31 Jul 2006 | Palavra de Vida, Sem categoria
É um programa de vida concreto e essencial. Só ele já bastaria para criar uma sociedade diferente, mais fraterna, mais solidária. Ele faz parte de um amplo projeto que o Apóstolo propõe aos cristãos da Ásia Menor.
Naquela comunidade foi alcançada a paz entre judeus e gentios, os dois povos até então divididos que representavam a humanidade.
A unidade, doada por Cristo, deve ser sempre reavivada e traduzida em comportamentos sociais concretos, inteiramente inspirados pelo amor mútuo. Daí a razão por que Paulo dá estas orientações sobre como devemos nos relacionar:
«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»
“Sede bondosos…”: ser bom, querer o bem do outro. É “fazer-nos um” com ele, aproximar-nos dele estando completamente vazios de nós mesmos, dos nossos interesses, das nossas idéias, dos muitos preconceitos que ofuscam o nosso olhar, para tomar sobre nós os seus pesos, suas necessidades, seus sofrimentos, para compartilhar as suas alegrias.
É entrar no coração daqueles que encontramos para entender a sua mentalidade, sua cultura, suas tradições e, de certo modo, fazê-las nossas; para entender realmente aquilo de que estão precisando e saber colher os valores que Deus derramou no coração de cada pessoa. Numa palavra: viver por quem está ao nosso lado.
“Sede compassivos…”: a compaixão. Acolher o outro tal como ele é; não como gostaríamos que fosse: com um caráter diferente, com as mesmas idéias políticas nossas, com as nossas convicções religiosas e sem os tais defeitos ou modos de fazer que tanto nos incomodam. Não. É preciso dilatar o coração e torná-lo capaz de acolher a todos na sua diversidade, com os seus limites e misérias.
“… perdoando-vos mutuamente”: o perdão. Ver o outro sempre novo. Mesmo nas convivências mais agradáveis e serenas, na família, na escola, no trabalho, nunca faltam os momentos de atrito, as divergências, os desencontros. Às vezes se chega a não falar mais um com o outro, ou a evitar-se, isso quando não se estabelece no coração um verdadeiro ódio contra os que têm um ponto de vista diferente. A conquista mais forte e exigente é procurar ver cada dia o irmão e a irmã como se fossem novos, novíssimos, esquecendo-se completamente das ofensas recebidas e cobrindo tudo com o amor, com uma anistia total do nosso coração, imitando desta forma Deus, que perdoa e esquece.
E enfim, alcançamos a paz verdadeira e a unidade quando vivemos a bondade, a compaixão e o perdão não apenas como pessoas isoladamente, mas em conjunto, na reciprocidade.
E assim como acontece numa fogueira, onde as brasas são sufocadas pela cinza se não forem remexidas, da mesma forma as relações com os outros podem ser sufocadas pela cinza da indiferença, da apatia, do egoísmo, se não reavivarmos de tempo em tempo os propósitos de amor mútuo, os relacionamentos com todos.
«Sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo»
Essas atitudes precisam ser traduzidas em fatos, em ações concretas.
O próprio Jesus demonstrou o que é o amor quando curou os doentes, quando saciou a fome das multidões, quando ressuscitou os mortos, quando lavou os pés dos discípulos. Fatos, fatos: isso é amar.
Lembro de uma mãe de família africana: viu a própria filha Rosângela perder um dos olhos, vítima da agressividade de um garoto que a feriu com um pedaço de pau e ainda continuava caçoando dela. Nem o pai nem a mãe do menino tinham pedido desculpas pelo acontecido. O silêncio, a falta de relacionamento com essa família a deixavam angustiada. “Fique tranqüila – dizia Rosângela, que já tinha perdoado –, ainda tive sorte: pelo menos posso ver com o outro olho!”
“Um dia, de manhã – conta a mãe de Rosângela –, a mãe daquele garoto mandou me chamar porque estava passando mal. A minha primeira reação foi: ‘Essa não! Ela tem tantos outros vizinhos, e agora vem pedir ajuda logo a mim, depois de tudo o que seu filho fez conosco!’
Mas na hora me lembrei de que o amor não tem barreiras. Corri até a sua casa. Ela abriu a porta e desmaiou nos meus braços. Levei-a para o hospital e lá fiquei até que os médicos a atendessem. Depois de uma semana, quando ela teve alta, veio até em casa para me agradecer. Procurei acolhê-la de todo o coração. Consegui perdoá-la. Agora o relacionamento se recompôs. Ou melhor, começou totalmente novo”.
