12 Mar 2021 | Sem categoria
A característica imprescindível do pontificado do Papa Francisco, confirmada também no Iraque, é a fraternidade. Seu testemunho pessoal e eclesial, seu magistério e o relacionamento com o mundo muçulmano já fazem da fraternidade uma marca geopolítica. O encontro histórico com Al-Sistani.
Por todas essas partes, nesses dias, estão procurando fazer um balanço da viagem do Papa Francisco ao Iraque. Acredito que seja difícil, se não impossível, encontrar um completo. Os temas tratados foram muitos e, sobretudo, estamos muito próximos, imediatamente após um evento global articulado, que só o passar do tempo nos fará compreender todos os significados. Obviamente, alguns elementos, mais do que outros, atingiram o imaginário de quem acompanhou os vários acontecimentos em um contexto que, em um certo sentido, parecia quase surreal em sua realidade crua. Pensando nas viagens papais inauguradas por Wojtyla a partir de 1979, estávamos acostumados com cenários e panos de fundo bem diferentes: grandes multidões, apresentações artísticas que muitas vezes se aproximavam da perfeição e, sobretudo, eventos que passavam a imagem, sobretudo nos primeiros anos da época do papa polonês, de uma fé forte, no centro da história, em contraposição ao mundo ateu de onde o papa polonês vinha. O Papa Francisco, que desde o início do seu pontificado introduziu a ideia de uma Igreja acidentada e comparada a um hospital de campanha, se empenhou nesses anos em transmitir essa imagem de Igreja e fez isso praticamente em todos os lugares onde esteve. Desde a sua primeira viagem oficial a Lampedusa, porto e cemitério de migrantes, passando por Bangui, onde quis inaugurar seu Jubileu inesperado e extraordinário, até chegar em Mossul, onde o palco tinha como pano de fundo ruínas e muros ainda com marcas de balas de vários calibres. E não podemos nos esquecer de Tacloban, onde desafiou um furacão iminente para ficar ao lado dos sobreviventes de outro evento catastrófico; Lesbos, onde, sem pressa, passou um tempo precioso escutando as histórias inenarráveis de refugiados de diversas proveniências. Mas a lição de Francisco não tem a ver só com o comprometimento em mostrar que a face mais preciosa da Igreja é a acidentada. Tem mais a ver com o modo com que mostra a proximidade, o calor necessário para fazer com que as pessoas que sofrem sintam a comunidade cristã. Sobretudo, está comprometido em projetar essas comunidades no palco mundial, para dizer que aquela é a Igreja verdadeira que todos devemos ter no coração, e que testemunha Cristo de maneira real. Como disse no voo de volta, Bergoglio respira nessas situações difíceis, porque esse é o seu chamado petrino, aquele pelo qual o conclave o elegeu mesmo sem saber e imaginar para onde conduziria o barco de Pedro. Estamos todos vendo e experimentando nesses anos. E as viagens são provavelmente o espelho mais verdadeiro, que não trai e não deixa brecha nenhuma para mal-entendidos. De resto, não há nada de novo. Como seus antecessores, o papa argentino demonstra que sabe ler e decodificar os sinais dos tempos e oferece seu testemunho crível de que a Igreja é testemunha no tempo, interceptando as problemáticas e os pontos-chaves, oferecendo respostas frequentemente contracorrentes com relação àquelas que o mundo político, internacional e, hoje, financeiro impõem. Diante da realidade que Francisco se encontrou, inclusive aquela sem precedentes (ao menos nesses termos) da pandemia, a característica imprescindível do seu pontificado, confirmada também no Iraque, é a fraternidade. O testemunho pessoal e eclesial de Bergoglio, seu magistério e o relacionamento, sobretudo, mas não somente, com o mundo muçulmano, já formam uma marca geopolítica. O encontro dele com o Grande Ayatollah Al-Sistani também demonstrou isso. As implicações daqueles 45 minutos são fundamentais. De fato, todos sabemos que o grande nó que o islã deve desfazer hoje está dentro do seu mundo: a tensão nunca aliviada, mas agora perigosamente intensificada entre os sunitas e xiitas. É aqui que devem buscar as raízes de muitos dos problemas que os muçulmanos vivem e também pelos quais muitos morrem. Bergoglio mostrou um grande tato político ao