31 Ago 2006 | Palavra de Vida, Sem categoria
A Palavra do Evangelho: uma Palavra que gera a vida e, ao mesmo tempo, uma Palavra que reclama ser vivida.
Se um Deus nos fala, como podemos deixar de acolher a sua Palavra? A Bíblia repete nada menos que 1.153 vezes o convite a escutá-lo. O mesmo convite, “Escutai-o”1, foi dirigido pelo Pai aos discípulos quando a Palavra – seu Filho – veio viver entre nós.
Mas a escuta mencionada na Bíblia se atua mais no coração do que nos ouvidos. Significa aderir totalmente, obedecer, adequar-se àquilo que Deus fala, com a confiança de uma criança que se abandona nos braços da mãe e se deixa carregar por ela.
É isso que o apóstolo Tiago lembra na sua carta:
«Sede praticantes da Palavra, e não meros ouvintes»
Percebe-se que nessa frase ressoa o ensinamento de Jesus. Ele declara feliz aquele que, tendo escutado a Palavra de Deus, a observa2. E reconhece como sua mãe e seus irmãos os que a escutam e a põem em prática3.
Retomando uma imagem apresentada por Jesus, Tiago compara a Palavra a uma semente depositada no nosso coração, que deve ser acolhida “com docilidade”. Mas não é suficiente acolher, escutar. Assim como a semente está destinada a produzir frutos, da mesma forma a Palavra de Deus deve traduzir-se em vida.
Foi o que Jesus explicou na parábola dos dois filhos. “Sim”, respondeu um dos filhos ao pai, quando este lhe pediu que fosse trabalhar na vinha; mas ele não foi. Já o outro respondeu: “Não quero”, e no entanto acabou obedecendo ao pai, demonstrando com os fatos o que significa escutar realmente a Palavra4.
Jesus afirma ainda, no final do “sermão da montanha”, que o bom ouvinte da Palavra é aquele que a põe em prática, dando solidez à sua vida como a uma casa construída sobre a rocha5.
«Sede praticantes da Palavra, e não meros ouvintes»
Em cada uma de suas Palavras Jesus exprime todo o seu amor por nós. Vamos concretizá-la, assumi-la como coisa nossa. Experimentemos quanta potência de vida ela irradia em nós e ao nosso redor quando a vivemos. Deixemo-nos enamorar pelo Evangelho até o ponto de deixar-nos transformar por ele e de transbordá-lo sobre os outros. Esse é o modo de retribuirmos com o nosso amor o amor de Jesus.
Não seremos mais nós a viver: Cristo se formará em nós.
Sentiremos na própria pele a libertação de nós mesmos, dos nossos limites, das nossas escravidões. E não é só: já que demos a Jesus a liberdade de viver em nós, veremos explodir a revolução de amor que ele provocará no ambiente social que nos envolve.
«Sede praticantes da Palavra, e não meros ouvintes»
É essa a nossa experiência desde o início do Movimento em Trento, durante a Segunda Guerra Mundial, quando, devido aos freqüentes bombardeios, corríamos para os abrigos antiaéreos levando conosco apenas o pequeno livro do Evangelho.
Nós o abríamos e líamos. E, penso, devido a uma graça especial de Deus, aquelas Palavras, já tão conhecidas, se iluminavam com uma luz novíssima. Eram Palavras de vida, que podiam ser traduzidas em vida. “Amarás teu próximo como a ti mesmo”6… embora na tristeza e na tragédia da guerra, as pessoas amadas desse modo reencontravam a alegria, a serenidade, o sentido da vida. “Dai e vos será dado”7… e, apesar da carestia, quilos e mais quilos de mantimentos quase que nos submergiam, depois de algum gesto nosso de generosidade, até mesmo pequeno; e nós distribuíamos largamente esses bens aos mais necessitados da cidade.
Assim, vimos nascer ao nosso redor uma comunidade viva que, depois de apenas poucos meses, já contava 500 pessoas.
Tudo era fruto da comunhão com a Palavra: ela era constante, era uma dinâmica realizada minuto por minuto. Vivíamos inebriados pela Palavra. Podemos dizer que era a Palavra que vivia em nós. Para aumentar em nós a aceleração em vivê-la, bastava dizer um ao outro: “Você vive a Palavra?”, “Você é a Palavra viva?”