Podemos preencher também o nosso dia com serviços concretos, humildes e inteligentes, expressões do nosso amor. Veremos crescer ao nosso redor a fraternidade e a paz.
Chiara Lubich
21 Jul 2006 | Sem categoria
30 Jun 2006 | Palavra de Vida, Sem categoria
O abraço de Deus é universal. Envolve o universo e está atento à menor das suas criaturas. O poema (o Salmo) de onde foi tirada esta Palavra de Vida é todo um hino a ele, “grande no amor”, que se inclina para cada ser vivente, atraído por suas necessidades.
Toda criatura se apresenta em atitude de invocação: precisa do alimento e, com ele, do necessário para a sua subsistência, e Deus abre a sua mão com generosidade. Ele cuida de cada um, protege quem é fraco e está em perigo1, reconduz ao caminho seguro quem perdeu o rumo.
«O Senhor está perto de todos os que o invocam, dos que o invocam de coração sincero»
Ele não é um Deus ausente, distante, indiferente aos destinos da humanidade, ao destino de cada um de nós. Muitas vezes já tivemos ocasião de constatá-lo. Mas também é verdade que, em outros momentos, temos a impressão de que ele está imensamente distante de nós e nos sentimos desamparados, inseguros, perdidos diante de situações que nos parecem estar acima de nossas forças.
E então, muitas vezes vêm à tona a rebelião ou sentimentos de antipatia – quando não de ódio – para com algum dos nossos irmãos ou irmãs. E começam a nos pesar na alma certas situações que há anos se arrastam na família ou na comunidade de trabalho: pequenas ou grandes desconfianças, ciúmes, invejas, atitudes autoritárias. Ou então, sentimo-nos sufocados por um mundo que nos pode parecer repleto de velhas paixões e carreirismos, empobrecido de ideais, de justiça e de esperança.
E o nosso coração parece gritar: “Senhor, onde estás?” “Tu me amas de verdade? Tu nos amas de verdade? Mas então, por que tudo isso?”
É quando a Palavra de Vida reaviva uma certeza: nunca estamos sozinhos na nossa aventura humana.
«O Senhor está perto de todos os que o invocam, dos que o invocam de coração sincero»
É um convite a reavivar a fé: Deus existe e me ama. Isso eu posso e devo reafirmar em cada ação, diante de cada acontecimento: Deus me ama. Encontro uma pessoa? Devo acreditar que, através dela, Ele tem algo a me dizer. Estou me dedicando a um trabalho? Naquele momento continuo a crer no Seu amor. Aparece um sofrimento? Continuo a ter fé que Deus me ama. Aparece uma alegria? Deus me ama.
Ele está comigo aqui, está sempre comigo, sabe tudo sobre mim e partilha cada pensamento meu, cada alegria, cada desejo; divide comigo toda preocupação, toda provação da minha vida.
«O Senhor está perto de todos os que o invocam, dos que o invocam de coração sincero»
Como podemos reavivar esta certeza? Eis algumas sugestões.
Ele mesmo diz: invocando-o! Jesus estava na barca de Pedro quando desabou a tempestade; apesar disso os discípulos se sentiram sós e indefesos, porque ele dormia. Eles o acordaram: “Senhor, salva-nos, estamos perecendo”2 e ele acalmou o vento e as águas.
O próprio Jesus, na cruz, não sentiu mais a proximidade do Pai. Ele o invocou com a oração mais angustiada: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?3 Mas ele acreditou no Seu amor, abandonando-se novamente ao Pai, que o ressuscitou da morte.
De que outro modo podemos reavivar a fé na sua presença?
Procurando-o entre nós. Jesus prometeu estar lá onde dois ou mais estiverem unidos em seu nome4. Então, na atitude de amor mútuo que o Evangelho ensina, encontremo-nos com aqueles que vivem a Palavra de Vida, partilhemos as experiências e perceberemos os frutos desta sua presença: alegria, paz, luz, coragem.
Ele permanecerá junto a cada um de nós e o sentiremos continuamente perto e atuante na nossa vida de cada dia.