querer se encontrar com Al-Sistani, o maior ponto de referência para os xiitas, bem distante da teocracia iraniana que desde a revolução iraniana dos anos 1980, impulsionou o mundo iraniano a ser paladino dessa frente do caleidoscópio muçulmano. Al-Sistani sempre ficou distante da escolha teocrática dos ayatollah iranianos e é um líder espiritual e religioso reconhecido há uma década. Entre outras coisas, nasceu no Irã. O encontro entre os dois ocorreu a portas fechadas, mas, como descreveu o Papa Francisco no voo de volta, foi um momento de espiritualidade, “uma mensagem universal. Senti o dever, (…) de ir encontrar um dos grandes, um sábio, um homem de Deus. E escutando-o se percebe isso. (…) E ele é uma pessoa que tem aquela sabedoria… e também prudência. (…) E ele foi muito respeitoso, muito respeitoso no encontro e eu me senti honrado. Inclusive na hora de cumprimentar: ele nunca se levanta, mas se levantou para me cumprimentar, duas vezes. É um homem humilde e sábio. Esse encontro fez bem à minha alma. É uma luz”. Mais tarde, Bergoglio arriscou uma opinião que talvez nenhum papa tenha tido a coragem de exprimir no passado: “Esses sábios estão por toda parte, porque a sabedoria de Deus foi espalhada pelo mundo inteiro. Acontece o mesmo com os santos, que não são somente aqueles que estão nos altares. São os santos de todos os dias, aqueles que eu chamo ‘da porta lateral’, os santos – homens e mulheres – que vivem sua fé, seja qual for, com coerência, que vivem os valores humanos com coerência, a fraternidade com coerência”. Tudo isso não passou desapercebido. Os comentários positivos choveram de várias partes, começando justamente pelo mundo muçulmano. Sayyid Jawad Mohammed Taqi Al-Khoei, secretário geral do Instituto Al-Khoei de Najaf, expoente de destaque do mundo xiita iraquiano e diretor do Instituto Al-Khoei de Najaf que faz parte do Hawza de Najaf, um seminário religioso fundado há quase mil anos para os estudiosos muçulmanos xiitas, foi muito claro ao expor sua opinião. “Apesar desse ser o primeiro encontro na história entre o chefe do establishment islâmico xiita e o chefe da Igreja católica, essa visita é o fruto de muitos anos de trocas entre Najaf e Vaticano e sem dúvidas reforçará nossas relações inter-religiosas. Foi um momento histórico também para o Irã.” Al-Khoei confirmou o comprometimento em “continuar a reforçar nosso relacionamento como instituições e indivíduos. Logo, nos encontraremos no Vaticano para assegurar que este diálogo continue, se desenvolva e não pare aqui. O mundo deve enfrentar desafios comuns e esses desafios não podem ser resolvidos sozinhos por nenhum estado, instituição ou pessoa”. A agência AsiaNews também reportou alguns comentários positivos que apareceram na imprensa iraniana, que deu uma evidência ampla e celebrou o encontro histórico como “oportunidade de paz”. A notícia foi o título de abertura dos jornais cotidianos e órgãos de informação da República islâmica. Sazandegi, uma publicação histórica próxima da ala reformista, sublinhou que os dois líderes religiosos são hoje “os porta-bandeiras da paz mundial”. E definiu o encontro deles na casa do líder espiritual xiita como “o evento mais eficaz (na história) do diálogo entre as religiões”.
Roberto Catalano
11 Mar 2021 | Sem categoria
Microcrédito comunitário e microfinanças para apoiar o crescimento de projetos em expansão. O testemunho de Rose sobre a importância da iniciativa apoiada pela Amu. BIRASHOBOKA em Kirundi significa “PODE SER FEITO”. Foi a partir desta convicção que nasceu no Burundi (África) o projeto de Microcrédito e Microfinanças Comunitárias. Apesar das grandes dificuldades em que o país se encontra – é o segundo país mais densamente povoado da África e um dos cinco com os mais altos índices de pobreza do mundo – a Amu, Ação por um Mundo Unido-Onlus, uma organização não governamental de desenvolvimento inspirada na espiritualidade do Movimento dos Focolares, vem apoiando as comunidades locais há algum tempo. Deste modo, desde 2007, em plena sinergia com a organização sem fins lucrativos CASOBU (Cadre Associatif des Solidaires du Burundi), ajuda famílias locais em um processo de formação e melhoria de suas condições de vida.
