“Jovens do mundo inteiro, uni-vos”: esse foi o convite que Chiara Lubich dirigiu às novas gerações há 60 anos, para que cada pessoa pudesse responder ao chamado de Deus a viver concretamente pela unidade. Hoje, essa missão — muitas vezes contra a corrente — continua sendo atual. Em uma época extremamente conturbada continua sendo um caminho no qual o ódio e as divisões não têm a última palavra; um caminho de família feito de esperança e de ações, que carrega em si, sempre vivo, o desejo de um mundo unido.
[…] A unidade. Mas o que é a unidade? É possível atuá-la?
A unidade é o que Deus quer de nós.
A unidade significa realizar a oração de Jesus: “Pai, que sejam um como eu e tu. Eu neles e tu em mim, para que sejam um” (cf Jo 17, 21-23).
Mas a unidade não pode ser atuada apenas com as nossas forças. Somente uma graça especial pode realizá-la, que vem do Pai, se encontrar em nós uma certa disposição, um requisito específico e necessário.
Trata-se de viver o amor recíproco pedido por Jesus.
O “seu” amor recíproco, aquele que Ele deseja e que não é simples amizade espiritual, acordo ou afinidade.
É amar-se mutuamente como Ele nos amou, até o abandono, até o desapego completo – material e espiritual – das coisas e das criaturas, para nos “fazermos um” reciprocamente e com perfeição.
Assim teremos feito a nossa parte e estaremos nas condições de obter a graça da unidade, que não faltará, que não pode faltar.
Que gratidão nasce em nós ao pensarmos que somos chamados a realizar a unidade! Que impulso a viver a fim de obtermos este dom que, onde não se vive assim, está ausente.
Lembremos que na nossa espiritualidade comunitária temos uma graça a mais, que o Céu pode se abrir a qualquer momento para nós; e se fizermos o que Ele nos pede, permeados por essa graça, podemos realizar muito, muito pelo Reino de Deus.
Sem dúvida, é essa graça que explica a grande expansão do nosso Movimento e as suas muitas conquistas.
Conscientes desse extraordinário privilégio, nos primeiros tempos dizíamos assim:
“Gravem bem em suas mentes uma única ideia. Foi sempre uma única ideia que forjou os grandes santos e a nossa ideia é esta: Unidade”.
“Que tudo desmorone. A unidade jamais! Levem sempre entre vocês este Fogo aceso. E não tenham medo de morrer. Já experimentaram que a unidade exige a morte de todos para dar vida ao UM! Façam isso como um sacrossanto dever, que lhes trará imensa alegria! Jesus prometeu a plenitude da alegria para quem vive a unidade! (…)”.
Durante o próximo mês, esforcemo-nos para obter sempre esse dom.
E que não seja só para a nossa felicidade, mas para conseguirmos realizar a nossa típica evangelização que vocês conhecem: “Que sejam um, para que o mundo creia” (Cf. Jo 17, 21).
O mundo precisa muito da fé, de acreditar! E todos somos chamados a evangelizar. Um dia São Francisco disse aos seus discípulos: “Vamos fazer o nosso sermão”. E com as mãos dentro das mangas, de cabeça baixa, caminharam pela cidade pregando com o próprio ser a mortificação e a pobreza total.
Lancemos também nós, no mundo, o nosso sermão. Quem observar dois ou mais membros da Obra unidos – nos focolares, nos núcleos, nas unidades, nas nossas reuniões ou casualmente juntos – seja tocado por um raio da nossa fé e acredite no amor, porque o viu.
Mãos à obra! É isso o que Deus quer de nós através do nosso carisma que está gravado nos Estatutos: a unidade é a premissa de qualquer outra vontade de Deus. E podemos também falar para irradiar o Evangelho, mas só depois.
Chiara Lubich (Convesazioni, Città Nuova, Roma 2019, pp 522/4
Algum tempo atrás, graças à tecnologia, pude reencontrar os meus ex-colegas do colégio que não via a muitos anos: criamos um grupo no whatsApp. Entre fatos e fotos antigas, conseguimos identificar um colega de quem nenhum de nós tinha notícias e o inserimos no grupo.
Ele nos contou que vivia na rua. Uma série de problemas de saúde, a luta contra um tumor, a perda do trabalho e uma separação familiar o tinham deixado sem nada. No começo alguns dos colegas ajudaram com dinheiro, mas quando chegou o segundo pedido de ajuda, a resposta foi o silêncio e a rejeição.
