No dia 03 de julho de 2026, em Pádova (Itália), nos despedimos de Silvana “Ave” Cerquetti aos 95 anos. Artista, escultora e figura de destaque do Movimento dos Focolares, elas nasceu em Roma no dia 09 de agosto de 1930 e dedicou toda a sua existência a procurar a beleza como caminho em direção a Deus, deixando uma marca profunda.
Desde a infância, vivida entre Roma e Montefalco (Úmbria – Italia) durante os anos difíceis da guerra, Ave mostrou uma sensibilidade extraordinária com a criação. Justamente no povoado da Úmbria ocorreu seu primeiro encontro com a arte: naquele momento, observava o trabalho de um oleiro, até intuir que aquela mesma argila podia se tornar instrumento para dar forma ao mundo que tinha dentro de si. Com o apoio da mãe, fez um grande presépio que chamou a atenção da cidade inteira, antecipando uma vocação destinada a se desenvolver nos anos seguintes.
Depois de estudar no colégio de artes e na Academia de Belas Artes de Roma, onde se formou em escultura em 1953, se tornou muito cedo uma das jovens promessas italiana no campo da arte. Já em 1952, uma de suas obras foi selecionada para representar os estudantes da Academia na Bienal de Veneza. Mas o sucesso profissional não bastava para preencher sua busca interior.
O episódio que marcou definitivamente seu caminho ocorreu durante uma visita a uma exposição de Georges Rouault no Palazzo Venezia. Diante de um rosto de Cristo pintado pelo artista francês, Ave viu uma experiência que ela mesma descreveu como fulgurante: compreendeu que a arte podia se tornar um instrumento para comunicar Deus aos homens. A partir daquele momento, nasceu a convicção que a teria acompanhado por toda a vida: “Farei arte sacra”.
Nos anos seguintes, se dedicou sobretudo à pintura de retratos, obtendo reconhecimento e apreciação no ambiente artístico romano e uma posição de destaque nas exposições na rua Margutta, a estrada dos artistas romanos. Quem observava suas obras destacava a capacidade dela de colher o interior das pessoas. Para Ave, de fato, cada rosto merecia um respeito quase sagrado, porque era reflexo da obra criada por Deus.
Uma etapa decisiva ocorreu em 1955, durante uma passagem por Sassari (Sardenha – Itália) em um momento de grande busca interior. Ali, ela conheceu o Movimento dos Focolares por meio de uma visita ao focolare da cidade que descreveu como o encontro daquela harmonia e daquela beleza que sempre havia procurado. Quem a acolheu com festa foram Marisa Cerini e Caterina Ruggiu. Ave conta: “Ainda estávamos na pequena entrada e logo tive a sensação extraordinária de entrar naquela unidade, harmonia e beleza da criação que eu havia contemplado mais de uma vez, e disse para mim mesma: Aqui está Deus, aqui está a Igreja!”. É o episódio culminante da sua busca por um retorno à igreja católica, dado que toda a família dela tinha aderido à igreja Valdense. É por isso que Ave levaria para sempre um amor especial pelo ecumenismo, nunca se esquecendo, nem por um dia, de rezar pela unidade das Igrejas.
Entre 1958 e 1960, viveu uma experiência intensa na América Latina. Enviada a San Salvador para um intercâmbio cultural, se destacou rapidamente. Ave deu aulas de escultura na Academia de Belas Artes, recebendo vários reconhecimentos, participou da criação da primeira galeria permanente de arte contemporânea do país e fez obras de grande relevância, entre as quais uma estátua monumental de Santo Inácio. O sucesso profissional foi notável, mas ainda mais significativo foi o amadurecimento da vocação dela. A dedicação cristã continuou a guiar cada escolha dela e durante a viagem de volta para a Itália, ao parar nos santuários de Guadalupe, Lourdes de Montserrat, amadureceu a decisão de consagrar totalmente a própria vida a Deus, no focolare, aventura que teve início em maio de 1961.