Com o projeto “Pode ser feito!”, o objetivo é criar grupos comunitários de microcrédito cujos membros possam se auto-sustentar para criar atividades de trabalho e, na segunda fase, formar um grupo comunitário de microfinanças para apoiar o crescimento de projetos em expansão. “No meu grupo começamos há 13 anos”, diz Rose. “Com o primeiro crédito que recebi, lembro muito bem que não fiz nada em particular, comprei roupas e bens de que precisava, mas o resto desperdicei. No início, eu não sabia como começar um negócio e o que muitas vezes acontecia era que eu tinha dificuldade em pagar os créditos que tinha recebido. Então, percebi que não poderia continuar aceitando um empréstimo sem um projeto concreto e finalmente decidi iniciar o projeto do restaurante com os primeiros 300.000 Fbu (150 euros). Comecei a comprar potes e panelas, pratos e pouco a pouco abri o restaurante. Era o ano 2009 e eu ainda não tinha nenhum empregado. Naquela época, meus filhos me ajudavam na cozinha e eu pegava o ônibus para levar a comida para a cidade onde tinha meus clientes.
À medida que eles me conheceram e os clientes aumentaram, pude contratar algumas pessoas. Estou orgulhosa porque através do salário que eles recebem eu também participo da realização de seus sonhos”. Feliz por ter embarcado nesta viagem, agora Rose é capaz de fornecer um salário para outras cinco famílias além da própria. Ela quer melhorar e expandir seu negócio, por exemplo, alugando uma casa maior, onde possa cozinhar e reduzir seus custos de restaurante e viagens. É uma decisão muito corajosa, porque deve fazer um grande investimento e ela não tem as qualificações ou garantias para se qualificar para um empréstimo de qualquer banco. E é justamente para Rose e muitas outras pessoas que, como ela, gostariam de expandir seus negócios que o projeto AMU e CASOBU nasceu, apoiando a criação de uma instituição de microfinanças comunitária para oferecer serviços de poupança e crédito a pessoas com grandes sonhos. Para apoiar o projeto, clique qui.
Lorenzo Russo
9 Mar 2021 | Sem categoria
Junto com vários grupos católicos, o Movimento dos Focolares na Alemanha organizou uma conferência on-line sobre a busca de Deus em um mundo onde Ele parece estar cada vez mais ausente. Foi também uma contribuição para a caminhada sinodal da Igreja Católica na Alemanha.
“Deus desaparece – e talvez seja necessário? Deus desaparece – e talvez Ele queira que seja assim?”. Estas foram as perguntas provocadoras que orientaram o programa de uma conferência realizada on-line nos dias 26 e 27 de fevereiro, na Alemanha. Em colaboração com a revista mensal “Herder-Korrespondenz”, e a Academia Católica da Diocese de Dresden-Meissen, na antiga RDA, o Movimento dos Focolares na Alemanha organizou esta conferência para abordar uma das questões mais urgentes de muitos cristãos: o que fazemos e como devemos agir em um mundo onde Deus parece que não existe”? Os 350 participantes da Alemanha, Áustria, Suíça e outros países europeus estavam prontos para mergulhar nas causas da crescente ausência de Deus na sociedade e na vida das pessoas até chegar – como disse o bispo convidado de Dresden, Heinrich Timmerevers, na sua saudação inicial – à pergunta chocante, “será é que a própria Igreja que está afastando as pessoas de Deus por causa da crise causada pelos abusos? Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares, afirmou em uma mensagem de saudação que o tema da ausência de Deus toca o núcleo da espiritualidade do Movimento, que se resume na figura de Jesus, abandonada na cruz pelos homens e por Deus, como “o momento mais difícil e ao mesmo tempo mais divino de Jesus, como a chave para contribuir para a realização da fraternidade onde quer que ela falte […] e para alcançar aqueles que mais sofrem com essa obscuridade”. Seguiram-se dois dias de reflexão crítica e estimulante sobre tudo aquilo que, apesar de uma tendência crescente ao secularismo, ainda é motivo para permanecer firme na fé em Deus, e também sobre novas formas de interesse – especialmente nos jovens – em algo transcendente que passa por histórias autênticas, experiências de estética profunda e curiosidade para explorar novas reflexões sobre o sentido da vida. Entretanto, havia também a consciência de que as Igrejas muitas vezes não são mais capazes de atender às novas necessidades religiosas dos homens e mulheres de hoje. Forte, quase chocante, foi o discurso da teóloga alemã Julia Knop. A partir do debate sobre o abuso de poder e a violência sexual por parte do clero e das pessoas consagradas, ela mostrou que mesmo entre os mais fiéis há uma erosão de confiança na Igreja. E a crise da Igreja – segundo o professor de Teologia Dogmática – está intimamente ligada à crise de fé. O teólogo reformado Stefan Tobler afirmou que a ausência de Deus também pode ser uma chance. Apresentando alguns traços do misticismo de Madeleine Delbrêl, Madre Teresa de Calcutá e Chiara Lubich, ele ressaltou que precisamente a experiência de um Deus que desaparece pode se tornar um lugar da revelação de Deus. “Deus se faz encontrar ali mesmo onde parece mais distante. Não se trata, portanto, de trazê-lo, mas de descobri-lo no mundo”.