Chiara Lubich
11 Jun 2006 | Sem categoria
31 Mai 2006 | Palavra de Vida, Sem categoria
“Fostes chamados para a liberdade”. É o anúncio que Paulo de Tarso dirige aos cristãos das várias comunidades da Galácia. Um anúncio que faz ecoar as palavras de Jesus quando disse que nos tornaria “verdadeiramente livres”.
Livres do quê? Os cristãos da Galácia tinham ficado livres das prescrições legais da lei de Moisés. Essa libertação se estendeu depois a todos os cristãos. Mais ainda, nós ficamos livres do pecado e das suas conseqüências: os nossos medos, a busca desenfreada dos nossos interesses, os condicionamentos culturais, as convenções sociais… É por isso que somos livres quando observamos as normas de conduta social e religiosa do cristianismo; para nós, não são obrigações vindas de fora.
Temos uma lei nova: “a lei de Cristo”, como a define Paulo. Ela está inscrita em nosso coração, nasce no interior da pessoa renovada pelo amor de Cristo: uma “Lei de liberdade”. Uma lei que, no seu conjunto, doa a força para ser atuada.
Somos livres porque guiados pelo Espírito de Jesus que vive em nós. Daí o convite:
«Deixai-vos sempre guiar pelo Espírito (…).Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então não estais sob o jugo da Lei»
Neste período de Pentecostes nós revivemos o evento da descida do Espírito sobre Maria e os discípulos reunidos no Cenáculo. Em forma de línguas de fogo, Ele derrama nos corações o amor de Deus. É esta a “nova lei”: o amor.
O Espírito Santo é o Amor de Deus que, penetrando em nós, transforma o nosso coração, nele infunde o seu mesmo amor e ensina a agir no amor e por amor.
É o amor que nos move, que nos sugere como responder às situações e às escolhas que somos chamados a fazer. É o amor que nos ensina a discernir: isso é bom, eu faço; não é bom, não faço. É o amor que nos impulsiona a agir procurando o bem do outro.
Não somos guiados por algo externo, mas pelo princípio de vida nova que o Espírito colocou dentro de nós. Forças, coração, mente, todas as nossas capacidades podem “deixar-se sempre guiar pelo Espírito”, quando unificados pelo amor e postos à completa disposição do projeto de Deus sobre nós e sobre a sociedade.
Somos livres para amar.
«Deixai-vos sempre guiar pelo Espírito (…).Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então não estais sob o jugo da Lei»
“Se, porém, sois conduzidos …”. Existe sempre um perigo de que alguma coisa impeça o Espírito de conduzir plenamente o nosso coração, a nossa mente. Podemos resistir à sua voz e aos seus apelos a ponto de “entristecê-lo”, chegando até mesmo a “apagar” a sua presença em nós. Muitas vezes preferimos seguir os nossos desejos aos dele, a nossa vontade à dele.
Como, então, nos deixar conduzir por essa voz que fala no nosso íntimo? Aonde ela nos leva? O próprio Paulo nos lembra, em alguns versículos anteriores, que toda a nova lei de liberdade se resume neste único preceito: o amor ao próximo. Em outras palavras, como Paulo sugere, ser livre significa fazer-se escravo dos outros, colocar-se a serviço uns dos outros. A voz interior (= o amor) nos impulsiona a nos interessar por aqueles que estão ao nosso lado, a escutar, a doar.
Pode parecer estranho, mas toda Palavra de vida, no final, leva a amar. Não é um exagero, é a lógica do Evangelho.
Somente se estamos no amor, somos cristãos autênticos.
«Deixai-vos sempre guiar pelo Espírito (…).Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então não estais sob o jugo da Lei»
Deixemos ao Espírito a liberdade de nos conduzir pelo caminho do amor, por meio desta oração:
“Tu és a luz, a alegria, a beleza.
Tu arrebatas as almas, Tu inflamas os corações e inspiras pensamentos profundos e resolutos de santidade, com propósitos individuais inesperados.
Tu santificas. E sobretudo, ó Espírito Santo, Tu que és tão discreto, embora impetuoso e arrebatador, que sopras qual leve brisa que poucos sabem escutar e sentir, olha a grosseria de nossa indelicadeza e faz de nós devotos teus. Que não se passe um dia sem te invocarmos, sem te agradecermos, sem te adorarmos, sem te amarmos, sem vivermos como assíduos discípulos teus.
Nós te pedimos essa graça”.
Chiara Lubich
30 Mai 2006 | Sem categoria