Acolhendo o convite de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, de não abandonar a arte e a escultura, mas de colocá-la inteiramente a serviço de Deus, sentiu dentro de si o desejo de não criar mais sozinha, mas de trabalhar em comunhão com outras artistas que compartilhavam o mesmo caminho espiritual. E foi assim que, juntamente com Tecla Rantucci, escultora, e Marika Tassi, pintora, fez nascer o Centro Ave, o primeiro ateliê, assim batizado por Lubich, para que cada obra pudesse ganhar vida como um dom a Maria. Foi naquele momento que Silvana tomou o nome Ave, na vida e na arte. O ateliê nasceu primeiramente em uma simples garagem romana, e depois se transferiu para Grottaferrata, cidadezinha não muito distante da capital, e posteriormente para Loppiano (Florença).
Sob a direção dela, o Centro Ave se tornou no decorrer dos anos um importante laboratório internacional de arte sacra. Nasceram obras que entraram no imaginário de muitos ambientes eclesiais, como a Bella Accoglienza, a Madonna del Buon Cammino, a Madonna della Neve e inúmeras representações de Cristo e da Virgem Maria espalhadas em todo o mundo. Paralelamente, se desenvolveram estudos de projetos arquitetônicos e litúrgicos que levaram à construção de igrejas, complexos paroquiais e importantes obras de restaurações eclesiais.
O Centro Ave foi reconhecido como uma referência de estilo claro pela crítica e pela igreja, onde a arquitetura abraça a escultura e se deixa envolver pela luz colorida das vidraças, em um perfeito equilíbrio entre as artes. E Ave era sempre a primeira e incansável protetora dessa experiência de unidade que partia do comprometimento de cada uma em deixar viver o Mestre, Deus, entre elas a partir dessa dimensão comunitária.
“Espalhe essa sede de beleza que o mundo sente”, afirmou Chiara Lubich em 1961, se referindo a essa realidade, “mande grandes artistas, mas molde com eles grandes almas que, com seu esplendor, possam guiar as pessoas em direção ao mais belo dos filhos dos homens: Jesus!”.
Essa visão encontrou uma de suas expressões mais altas no Santuario Maria Theotokos de Loppiano, onde se encontra sua contribuição especial, considerado por ela mesma como a coroação de uma vida artística e espiritual. Inclusive, nos últimos dias de vida, as pessoas que estiveram ao seu lado contam que bastava ouvir pronunciar esse nome que seu rosto se iluminava.
Além da criatividade, as muitas pessoas que no decorrer dos anos trabalharam com ela, lembram sobretudo da sua capacidade de valorizar os outros. Ave sabia reconhecer o bem escondido nas pessoas e encorajá-las a crescer. Pra muitas gerações de artistas, foi mestre não só de técnica, mas sobretudo do olhar: um olhar capaz de ver a beleza também nas realidades mais simples e cotidianas.
Em 1999, também contribuiu, com Michel Pochet e Liliana Cosi, no nascimento da Comissão Central da Inundação da Arte, uma expressão belíssima criada por Chiara Lubich para descrever o impacto da espiritualidade da unidade também na cultura artística contemporânea, iniciativa hoje estendida a uma rede mundial itinerante e viva de artistas.
Ave Cerquetti, com o seu falecimento, deixa uma herança viva feita de obras, comunidades artísticas e relações humanas. Uma vida inteiramente dedicada a traduzir na linguagem da matéria, da forma e da luz a Palavra do Evangelho que se tornou seu programa de vida: “amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1João 4:7).
“O Senhor, por meio da sua palavra, continua chamando”, disse dom Stefano Russo, bispo da Diocese de Velletri-Segni e de Frascati, nos arredores de Roma, Itália, na homilia da Celebração Eucarística realizada no sábado, 17 de janeiro, na conclusão do inquérito diocesano aberto em Albano pela Beatificação e Canonização de Domenico Mangano, voluntário de Deus do Movimento dos Focolares. Dom Russo continua: “Como aconteceu com João Batista que, iluminado pelo amor de Deus, reconheceu o Filho de Deus e o mostrou aos outros (…) Algo similar acontece no início do percurso de canonização de uma pessoa quando alguém sinaliza a presença de santidade, consequência do encontro com Cristo. Assim ocorreu também para Domenico, uma comunidade disse: o encontramos, compartilhamos muitas experiências com ele, participando juntos de uma viagem santa, vimos sua ação iluminada pelo Senhor e, em particular, o momento em que encontrou o carisma da unidade”.
No auditório do Centro Internacional do Movimento dos Focolares, estavam presentes a família de Domenico Mangano, amigos, membros do Movimento e um streaming permitiu que muitas pessoas pudessem acompanhar de diversas partes do mundo.
