Há alguns anos, longe da minha família, tive de dividir casa por um tempo com um colega de trabalho. Alberto, meu colega, era ateu. Falávamos de esporte, cultura, religião, etc. Algumas vezes, lhe contei o que a conversão havia significado para mim, o encontro com Deus, em Jesus. Ele me agradecia com gentileza, mesmo se, obviamente, permanecesse fiel a suas convicções.
Por outro lado, eu sabia que colocar em prática a palavra de Deus significava amar concretamente essa pessoa. Portanto, comecei a me interessar pela sua vida, pela sua família, pelo que ele gostava, pelo que o chateava ou o fazia sofrer.
Vendo que Alberto estava muito ocupado, me ofereci para cozinhar nos dias que eram dele e até a lavar suas roupas. Ele gostava de ir correr e, mesmo não sendo meu esporte favorito, comecei a ir correr com ele para entrar mais em sintonia com seus interesses.
Um dia, me propôs que saíssemos para nos divertir com algumas mulheres. Respondi gentilmente que não ia e expliquei que para mim o sexo era algo muito profundo. Ele me olhou um tanto incrédulo e me disse: “Tenho que refletir sobre isso que você me disse”.
Nossos caminhos se separaram. Eu o encontrei anos depois em um aeroporto. Nós nos abraçamos e me disse: “Sabe de onde estou vindo? De uma reunião. Sou presidente do conselho paroquial”. Que surpresa! Eu não conseguia acreditar.
Alberto continuou: “Miguel, lembra quando, há muitos anos, você cozinhava nos dias que eram meus ou quando lavava minhas roupas e saía para correr comigo? Eu te observava e via que tinha algo dentro de você, uma luz, uma força na sua vida que estava faltando na minha. E foi justamente isso que me tocou e começou, pouco a pouco, a mexer com o meu coração e a minha mente. Qual foi o resultado? Um profundo diálogo interior com Deus. Comecei a ler o Evangelho e a mudar meu estilo de vida. Chegou o batismo e agora estou aqui: de ateu a presidente do conselho paroquial. Obrigado por aqueles meses que moramos juntos!”
A notícia chegou de forma repentina e inesperada na manhã do dia 10 de agosto. Kala Acharya havia acabado de partir no campus da Somaiya University onde morava e, pelo desejo de seu fundador Shri Karamshi Jethabhai, onde havia passado quarenta anos da vida dela. Como definiu Samir Somaiya, neto do fundador e atual presidente dessa prestigiosa instituição acadêmica, Kala era uma instituição com sua presença e personalidade. De acordo com o dr. Shantilal Somaiya, que havia sucedido o pai na gestão do Trust da instituição acadêmica, havia dado vida a Somaiya Sanskriti Peetham, um instituto para a formação de professores formais e informais de valores morais e religiosos. Ao mesmo tempo, se envolveu, junto com o dr. Somaiya, no diálogo interreligioso, colaborando já na metade dos anos noventa com o Seminário Católico S. Pius X de Mumbai e com vários professores e instituições estrangeiras, entre as quais, algumas italianas. Em setembro de 2000, a poucos meses da primeira viagem de Chiara à Índia, o monsenhor Felix Machado, subsecretário do então Pontifício Conselho para o Diálogo Interreligioso (hoje Dicastério para o Diálogo Interreligioso), pediu a Marina Pracchia e Roberto Catalano, responsáveis do Movimento dos Focolares na Índia, para entrar em contato com a professora Kala Acharya que considerava uma irmã e que esperava que pudesse participar em algum momento da viagem de Lubich. O primeiro encontro em Vidhyavihar, no grande campus da Somaiya University, foi muito caloroso. Kala aceitou imediatamente o convite para participar da cerimônia de premiação do Prêmio Gandhi, Defensor da Paz, que Chiara Lubich recebeu de Shanti Ashram em Coimbatore, no início de janeiro de 2001. Justamente em Coimbatore, pouco antes de voltar a Mumbai, Lubich encontrou pessoalmente a acadêmica indiana: se entenderam de primeira. A fundadora do Movimento dos Focolares escreveu em seu diário no dia seguinte: “Ontem, no dia da epifania, tive um encontro especial, talvez com uma criatura que tem um desígnio de Deus, Kala Acharya. […] Culta, aprofundou o diálogo hindu-cristão, conhece bem o Pontifício Concílio para o diálogo interreligioso e foi recebida duas vezes pessoalmente por João Paulo II. Ao entrar na salinha, logo disse que se sentia abençoada…: ‘É o amor de Deus que vem a mim. Trabalharei em qualquer linha que me der. É uma promessa!’. […] desejava que eu encontrasse um grupo de pessoas muito qualificadas de várias religiões em Bombay: ‘a sua palavra deve chegar diretamente a todas as religiões’, disse, ‘é importantíssimo o significado que você dá para o amor’. Estarão presentes professores, estudantes, ‘queremos que todos que estejam se tornem veículos dessa sua palavra ”.
