O “caminho da pré-Assembleia”, em preparação para a Assembleia Geral do Movimento dos Focolares, que terá início em 1º de março de 2026, em Castel Gandolfo, Itália, foi concluído. Participarão da Assembleia representantes escolhidos das diversas áreas geográficas, das diversas ramificações e movimentos; membros por direito (aqueles que fazem parte do atual governo, Conselho Geral e Delegados nas áreas geográficas); e aqueles convidados pelo Presidente.
Entrevistamos Cynthia Chammas, uma jovem de Damasco (Síria), que participará da Assembleia junto com outros jovens como representante do Movimento Gen.
Tenho 62 anos, sou irlandês e moro em Taiwan há muitos anos. Há tempos sofro de fibrose pulmonar, por isso, quando comecei a me sentir mais cansado, pensei que era só uma piora da doença. Fui ao médico quase descontraído. Ao invés, de forma bem direta e sem preparação, eu escutei: tumor no quarto estágio, já presente no outro pulmão, e talvez em outros lugares.
A primeira reação foi ligar para a minha esposa. Ela e minha filha, que mora conosco em Taiwan, ficaram em silêncio, ao lado do telefone. A outra filha está na Irlanda. Naquele momento não tive medo por mim: o pensamento foi imediatamente para elas, ao peso que esta notícia teria colocado sobre as suas costas. E, ao mesmo tempo, veio um arrependimento profundo por todas as vezes em que eu não amei suficientemente, pelas feridas deixadas ao longo do caminho. Parecia-me tarde demais para remediar.
Certo dia, um sacerdote veio celebrar a Missa em nossa casa. Eu conheço o Movimento dos Focolares desde os 11 anos, e sempre vivi a oferta de mim mesmo a Deus, durante a consagração. Mas, naquela vez, entendi algo novo: podia colocar no cálice, junto comigo, também todas as pessoas que eu havia ferido. Confiá-las a Jesus para que Ele curasse aquilo que eu não podia mais consertar. Foi um alívio imenso. Desde então a serenidade me acompanha.
Oito anos atrás minha esposa teve um câncer de mama. Já atravessamos a escuridão. Naquela ocasião, como agora, escolhemos confiar-nos ao amor do Pai. Quando rezo o Pai Nosso e digo “seja feita a Tua vontade”, sinto que toda a minha vida já está guardada no céu. O futuro não me pertence: está nas mãos de Deus. A minha parte é apenas dizer sim.
Muitas vezes lembro de Loppiano (Itália), onde, ainda jovem, escutei um chamado muito forte a seguir Jesus. Com o tempo entendi que era o convite a conhecê-lo especialmente no sofrimento, naquela expressão que o carisma chama “Jesus Abandonado”. Quando minha esposa estava doente, diante da cruz eu entendi que não basta permanecer embaixo, só olhando: é preciso subir com Ele, entrar no Seu abandono e deixar-se levar ao Pai. Lá encontramos a casa.
Antes do diagnóstico eu tinha uma vida muito cheia: ensinava na universidade, acompanhava os estudantes e jovens, acompanhava famílias, participava da vida do Movimento. Agora tudo se restringiu. Estou de licença, saio pouco para evitar infecções. Mas acontece algo surpreendente: as pessoas me procuram. Elas me escrevem de todos os continentes, rezam por mim. Os jovens de Taiwan criaram um grupo para rezarem juntos, toda semana. Eu pensava que tinha semeado pouco; agora vejo que o amor retorna centuplicado.
Quando falo abertamente da minha doença, muitas pessoas encontram a coragem de abrir as próprias feridas. A minha fraqueza torna-se espaço de comunhão. É como se, elevado sobre a cruz, Cristo atraísse os corações a si. Essa doença, que humanamente é uma condenação, revela-se uma oportunidade de acolhida.
Existem dores que não se podem compartilhar com todos, e outras que podem ser ditas apenas a Deus, num diálogo profundo com Ele. Sei que virão momentos em que não terei nem a força de oferecer a dor. Por isso eu me preparo assim: repetindo o meu sim. “Não a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42). Sei que não sou capaz de enfrentar sozinho o que virá. Mas, sei também que não estarei só.
