Movimento dos Focolares

Um comunicador à serviço de um grande ideal: a humanidade como família

Publicamos trechos do discurso de Nedo Pozzi sobre “Giordani comunicador”, proferido no dia 18 de abril, data do 29º aniversário do nascimento para o Céu de “Foco”, durante o recente congresso de NetOne Itália.
Igino Giordani, chamado por Chiara e por todos nós, Foco, deixou esta terra há 29 anos. Para Giordani, uma das figuras italianas mais representativas do século XX, no cume da fama e de uma atividade frenética, aconteceu o evento que direcionou a sua vida rumo a uma experiência espiritual nova e totalmente envolvente.

Foi o encontro com Chiara Lubich, em setembro de 1948. Iniciou com ela uma ligação de amizade espiritual singular, pela humildade, transparência, unidade. Dirá mais tarde: “Todos os meus estudos, os meus ideais, as vicissitudes da minha vida pareciam-me direcionadas a esta meta… Poderia dizer que antes eu havia buscado, e agora encontrado”.

E foi justamente a partir daquele encontro entre Chiara e Giordani, de 1948, que começou a florescer uma renovação radical do viver, do pensar, do interagir social em todos os sentidos, inclusive político, inclusive midiático…

Giordani é um personagem extremamente poliédrico, mas hoje queremos olhá-lo especialmente como comunicador à serviço de um grande ideal: a humanidade como família.

O seu empenho como homem da mídia é impressionante: 4000 artigos em 49 órgãos de imprensa italianos e de outros países, fundador de vários jornais, diretor de dois cotidianos e de 10 periódicos, autor de mais de 100 livros (uma média de quase dois por ano), num total de 26000 páginas, traduzidas nas principais línguas, sem contar os ensaios, opúsculos, cartas e discursos. Por trinta anos permaneceu no vivo do fermento político e cultural, nacional e internacional, acendendo luzes proféticas sobre acontecimentos muitas vezes dramáticos do século XX. Além da pena de escritor de raça, o seu dote midiático mais persuasivo era a palavra, o dom de uma comunicação que, por meio da beleza e da propriedade da oratória, e uma sutil ironia, veiculava idéias contracorrente, de estatura fora do comum.

Eis alguns pensamentos deste artista da palavra, deste político “ingênuo” e “por demais cristão”,  algumas pérolas escolhidas dos seus escritos sobre a comunicação:

“Se para o homem, ser é pensar, viver é comunicar”.

“O comunicador é chamado a iluminar, não a obscurecer. Deveria renovar-se cada dia, reabastecer-se de ideias a cada instante. O comunicador pode não ter um tostão no bolso, mas se tem uma ideia na cabeça, uma chama no coração, vale mais no mercado do que um financiador”.

“O amor é tudo; sem o amor tudo é nada: a comunicação pode e deve alimentar esta verdade que é apenas cimento social duradouro; antes que o medo, mãe da atômica, tenha a supremacia”.

“O comunicador é o construtor mais direto de uma cidade nova”.

“A humanidade se empobrece sempre pelas mesmas razões… Por exemplo, diz: ‘Si vis pacem, para bellum’. Mas para nós a verdade é outra. Se queres a paz prepara a paz. Se preparas a guerra a um certo momento os fuzis dispararão sozinhos… Se quisermos chegar à paz devemos começar a construí-la entre nós… porque a paz começa verdadeiramente de cada um de nós”. Palavras que pronunciou no parlamento italiano, dia 21 de dezembro de 1950.

E para terminar: o que diria Giordani hoje, se perguntássemos o que, na prática, devemos fazer?

“Abrir o coração como uma concha e recolher a voz da humanidade, e colocar em circulação o amor e a riqueza – o bem e os bens – suprimindo as barreiras de raça e de classe, as alfândegas do espírito, os pedágios da felicidade… Ver no homem, quem quer que ele seja, um irmão…”.

É uma proposta e um convite que vem de 1961, mas que vejo sempre atualíssimo, e que me interroga cada manhã, cada vez que encontro alguém ou que me sento diante do computador para exercer a minha … a sua profissão.

