Desde quando chegou um novo pároco, num vilarejo próximo ao nosso, começamos a viver juntos a Palavra de Vida. Trata-se de uma frase retirada da Bíblia a cada mês, e o Movimento dos Focolares dirige uma atenção especial a esta frase, para que possamos vivê-la e compartilhar as nossas experiências. Uma noite as vacas do nosso vizinho entraram no meu campo de feijões e destruíram tudo. Não era a primeira vez que acontecia e por isso já não nos falávamos há meses. Para dar-lhes uma lição, minha esposa, as crianças e eu pegamos galhos de árvores e nos dirigimos à casa deles. Estávamos ainda no caminho quando me lembrei da Palavra de Vida, e disse: “Esperem um pouco! Na semana passada recebemos um folheto onde estava escrito que devemos perdoar os nossos inimigos. Se eu vou à catequese, o que vou dizer se agora estamos indo agredir o nosso vizinho?”. Decidimos ir à sua casa, mas não falar com ele em tom de ameaça; queríamos só explicar o que tinha acontecido e pedir que estivesse mais atento com as suas vacas. E foi o que fizemos. O vizinho, que esperava um confronto violento, ficou sem palavras. Ele se ajoelhou aos meus pés e pediu desculpas várias vezes. Desde aquele dia voltamos a nos falar e nos cumprimentamos normalmente, aliás, muito mais: nós nos tornamos amigos. Uma alegria nova invadiu a nossa casa.
Encontro, celebração e compromisso: três palavras que resumem os 35 anos da Economia de Comunhão (EdC), comemorados entre 25 e 30 de maio de 2026. Mais de 400 pessoas participaram de um programa dividido em duas fases. Na primeira, os participantes viveram uma experiência imersiva em 16 comunidades e empresas latino-americanas que colocam em prática a cultura da comunhão. Na segunda, se reuniram em Buenos Aires, na Argentina, para um fórum internacional dedicado a celebrar o percurso e o presente da EdC e para se comprometer com o futuro.
Regenerar as “feridas” do interior para o exterior
A comunhão, enquanto facilitadora da regeneração, para de se concentrar exclusivamente na pobreza de um território e evidencia as riquezas sociais, culturais e espirituais do mesmo. Por isso, decidiram partir justamente dali, entrando no profundo de quem sofre cotidianamente para entrar em relação e pensar juntos em uma economia diversa. Dezesseis iniciativas de três países da América Latina abriram suas portas aos participantes do evento para viver a primeira parte dessa celebração. Por meio de atividades em grupo, visitas guiadas, dinâmicas participativas e momentos de diálogo, cada pessoa pode escutar, acolher a realidade do outro, tocá-la, compreendê-la, exprimi-la e compartilhá-la.
“Participei da experiência nos Centros Novo Sol, em Buenos Aires. O que me tocou mais não foi a pobreza nem o abismo da desigualdade que existe nas periferias de Buenos Aires, mas a força com que o amor forma comunidade nessa região. Os desafios são mais difíceis, por isso o amor é mais concreto, mais ativo e mais próximo”, contou Luz Villafañe, de Tucumán, na Argentina.
O caminho do empreendedorismo na Economia de Comunhão
Depois dessa experiência, os participantes se reuniram em Buenos Aires nos dias 29 e 30 de maio e participaram de um fórum que ocorreu no Centro Cultural “Usina del Arte”.
Vozes provenientes de diversos países, culturas e classes sociais, como empreendedores, startups, líderes comunitários e de populações indígenas, se alternaram no palco mostrando a força transformadora dessa vocação. Experiências de pequenos e grandes empreendedores, daqueles que se dedicam ao cuidado da terra por meio de seus projetos, que vivem a interculturalidade como uma riqueza e fazem escolhas de comunhão por vocação, como estilo de vida.
Compromisso com o futuro
O momento culminante da celebração foi um pacto mundial feito por todos os presentes, individualmente e coletivamente para promover, no âmbito da economia, uma cultura que coloca em primeiro plano as relações humanas e mire em colocar em prática abordagens regenerativas, capazes de criar comunhão. Em uma conexão global, na manhã do dia 30, mais de quase 300 pessoas se uniram à sala de Buenos Aires, conectadas do mundo inteiro para reafirmar solenemente o pacto que une toda a rede da Economia de Comunhão.