Devemos voltar àqueles tempos. O Evangelho é sempre atual. Cabe a nós acreditar nele e comprová-lo.
Chiara Lubich
1) Mt 17,5;
2) Cf. Lc 11,28;
3) Cf. Lc 8,20-21;
4) Cf. Mt 21,28-30;
5) Mt 7,24;
6) Mt 22,39;
7) Lc 6,38.
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30 Ago 2006 | Sem categoria
“Num tempo em que a religião é manipulada por extremistas, os líderes religiosos reunidos em Kyoto demonstram ao mundo inteiro a capacidade das comunidades religiosas de iluminar o caminho da paz quando trabalham juntas”, afirmou o Dr. Vendley, secretário-geral da Conferência Mundial das Religiões pela Paz (WCRP), na conclusão da VIII Assembléia Mundial, da qual participaram mais de 2 mil pessoas.
Os 800 representantes oficiais, provenientes de mais de cem países, eram expoentes budistas, cristãos, hindus, muçulmanos, judeus, jainistas, xintoístas, zoroastrianos, e indígenas. Entre os muçulmanos estavam personalidades de relevo, como o ex-presidente iraniano Khatami e o príncipe da Jordânia, Hassan Talal. A delegação judaica era chefiada pelo rabino David Rosen, presidente da Comissão judaica internacional. Lideravam os representantes católicos os cardeais Stephen Fumio Hamao, japonês, e o boliviano Julio Terrazas Sandoval.
Os líderes religiosos do Iraque, da Coréia do Sul, do Sri Lanka e do Sudão, demonstraram a capacidade especial da Assembléia de reunir representantes de regiões em conflito. Em uma declaração conjunta os líderes religiosos xiitas, sunitas e curdos do Iraque, em conflito em seu próprio país, afirmam: “Falamos com audácia, coragem e confiança. Agora prosseguimos neste caminho de diálogo. Segundo a vontade de Deus alcançaremos uma linha verde e paz para todo o Iraque”. Os representantes hindus e budistas provenientes do Sri Lanka, deram-se publicamente um aperto de mão e solicitaram o cessar fogo e a retomada dos acordos de paz.
Na conclusão da Assembléia, os representantes oficiais assumiram as 20 recomendações de uma Declaração que “coloca as comunidades religiosas no centro dos esforços para opor-se à violência em nível local, em todas as suas formas”. O documento dirige-se não somente aos líderes religiosos, mas também aos governos, às organizações internacionais, a fim de que progrida a segurança, compartilhada por meio do apoio, da educação e da colaboração com e entre as comunidades religiosas.
As raízes espirituais do diálogo entre as religiões e o seu compromisso em vista da paz foram o cerne da mensagem de Chiara Lubich, uma das presidentes honorárias da Conferência, representada por uma delegação internacional do Movimento dos Focolares. Ela evidenciou o “amor que une”, “aquele que cada um de nós, partindo de si mesmo, pode injetar em todas as suas relações”. Até o ponto de “fazer resplandecer, pelo amor mútuo vivido juntos, a presença de Alguém que nos transcende e que é infinitamente maior do que nós”. “Uma nova presença de Deus que traz tolerância, compreensão, perdão, paz, alegria, e acende a chama do amor que funde os homens em comunhão, ilumina o caminho da existência e não pode deixar de penetrar no coração de todos”.
A Assembléia mundial, em duas de suas sessões, abriu espaço às mulheres e aos jovens das diferentes religiões. A Assembléia das mulheres das Religiões pela Paz, com mais de 400 participantes, de 65 países, concluiu-se com uma Declaração na qual se afirma que “as mulheres de fé doam força e esperança quando tudo parece sem esperança”. A Assembléia dos jovens, reunidos em Hiroshima, de 21 a 25 de agosto, numa Declaração, proclamou a escolha da “esperança, porque é ela o único caminho para o progresso”.