Nedo Pozzi

Abril de 2009

Já observou que geralmente você não vive, mas vai levando a vida na espera de um “depois” que lhe traria a “felicidade”?
Na verdade, um “depois-feliz” realmente chegará, mas não será aquele que você espera.
Um instinto divino faz você esperar por alguém ou por alguma coisa que possa satisfazê-lo. Talvez, então, você pense nos dias de festa, ou no tempo livre, ou num encontro especial… Essas coisas, porém, não o deixam satisfeito, ou, pelo menos, não plenamente. E volta a monotonia de uma existência vivida sem convicção, sempre na expectativa de alguma coisa.
A verdade é que, entre os fatores que compõem a sua vida, existe um do qual ninguém pode escapar: é o encontro frente a frente com Deus que vem. É essa a “felicidade” pela qual você inconscientemente anseia, pois você existe para ser feliz. E a felicidade plena somente Deus lhe pode dar.
E Jesus, conhecendo o quanto é difícil – para você e para mim – encontrar o caminho que conduz a ela, nos adverte:

“Vigiai, portanto, pois não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.”

Vigiai. Estai atentos. Permanecei acordados.
Porque, se no mundo há muitas coisas que podem ou não acontecer, existe uma sobre a qual não resta a menor dúvida: um dia também você vai morrer. E isso para o cristão significa apresentar-se diante de Cristo que vem.
Pode ser que você seja como a maioria das pessoas, que esquecem a morte deliberadamente, de propósito. Você tem medo daquele momento e vive como se ele nunca fosse chegar. Diz com a sua vida terrena, com o apego cada vez maior a ela: a morte me amedronta, portanto não existe. Mas esse momento chegará. Porque Cristo vem com certeza.

“Vigiai, portanto, pois não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.”

Com essas palavras, Jesus quer referir-se à sua vinda no último dia. Assim como Ele subiu ao céu em meio aos apóstolos, da mesma maneira haverá de voltar.
Todavia, essas palavras querem exprimir também a vinda do Senhor no fim da vida de cada pessoa. Afinal, quando o homem morre, para ele o mundo terminou.
E uma vez que você não sabe se Cristo virá hoje, esta noite, amanhã, ou daqui a um ano ou mais, é preciso vigiar. Exatamente como aqueles que ficam acordados, por saberem que os ladrões virão saquear sua casa, mas desconhecem a hora.
E, se Jesus vem, quer dizer que esta vida é passageira. Por isso, ao invés de menosprezá-la você deve dar-lhe a máxima importância, deve preparar-se para esse encontro com uma vida digna. (…)

“Vigiai, portanto, pois não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.”

Sem dúvida, é preciso que também você vigie. A sua vida não é apenas uma sucessão pacífica de ações. É também uma luta. E as mais variadas tentações, como a da vaidade, a do apego ao dinheiro, a da violência, as de caráter sexual, são os seus primeiros inimigos.
Se você vigiar sempre, não se deixará apanhar de surpresa. Mas somente quem ama vigia bem. Vigiar é próprio do amor. Quando se ama uma pessoa, o coração vigia sempre, e cada minuto transcorrido à sua espera é vivido em função dela.
É assim que se comporta uma esposa amorosa nas tarefas diárias ou quando prepara alguma coisa para o marido ausente: faz tudo em função do seu esposo. E quando ele chega, na saudação exultante com que ela o recebe, está presente toda a riqueza do trabalho do dia.
É assim que se comporta uma mãe, quando faz seu pequeno descanso enquanto assiste o filhinho doente. Ela dorme, mas o seu coração vigia.
É assim que se comporta quem ama Jesus. Faz tudo em função dele, encontra-o nas simples manifestações da sua vontade em cada momento, e o encontrará solenemente no dia em que Ele vier.
É o dia 3 de novembro de 1974.
Conclui-se, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, um encontro espiritual de 250 pessoas, sobretudo moças, muitas das quais provenientes da cidade de Pelotas.
O primeiro ônibus, com 45 pessoas, está partindo: muitos cantos, muita alegria. A certa altura da viagem, algumas jovens rezam juntas os mistérios dolorosos do terço e pedem a Nossa Senhora que as ajude a ser fiéis a Deus, até a morte.
Numa curva, por causa de um defeito mecânico, o ônibus sai da pista e rola num precipício de uns cinquenta metros de profundidade. Morrem seis moças.
Uma das sobreviventes diz: “Vi a morte de perto, mas não senti medo, porque Deus estava ali presente”.
E uma outra: “Quando percebi que podia locomover-me entre as ferragens, olhei para o céu estrelado e, ajoelhada entre os corpos das minhas amigas, rezei. Deus estava ali conosco…”.  O pai de uma das vítimas contou que a filha costumava dizer: “Morrer é uma coisa bacana, papai, a gente vai se encontrar com Jesus”.