A EdC também apresentou duas novidades para celebrar o presente e olhar para o futuro: uma nova identidade visual e uma nova aplicação para conectar pessoas, empresas e projetos a nível global. Para descobri-la, visite https://www.globaledc.org/.
Essa grande comunidade global aspira a levar para frente a cultura do encontro, a se comprometer por uma economia mais justa, a reconhecer o papel central das pessoas em situação de vulnerabilidade e a contribuir para a construção de comunidades mais fraternas por meio de laços. Afinal, como muitos compartilharem durante o evento, “ninguém é tão pobre que não tem nada para dar e ninguém é tão rico que não tenha nada para receber”.
Alba Sgariglia tem graduação em filosofia e licenciatura em teologia. Desde 1975, ano anterior ao seu ingresso no focolare, trabalhou no Centro de Estudos do Movimento dos Focolares, ao lado da fundadora, Chiara Lubich.
Em que consistia o seu trabalho no Centro de Estudos?
Eu ia à biblioteca de Florença para tirar fotocópias de trechos dos Padres Gregos, que depois traduzíamos em casa para procurar, entre as muitas páginas, aquelas breves frases que pudessem servir a Chiara Lubich como confirmação de suas inspirações. Naquela época, eu trabalhava com Marisa Cerini, que me dizia: para nós, construir o ut omnes significa entrar no pensamento dos Padres gregos e tentar compreender, a partir dali qual era a luz do carisma que Chiara recebeu. Nos anos seguintes, também lecionei religião em escolas de ensino médio em Roma. Depois, fiz parte do governo da Obra para acompanhar o aspecto cultural e, posteriormente, da Escola Abba, que Chiara fundou em 1991 para estudar as anotações que tinha feito do período chamado Paraíso de 1949. Finalmente, em 2014, Maria Voce Emmaus, na época presidente do Movimento dos Focolares, confiou-me o Centro Chiara Lubich, criado para salvaguardar, estudar e promover a figura de Chiara.
O que representa este texto recém-publicado?
O Paraíso de 1949 é um texto publicado postumamente. Foi escrito, organizado e redigido por Chiara Lubich enquanto ela viveu. Ela desejava descrever a experiência mística que viveu nos anos de 1949 a 1951, complementando-o com notas para facilitar a compreensão, a fim de entregar ao grupo de estudiosos da Escola Abba um texto acessível, que pudesse ser útil para a pesquisa. O texto contém uma experiência mística. Chiara sempre afirmou que não podia guardar essa experiência só para si. Incentivada por muitas pessoas, ela percebeu que poderia ser um texto compreendido e utilizado também por outros integrantes do Movimento.
Ela mesma, por exemplo, nos primeiros anos da década de 2000, explicou aos jovens do Movimento o cerne dessa sua experiência. Por fim, percebeu, aos poucos, que a experiência relatada no texto poderia ser compartilhada também com pessoas de outras religiões: ao longo dos anos, realizamos simpósios com hindus, budistas e muçulmanos, aos quais ela apresentou alguns trechos do Paraíso de 1949. Vivenciamos a experiência de diálogo sobre o texto também com pessoas sem um referencial religioso, que ofereceram reflexões muito mais profundas do que nós mesmos poderíamos imaginar, ressaltando que se trata de um texto de grande valor. Muitos fundadores de carismas receberam a oportunidade de compreender a obra que estavam gerando, por meio das chamadas “visões intelectuais”, nas quais compreenderam com a razão aquilo que Deus lhes permitia vislumbrar.
Por se tratar de uma linguagem mística, a compreensão não é difícil para as pessoas comuns?
A linguagem mística é um gênero literário particular; não é poesia, nem teatro, nem literatura, nem teologia. Às vezes podem surgir dificuldades no plano teológico, porque o místico busca palavras que não consegue encontrar, tenta expressar o inexprimível: um exercício difícil, tanto que Chiara, muitas vezes, enquanto relíamos esses trechos, nos perguntava: «Mas como consegui escrever essas frases? O que significam? Por que escrevi isso?».