Quem era Domenico?
Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares, definiu a vida de Domenico como “uma vida marcada pela disponibilidade, atenção ao outro e um amor concreto, vivido sem clamor, mas com fidelidade. Como o bom samaritano, Domenico sabia parar, estar próximo e transformar o encontro com o outro em um dom”.
“Um leigo cristão que levou a sério a fé na vida concreta”, disse Jesús Morán, copresidente do Movimento dos Focolares. “Marido, pai, trabalhador, cidadão profundamente inserido na sua comunidade, nunca viveu o Evangelho como um fato privado, mas como luz capaz de iluminar as escolhas públicas, a responsabilidade social e o comprometimento com o bem comum. Sua espiritualidade era profundamente encarnada: enraizada na fé, que não afasta do mundo, mas está sempre atenta à história, aos problemas das pessoas e à espera da sociedade”.
Domenico sentiu o chamado evangélico a servir a comunidade, promovendo o respeito, a dignidade, a responsabilidade social e a cultura da participação, para que cada cidadão pudesse se sentir parte viva da sociedade. Foi um homem do diálogo por escolha interior e responsabilidade cristã. Para ele, a política nunca foi um lugar de conquista, mas um espaço de serviço, forma concreta de caridade social, vivida com seriedade moral, lucidez de juízo e profundo senso de justiça. Procurou constantemente combinar o Céu e a terra traduzindo a mensagem do Evangelho no social.
Margaret Karram, Presidente do Movimento dos Focolares; Jesús Morán, Co-presidente do Movimento dos Focolares; Dr. Waldery Hilgeman, Postulador da Causa e Mons. Stefano Russo, bispo de Velletri-Segni e de Frascati.
Nesse caminho, a força vital brotava da espiritualidade da unidade e do empenho com os Voluntários de Deus; esses últimos definidos por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, como “os primeiros cristãos do século XX, que vivem para tornar Jesus visível nos lugares em que estão”.
Encarnando o estilo evangélico, amadureceu nele uma dimensão espiritual profunda: aprendeu progressivamente a deixar que Deus estivesse no centro, orientando sua vida e suas escolhas e, com Ele, o homem, a comunidade, o bem comum. Daqui nasceram a sua liberdade interior, a serenidade e a capacidade de amar concretamente.
Padre Andrea De Matteis, vigário judicial da diocese de Albano, delegado episcopal por esta causa, em seu relatório, lembrou que muitos definiram Domenico como “um místico do comum: nele, oração, família, trabalho e comprometimento civil formavam uma única realidade. Vivia uma mística da presença, reconhecível nos gestos mais simples: na escuta, na palavra discreta, no sorriso. Um coração contemplativo imerso no mundo, um homem que procurou agradar a Deus na concretude da vida cotidiana. Em sua simplicidade desconcertante, testemunhou como era possível tornar extraordinário o ordinário, excepcional a normalidade, e atrair o divino na frágil situação humana de cada um”.
Domenico viveu também a provação da doença com fé exigente, como tempo de confiança e oferecimento. Naquele percurso doloroso, reconheceu mais uma vez a presença de Deus que chama, transforma e conduz à realização.
Nas fotos: 1- As caixas contendo os documentos da Causa – 2 – da esquerda, Dr. Waldery Hilgeman, Postulador e, em seguida, os membros do Tribunal Diocesano da Causa: Prof. Marco Capri, Notário, Don Andrea De Matteis Vigário Judicial da Diocese de Albano e Delegado Episcopal e Prof. Emanuele Spedicato, Promotor de Justiça – 3 – à esquerda, Eng. Juan Ignacio Larrañaga, responsável central dos Voluntários de Deus; no centro, Dr. Paolo Mottironi, responsável central dos Voluntários de Deus no momento do início da Causa.
A solene conclusão da fase diocesana de Domenico que, por muito tempo, envolveu com dedicação o Ordinário de Albano, primeiramente com dom Marcello Semeraro e agora com dom Vincenzo Viva, o Tribunal, diversos colaboradores e muitas testemunhas, foi um evento de profundo significado eclesial.