Nas fotos: Da esquerda: Chiara Lubich e Kala Acharya. Na segunda foto, entre Chiara e Kala, a Prof.ª Shubada Joshi e, à direita, o Dr. Shantilal Somaiya. Na terceira foto: o Dr. S. Somaiya, Kala Acharya, Chiara Lubich e o Cardeal de Bombaim, Ivan Dias.
De fato, alguns dias depois, em Mumbai, sob uma shamiana (uma tenda decorada) na esplanada no centro do grande campus universitário, havia 600 pessoas que se reuniram para ouvir a palavra de Lubich, que contou sua experiência cristã e seu anseio e comprometimento com o diálogo. Um pouco antes, o dr. Shantilal Somaiya havia assegurado a Chiara que queria se transformar em um soldado às suas ordens, para levar o espírito da unidade e do diálogo a todos os lugares. Foi o início de uma estação única na experiência do Movimento dos Focolares – e não só, porque tudo sempre foi organizado com os novos amigos hindus e juntamente com o Dicastério vaticano para o diálogo interreligioso e com a diocese de Mumbai. O Movimento, pela primeira vez em sua história se abriu a um diálogo interreligioso também a nível acadêmico. E isso foi mérito da professora Kala Acharya que sugeriu a Chiara que continuasse com a amizade e com os simpósios para refletir sobre temas comuns. Justamente durante o primeiro desses simpósios, Lubich sentiu o impulso interior de partilhar a sua experiência espiritual mais íntima. A repercussão entre os hindus foi surpreendente e Chiara continuou essa experiência de comunhão durante a sua segunda viagem à Índia em 2003, quando passou uma manhã com uns vinte desses acadêmicos para compartilhar realidades espirituais muito profundas em um clima de comunhão difícil de descrever.
Chiara e Kala sempre se consideraram ‘irmãs’ espirituais e Kala continuou, como pode, mas com grande fidelidade, a levar adiante no seu âmbito o diálogo interreligioso que nasceu do seu relacionamento com Chiara. Colheu – juntamente com outros hindus como Minoti Aram e Suresh Uppadhyaya – a profecia do carisma que se exprimia nestes termos: “No hinduísmo,temos três caminhos para chegar a Deus: o bhaktiyoga, que nos faz orar, o Karmayoga que nos faz agir, o jnanayoga que nos faz pensar e meditar para chegar a conhecer a si e a Deus. Chiara Lubich nos propõe uma quarta estrada, o Premyoga, o caminho do amor ao irmão e entre nós ”.
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No dia 25 de maio de 2026, Margaret Karram e Roberto Almada encontraram-se com a comunidade de Trento (Itália) e salientaram a importância de viver a unidade de maneira nova e juntos, colocando em prática uma conversão verdadeira. É uma oportunidade para permanecermos ancorados no presente e olharmos para o futuro.