“Vigiai, portanto, pois não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.”

As jovens de Pelotas, porque amavam, vigiavam e, quando o Senhor veio, elas foram ao seu encontro com alegria.              

Chiara Lubich

Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em dezembro de 1978

MARÇO DE 2009

 

A coisa mais absurda que você pode observar neste mundo é, de um lado, a presença de homens desorientados, sempre em busca de alguma coisa, os quais, nas inevitáveis provações da vida, sentem a angústia das privações, a necessidade de ajuda e a sensação de orfandade; e, de outro lado, Deus, Pai de todos, que nada mais quer do que usar da sua onipotência para satisfazer os desejos e as necessidades de seus filhos.
É como o vazio que busca a plenitude. É como a plenitude que anseia pelo vazio. Mas, esse encontro não se realiza.
A liberdade de que o homem é dotado pode provocar também esse sofrimento.
Mas, Deus não deixa de ser Amor e aqueles que o reconhecem sabem disso.
Ouça o que diz Jesus:

“Se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vos dará.”

Agora você pode considerar uma daquelas palavras cheias de promessas que, de vez em quando, Jesus repete no Evangelho. Com elas, ensina-lhe, com maior ou menor força e com diferentes explicações, como obter aquilo de que você necessita.
Só Deus pode falar assim. Para ele, tudo é possível. Todas as graças estão em poder dele: tanto as terrenas como as espirituais, tanto as possíveis como as impossíveis.
Mas, preste bem atenção.
Ele sugere como você deve apresentar-se ao Pai para fazer o seu pedido. Ele diz: “Em meu nome”.
Se você tem um pouco de fé, essas três breves palavras devem abrir-lhe perspectivas enormes.
Veja só: Jesus, que viveu aqui entre nós, conhece as infinitas necessidades de cada pessoa e também as de você, e se compadece de nós. Por isso, no que diz respeito à oração, ele veio em nossa ajuda e é como se lhe dissesse: “Procure o Pai em meu nome e peça-lhe isto, isso e mais aquilo”. Ele sabe que o Pai não pode dizer não. Ele é seu filho, e é Deus.
Não se apresente em seu próprio nome ao Pai, mas em nome de Cristo. Lembre-se de que um mensageiro não sofre penalidade.
Dirigindo-se ao Pai em nome de Cristo, você desempenha a função de um simples mensageiro.
Os negócios são tratados entre as partes interessadas.
É assim que muitos cristãos fazem a própria oração. E eles podem testemunhar as inúmeras graças que receberam. Graças que revelam dia após dia a paternidade de Deus que os acompanha, atenta e amorosa.
 

“Se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vos dará”

A esta altura pode ser que você me diga: “Mas eu pedi, tornei a pedir em nome de Cristo, e nada obtive”.
Pode ser. Eu lhe disse acima que Jesus, em outras passagens do Evangelho, nos convida a pedir, e dá outras explicações que talvez lhe tenham passado despercebidas.
Ele disse, por exemplo, que só obtém quem “permanece” nele, ou seja, na Sua vontade.
Pode acontecer, então, que você peça alguma coisa que não se enquadra no plano de Deus para você e que Deus não considere oportuna para a sua existência nesta terra ou na outra Vida; ou, até mesmo, a julgue prejudicial.
Como é que ele, sendo seu Pai, pode atender você nesses casos? Ele enganaria você. E isso jamais ele fará.
Então, será conveniente que, antes de orar, você se coloque de acordo com Deus e diga: “Pai, eu gostaria de lhe pedir isto em nome de Jesus, se achar oportuno”.
E, se a graça pedida se conciliar com o plano que Deus, no seu amor, concebeu para você, haverá de se concretizar a frase:

“Se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vos dará”

Pode ser também que você peça alguma graça, mas não tenha a menor intenção de viver de acordo com aquilo que Deus pede. Também, nesse caso, seria justo que ele atendesse você? Ele não quer lhe dar somente uma graça, mas igualmente a felicidade plena. E esta felicidade se obtém procurando viver os mandamentos de Deus, as suas palavras. Não é suficiente apenas pensar nelas, nem limitar-se a meditá-las; é necessário vivê-las.
Se você assim fizer, conseguirá obter tudo.
Concluindo: quer obter graças? Peça qualquer coisa em nome de Cristo, colocando em primeiro lugar a vontade dele, com a decisão de obedecer à Lei de Deus.
Deus fica muito feliz em poder doar graças. Infelizmente, na maioria das vezes, somos nós quem lhe amarramos as mãos.

Chiara Lubich

Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em novembro de 1978.

 

O Evangelho vivido libera a luz

Eis alguns frutos da Palavra. Mas os frutos que relacionamos têm a sua origem num fato. Como é sabido, a Palavra de Deus não é como as outras, ela não somente pode ser escutada, mas tem o poder de operar o que diz. A Palavra, que é uma presença de Cristo, gera Cristo na nossa alma e na alma dos outros. É verdade: pelo fato que somos cristãos, mesmo sem o empenho de viver a Palavra, existe a vida de Cristo em nós, e com ela temos a luz e o amor de Deus, no entanto eles estão como que fechados numa crisálide. Vivendo o Evangelho o amor libera a luz e a luz faz crescer o amor: a crisálide começa a se mover, até que nasce a borboleta. Ela é o pequeno Cristo que começa a tomar lugar em nós e depois cresce cada vez mais, até nos preencher dele mesmo. Existe uma descrição magnífica de Paulo VI sobre o que a Palavra produz: “Como Jesus se faz presente nas almas? Através do veículo, da comunicação da Palavra, (…) passa o pensamento divino, passa o Verbo, o Filho de Deus feito Homem. Poder-se-ia dizer que o Senhor assume a nossa carne quando aceitamos que a sua Palavra venha viver dentro de nós”.   Retirado de Viver a tua Palavra – Editora Cidade Nova, 2009

Fevereiro de 2009

 

Que vos parece? São palavras tremendamente exigentes, radicais, inéditas!  No entanto, aquele Jesus que declarou indissolúvel o matrimónio e deu o mandamento de amar a todos, e, portanto, de amar especialmente os pais, aquele mesmo Jesus pede agora que se ponham em segundo lugar todos os afectos belos da Terra, sempre que forem um impedimento ao amor directo, imediato a Ele. Só Deus podia pedir tanto.
Na verdade, Jesus desenraíza as pessoas do seu modo natural de viver e quere-as ligadas, antes de mais, a Ele, para realizar na Terra a fraternidade universal.

Por isso, onde quer que encontre um obstáculo ao seu projecto, Deus “corta”, e no Evangelho Jesus fala de «espada», espiritual, claro.
E chama «mortos» àqueles que não O souberem amar mais do que à mãe, à esposa, à vida. Lembram-se daquele homem que pediu para sepultar o pai antes de O seguir? Foi a ele que Jesus respondeu: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos»1.
Perante uma tão grande exigência, podemos sentir um arrepio de medo, ou pensar que estas palavras de Jesus só eram compreensíveis naquela época, ou por aqueles que O seguissem de um modo especial.
Mas não é assim. Esta frase é válida para todas as épocas, e também para os dias de hoje. E vale para todos os cristãos, também para nós.

Nos tempos que correm podem surgir muitas ocasiões para pôr em prática o convite de Cristo.
Vives numa família onde há alguém que contesta o cristianismo? Jesus quer que tu o testemunhes com a vida e, no momento oportuno, com a palavra, mesmo à custa de seres ridicularizado ou caluniado.
És mãe e o teu marido convida-te a interromper a gravidez? Obedece a Deus, e não aos homens.
Um irmão teu quer que te juntes a um grupo com fins pouco claros, ou mesmo reprováveis? Não te deixes envolver. Há alguém da tua família que te convida a arranjar dinheiro pouco limpo? Mantém a tua honestidade. Toda a tua família quer arrastar-te para uma vida mundana? Não vás, para que Cristo não se afaste de ti.