Com esse ato oficial, declarou-se diante de Deus e da comunidade eclesial que o trabalho paciente e apaixonado, de escuta, de coleta e de avaliação das provas foi desenvolvido por muitos com retidão, verdade e fidelidade às normas da Igreja, e com profunda consciência do dom confiado.
Em Domenico Mangano, vemos como a santidade pode florescer na vida comum, nas escolhas feitas com amor e verdade, lá onde o Senhor nos coloca, quando o homem se deixa esvaziar de si mesmo para sempre se deixar preencher por Deus.
Moisés chegou numa sexta-feira, recomendado por um outro rapaz venezuelano que mora com ele na Casa de Acolhida, e lhe havia dito para ir até nós, que poderíamos ajuda-lo como migrante. Moisés chegou da Colômbia algumas semanas antes do Natal, tinha apenas três trocas de roupa, aliás bem à maneira do Caribe, que ele tinha trazido na viagem. Ele estava sentindo frio. Graças a Deus encontrou logo trabalho em um restaurante, lavando pratos e ajudando na cozinha. Eram poucos dias na semana, mas podia almoçar e jantar.
Nós demos a eles roupas de inverno e um cobertor, porque dormia no chão, num colchãozinho emprestado pelo dono da casa: um senhor que, gentilmente, aceitou que ele pagasse o aluguel quando recebesse o primeiro salário. Ele teve mesmo sorte porque, logo que chegou, encontrou trabalho, um quarto, e um senhor muito generoso. Não todos os migrantes tem a mesma sorte. Ele começou a chorar quando viu o que lhe davam e o que recebia, “o amor da família”, como ele mesmo a definiu.
É um jovem profissional, contador. Rezamos, pedindo a Deus que no futuro Moisés possa exercitar a sua profissão.
(S.R. – Peru)
A verdadeira riqueza
O relacionamento com o meu cunhado era sempre difícil. Antes haviam sido os débitos por causa da sua atividade comercial mal administrada, sem experiência e com pouca lucidez; depois os graves problemas de saúde que exigiam tratamentos e cirurgias caras, e todas as vezes, a nossa intervenção para emprestar o dinheiro necessário, a custo de hipotecar a casa e utilizar os recursos reservados para os estudos dos nossos dois filhos. Não era fácil ir além dos limites humanos daquele nosso parente, mas vendo as péssimas condições em que havia chegado não podíamos deixar de pensar em Jesus Abandonado, aquele Jesus que eu e meu marido queríamos amar. Talvez ninguém nos culparia se não continuássemos a pagar pelos erros dos outros, no entanto, sendo cristãos, éramos chamados a seguir uma outra lógica. Quando falei sobre isso com meu marido, ele comentou sobre uma conta que tinha aberto no banco para alguma emergência: mesmo se nós perderíamos os juros, queria colocar aquele dinheiro à disposição do seu irmão. Depois disso nós nos sentimos mais em paz e mais unidos entre nós. Era essa a nossa verdadeira riqueza.
(C. – Coreia do Sul)
Por Maria Grazia Berretta
(retirado de “O Evangelho do Dia’, Città Nuova Editrice, ano XII– n.1° janeiro-fevereiro de 2026)
Gratidão e reconhecimento a Deus. Estas palavras resumem a abundância de mensagens que chegaram do mundo inteiro para Paolo Rovea. Em 3 de julho de 2025, em um acidente nas montanhas, Paolo encerrou sua vida terrena. Casado com Barbara, eles têm cinco filhos: Stefano, Federico, Francesco, Miriam e Marco.
Em 1975, ele encontrou o Ideal de Unidade do Movimento dos Focolares. “Isso mudou radicalmente a minha vida”, disse. Naquele ano, participou do Genfest em Roma, retornando com o desejo de viver cem por cento com os Gen, os jovens do Movimento dos Focolares. Por 14 anos, ele se dedicou incansavelmente, fazendo do Evangelho o seu modo de vida.
Com Barbara, que também participa dos Gen, começou a planejar constituir família. Casais de noivos e famílias jovens passaram a vê-los cada vez mais como um modelo de casal. Um deles escreveu: “Com grande pesar por esta perda, somos profundamente gratos pelo amor, respeito e confiança que recebemos de Paolo. Gratos pelos muitos anos de ações extraordinárias e ‘loucas’ que todos compartilhamos. Com Barbara, ele moldou a história das Novas Famílias – o braço dos Focolares para apoio às famílias – e a história de muitos casais, incluindo o nosso.”