Isso confirma que, nessas situações, os fundadores tentam expressar aquilo que “veem”, usando as categorias culturais e os conceitos que possuem, às vezes inadequados. Por exemplo, no Paraíso de 1949 encontram-se referências à Divina Comédia porque Chiara a conhecia, ou aos filósofos, como Kant, que ela havia estudado. O contexto externo também pode influenciar: Chiara e as suas primeiras companheiras iniciaram essa experiência nas montanhas do Trentino, em Tonadico: é uma natureza que fala por si mesma com a sua beleza. Isso também ajudou Chiara a expressar coisas que ela percebia pela primeira vez na sua vida.
Ao longo destes 18 anos desde a morte de Chiara, vocês publicaram livros que podem tornar compreensível o contexto da aventura do Paraíso de 1949…
Continuamos a aprofundar o texto por meio de diversas áreas disciplinares, seguindo o método que Chiara nos deixou, ou seja, examinar as coisas com “Jesus no nosso meio”. Creio que neste volume é possível identificar três significados característicos: o primeiro é um significado didático, porque ensina como viver o Carisma da Unidade, oferece uma chave de leitura vital; o segundo significado pode ser definido como artístico-literário, porque o texto apresenta muitos gêneros literários: diário, cartas, escritos, anotações; finalmente, o aspecto doutrinário, porque o texto tem, sem dúvida, um foco teológico. Trata-se, de fato, de uma experiência mística que ajuda a compreender, por um lado, as realidades do Céu: Deus, a Trindade, o Verbo, Maria, a Criação, o inferno, o paraíso; por outro lado, a encarnação do carisma em uma obra que seria fundada nos anos seguintes, ou seja, após os anos de 1949 a 1951. Sempre que se leem esses textos místicos, compreendem-se coisas novas. É o que acontece também comigo: todas as vezes que leio essas páginas, compreendo coisas novas, tanto no plano intelectual quanto no espiritual.
Ao ler o texto, em certas passagens Chiara pode parecer um pouco presunçosa?
É preciso entender por que Chiara diz aquelas coisas daquela maneira. Digamos que é como se Deus, para expressar conceitos que não podem ser expressos por meio de uma criatura humana, se identificasse com essa criatura, olhando as coisas através dos olhos dela. Por isso, Chiara acaba escrevendo: hoje eu sou a paternidade universal. Mas ela mesma se pergunta: o que isso significa? Naquele momento, se verifica uma identificação dela com tal realidade, para poder expressá-la. Nas notas de rodapé, ela mesma comenta e explica essa sua surpresa, e a alegria de ver que outros fundadores tinham vivido mais ou menos a mesma coisa.
Que sugestão você daria para iniciar a leitura?
Eu diria: peguem o livro e o leiam quando e como quiserem, em qualquer momento. Troquem ideias com outras pessoas, ou com um especialista, sobre algum trecho que não esteja claro ou seja mais complexo. Mas sugiro que não se deixem condicionar, porque este texto fala diretamente com a pessoa. Vamos abri-lo ao acaso e ler a página que cair. Compreenderemos o que nos é útil naquele momento, porque o texto, apesar de algumas dificuldades, toca profundamente. É uma experiência mística, “participável”, de certa forma. Essa é a novidade, como Chiara nos explicou. Ela sempre fez de tudo para que todos participassem de sua experiência e esse volume nos oferece essa oportunidade.
Na sequência da profunda experiência partilhada com os jovens durante o Hackathon 2026, está a ser lançada a segunda fase do programa “Uma humanidade, um planeta: liderança sinodal”. Propõe-se um percurso formativo de 6 meses, em formato virtual, que combina aprofundamento e diálogo a partir das diferentes trajetórias de cada um, troca de projetos e experiências, desenvolvimento de iniciativas com impacto local e projeção global.
Destina-se a pessoas entre os 18 e os 40 anos com experiência em representação política, gestão pública, movimentos sociais, partidos políticos e espaços de defesa de causas; que estejam empenhadas na transformação social e política ou interessadas em reforçar as suas capacidades de diálogo, cooperação e ação coletiva. Que estejam disponíveis para dar o seu contributo operacional e de reflexão ao longo de todo o programa.
Com uma duração de 6 meses, 100% online, totalmente gratuito e com um compromisso estimado de 3 horas semanais, o programa propõe-se alcançar este ano 500 jovens.
