Todos nós somos chamados a realizar em nós mesmos esta conversão, recomeçando a amar constantemente a todos, se tivéssemos parado. Devemos experimentar essa espécie de renascimento, essa plenitude de vida. Por isso, é necessário tentar, ao máximo, transformar em caridade para com o próximo todas as expressões da nossa existência. […] Deparei-me com o maravilhoso trecho do Juízo Final. Jesus, que virá para nos julgar, nos dirá: “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber”*. Lendo essas palavras fiquei impressionada, como se lesse aquela frase pela primeira vez. Descobri mais uma vez que no exame final, Jesus não me perguntará sobre isso ou aquilo que eu deveria ter feito. Ele fará convergir tudo no amor ao próximo. E, como alguém que inicia agora a sua caminhada em direção a Deus, comecei a amar a todos, a todos aqueles com quem tenho algum contato durante o dia. E acreditem, tive a impressão de nascer novamente! Percebi que a minha alma, antes de tudo, tem fome de amor, fome de amar, e que no amor para com todos encontra realmente o seu alimento, a sua vida. Na verdade, muito antes eu já me esforçava por fazer muitos atos de amor, mas agora me dou conta, alguns deles eram, de fato, expressão de uma espiritualidade muito individual, uma espiritualidade que se alimenta de penitências. E, apesar de nossa boa vontade, para nós, que somos chamados ao amor, essas penitências podem se constituir num motivo de fechamento em nós mesmos. E agora, neste esforço renovado de amar a todos, posso ainda realizar atos de amor durante o dia, mas todos eles direcionados aos irmãos, nos quais vejo e amo Jesus. E só assim poderei experimentar a plenitude da alegria. Meus amigos, todos nós somos chamados a realizar continuamente em nós mesmos esta conversão. Todos devemos experimentar essa espécie de renascimento, essa plenitude de vida. Por isso, procuremos ao máximo transformar em caridade para com o próximo todas as expressões da nossa existência. É nosso dever cuidar da casa? Não o façamos só por motivos humanos, mas sim porque é Jesus quem está presente nos irmãos a serem amados, vestidos, saciados e servidos. Devemos fazer qualquer outro trabalho? Lembremo-nos de que Jesus está presente em toda pessoa, individualmente, e também nas comunidades, às quais nós levamos a nossa contribuição. Devemos rezar? Rezemos sempre, seja por nós mesmos, seja pelos outros, usando aquele “nós” que Jesus nos ensinou no Pai-Nosso. Estamos sofrendo? Ofereçamos o nosso sofrimento para os irmãos. É vontade de Deus entrar em contato com alguém? Que exista sempre a intenção de, naquela ocasião, escutar a Jesus, de aconselhar a Ele, de instruí-Lo, de consolá-Lo, em síntese, de amar a Jesus. Devemos repousar, alimentar-nos, divertir-nos? Que todas essas ações realizem a intenção de retomar forças para servir melhor o irmão. Enfim, façamos tudo em função do próximo. […] Então, a fim de que se verifique em nós essa nova conversão, nos próximos […] dias lembremo-nos destas palavras: “Renascer com o Amor”.
Chiara Lubich
*Mt 25, 35.(em uma conexão telefônica, Rocca di Papa, 20 de março de 1986)Tirado de: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, Città Nuova Ed., 2019, pag. 235.
Jesus conhece bem as necessidades fundamentais das pessoas: ser compreendido em seu íntimo e ter, além do apoio a seus esforços, indicações claras sobre o caminho a seguir. Não percamos a oportunidade de nos comportarmos para com aqueles que encontramos com o amor que ele sugere no Evangelho.Com paciência e tenácia Meu tio, considerado “um homem de honra”, viveu durante anos em Supramonte, uma região montanhosa da Sardenha, Itália. De vez em quando, ele descia à aldeia e, quando os policiais vinham para prendê-lo, ele já estava longe. Meu pai havia tentado nos manter longe de problemas com a lei e com a família de meu tio, da qual estávamos divididos por questões sucessórias. Como cristão, porém, eu estava esperando a oportunidade certa para fazer as pazes com eles. A primeira veio com a chegada de uma prima ao vilarejo. Independentemente das pessoas que nos observavam, eu fui cumprimentá-la. Quando ela e seu marido responderam à minha saudação, eu dei um suspiro de alívio: o primeiro passo tinha sido dado. Mais tarde, quando soube que meu tio estava no hospital, quis ir vê-lo. Minha mãe desaconselhou, dizendo que eu não tinha nenhum tio. Mas ele era como um irmão para mim. Eu fui e ele me cumprimentou com emoção. Com o tempo, eu me aproximei de todos os outros parentes. A última foi minha tia, aquela que mais nos fez sofrer: eu sentia falta dela há 18 anos, e foram necessários tantos anos para que a paz retornasse às nossas famílias com amor paciente e tenaz.