Paolo também se afirma cada vez mais em sua profissão, com expertise e sensibilidade. Formou-se em Medicina pela Universidade de Turim (Itália), com especialização em Oncologia e Radioterapia. Na mesma Universidade, lecionou no programa de mestrado por vários anos. Trabalhou como médico hospitalar, tornando-se posteriormente chefe do departamento de Oncologia e Radioterapia em Turim, até sua aposentadoria em 2021. Também obteve um mestrado e cursou cursos avançados em Bioética.
Em 1989, sentiu que Deus o chamava para o caminho do focolare como focolarino casado, e confidenciou isso a Danilo Zanzucchi, um dos primeiros a seguir esta estrada: “Estou em um momento muito importante da minha vida: meu emprego de médico deve se tornar permanente; casei-me há cinco meses. (…) Agradeço a Deus por todos as dádivas que me concedeu: em primeiro lugar, pelo Ideal da unidade (…), pela minha família (…), pela vida Gen (…); por Barbara, minha esposa, com quem estou vivendo meses maravilhosos (…). Garanto que parto com um renovado desejo de santidade neste caminho único que é o focolare.”
Uma vida enraizada em um crescimento constante em seu relacionamento com Deus.
Muitos se lembram de como Paolo raramente dizia não a um pedido ou necessidade; ele estava lá para qualquer pessoa necessitada com um amor concreto. Seus talentos e profissionalismo estavam a serviço daqueles que o cercavam: se era preciso de alguém para cantar ou tocar, ele cantava e tocava; se era preciso de alguém para escrever um texto, ele escrevia; se houvesse necessidade de uma consulta médica, ele estava pronto; se alguém precisasse de um conselho, ele o dava com imparcialidade, encorajando os medrosos e estimulando os inseguros. Sua capacidade de se conectar com a vida de todos ao seu redor fez com que, com o tempo, ele fosse percebido por muitos como um verdadeiro irmão, um membro da família, um amigo fiel.
“Agradeço a Deus por todos as dádivas que me concedeu: em primeiro lugar, pelo Ideal da unidade (…), pela minha família (…), pela vida Gen (…); por Barbara, minha esposa, com quem estou vivendo meses maravilhosos (…) Garanto que parto com um renovado desejo de santidade neste caminho único queé o focolare.”
O compromisso de Paolo e Barbara com o Movimento dos Focolares foi crescente, especialmente no âmbito das Famílias Novas (FN). Uma das áreas pelas quais eram profundamente apaixonados era a educação sobre afetividade e sexualidade. Foi graças a eles que, em 2011, em sinergia com as diversas agências de formação do Movimento dos Focolares, nasceu um programa nessa área, o Up2Me, baseado na visão antropológica típica dos Focolares.
Maria e Gianni Salerno, responsáveis mundiais das Famílias Nuovas, afirmam: “Embora conhecêssemos Paolo e Barbara desde jovens, trabalhamos juntos diariamente nos últimos 10 anos na Secretaria Internacional das Famílias Novas. A paixão, a generosidade, a criatividade e o compromisso incansável com que Paolo realizou tudo, sempre atento às relações com cada pessoa, continuam sendo um enorme testemunho para nós e sempre foram um incentivo para avançarmos juntos, para nos esforçarmos cada vez mais e melhor para servir as famílias em todo o mundo. Muitas vezes, quando discutíamos com ele como enfrentar os desafios que as famílias enfrentam hoje, para estarmos cada vez mais próximos de todos, ele sugeria ideias inovadoras, úteis para acompanhar os tempos e as necessidades das pessoas. Ele viajou muito com Barbara para encontrar as famílias do Movimento e deixou um rastro de luz em todo o mundo.”
“Muitas das novas iniciativas de Famílias Novas”, continuam os Salerno, “foram sugeridas e coordenadas por ele, juntamente com Barbara. Entre elas, estão o programa Up2me, o Formato Família, um programa de discussão e crescimento com outras famílias na cidadela internacional dos Focolares em Loppiano, e, por último, mas não menos importante, a Loppiano Family Experience, um curso de três semanas para líderes de Famílias Novas, também em Loppiano. Mesmo nesta perda tão dolorosa, sabemos que podemos contar com seu apoio insubstituível, que agora, do Céu, será ainda mais forte…”
No mundo, também estão surgindo espaços nos quais a fraternidade é cultivada com propósito. Um deles é MilONGa, um projeto que tem se afirmado como uma iniciativa fundamental no campo do voluntariado internacional, com o objetivo de promover a paz e a solidariedade mediante ações, realizações.