Nestes meses, entendi que o amor não é propriedade de quem conhece Jesus, ou se diz cristão. Os médicos e enfermeiros que cuidam de mim, no hospital, não compartilham a minha fé, mesmo assim amam com uma delicadeza e atenção que me comovem. Tenho visto, nos seus gestos de cada dia – um telefonema a mais, uma explicação paciente, uma presença discreta – que o amor é maior do que as etiquetas. Quando eu olho ao sofrimento com o olhar do amor ele não fica preso no medo, transforma-se, torna-se espaço de esperança, algo misteriosamente positivo. É como se cada ato de cuidado, ainda que inconsciente, fosse já um caminho rumo a Deus, porque o amor, em qualquer lugar se encontre, sempre leva a Ele.
E dentro dessa comunhão imensa – feita de família, amigos, estudantes, jovens, médicos que amam sem saber realmente o porquê – experimento que tudo já está guardado num desígnio de bem. Eu não o devo controlar, nem o entender até o fim: posso apenas habitá-lo, dia a dia, com gratidão.
Em 2025, o Movimento dos Focolares deu novos passos para tornar estrutural e verificável o compromisso com a proteção da pessoa, com especial atenção aos menores e aos adultos em situação de vulnerabilidade. Três foram as linhas de ação trabalhadas:
consolidação das normas;
fortalecimento organizacional;
crescimento formativo e cultural.
No aspecto normativo, o Movimento redigiu e aprovou a Política de Proteção da Pessoa no Movimento dos Focolares, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026. A Política reúne valores, responsabilidades e práticas, conecta protocolos e diretrizes, define normas de conduta, critérios para ambientes seguros e uma atenção clara às pessoas que sofreram abuso, prevendo escuta, acompanhamento e – nos casos estabelecidos – medidas de apoio e reparação.
No plano organizacional, em 2 de setembro de 2025 foi criado o Departamento para a Proteção da Pessoa, com a função de coordenar as atividades de proteção, monitorar compromissos e prazos, supervisionar as comunicações oficiais e oferecer suporte aos responsáveis territoriais. Para apoiar esse trabalho, funciona a Mesa de consultoria e ação, um organismo composto por especialistas nos campos da formação, da comunicação, do direito, do acompanhamento e pessoas vítimas de abusos. A sua tarefa é avaliar a coerência das ações empreendidas com os valores fundamentais do Movimento dos Focolares, propor orientações e planos estratégicos e favorecer a colaboração com especialistas e redes externas, garantindo uma atualização constante sobre as normas vigentes e as melhores práticas em matéria de proteção.
Vea y descargue el Informe 2025 haciendo clic en la imagen
Em diálogo com a Igreja Católica, no biênio 2024-2025, desenvolveu-se uma colaboração com a Pontifícia Comissão para a Proteção dos Menores (PCTM). A Comissão examinou o nosso Protocolo para a gestão de casos de abuso, formulando várias observações; além disso, solicitou informações para incluir em seu Relatório Anual 2024 sobre uma análise das políticas do Movimento. As recomendações da PCTM deram início a um processo de implementação já parcialmente concluído (incluindo a publicação do Regulamento Interno da Comissão Central Independente e a prestação de contas dos recursos dedicados) e, para a parte restante, em fase de definição ou desenvolvimento (integrações a serem feitas nos Estatutos Gerais do Movimento dos Focolares, ferramentas informáticas e canais institucionais para a confidencialidade dos dados).
O compromisso com uma formação dedicada à proteção integral da pessoa foi ilustrado em um primeiro documento que oferece uma síntese dos cursos e intervenções no biênio 2024-2025. Os dados mostram o trabalho para uma difusão cada vez mais capilar da formação, o fortalecimento das comissões e dos referentes locais e, ao mesmo tempo, evidenciam algumas criticidades sobre as quais é necessário intervir: continuidade da formação, adaptação intercultural dos materiais e melhoria dos fluxos comunicativos.
O conjunto dessas medidas – Política, Departamento de Proteção, colaboração com a PCTM, formação e transparência na prestação de contas – expressa a vontade de prosseguir com determinação no caminho da prevenção, da responsabilidade compartilhada e da escuta das pessoas que sofreram um abuso, na convicção de que a proteção é parte integrante da missão do Movimento e um serviço ao bem comum.