(Gavina – Itália)
As necessidades dos outros Ao sair de carro, noto que meu vizinho está tentando limpar o pára-brisa e outros vidros do gelo. Eu vou ajudá-lo, pondo de lado minha pressa. Com um sorriso, ele pergunta: “Quem está te obrigando a fazer isso?”. Não tenho uma resposta óbvia, mas por dentro agradeço a Deus por indicar as necessidades da outra pessoa antes das minhas tarefas. Algumas horas depois, o mesmo vizinho me telefonou: “Fiquei tão feliz por seu gesto que disse a mim mesmo: também eu devo viver notando as necessidades dos outros. E não demorou muito: no trabalho, de fato, encontrei uma situação difícil, que depois foi resolvida com bastante facilidade, colocando-me no lugar da outra pessoa. Obrigado”!
(F.A. – Eslovênia)
Adotar um irmãozinho Somos estudantes em um instituto técnico. Como nosso professor nos trouxe a Città Nuova para ler na aula, a princípio certas coisas pareciam um pouco ilusórias… Mas a idéia de ajudar a construir juntos um mundo mais unido nos pareceu boa. Também porque, ao continuarmos lendo, percebemos que não eram palavras. A revista trouxe notícias que não conseguimos encontrar em outras, uma maneira diferente de ver os eventos. Em resumo, o que estávamos perdendo ao tentar também? Então, tentamos. Todas as manhãs, junto com o professor, escolhíamos uma “máxima” para viver. Por exemplo: “Amar a todos” …quem já tinha pensado nisso? Depois, por acaso, lemos um artigo sobre as adoções à distância. E então surgiu a idéia de fazermos uma, todos juntos. Esse pequeno gesto de contribuir com uma pequena soma todos os mêses nos faz crescer como pessoas. Agora Nader, mesmo vivendo longe (ele é um menino libanês), tornou-se muito importante: falamos sobre ele, sobre suas necessidades, como se fosse um nosso irmãozinho.
(Os jovens da IIIB – Itália)
Por Lorenzo Russo
(extraído de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, ano VII, n.3, maio-junho de 2021)
Jesus convida a reconhecer a proximidade amorosa de Deus e indica como agir de consequência: descobrir, na vontade do Pai, o caminho para chegar à plena comunhão com Ele. Tufão As imagens da tv mostravam as localidades atingidas pelo tufão e que estavam isoladas, e como as nossas famílias moravam lá, dá para imaginar a nossa preocupação, nós que somos seminaristas. Não por acaso, a Palavra de Vida do mês exortava a ter fé. Rezamos juntos pelos nossos familiares e os nossos formadores nos deram a permissão de ir vê-los no dia seguinte. Mas, justamente naquela noite, a capital também foi atingida duramente: ruas alagadas, pontes caídas, falta de eletricidade… o nosso seminário, porém, continuava de pé. Viajamos assim mesmo e, durante a viagem a pé ou com meios improvisados, de canoa ou amarrados em cordas para vencer a resistência das correntes, muitas vezes precisamos desviar a rota. Finalmente chegamos ao nosso vilarejo… irreconhecível! Onde antes havia plantações agora estava um lago. Depois de ter abraçado nossas famílias (tinham perdido tudo, mas estavam salvas!) nos colocamos à disposição do pároco para os primeiros socorros. A nova Palavra, proposta para aquele mês parecia dirigida diretamente a nós, para nos dar coragem e transmiti-la aos outros: “Bem aventurados os aflitos…”.