MilONGa propõe uma alternativa concreta: viver a solidariedade a partir de si, mediante experiências que transcendem as fronteiras culturais, sociais e geográficas.
Seu nome, que vem de “Mil Organizações Não Governamentais Ativas”, é muito mais do que um projeto. É uma rede que une jovens com organizações de várias partes do mundo, dando-lhes a oportunidade de se envolverem ativamente em iniciativas sociais, educacionais, ambientais e culturais. Desde a sua criação, o programa cresceu, tecendo uma comunidade global que se reconhece em valores compartilhados: paz, reciprocidade e cidadania ativa.
O que distingue MilONGa não é apenas a diversidade de seus destinos ou a riqueza de suas atividades, mas o tipo de experiência que propõe: uma imersão profunda nas realidades locais, em que cada voluntário e voluntária não está ali para “ajudar”, mas para aprender, fazer uma troca, construir juntos. É um caminho de formação integral que transforma tanto quem o vive quanto as comunidades que acolhem esses voluntários.
Os países onde essas experiências podem ser realizadas são tão diversos quanto os jovens que participam delas, e cobrem diferentes latitudes: México, Argentina, Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai, Uruguai e Peru, na América; Quênia, na África; Espanha, Itália, Portugal e Alemanha, na Europa; Líbano e Jordânia, no Oriente Médio.
Em cada país, MilONGa colabora com organizações locais comprometidas com o desenvolvimento social e a construção de uma cultura de paz, oferecendo aos voluntários oportunidades de serviço que têm um impacto real e duradouro.
Por trás de MilONGa existe uma sólida rede de alianças internacionais. O projeto é apoiado por AFR.E.S.H., (“África e Europa o mesmo horizonte”), cofinanciado pela União Europeia, o que lhe permite consolidar a sua estrutura e expandir o seu impacto. Além disso, faz parte do ecossistema de New Humanity, organização internacional comprometida com a promoção de uma cultura de unidade e diálogo entre os povos.
Uma história que deixa sua marca
Francesco Sorrenti foi um dos voluntários que viajou para a África com o programa MilONGa. Sua motivação não era apenas o desejo de “ajudar”, mas uma necessidade mais profunda de entender e de se aproximar de uma realidade que ele sentia distante. “Era algo que estava dentro de mim há anos: uma curiosidade profunda, quase uma urgência de ver com os próprios olhos, de tentar me aproximar de uma realidade que eu sentia distante”, diz Francesco sobre essa passagem pelo Quênia.
Sua experiência no Quênia foi marcada por momentos que o transformaram. Um deles foi sua visita a Mathare, uma favela em Nairóbi. “Quando um deles me disse: ‘Veja, meus pais moram aqui. Eu nasci aqui, meus filhos também. Conheci minha esposa aqui e provavelmente morreremos aqui’, senti uma impotência muito forte. Entendi que antes de fazer qualquer coisa, era preciso parar. Eu não estava lá para consertar as coisas, mas para olhar de frente. Para não virar o rosto”.
Ele também experimentou momentos de luz em seu trabalho com as crianças em uma escola local. “A alegria daqueles meninos era contagiante, física. Não eram necessárias muitas palavras: bastava estar ali, brincar, compartilhar. Foi quando entendi que não se trata de fazer grandes coisas, mas simplesmente de estar presente”, diz ele.
Dois anos depois dessa experiência, Francesco ainda sente seu impacto. “Minha maneira de ver as coisas mudou: agora valorizo mais o que realmente importa e aprendi a apreciar a simplicidade. Essa experiência também me deixou uma força, uma tenacidade interior. Você percebe que tem dentro de si uma espécie de resistência, como a que eu vi nos olhos daqueles que, ao amanhecer, queriam fazer tudo, mesmo que não tivessem nada”.