Mesmo se no colégio nós não éramos amigos próximos, eu senti que não podia ficar como um simples expectador. Disse a mim mesmo que se ele tinha reaparecido na minha vida, por meio daquele grupo, eu tinha que fazer alguma coisa. Não podia simplesmente ignorá-lo.
Decidi ir até ele. Queria ver com os meus olhos como ele estava, e escutá-lo. Ele tinha passado alguns dias numa pensão, mas logo voltara para a rua. Eu não tinha condições de resolver o seu problema de habitação, nem de lhe oferecer uma casa, mas senti a necessidade de perguntar a Deus o que Ele esperava de mim naquela situação.
Nós nos encontramos e conversamos longamente. Fiquei comovido ao ver a decadência do seu estado físico, por isso me ofereci para ajudá-lo com um remédio natural que eu podia conhecia, para que, pelo menos, recuperasse uma certa tranquilidade e bem estar. Mas, para além do seu aspecto físico, eu lembrei que, um período, ele tinha experimentado uma forte vocação religiosa, e até mesmo estivera perto de entrar no seminário. Então lhe perguntei sobre a sua fé.
Ele confessou que tinha se afastado de tudo; há anos não colocava um pé na igreja e nem se aproximava dos sacramentos. Com total sinceridade, visto o agravamento da sua doença e que ele se sentia em perigo, eu lhe aconselhei que procurasse refúgio em Deus.
Sugeri que ele fosse à Missa, falasse com um sacerdote e, se sentisse o desejo, se confessasse. No dia seguinte me ligou, emocionado: tinha ido à igreja, feito a confissão e recebido a eucaristia. Agradeceu-me profundamente porque tinha se dado conta que, tendo perdido tudo o que é material, a única coisa que verdadeiramente lhe restava era o relacionamento com Deus.
Até hoje estamos em contato. Ele conseguiu obter uma pensão e está um pouco melhor. Continuo a ajuda-lo com esse remédio natural, complementar à sua terapia, e de vez em quando tomamos um café juntos, ou levo algo de que necessita, como um par de tênis. Mas, com o tempo entendi que o mais importante não é nem o remédio e nem os sapatos: é o fato que alguém pare para falar com ele.
Às vezes, o “próximo” aparece num grupo de WhatsApp e corremos o risco de deixá-lo engaiolado na virtualidade, onde ninguém assume nenhuma responsabilidade. O meu amigo me ensinou que estar atentos às necessidades do outro, mesmo se não temos uma solução definitiva nas mãos, já é muito. Se todos pudéssemos fazer ainda que um pequeno gesto, como mudaria a situação das pessoas? Não deixemos que o outro seja somente uma mensagem em uma tela; tornemos a nossa ajuda concreta, humana, e, mais que tudo, presente.
A solidão, no silêncio, não te assuste: a solidão existe para proteger e não para amedrontar. Todavia, que esse sofrimento também seja aproveitado. A maior grandeza de Cristo é a cruz. Ele nunca esteve tão próximo do Pai e tão próximo dos irmãos como quando nu, ferido, gritou da cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?” Com aquele sofrimento redimiu: naquela fratura uniu novamente os homens a Deus.
[…] Comece a escutar. Comece a contemplar, dentro do silêncio no qual Deus fala. É esta, no decorrer da vida, a hora preciosa da contemplação, quando as criaturas se recolhem para fazer um balanço do trabalho realizado e predispõem a ação do amanhã: um amanhã imerso na eternidade […]. Desapego do mundo, portanto, unido a Deus, e, justamente por isso, não se trata de separação dos homens, pois são irmãos, membros da mesma família divina e humana.
(Igino Giordani em “Città Nuova” XXIII/13 10/7/1979, pp.32-33)
25 de março de 2026. Estamos na Sala da Conciliação do Palácio do Latrão, local onde após decênios de contraposição, a Igreja Católica e o Estado Italiano assinaram os Tratados Lateranenses, em 1929. Nesse mesmo ambiente histórico foi concluída, em 2013, a fase diocesana da Causa de Beatificação de uma das figuras espirituais de maior relevo nos nossos tempos: o cardeal vietnamina François-Xavier Nguyễn Văn Thuận.