«Se alguém vem ter Comigo e não Me prefere a seu pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs, e até à própria vida, não pode ser Meu discípulo».

Pertencias a uma família descrente e a tua conversão a Cristo causou a divisão? Não te assustes. É um efeito do Evangelho.
Oferece a Deus o sofrimento que sentes no coração por aqueles que amas, mas não cedas.
Cristo chamou-te a Si de um modo especial, e agora chegou o momento em que a tua doação total exige que deixes o pai e a mãe, ou talvez que renuncies à namorada.
Faz a tua escolha.
Sem combate, não há vitória.

«Se alguém vem ter Comigo e não Me prefere a seu pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs, e até à própria vida, não pode ser Meu discípulo».

«… e até à própria vida».
Vives num lugar de perseguição e o facto de te expores por Cristo põe em perigo a tua vida? Coragem. Às vezes a nossa fé pode pedir também isto. Na Igreja, a época dos mártires nunca acabou completamente.
Cada um de nós, ao longo da sua vida, há-de ter que escolher entre Cristo e tudo o resto, para permanecer um cristão autêntico. Portanto, também para ti há-de chegar esse momento.
Não tenhas medo. Não receies perder a vida, porque mais vale perdê-la por Deus do que nunca mais a encontrar. A outra Vida é uma realidade.
E não te aflijas com os teus familiares. Deus ama-os. Se tu O souberes preferir a eles, chegará o dia em que Deus há-de passar por eles para os chamar com as palavras fortes do Seu Amor. E tu poderás então ajudá-los a tornarem-se, também, verdadeiros discípulos de Cristo.

Chiara Lubich

Palavra de Vida, Outubro de 1978, publicada em Essere la Tua Parola. Chiara Lubich e cristiani di tutto il mondo, vol. I, Roma 1980, pp. 111-113

1) Lc 9, 60.

Janeiro de 2009

Você já visitou alguma vez uma comunidade viva de cristãos realmente autênticos? Já participou de um encontro entre eles, ou conheceu mais de perto a vida de uma comunidade assim?
Se isso aconteceu, você terá percebido que as pessoas que a compõem desempenham funções diferentes; por exemplo: há quem tem o dom de falar e lhe comunica realidades espirituais que penetram profundamente na alma; há quem tem o dom de ajudar, de atender às necessidades dos outros e deixa você maravilhado diante dos sucessos alcançados em benefício daqueles que sofrem. Há também quem ensina com tamanha sabedoria, a ponto de reforçar a fé que você já possui, ou ainda quem tem o dom de organizar ou de governar; há quem sabe entender todo próximo que encontra e é distribuidor de consolações aos necessitados.
É verdade, tudo isso você poderá experimentar; porém, aquilo que mais impressiona numa comunidade tão viva é o único espírito que a todos anima e que se tem a impressão de sentir pairar. Espírito esse que faz da comunidade uma única realidade, um só corpo.

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Também Paulo – e ele de um modo todo especial – se encontrou diante de comunidades cristãs vivíssimas, que nasceram justamente por causa da sua extraordinária palavra.
Uma dessas – ainda jovem – era a de Corinto, na qual o Espírito Santo tinha sido generoso em distribuir os seus dons, ou melhor, os carismas, como são chamados. Por sinal, naquele tempo se manifestavam carismas extraordinários, devido à vocação especial da Igreja nascente.
Aconteceu, porém, que depois de ter feito a maravilhosa experiência da diversidade de dons distribuídos pelo Espírito Santo, essa comunidade conheceu também rivalidades ou desordens, justamente entre aqueles que tinham sido beneficiados por esses dons.
Foi necessário, então, dirigir-se a Paulo, que estava em Éfeso, para pedir esclarecimentos.