Encontros que multiplicam o compromisso
Em abril de 2025, MilONGa fez parte do congresso internacional “Solidarity in Action, Builders of Peace” que aconteceu na cidade do Porto, Portugal. Esse encontro foi organizado em conjunto pela AMU (Azione per un Mondo Unito), New Humanity NGO e o Movimento dos Focolares de Portugal, reunindo jovens líderes do mundo todo ligados aos programas Living Peace International e MilONGa.
Durante três dias, o Porto tornou-se um laboratório de diálogo e ação, no qual os jovens participantes trocaram experiências, partilharam boas práticas e construíram estratégias conjuntas para reforçar o seu papel como agentes de paz. MilONGa desempenhou um papel fundamental, não só com a participação ativa dos seus voluntários, mas também mediante a criação de sinergias com outras redes de jovens comprometidas com a transformação social.
Um dos momentos mais significativos do congresso foi o espaço para oficinas colaborativas, nas quais os participantes imaginaram e desenharam projetos concretos com impacto local e global.
MilONGa não se define apenas pelo que faz, mas pelo horizonte que propõe: um mundo mais justo, mais unido, mais humano. Um mundo onde a solidariedade não é um slogan, mas uma prática cotidiana; onde a paz não é uma utopia, mas uma responsabilidade compartilhada.
Era o aniversário de um amigo muito querido com o qual compartilhei ideiais, alegrias e dores. Mas fazia muito tempo que não lhe escrevia e que não nos víamos. Estava um pouco reticente: poderia lhe enviar uma mensagem, mas não sei como ele iria reagir. A Palvra de Vida me encorajou: “Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo.” (Jo 21,17). Pouco tempo depois, recebi a resposta dele: “Que alegria receber a sua mensagem”. E começamos a conversar: as mensagens iam e vinham. Ele me contou que estava feliz com o seu trabalho, tinha um ótimo salário e me disse que queria me visitar. Eu o encorajei e me coloquei à disposição para acolhê-lo e organizar sua estadia. Foi mais um motivo para tê-lo presente… e não esperar mais um ano para mandar uma mensagem.
(C. A.- Itália)
Esmagada pelo orgulho
Eu conseguia perdoar Miguel pelas noites que passou no bar, mas não a infidelidade que confessou um dia. Eu era a boa esposa e mãe, eu era a vítima. Porém, desde que havia começado a se encontrar com o padre Venancio e outras pessoas da paróquia, meu marido parecia outra pessoa: estava mais presente em casa, mais carinhoso comigo… eu, por outro lado, permanecia desagradável todas as vezes que me propunha de lermos juntos o Evangelho para tentar colocar em prática. Até que um dia, já que era o aniversário dele, aceitei acompanhá-lo a um encontro de famílias. Foi o primeiro de muitos. Um dia, uma frase me fez refletir: “Construir a paz”. Como eu poderia fazer isso, eu, que nesse meio tempo havia me descoberto egoísta, cheia de misérias e rancores? O orgulho me impedia de pedir perdão a Miguel, enquanto ele, em 28 anos de casamente, me havia pedido muitas vezes. Todavia, eu procurava o momento mais certo para fazê-lo. Até que, em um encontro com o grupo de famílias, pedi ajuda a Deus, consegui contar nossa experiência como casal e pedir perdão a Miguel. Naquele dia, senti renascer um amor novo, verdadeiro por ele.
(R. – México)
O cuidado com o próximo
Desde quando passei um período em Havana, imerso nos problemas de sobrevivência dos habitantes do nosso bairro, lidando com a grave crise econômica do país, ainda não havia me acostumado com os interventos pontuais da Providência. Entre tantos, está este último. Fui avisado por uma pessoa que faz parte da nossa comunidade que chegaria uma doação consistente de remédios dentro da validade, todos para os cuidados de doenças neurológicas. Fui buscar um pouco perplexo, porque os remédios pedidos pelos pobres que recebíamos não entravam nessa categoria. Mas depois me lembrei que uma vez por mês, na segunda-feira de manhã, um psiquiatra vinha de graça visitar as pessoas do bairro que precisam de cuidados. Assim, na primeira oportunidade, o contatei, levando a lista dos medicamentos. Com o passar do tempo, meu rosto se iluminava: “Eram justamente os que eu procurava”, exclamei estupefato.
(R.Z. – Cuba)
por Maria Grazia Berretta (trecho de Il Vangelo del Giorno, Città Nuova, anno X– n.1° maio-junho de 2025)