Estão presentes 220 pessoas: cardeais, bispos, familiares, sacerdotes, religiosos e leigos vietnamitas e de outros países. Milhares de pessoas participam via streaming, em sete línguas, nos canais YouTube de Vatican Mídia. O motivo desse encontro é o 50º aniversário desde quando Nguyễn Văn Thuận, então jovem bispo, nos primeiros meses de sua prisão, iniciada em 15 de agosto de 1975, conseguiu enviar aos seus fieis 1001 breves meditações, escritas em folhas de velhos calendários. O evento foi organizado pela causa de Beatificação do Cardeal, junto com o Dicastério para ao Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, ator da causa, em colaboração com o Dicastério para o Clero, a Diocese de Roma e a Editora Città Nuova.
O Papa Leão quis reverenciar este momento através de uma mensagem, firmada pelo Secretário de Estado, Card. Parolin, desejando que «o significativo evento favoreça a descoberta do fervoroso testemunho de tão intrépido discípulo do Evangelho e generoso Pastor». O seu exemplo – afirma – «é carregado de atualidade já que recorda que a esperança cristã nasce do encontro com Cristo e toma forma numa vida doada a Deus e ao próximo».
No papel de anfitrião, o cardeal Baldassare Reina, vigário geral do Papa para a Diocese de Roma, recorda a atualidade da figura de Nguyễn Văn Thuận no término do Jubileu da Esperança, num tempo em que o Evangelho é transmitido sobretudo com o testemunho.
Cardinale Baldassare ReinaDr. Waldery HilgemanSig.ra Élisabeth Nguyễn Thị Thu Hồng
Mas, quem era este Cardeal vietnamita? A resposta foi dada, com breves acenos biográficos, pelo Dr. Waldery Hilgeman, postulador da Causa de beatificação. Descendente de uma família que, no século XIX, teve mártires entre seus antepassados, desde jovem François-Xavier sentiu-se atraído pelo exemplo dos santos e, mais tarde, também por espiritualidades do seu tempo, entre as quais os Cursilhos e os Focolares. Entrou no seminário e tornou-se sacerdote; concluiu o doutorado em Direito Canônico. Em 1967 foi sagrado bispo de Nha Trang. Quando o Papa Paulo VI, em 1975, o nomeou Arcebispo coadjutor de Saigon, teve início para ele uma grande provação: foi preso e passou 13 anos no cárcere, dos quais nove em isolamento. «Lá eu aprendi – ele conta – a escolher Deus e não as obras de Deus». Compreende que Deus o quer no meio dos prisioneiros, quase todos não católicos, como presença Dele e do Seu amor «na fome, no frio, no trabalho pesado, na humilhação e na injustiça». Foi libertado em 1988, e a partir de 1991 morou em Roma, onde Papa João Paulo II o nomeou, inicialmente Vice Presidente, depois Presidente do, então, Conselho Pontifício para a Justiça e a Paz; em 2001 o criou cardeal.
Elisabeth Nguyễn, irmã do cardeal, conta a aventurosa história dos 1001 pensamentos. Subtraídos da prisão domiciliar, «começaram uma viagem de evangelização, de uma família a outra, de uma sede prisional a outra, antes de atravessar o oceano nos barcos de refugiados». Anos depois nasce o livro “O caminho da Esperança”.
Experiências fortes e tocantes, intercaladas por uma apresentação, ao piano, da “La Campanella”, de Franz Liszt, interpretada virtuosamente por Pe. Carlo Seno.
No decorrer de apenas uma hora e meia, tendo como moderador o jornalista Alessandro De Carolis, de Vatican Mídia, outros perfis de Nguyễn Văn Thuận vem à tona. O Cardeal Lazzaro You Heung-sik, Prefeito do Dicastério para o Clero, fala dele como «evangelizador em qualquer circunstância», referindo-se à narrativa de um monge budista: «Era inverno, com dois graus abaixo de zero, e nós não tínhamos cobertores suficientes, no campo de reeducação. Então, todo dia, o bispo saía várias vezes para pegar ramos e pedaços de madeira, para aquecer a noite no campo… Era aquilo que, nós budistas, chamamos de ‘Bo tac’: um homem muito santo».
O cardeal Luis Antonio Tagle, Prefeito do Dicastério para a Evangelização, recorda como, em 1995, tinha começado uma amizade pessoal com Nguyễn Văn Thuận: «Fiquei tocado com o fato que, enquanto ele contava experiências dolorosas e até humilhantes, a sua voz permanecia calma e o seu rosto sereno. Nele não havia nenhum sinal de amargura e nem de ódio. Eu não conseguia tirar o olhar do seu rosto radioso e sorridente».