Nessa perspectiva, as palavras que o Santo Padre dirigiu aos participantes do
encontro “Construir comunidades que protejam a dignidade” ressoam também para o
Movimento dos Focolares como uma indicação a ser seguida:
“Portanto, aprecio e encorajo o vosso propósito de compartilhar experiências e percursos de aprendizagem sobre o modo como prevenir todas as formas de abuso e prestar contas, com verdade e humildade, dos caminhos de tutela empreendidos. Exorto-vos a levar em frente este compromisso a fim de que as comunidades se tornem cada vez mais exemplo de confiança e diálogo, onde cada pessoa seja respeitada, ouvida e valorizada.
Onde se vive a justiça com misericórdia, a ferida transforma-se em fenda de graça”. [1]
Stefania Tanesini
Entrevista a S. Ex.ª Dom Alí Herrera, Secretário da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores da Igreja Católica
Quarenta e cinco participantes de nove países europeus se encontraram de 30 de janeiro a 01 de fevereiro na Mariápolis permanente ecumênica do Movimento dos Focolares de Ottmaring, próximo a Mônaco, para refletir sobre a necessidade de reencontrar uma paixão pela Europa e um diálogo capaz de unir. Na paisagem cheia de neve da Mariápolis permanente fundada por Chiara Lubich em 1968, vivem focolarinos e membros da Fraternidade de vida comunitária que tem suas origens no mundo evangélico.
Jesús Morán, copresidente do Movimento dos Focolares, começou lembrando que o motivo do Congresso Europeu é pensar na Europa à luz do carisma da unidade, do qual também nasceu o Focolare Cultura Ottmaring, um grupo de focolarinos de vários países europeus que cuidam do diálogo entre as culturas. “No entanto, não nos reunimos”, destacou Morán, “para elaborar um programa operacional: as ações concretas já existem, como a experiência de Juntos pela Europa, a formação dos jovens e políticos em Bruxelas, ou o diálogo com os políticos de esquerda, chamado Dialop. Nem é necessário fazer um manifesto de intento. Estamos aqui para cultivar a paixão pela Europa, convictos de que o carisma da unidade é um dom para a Europa, assim como a Europa é para o carisma”. O coração do método proposto é a escuta recíproca: “Dar hospitalidade ao Espírito e uns aos outros”, deixar que o diálogo nasça das relações.
Muitas reflexões tocaram a fratura entre a Europa Ocidental e a Oriental. Uma frase, trazida por Peter Forst e recitada por um jovem do Leste, resume a tensão que o continente atravessa hoje: “Já não nos queremos bem”. Daqui nasce a pergunta: a Europa Ocidental realmente escuta a voz do Leste? Lê os seus autores? Compreende as suas feridas?
Anja Lupfer insistiu no método da escuta criativa: não buscar respostas imediatas, mas quebrar preconceitos para encontrar o outro: “Não procuremos o diálogo como objetivo”, destaca, “procuremos o outro”. É um convite a uma compreensão não-competitiva, capaz de descer “aos abismos do outro”, superando a ilusão de um espaço cultural neutro. Mesmo dentro do Movimento dos Focolares surgem diferenças que pedem narrativas compartilhadas e um confronto mais sincero.
Klemens Leutgöb lembrou o entusiasmo dos anos 90, depois da queda do Muro de Berlim e advertiu que a fratura reapareceu. Para superá-la, é necessário enfrentar inclusive os temas que dividem – do gênero ao nuclear – sem evitá-los. A diversidade se torna recurso somente quando atravessada juntos. Forst acrescentou um episódio: durante uma viagem ao Leste em 2003, muitos falavam somente do passado, acusando o Oeste de ter consumido valores como a família e a fé. “O presente pode dividir”, comenta, “mas o nosso pacto de unidade deve ser mais forte. A avaliação dos eventos”, concluiu, “pode ser diferente, mas na experiência de Chiara Lubich, conhecida como ‘Paraíso de 49’, ela fala de uma verdade que acolhe as contradições na unidade: ‘Quando estamos unidos e Ele está entre nós, então não somos mais dois, e sim um. De fato, o que eu digo, não sou eu que estou dizendo, mas eu, Jesus e você em mim. E quando você fala, não é você, mas você, Jesus e eu em você’”.