(Melvin – Honduras)
O guarda-chuva Sabendo que nos pobres e marginalizados está Cristo que pede para se amado, procuro não perder as ocasiões para fazer isso. Por exemplo, notei que no bar, perto da minha casa, estava um pobre, apelidado de Caneta, completamente encharcado, porque chovia naquele dia. Sabendo que ele tinha tido tuberculose e vencendo uma certa resistência ao fato que me vissem em sua companhia, o convidei a vir à minha casa para procurar uma roupa seca. Meus familiares ficaram assustados e incrédulos. “Papai, ele precisa de roupas…”. No começo meu pai não se entusiasmou muito, mas depois foi buscar calças enquanto eu ajeitava um casaco. Mas parecia que a chuva não ia parar… Então eu continuei: “Pai, e se nós lhe déssemos também um guarda-chuva?”. E o guarda-chuva também apareceu. O pobre estava feliz, e eu ainda mais, porque juntos nós o tínhamos ajudado. Mas a história não acabou aqui. Dias depois, Caneta voltou para devolver o guarda-chuva. Na verdade, não era o mesmo que nós tínhamos dado a ele, era bem mais bonito. Aconteceu que ele tinha sido roubado, levaram o guarda-chuva e alguém lhe deu um novo de presente. E assim ele quis nos retribuir.
(Francesco – Itália)
O amor não se explica com palavras Pouco depois do seu nascimento foi diagnosticada em Mariana uma lesão cerebral. Ela não iria falar nem andar. Mas Deus pedia que nós a amássemos assim e nos lançamos nos braços do Pai. Nossa menina viveu conosco apenas quatro anos, nunca ouvimos as palavras papai e mamãe da sua boca, mas, no seu silêncio os olhos falavam, com uma luz resplandecente. Não pudemos ensiná-la a dar os primeiros passos, mas ela nos ensinou a dar os primeiros passos no amor, na renúncia a nós mesmos para amar. Para toda a família Mariana foi um presente de Deus, que nós poderíamos resumir numa única frase: o amor não se explica com palavras.
(Alba – Brasil)
De Lorenzo Russo
(retirado de “Il Vangelo del Giorno”, Città Nuova, ano VII, n. 3, maio-junho 2021)
O Programa Bala Shanti é um projeto criado para ajudar mulheres solteiras, para apoiá-las a garantir a seus filhos os cuidados necessários, a escolaridade e uma condição de bem-estar, saúde e dignidade. Estamos em Coimbatore, uma região no sul da Índia. Em 1991, nasceu o Programa Bala Shanti, um projeto que ajuda e acolhe as crianças mais vulneráveis e necessitadas, entre 3 e 5 anos de idade, e suas mães, muitas vezes sozinhas. O programa faz parte do Shanti Ashram que é um centro internacional de desenvolvimento cultural, social e de saúde com o objetivo de atender às necessidades da comunidade da região, inspirado nos ideais e ensinamentos de Mahatma Gandhi. “Minha avó teve que viver sempre sozinha: por causa disso, minha mãe parou de estudar quando estava no ensino médio e teve que se casar quando tinha 16 anos. Isto aconteceu em 1978, mas hoje, depois de mais de 40 anos, ainda ouço histórias semelhantes ou iguais a esta”. Estas são as palavras de Deepa, chefe do Programa Bala Shanti. Ela explica que, ainda hoje, os filhos de mães solteiras experimentam três tipos de dificuldades muito grandes: a pobreza, o abandono escolar e o casamento precoce. O Programa Bala Shanti visa, portanto, a ajudar essas mulheres a criar seus filhos em condições de bem-estar, saúde e dignidade. De acordo com os relatórios das Nações Unidas de 2019-2020, cerca de 4,5% das famílias na Índia são sustentadas por mães solteiras e estima-se que destas 38% vivem em estado de pobreza. “Na Índia, uma mulher em condições vulneráveis dificilmente espera viver sozinha: não é uma escolha pessoal – explica Deepa – muitas delas se encontram em condições de negligência, insegurança, exploração”. O objetivo final do Programa Bala Shanti é, portanto, combater a pobreza, a desnutrição e as doenças que se desenvolvem em contextos de grande aflição, construindo uma sociedade de paz. Para isso, além da ajuda econômica, as crianças e suas mães são treinadas em temas como educação, paz, alimentação saudável, padrões de higiene e liderança. Atualmente, existem nove Bala Shanti Kendra – centros de desenvolvimento infantil – que acolhem mais de 200 crianças por ano. Desde 1991, mais de 10 mil crianças completaram seus estudos e, durante o ano da pandemia da Covid-19, foi prestada ajuda a 15 mil pessoas, incluindo crianças e famílias. Desde 1998, o projeto colabora com a AFN Onlus, a organização sem fins lucrativos ligada ao Movimento dos Focolares que, através do apoio à distância, ajuda a fornecer às crianças bolsas de estudo no Bala Shanti Program. Muitas pessoas poderiam testemunhar a importância do Programa Bala Shanti em suas vidas, como Fathima, 45 anos. Até alguns anos atrás, ela era uma mãe solteira com grandes dificuldades financeiras e não sabia como criar e educar seu filho, o pequeno Aarish. Desde que o Programa Bala Shanti começou a ajudá-la, sua vida mudou. Aarish passou por cursos de treinamento, recebendo uma bolsa de estudos à distância. “Eu também fui ajudada através do fornecimento de alimentos”, explica ela. “Fui colocada em contato com médicos competentes e convidada para shows e danças através das quais eu podia me distrair e pensar em algo diferente e belo”. Isso foi muito importante para mim”. Agora Aarish cresceu: ele tem 15 anos e é voluntário no Shanti Ashram, há 3 anos. Também com sua ajuda, o Programa Bala Shanti oferecerá mais e mais apoio às mulheres solteiras e seus filhos. Assim, a esperança de que esta cadeia de apoio se torne cada vez mais robusta e contagiosa permanece acesa.