Ao lado da sua estatura espiritual, emerge a grande sensibilidade diante das questões mundiais da justiça e da paz. Fala sobre isso o cardeal Michael Czerny, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, que, para esta ocasião, publicou a tradução italiana de uma nova biografia de Nguyễn Văn Thuận, escrita por sua irmã, Elisabeth, juntamente com o sacerdote belga, Stefaan Lecleir.
Cardinale Michael Czerny, S.J.Cardinale Luis Antonio TagleCardinale Lazzaro You Heung-sik
«A sua principal contribuição, em nível mundial – precisa o cardeal Czerny – foi o seu papel no nascimento do Compêndio da Doutrina Social da Igreja (2004)», e refere esta vibrante questão colocada pelo Arcebispo vietnamita: «Diante da atual situação política e econômica, há quem se pergunte: conseguiremos atravessar com esperança o limiar do novo milênio?». Em resposta, citava uma conhecida jornalista que previa «três fases catastróficas» para as sociedades empobrecidas: exploração – exclusão – eliminação. «Quando penso em tudo isso – comentava Nguyễn Văn Thuận – o meu coração fica dilacerado e deseja gritar: impossível!».
Na conclusão do encontro, o ator e jornalista Rosario Tronnolone, lê alguns trechos do livro O Caminho da Esperança, que soam como um selo de ouro: «Tu queres realizar uma revolução: renovar o mundo. Poderás cumprir essa preciosa missão que Deus te confiou apenas com “a potência do Espírito Santo”. Cada dia, lá onde vives, prepara um nova Pentecostes. Compromete-te em uma campanha que tem a finalidade de tornar todos felizes. Sacrifica-te constantemente, com Jesus, para levar paz às almas, desenvolvimento e prosperidade aos povos. Tal será a tua espiritualidade, discreta e concreta ao mesmo tempo».
[…] Qual é a Palavra que o Espírito imprimiu como um timbre nesta casa, no nosso Movimento, quando o Céu o imaginou e iniciou a sua realização aqui na terra?
Nós sabemos, a palavra é: Unidade. Unidade é a palavra que sintetiza toda a nossa espiritualidade. Unidade com Deus, unidade com os irmãos. Aliás, unidade com os irmãos para alcançar a unidade com Deus.
O Espírito Santo, de fato, revelou-nos um caminho muito nosso, plenamente evangélico, para nos unirmos a Deus,
para o encontrarmos. […] Nós o procuramos e o encontramos através do irmão, amando o irmão. Nós o encontramos quando nos esforçamos para realizar a unidade com cada um dos irmãos: quando estabelecemos a presença de Jesus entre nós, irmãos. Somente deste modo temos a garantia inclusive da unidade com Ele e o encontramos vivo e palpitante no nosso coração. Esta unidade com Deus, por sua vez, nos impulsiona novamente aos irmãos e nos ajuda a fazer com que o nosso amor por eles não seja fictício, insuficiente ou superficial, mas sim, radical, pleno, completo, denso em sacrifício, sempre pronto a dar a vida e capaz de realizar a unidade.
Os nossos Estatutos colocam a unidade na base de tudo, como norma de todas as normas,
como regra a ser vivida antes de qualquer outra regra. É a palavra unidade para nós, é a rocha.
A vida não tem sentido para nós, a não ser nesta palavra; nela tudo ganha significado: cada gesto nosso, cada oração, cada respiro. Se nos concentrarmos nesta Palavra, vivendo-a o melhor possível, tudo estará salvo para nós: nós mesmos estaremos salvos e salva estará também aquela porção da Obra que nos foi confiada.
Talvez, no futuro, para a Obra no seu conjunto ou em alguma região,
virão momentos diferentes do atual, marcado por muitas consolações, frutos, luz, fogo.
Poderão sobrevir momentos de escuridão, de desânimo, ou surgir perseguições,
tentações, […]; poderão acontecer desgraças, catástrofes… Mas se nós estivermos firmes sobre a rocha
da unidade, nada poderá nos atingir, tudo prosseguirá como sempre.
Chiara Lubich in “Conversazioni in collegamento telefonico”, 2019, Città Nuova Editrice, p. 373