o seu sofrimento, mas olhos e coração para os outros. Num diálogo constante com o Vivente, sem pregações, tornou-se uma prova concreta que Deus não é um risco que se pode correr na escuridão dos desafios da vida, mas um interlocutor oportuno, que se procurado e questionado pode mudar a qualidade do viver e do morrer humanos.
Quando a Igreja reconhece a santidade de um jovem ou de uma jovem mulher acende uma vela no escuro dos tempos, ao invés de amaldiçoar a escuridão. Acrescenta-se uma ajuda alternativa à fadiga de viver, que todos os dias cada pessoa experimenta. Compreender que a vida não está toda aqui, que o sentido da existência não se encerra entre o nascimento e a morte e que, se amamos, podemos viver responsavelmente contentes, inclusive com toda forma de sofrimento e precariedade. Por definição os jovens são aqueles que suscitam a vida, e com dificuldade se conciliam com o sofrimento. A juventude é chorada, é invejada, é um bem desejado, mas passageiro. E procura-se reconquistá-lo. A santidade cristã tem muito o que partilhar com este sentimento humano, porque o experimenta e tenta curá-lo com garantias que diferem da ciência: o amor, a capacidade de amar é o único elixir que garante a juventude do coração e do espírito, ainda que no declínio físico mais repugnante e inexorável.
Mais do que um raciocínio os santos são um fragmento de vida vivida. Avalia-se a Igreja pelos santos, e não só pelos pecadores. Cada vez que ela proclama uma pessoa santa ou bem-aventurada, especialmente se jovem, renova a sua determinação de mudar a si mesma, para melhor. Bento XVI aposta nos santos do século XXI para o sucesso de uma reforma da Igreja iniciada com o Concílio Vaticano II.
Chiara Badano é a primeira pessoa pertencente ao Movimento dos Focolares que torna-se bem-aventurada. Uma outra grande Chiara – fundadora desse vasto movimento de homens e mulheres que desejam transformar o mundo com o amor – quis acrescentar outro nome ao da sua jovem discípula: Luz. Tanto que a jovem beata é identificada como Chiara Luce Badano. E a luz interior, é sabido, abre a mente e desperta o coração.
Carlo Di Cicco, em Osservatore Romano, 26 de setembro de 2010