A WCRP (Conferência Mundial das Religiões pela Paz) é o maior organismo mundial que reúne líderes e organizações de diversas religiões. Instituída em 1970, funda-se sobre o princípio do profundo respeito pelas diversidades religiosas Promove a cooperação para sanar os conflitos, construir a paz e o desenvolvimento. Estes grandes encontros periódicos favorecem o conhecimento recíproco e o diálogo.
20 Ago 2006 | Sem categoria
“O amor que Cristo pediu a Pedro não é limitado somente a um grupo de pessoas ou à Igreja Católica. Todos somos pequenas ovelhas e é um grande sofrimento quando uma família está dividida. Por isso o amor de Cristo, que pede antes de tudo a Unidade, é dirigido a todos os cristãos. Foi neste espírito que compreendi este meu novo empenho e o desenvolvi com todo o coração e com todas as forças que Deus me deu: espirituais e materiais. O Senhor me abençoou e sou profundamente grato a ele por ter se servido da minha vida, durante todos esses anos, para edificar a Sua Igreja”. Este é o testemunho do Cardeal Johannes Willebrands, em entrevista à Radio Vaticana em 1989, com a idade de 80 anos, no momento em que se despedia, em virtude de sua idade avançada, do cargo de Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade entre os Cristãos, depois de ter atuado por 20 anos. “Um pastor incansável a serviço do Povo de Deus e da Unidade da Igreja” que deu “um novo impulso ao diálogo ecumênico”. Assim se manifestou o Papa Bento XVI, no telegrama de condolências pelo falecimento do Cardeal Willebrands em 2 de agosto próximo passado. Na ocasião, o Papa também agradeceu a Deus pela vida do Cardeal Willebrands, que tinha 97 anos. O seu empenho a serviço do ecumenismo iniciou-se em 1951, dez anos antes do Concilio Vaticano II. É viva a gratidão do Movimento dos Focolares: o Cardeal Willebrands acompanhou e encorajou, com a sua sabedoria e prudência, o desenvolvimento ecumênico do Movimento desde os anos 60. Síntese da biografia do Cardeal Willebrands Nasceu em 1909 em Bovenkarspel, nos Países Baixos. Docente em Filosofia e depois Reitor do Seminário Maior de Warmond, na Holanda, mostra rapidamente um grande interesse pela causa da união dos cristãos, organizando, em 1951, a Conferência Católica para as questões ecumênicas. Em 1958, o Episcopado holandês o nomeia Delegado das atividades ecumênicas e dois anos mais tarde, João XXIII o nomeia Secretário do recém constituído Secretariado para a União dos Cristãos, que durante os trabalhos do Concilio Vaticano II se encarregou – sob a direção do Cardeal Bea – da preparação dos documentos relativos ao ecumenismo, à liberdade religiosa e aos relacionamentos com religiões não cristãs. Consagrado bispo em 1964, promove um grande número de iniciativas para tornar mais forte o diálogo entre a Igreja Católica e as outras Igrejas cristãs, entrando em contato, principalmente, com os ortodoxos, anglicanos e luteranos. Em 1969, sucedendo o Cardeal Bea, Paulo VI o nomeia Presidente do Secretariado para a União dos Cristãos (depois denominado Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos), e pouco depois é nomeado cardeal. O testemunho dos irmãos das várias Igrejas Entre os numerosos testemunhos dos nossos irmãos das várias Igrejas, recordamos um episódio significativo do qual é testemunha o pastor evangélico alemão Dieter Fürst. Em 1986, recordando um encontro do Cardeal Willebrands com um grupo de evangélicos do Centro Uno, Centro ecumênico do Movimento dos Focolares, em Roma, o pastor Fürst conta que, antes de encontrar o cardeal, tinham o “temor que a grande e poderosa Igreja Católica quisesse esmagar a pequena e frágil Igreja Evangélica”. O Pastor acrescentou que entre os participantes deste Encontro havia representantes das Igrejas Livres, os quais sentiam fortemente aquele temor. Mas a palavra do Cardeal Willebrands foi tão paterna, tão plena do Espírito Santo que suscitou um imediato entusiasmo naqueles irmãos: “o Cardeal mostrou a Igreja e a cristandade numa dimensão muito mais ampla daquela que havíamos visto antes.”