Todos os dias, diante de cada ação, é possível descobrir qual semblante de Jesus Abandonado podemos amar por meio dela. Essa é a sugestão de Chiara Lubich para fazermos bem, com perfeição, tudo o que temos que fazer. […] Amar Jesus Abandonado. E é justamente sobre este nome, que está relacionado a tantos aspectos da nossa vida, individual e coletiva, que pretendo falar hoje. Mais precisamente, quero dizer-lhes algo sobre uma maneira toda particular de amar Jesus abandonado, a porta, o caminho para a nossa santidade. […] Em qualquer lugar, temos a possibilidade maravilhosa de amá-Lo, de aliviá-Lo, de consolá-Lo, de oferecer-Lhe remédio aos males concretos, expressões de Jesus Abandonado. E isto tudo é uma graça enorme. Com este trabalho estamos sempre em contato com Ele, com Jesus Abandonado, e amando-O podemos construir a nossa santidade. Existem, no entanto, maneiras e maneiras de amá-lo. Pode-se amá-lo muito, como também amá-Lo pouco. Isto significa que, com este amor podemos contribuir para uma grande santidade ou uma pequena santidade. […] Os santos procuraram e procuram, para a glória de Deus, aquele amor que dê o rendimento máximo. Escrevemos a nossa própria história para doar a nossa experiência? Procuremos fazê-la bem, muito bem, ouvindo com atenção a voz de Deus dentro de nós, para que seja ele próprio a iluminar nosso passado e nosso presente com aquela luz que atrai e que agrada a quem escuta. Estejamos atentos a tudo o que aquela voz nos propõe, e nos corrige. Façamos tudo, cada coisa com empenho, com o máximo empenho. E somente quando aquela voz não tiver mais nada a nos dizer, é que deixemos de retocar o nosso trabalho. Não estraguemos a Obra de Deus! Não façamos, jamais, obras imperfeitas. Façamos tudo muito bem, com perfeição. […] Diante de qualquer obra que devemos realizar, procuremos descobrir qual semblante de Jesus Abandonado podemos amar por meio dela, e lancemo-nos a fazê-la perfeitamente. Portanto, obras perfeitas por amor a Jesus Abandonado e assim, construir a nossa santidade, a nossa grande santidade.
Chiara Lubich
(em uma conexão telefônica, Loppiano 20 de fevereiro de 1986) Tirado de: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, Città Nuova Ed., 2019, pag. 232.