Paulo não hesita e responde numa das suas importantes cartas, explicando como devem ser usadas essas graças especiais.
Ele explica que existe diversidade de carismas, diversidade de ministérios, como o dos apóstolos ou o dos profetas ou ainda o dos mestres, mas que um só é o Senhor do qual eles provêm. Diz ainda que, na comunidade, existem operadores de milagres e de curas, pessoas com o dom excepcional para o atendimento aos necessitados, outras para o governo, como também há quem sabe falar línguas e quem sabe interpretá-las. Mas acrescenta que um só é Deus, onde têm origem esses dons.

Portanto, como os diversos dons são expressões do mesmo Espírito Santo, que os distribui livremente, não podem deixar de estar em harmonia entre si, não podem deixar de ser complementares. Esses dons não servem para uma simples realização pessoal, não podem ser motivo de vanglória, ou de afirmação de si, mas foram dados para uma finalidade comum: construir a comunidade. A finalidade deles é o serviço. Por isso, não podem causar rivalidades ou confusão.

Paulo, mesmo pensando em dons particulares que diziam respeito diretamente à vida da comunidade, é do parecer que cada membro dessa comunidade tem a sua capacidade, o seu talento, que deve ser usado para o bem de todos, e que cada um deve ficar satisfeito com aquilo que tem.
Ele apresenta a comunidade como um corpo, e se pergunta: “Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato? Realmente, Deus dispôs os membros, e cada um deles, no corpo, conforme quis. Se houvesse apenas um membro, onde estaria o corpo?” (cf. 1Cor 12,17-19) Mas, de fato,

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Se cada um é diferente dos outros, cada um pode então ser um dom para os outros; sendo, portanto, aquilo que deve ser e realizar o desígnio que Deus tem para ele em função dos outros.
Paulo vê na comunidade, onde os diversos dons funcionam, uma realidade à qual dá um nome esplêndido: Cristo. E com razão, pois este corpo tão original, composto pelos membros da comunidade, é realmente o Corpo de Cristo. Com efeito, Cristo continua a viver na sua Igreja, e a Igreja é o seu corpo. De fato, no batismo o Espírito Santo incorpora o batizando em Cristo, tornando-o assim membro da comunidade. Nela, todos foram transformados em Cristo, toda divisão é cancelada, toda discriminação é superada.

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Se o corpo é um só, os membros da comunidade cristã só atuam bem esse novo modo de viver se realizarem a unidade entre si; unidade que supõe a diversidade, o pluralismo. A comunidade não é como um bloco de matéria inerte, mas como um organismo vivo, composto por vários membros.
Para os cristãos, portanto, provocar divisões é o contrário do que devem fazer.

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Como, então, você viverá essa nova Palavra que a Escritura lhe propõe?
É necessário que você tenha um grande respeito pelas diversas funções, pelos dons e talentos da comunidade cristã.
Você deve abrir o seu coração para acolher toda a rica variedade da Igreja, e não só da pequena Igreja que você freqüenta e bem conhece, como a comunidade paroquial ou a associação cristã da qual participa, ou ainda o movimento eclesial do qual você é membro, mas de toda a Igreja universal, nas suas múltiplas formas e expressões.
Deve sentir que tudo lhe pertence, pois você faz parte desse único corpo.
E da mesma forma como você cuida de cada membro do seu corpo físico e o protege, deve cuidar e proteger cada membro do corpo espiritual. (…)
Você deve estimar a todos e também fazer tudo o que está ao seu alcance para que possam tornar-se úteis à Igreja do melhor modo possível. (…)
Você não deve desprezar aquilo que Deus lhe pede, no lugar em que você se encontra – por mais que o trabalho cotidiano possa lhe parecer monótono e sem grande sentido –, pois pertencemos todos a um mesmo corpo e, como membro dele, cada um participa da atividade de todo o corpo permanecendo no lugar que Deus escolheu para ele.
Além disso, o essencial é que você tenha aquele carisma – como anuncia Paulo – que supera todos os outros: o amor. O amor para com toda pessoa que você encontra, o amor para com todos os homens da terra.
Somente com o amor, com o amor recíproco, é que os muitos membros podem ser um só corpo.

Chiara Lubich

Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em janeiro de 1981.