Joachim Schwind
8 Mar 2021 | Sem categoria
No sábado, 6 de Março de 2021, durante a viagem apostólica do Papa Francisco ao Iraque, realizou-se um encontro inter-religioso na Planície de Ur dos Caldeus. No final, foi entoada uma oração inspirada na figura do patriarca Abraão, pai comum na fé de cristãos, judeus e muçulmanos. Aqui está o texto. (mais…)
8 Mar 2021 | Sem categoria
O amor a Deus e ao próximo só adquire importância, profundidade e autenticidade se passar pela dor, se for purificado pela cruz que Jesus nos convida a acolher. Mas de que cruz estamos falando? A resposta de Chiara Lubich na seguinte reflexão é muito precisa: cada um de nós tem a sua cruz particular e pessoal. […] “Tudo concorre para o bem, (mas) para aqueles que amam a Deus” (cf. Rm 8,28). Amar a Deus! Todos nós, certamente, queremos amá-Lo. Mas quando podemos ter a certeza de que o amamos? Não apenas quando damos a Ele o nosso coração, num período em que tudo corre bem, porque assim é fácil, é bonito, porque isso poderia ser também resultado de entusiasmo ou uma mistura de interesses pessoais, de amor próprio e não de amor a Ele. Podemos ter a certeza de que O amamos, quando O amamos também nas adversidades, ou melhor ainda, quando, para garantir a autenticidade do amor, nós decidimos preferi-Lo justamente em tudo aquilo que nos magoa. Amar a Deus na contrariedade, nas dores, é sempre amor verdadeiro e seguro. Para nós, este amor é expresso com as palavras “amar Jesus Crucificado e Abandonado”. […] Mas qual é a cruz, qual o Jesus Abandonado que devemos desejar amar, que devemos amar? Não, certamente, uma cruz genérica, como quando dizemos “quero assumir […] as dores da humanidade”. Não uma cruz fruto da fantasia da nossa mente sonhadora, como por exemplo, o martírio, que talvez nunca mais aconteça. Jesus diz, para quem queira segui-Lo: “Quem quiser vir após mim, tome a sua cruz” (Lc 9,23). A sua! Portanto, cada um deve amar a sua própria cruz, o seu Jesus Abandonado. Quando Jesus, num ímpeto de amor em um certo momento da nossa história, apresentou-se à nossa alma e nos pediu que o seguíssemos, que o escolhêssemos, que – como se diz – o desposássemos, Ele não tinha a intenção de manifestar-se de modo vago a cada um de nós, mas de um modo bem preciso. Pedia-nos que o abraçássemos naquelas dores, naquele mal-estar, naquelas doenças, naquelas tentações, naquelas determinadas situações, naquelas pessoas, naquelas obrigações pessoais, de modo que pudéssemos dizer: “Esta é a minha cruz”, ou melhor ainda: “Eis o meu Esposo”. Porque cada um de nós tem o seu Jesus Abandonado, que não é o do irmão nem de todos os outros irmãos, mas é justamente o seu próprio. E se soubermos identificar o amor de Deus por nós, que está escondido sob a trama dos muitos sofrimentos pessoais, isto será uma experiência maravilhosa, que nos levará a afeiçoarmo-nos a este nosso Jesus Abandonado, a abraçá-Lo, como faziam os santos, a esperar por Ele, para vê-Lo transfigurado em nós, por uma ressurreição inteiramente nossa. […] Não percamos tempo. Façamos um pequeno exame da nossa situação pessoal e decidamo-nos, com a ajuda de Deus, a dizer sim a tudo aquilo a que teríamos vontade de dizer não, mas que sabemos ser vontade de Deus. […] Levantemo-nos pela manhã com este propósito no coração: “Hoje quero viver somente para amar o meu Jesus Abandonado”. E tudo estará resolvido. O Ressuscitado viverá em cada um de nós e entre nós. […]
Chiara Lubich
(em uma conexão telefônica, Mollens, 16 de agosto de 1984) Tirado de: “Amare la propria croce”, in: Chiara Lubich, Conversazioni in collegamento telefonico, Città Nuova Ed., 2019, pag. 161.