Entrevista à presidente do Movimento dos Focolares publicada pela edição italiana de Cidade Nova, a respeito do Decreto do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida sobre a rotatividade dos cargos de governo nas associações leigas.Favorecer a rotatividade. Aprovado pelo papa Francisco, no dia 3 de junho passado, o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, promulgou um Decreto que regula a duraçãode mandatos de governo nas associações internacionais. A norma (com os respectivos aprofundamentos específicos, incluindo possíveis dispensas para os fundadores), indica uma duração máxima de cinco anos de mandato individual por um período máximo de dez anos consecutivos, enquanto umanota explicativa detalhada ajuda a compreender o espírito da disposição: favorecer uma comunhão eclesial maior, uma sinodalidade mais ampla, um autêntico espírito de serviço, evitar personalismos, abusos de poder, aumentar o ardor missionário e um verdadeiro estilo evangélico. Conversamos sobre isso com a presidente do Movimento dos Focolares, Margaret Karram. Presidente, causou surpresa a vocês o Decreto do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida sobre a rotatividade nos cargos de governo das associações leigas? Não esperávamos um decreto dessa natureza nesta época do ano, mas o conteúdo não nos surpreendeu. Há anos foi ativado um processo no Movimento dos Focolares que leva em conta a rotatividade nos órgãos de governo, na sede internacional e nos países nos quais estamos presentes, estabelecendo limites nos mandatos. O Decreto nos mostrou mais uma vez que a Igreja é mãe. Ao cuidar de associações como a nossa, ela acompanha e ajuda todas as realidades a encontrarem formas organizacionais que lhes permitam permanecerem fiéis ao próprio carisma e missão, em sintonia com o caminho da Igreja no mundo de hoje. Por isso acolhemos plenamente o espírito e as determinações do Decreto, que, além disso, responde à reflexão aberta no Movimento sobre a representatividade nos órgãos de governo, já compartilhada com o Dicastério. O incipit do decreto afirma que “as associações internacionais de fiéis e o exercício do governo dentro delas são objeto de especial reflexão e consequente discernimento por parte do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida”. Vocês sentem alguma preocupação em relação aos movimentos em geral? E em relação ao Movimento dos Focolares? Eu diria que o Dicastério dá certamente uma atenção particular aos Movimentos, e disso somos testemunhas, tendo em conta que é uma sua competência particular. Além disso, sendo uma realidade tão variada, o Dicastério certamente também tem algumas preocupações. O próprio Decreto sublinha o «florescimento» destas associações e reconhece o fato de terem trazido «à Igreja e ao mundo contemporâneo uma abundância de graça e de frutos apostólicos». Não é intenção da Igreja refrear o ardor carismático dos movimentos, sua força inovadora e seu impacto missionário. Quer ajudá-los a realizar os próprios objetivos, sempre orientados para o bem da pessoa, da Igreja e da sociedade. O Decreto oferece elementos estruturais que podem ajudar a reduzir alguns desses riscos, limitando o tempo que uma pessoa pode ocupar cargos no governo. Porém, não vejo nessas intervenções uma concentração particular no Movimento dos Focolares, até porque a alternância de cargos governamentais já está incluída em nossos Estatutos. O papa Francisco, em seu discurso aos participantes do III Congresso Mundial de Movimentos Eclesiais e Novas Comunidades, em novembro de 2014, indicou um método para alcançar a maturidade eclesial também desejada por seus dois predecessores: «Não se esqueçam de que, para alcançar este objetivo, a conversão deve ser missionária: a força para vencer as tentações e as lacunas vem da profunda alegria do anúncio do Evangelho, que está na base de todos os seus carismas». O que você pensa a respeito? Concordo plenamente! O desejo do Papa exige de nós um duplo compromisso: é necessário voltar sempre ao Evangelho, à Palavra de Deus e ter consciência de que o carisma do próprio fundador nada mais é do que uma leitura nova e atual das palavras de Jesus, iluminadas por um dom do Espírito Santo que leva a vivê-las de um ângulo particular. Devemos levar em conta que a espiritualidade que nasce de um carisma é uma forma de anunciar o Evangelho e, portanto, de trabalhar pelo bem da Igreja e da humanidade. Basta uma rotatividade geracional saudável, uma alternância de pessoas em cargos de direção para garantir um governo sinodal, feito com espírito de serviço e capaz de não repetir os erros do passado, do personalismo ao abuso de poder?Eu penso que isso não pode ser suficiente para que se concretize uma verdadeira mudança cultural, duradoura e frutífera. Creio que devemos primeiramente nos perguntar qual é o propósito do governo de uma associação como a nossa. Não se trata de mudança geracional, embora seja importante, nem mesmo de repetição de erros do passado. O objetivo principal do nosso governo – como, creio, de todo Movimento eclesial – é garantir que o Movimento avance e se desenvolva no