Francisco Canzani lembrou de uma pergunta recorrente: “Se gosta de mim, por que não conhece a meu fardo?”. Muitas vezes falta tempo ou coragem para escutar de verdade. O diálogo nasce da vida concreta, não de programas. Concluiu com uma história judaica: dois irmãos, à noite, levavam trigo escondidos um para o outro, tirando os grãos de seus próprios armazéns. Não entendiam por que o nível de seus celeiros permanecia sempre igual. Uma noite, se encontraram naquele lugar, entenderam o que estava acontecendo e se abraçaram. Ali viria a ser construído o Templo de Salomão: a imagem perfeita da fraternidade.
Um exemplo concreto desse espírito é o focolare “Projeto Europa”, de Bruxelas, como contaram Luca Fiorani, Letizia Bakacsi e Maria Rosa Logozzo: uma ex-pizzaria transformada em casa de diálogo entre parlamentares, refugiados, funcionários e jovens, no silêncio das redes sociais e na simplicidade do encontro. Uma iniciativa que se tornou possível pelo diálogo estruturado previsto em um Tratado sobre o funcionamento da UE.
O grupo do diálogo multipolar levou testemunhos fortes sobre as feridas do Leste. Palko Tóth lembrou dos jovens soldados russos sepultados em Budapeste: “Eles também são nossos filhos”. Muitos no Leste sofrem desilusões do Oeste. Para curar essas feridas, nasceram novos locais de diálogo, como o encontro internacional na Transilvânia sobre identidades de relações.
Franz Kronreif e Luisa Sello ilustraram o Dialop, percurso de confronto entre a esquerda europeia e o mundo católico, inspirando também pelo “Paraíso de 49”. O projeto, encorajado por Bento XVI e pelo papa Francisco, trabalha em grandes temas éticos com a lógica do “consenso diferenciado e dissenso qualificado”.
Muitos testemunhos enriqueceram o encontro: um casal russo dividido por narrações opostas sobre a guerra na Ucrânia; um casal altoatesino habituado a conviver com línguas e culturas diversas; um sacerdote eslovaco preocupado com a perda do sentido religioso na Europa Ocidental.
Na conclusão, Morán recordou o mistério de Jesus Abandonado como chave da identidade europeia. Lembrou também do crucifixo de São Damiano, “o Deus que vem da Europa”. A Europa universalizou o Evangélico, mas carrega também sombras históricas como a colonização, guerras, niilismo; justamente ali, nasceu o carisma da unidade. “Não se trata de superioridade”, disse, “mas de cuidar daquilo que a Europa ainda pode doar ao mundo: sobretudo Jesus Abandonado”.
Por isso, é necessária uma “relação mística cotidiana”, feita de diálogo, redes vivas e iniciativas culturais e políticas. Tudo o que existe – Juntos pela Europa, o diálogo multipolar, o Focolare Cultura, “Projeto Europa”, de Bruxelas, Dialop – é parte de uma única trama de cuidar e apresentar. “É preciso ir em frente, manter viva a rede, cada um no próprio comprometimento”.
saudações a todos em nome do Movimento dos Focolares presente no mundo, que se une à oração desta Peregrinação Digital. Junto com todos vocês, queremos elevar a nossa voz a Deus para pedir o fim do tráfico de pessoas e afirmar a dignidade de cada ser humano:
Senhor, nosso Deus,
Tu amas todas as tuas criaturas. Tu deste os bens da terra para que todos possam viver em paz como teus filhos.
Hoje sobe a Ti o clamor de quem é violentado, de quem é explorado de forma degradante, de quem é vítima do tráfico de pessoas.
Ajuda-nos, Senhor, a estar ao lado dessas irmãs e irmãos, multiplica as forças do bem para alimentar a esperança deles na possibilidade de uma vida nova.
Sensibiliza os corações dos indiferentes. Faz com que todos os cidadãos – também aqueles que têm nas mãos o destino dos povos – tomem consciência da necessidade de combater esta grave chaga social.
Senhor, nós Te pedimos que saibamos difundir por toda a parte o apelo global que hoje é lançado, para que a Tua vontade seja feita na terra como no Céu.
Unidos, continuemos a rezar e a agir pela justiça. Obrigada a cada um e a cada uma por fazer parte desta cadeia de esperança e amor que atravessa o mundo.
Margaret Karram
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