5 Mar 2021 | Sem categoria
A história de uma família “ampliada” que se abre a um amor que não é óbvio Acolher em uma família uma criança, um jovem ou um adulto é sempre um desafio, complexo, que não é de jeito nenhum óbvio. Tanto em sua composição quanto em seus resultados, jamais concluídos. Observando de fora estas “famílias ampliadas” se experimenta um sentimento misto de estima e admiração, quase come se a serenidade que manifestam seja o fruto de uma indecifrável alquimia do amor. Uma visão quase romântica. Dificilmente imaginamos o quanto seja complexo combinar sensibilidades, culturas e hábitos diferentes. E concretamente, exigências, horários e linguagens, em uma amálgama onde os vários “Eu”, se fundem em um “nós fluido”. Sem atritos ou, melhor, com engrenagens bem lubrificadas. O fato de sentir-se uma só família é uma conquista que não nos preserva do cansaço, das dúvidas e desilusões. Acolher Thérèse na família nos contam Sergio e Susanna, da comunidade de Vinovo, na região de Turim (Itália) – não foi nada fácil. O relato deles é simples, de nenhum modo adocicado, portanto autêntico. O que os sustentou nessa escolha foi a vontade de viver como uma família que deseja ser um dom para os outros e sentir a presença espiritual de Jesus como fruto do amor recíproco. A decisão de abrir a porta, o coração a uma jovem mãe africana, que chegou à Itália como refugiada foi de acordo com as filhas, Aurora e Beatrice, de 20 e 17 anos. E foi na combinação das exigências mútuas que surgiram as primeiras dificuldades. “Beatrice ama planejar todas as coisas – nos conta Susanna. De manhã seus minutos eram contados, mas de vez em quando Thérèse se acordava antes e ocupava o banheiro. Isto lhe criava um problema, mas aos poucos aprendeu a “criar família” com ela, dizendo-lhe com simplicidade de combinar antes sobre o uso do banheiro. Aurora ao invés, logo decidiu compartilhar seu armário com Thérèse e ajudou-a com os estudos”. O desafio, de fato, é antes de tudo superar a oposição silenciosa, corrosiva entre “nós” e o “outro”. E acolher o outro na nossa dimensão íntima, ampliando o “nós”. Procurando “criar a família” existe a vontade de empenhar-se para “ser família”: na verdade o amor é antes de tudo uma escolha não menos exigente para os adultos. “Com o desejo de ser acolhedora com Thérèse, muitas vezes fiquei conversando com ela até tarde – lembra Susanna – mas depois comecei a sofrer as consequências, não conseguia explicá-la que no outro dia de manhã deveria levantar-me cedo, temia magoá-la. Sergio me ajudou a lidar com a situação com delicadeza e firmeza.” Para Sergio as dificuldades surgiam quando à noite, antes de voltar para casa, deveria ir antes buscar Thérèse que estudava em uma cidadezinha próxima: “as aulas terminavam tarde, Thérèse não sabia utilizar os transportes públicos, assim, eu tinha que jantar depois das 21 horas”. Também nesta situação, preferir amar significava atender as exigências de Thérèse, mas também cuidar do bem-estar da família: “Procuramos ensiná-la a ser autônoma, como fazemos com nossas filhas, para que a disponibilidade não se torne um fardo grande demais para nós e um obstáculo ao seu crescimento. Aos poucos ela aprendeu a usar os transportes públicos”. Eles constataram que ser uma família, também determina o modo como nos apresentamos lá fora: “Nos primeiros meses que Thérèse estava conosco, explica Sérgio, eu tinha colocado no perfil de whatsapp uma foto onde estava com Susanna e nossas filhas. Thérèse me disse que não era uma foto da família porque faltava ela! E é isso que descobrimos todos os dias: somos uma única família porque somos filhos do mesmo Pai. Preocupamo-nos uns com os outros e nos alegramos pelas conquistas de cada um”. É aquele “nós” que, por amor, se amplia e nos enriquece.
Claudia Di Lorenzi