espírito genuíno do seu carisma, seguindo o desígnio que dele flui e realizando os propósitos para os quais o Espírito Santo o fez nascer. O próprio Decreto destaca que o governo «seja exercido em coerência com a missão eclesial das mesmas (associações), como serviço direcionado à realização dos próprios fins e à proteção dos membros». É um trabalho de atualização, aperfeiçoamento e renovação contínuos, que exige, antes de tudo, a conversão dos corações ao Evangelho e às próprias raízes carismáticas. A mudança geracional nos órgãos de governo, através da rotatividade frequente nos cargos de governo, pode favorecer a atualização de uma associação, pode ajudar a evitar – como diz uma nota explicativa do Dicastério – «formas de apropriação do carisma, personalismos, centralização de funções, bem como expressões de autorreferencialidade, que facilmente causam graves violações da dignidade e da liberdade pessoais e até mesmo reais abusos». Mas a rotatividade de funções por si só não garante uma gestão justa do poder. São necessários outros elementos que estamos implementando e aprimorando constantemente há vários anos, como, por exemplo, um caminho de formação espiritual e humana para uma liderança coerente com o estilo evangélico e com o próprio carisma, portanto, um estilo de governo que focaliza o discernimento comunitário, com novas formas de acompanhamento e modalidades sinodais para a escolha dos candidatos a cargos de governo. Concretamente, daqui a três anos, várias pessoas eleitas durante a Assembleia Geral em fevereiro passado deverão ser substituídas. Vocês já têm uma ideia de como proceder também para alterar os atuais Estatutos que preveem a duração do mandato de seis anos e a possibilidade de um segundo mandato? Em alguns pontos já estamos em sintonia com o novo Decreto, principalmente no que se refere ao limite máximo de dois mandatos consecutivos para cargos de governo; o que precisa ser alterado agora é a duração: de 6 para 5 anos. Já tínhamos constituído uma comissão para a necessária revisão dos nossos Estatutos em vários pontos, à qual se acrescenta agora o trabalho prioritário de adaptação ao Decreto. É um trabalho que queremos fazer com calma e com atenção, porque não só desejamos aceitar “literalmente” esta nova legislação, mas também e principalmente o seu espírito, estudando bem como concretizá-lo não só nos órgãos centrais e internacionais, mas em grande escala, também nos governos locais dos centros territoriais. Em todo caso, queremos fazer tudo em diálogo com o Dicastério, aprofundando alguns aspectos específicos e algumas dúvidas. Eles disseram expressamente que estão prontos para nos ouvir sobre eventuais questões. O Papa Francisco, encontrando-se com os participantes da Assembleia Geral, destacou algumas questões às quais dar especial atenção: autorreferencialidade, importância das crises e saber gerenciá-las, coerência e realismo em viver a espiritualidade, sinodalidade. O que foi feito ou será feito para dar seguimento a essas indicações? Consideramos o discurso do Papa Francisco aos participantes da Assembleia Geral como um documento programático, bem como o documento final da própria Assembleia. É com grande alegria que constatamos o quanto o aprofundamento e a busca de formas de aplicação destes dois documentos estão dando frutos nas diversas áreas geográficas onde o nosso Movimento está presente. Estão emergindo dois pontos centrais: a escuta atenta do grito de sofrimento da humanidade que nos rodeia, na qual redescobrimos o semblante de Jesus crucificado e abandonado, e um novo espírito de família em nosso Movimento para além de qualquer subdivisão. Isso expressa o cerne da nossa espiritualidade: oferecer ao mundo um modelo de vida no estilo de uma família; isto é, irmãos e irmãs em nível universal, unidos entre si pelo amor fraterno para com cada homem e mulher, preferencialmente por aqueles que mais sofrem, pelos mais necessitados. Com que estilo e com quais modalidades começou o novo governo do Movimento dos Focolares? Margaret Karram tem no coração novidades a respeito? Para mim, é particularmente importante viver uma experiência de “sinodalidade” no governo do Movimento. Isso significa fazer tudo com espírito de escuta e reavivar nas relações interpessoais aquele amor fraterno, de verdade e de caridade, evangélico, que também ilumina o lugar que cada um tem, ou seja, o lugar central. Como Conselho Geral, por exemplo, acabamos de vivenciar a maravilhosa experiência de ouvir nossos responsáveis territoriais do mundo inteiro. São eles que estão com “a mão na massa”, que conhecem as potencialidades, as necessidades e as características culturais e antropológicas das nossas comunidades. Ouvindo-os, emergiu toda a vivacidade e criatividade do “povo de Chiara”, que quer cuidar das diversas formas de desunião e curar as feridas da humanidade que os rodeia. Talvez nem seja necessário que o Centro Internacional dê sempre diretrizes ou oriente o caminho do Movimento. O importante é que o Centro garanta sempre a unidade de toda a Obra e que possa evidenciar o que o Espírito Santo mostra gradualmente para todos.