“Vivemos um momento histórico marcado por profundas tensões geopolíticas, crises socioambientais, crescente fragmentação social e altos níveis de polarização”, afirmam os organizadores na apresentação. “Esses desafios nos interpelam: evidenciam os limites dos modelos tradicionais de governança e a urgência de novas formas de liderança capazes de gerar diálogo e ativar processos de ação coletiva para promover objetivos de paz e unidade. Nesse contexto, escolhemos um estilo de liderança sinodal: uma liderança baseada na escuta, na participação, na corresponsabilidade e na construção de soluções compartilhadas. Se você acredita que a política pode ser um espaço para regenerar vínculos, promover o bem comum e cuidar da humanidade e do planeta, esta chamada é para você. Convidamos você a fazer parte de um espaço internacional de formação e co-criação de iniciativas políticas junto com outros jovens líderes de diferentes regiões do mundo, para repensar a governança diante dos desafios atuais”.
O prazo limite para a candidatura é sexta-feira, 19 de junho de 2026.
Para obter mais informações e candidatar-te ao programa, abre este PDF
Nós nos contentamos em viver em um mundo onde prevalece “a lei do mais forte”? Um mundo no qual, para ter sucesso, é preciso aniquilar ou dominar os outros? Ou no qual olhamos para o outro com desconfiança e, por medo de perder o que temos, erguemos barreiras físicas ou invisíveis? Nós nos resignamos a deixar os dias passarem sem esperança, sem encontrar sentido para o que vivemos? E ainda: viver plenamente é isso?
Em um mundo complexo e incerto, temos a oportunidade de ser portadores de uma nova maneira de conceber a vida. Mas, para isso, é preciso primeiro vivenciá-la. Como?
Nascemos, sem ter pedido, com capacidades que nos foram dadas: alguns têm facilidade para se comunicar, outros possuem uma sensibilidade artística e criativa. Todos dispomos de uma certa inteligência, e pode ser que a vida nos tenha oferecido oportunidades únicas para nos desenvolvermos. A questão é: o que fazemos com tudo isso? Temos duas possibilidades: usar essas capacidades apenas para nosso benefício pessoal, desfrutando do que elas nos oferecem, ou colocá-las a serviço dos outros e compartilhá-las.
Talvez a segunda opção não nos garanta um ganho econômico imediato – que hoje parece ser o principal motor do mundo –, mas, sem dúvida, nos permitirá contribuir para a construção de uma realidade diferente: um mundo no qual a competição não seja um fim em si mesma, mas um meio para melhorar e crescer juntos.
Não se trata de uma realidade imposta, mas de um processo que começa nas relações cotidianas e nas escolhas que cada um faz quando decide agir. As pessoas que vivem assim demonstram, com os fatos, que a mudança é possível. Em todos os lugares nos quais atuam, elas tornam visível um novo paradigma e mostram que essa mudança está próxima.
Com humildade, compartilhemos o que somos e o que temos; acompanhemos e ofereçamos afeto a quem precisa do nosso calor e da nossa proximidade, aliviando o sofrimento quando necessário. Vivamos juntos aqueles valores que podem ser o motor da mudança para uma sociedade alicerçada na justiça, no respeito, na paz e na dignidade de todas as pessoas. Uma sociedade que promova o perdão, a reconciliação e que busque o bem de todos.
Juntos teremos mais força e maior credibilidade, sobretudo se perseverarmos em nossas escolhas. Que nossa ação não busque reconhecimento nem se baseie no cálculo ou no interesse. A transformação é lenta, às vezes imperceptível, mas se formos constantes, a mudança acontecerá, crescerá e se consolidará. O futuro começa a se tornar presente.
A IDEIA DO MÊS, é preparada pelo “Centro do Diálogo com pessoas de convicções não religiosas” do Movimento dos Focolares. É uma iniciativa que nasceu no Uruguai em 2014 para compartilhar com os amigos que não creem em Deus os valores da Palavra de Vida, uma frase da Escritura que os membros do Movimento se comprometem a colocar em prática. Atualmente, A IDEIA DO MÊS é traduzida em doze idiomas e distribuída em mais de 25 países, adaptada em alguns deles segundo as exigências culturais. dialogue4unity.focolare.org