Movimento dos Focolares
Economia de Francisco: 600 jovens em Castelgaldolfo

Economia de Francisco: 600 jovens em Castelgaldolfo

De 28 a 30 de novembro acontecerá, no Centro Mariápolis de Castelgandolfo (Roma, Itália), o evento “Reiniciando a economia”, promovido pela Fundação A Economia de Francisco (EoF, na sigla em inglês), com o apoio do Dicastério para o Serviço ao Desenvolvimento Humano Integral, do Vaticano.

É o primeiro encontro mundial do EoF que se realiza distante de Assis e sem a presença do Papa Francisco. “Uma novidade que não mostra uma distância, mas, sim, uma extensão – salienta D. Domenico Sorrentino , presidente da Fundação. O espírito de Assis coloca-se próximo à Roma e ao Papa, para continuar a inspirar uma economia capaz de colocar-se ao serviço da humanidade e da criação”.

Encontro da EoF em Assis, setembro de 2022

Mais de 600 jovens, provenientes de 66 países, com a presença majoritária de mulheres e a participação de cerca de 80 estudantes de escolas de ensino médio; juntamente a economistas, filósofos, empresários, teólogos, artistas e legisladores.

É “um sinal de que a proposta de compromisso dos jovens, para mudar a economia, é viva e capaz de futuro – afirma o prof. Luigino Bruni , vice-presidente da Fundação e idealizador do evento desde o seu nascimento -. Reiniciando a economia é a versão EoF do Jubileu: um retorno ao senso bíblico originário, com a libertação dos escravos de hoje (dependências, usurpação, misérias); a remissão dos débitos (portanto, o grande tema das finanças, boas e más); a restituição da terra (a ecologia, a justiça, os desafios que atravessam a Amazônia, a África e as nossas cidades)”.

Durante o evento será apresentado o Relatório Fraternidade 2025 do EoF, fruto do trabalho deste ano e destinado a tornar-se um compromisso anual: uma medição do estado da fraternidade no mundo, conceito caro a São Francisco e ao Papa Francisco. “O relatório evidencia como a fraternidade, pilar moral e social, é, inclusive, um componente econômico decisivo, mas ainda não medido – afirma Paolo Santori, presidente do Comitê científico da Fundação -. Desenvolvendo um indicador inovativo, baseado em dados internacionais, o estudo analisa o grau de fraternidade ao interno e entre as economias globais (…) e convida a repensar desenvolvimento, cooperação e bem-estar coletivo”.

O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral acompanhou desde o início o caminho de “Economia de Francisco”, reconhecendo no movimento uma forte sintonia com a própria missão. “Valores como a centralidade da pessoa, a justiça social e ecológica, a solidariedade, a inclusão e a cooperação, representam um terreno comum sobre o qual desenvolveu-se um acompanhamento respeitoso da autonomia do movimento, mas capaz de apoiar o seu desenvolvimento e iniciativas, durante esses anos”, confirma Padre Avelino Chicoma Bundo Chico, S.I., diretor do escritório do Dicastério.

Apresentação do evento na Sala de Imprensa do Vaticano. Da esquerda: Luca Iacovone, Luigino Bruni, Mons. Domenico Sorrentino, Rita Sacramento Monteiro, Padre Avelino Chicoma Bundo Chico e Cristiane Murray .

A programação, em Castelgandolfo, “será articulada em plenárias, com convidados internacionais como Sabine Alkire, Jennifer Nedelsky, Paolo Benanti, Massimo Mercati e Stefano Zamagni; workshops temáticos, momento espirituais e criativos, e uma grande exposição – denominada “EoF Fair” – com projetos e experiências que nasceram dentro do movimento EoF, como afirmam Rita Sacramento Monteiro e Luca Iacovone, da equipe do evento. Um destaque especial será dado a duas sessões dedicadas: Vozes Proféticas para uma Nova Economia, na qual jovens provenientes de vários contextos irão testemunhar mudanças já atuadas; e Ideias extraordinárias para a economia de Francisco, uma série de breves intervenções para conhecer ideias empresariais, iniciativas sociais e pesquisas inovadoras, selecionadas por meio de um concurso internacional”.

Lorenzo Russo

Jovens, Cidade e Paz: A Carta de Nairobi e a contribuição das novas gerações

Jovens, Cidade e Paz: A Carta de Nairobi e a contribuição das novas gerações

A comemoração do 80o aniversário da ONU foi a ocasião para realizar, em Nairobi, Quênia, um evento internacional intitulado “Cidades, Comunidades, Cuidados – Jovens em ação por uma paz sustentável”. Um congresso que reuniu numerosos jovens africanos e representações do mundo inteiro, protagonistas de um novo impulso na construção de sociedades pacíficas e resilientes, capazes de contruir o futuro do continente africano tendo no coração o mundo unido.

Momento culminante foi a apresentação da “Carta de Compromissos”, um documento que solicita a paz através do diálogo intercultural, de iniciativas artísticas e programas comunitários, reconhecendo a função central dos jovens como “influenciadores de paz” e agentes de mudança. No ponto da central da ideia apresentada está a adoção dos valores do ubuntu, a filosofia africana que convida à partilha e à reciprocidade, como alicerce para uma sociedade solidária. Os jovens encorajam as Nações Unidas e a União Africana e admiram o seu papel em sustentar e colaborar com os governos locais, os atores da sociedade civil, as instituições religiosas e as organizações juvenis na promoção da solidariedade, da justiça e da igualdade, seja em nível local seja em nível global. A Carta apoia ações concretas em favor de cidades mais acolhedoras, de um desenvolvimento sustentável, de um novo impulso para o empreendedorismo juvenil e uma nova visão africana, livre de confins e barreiras. Salienta a urgência de maior inclusão, formação e participação juvenil nos processos de decisão, em todos os níveis.

O apelo emergiu na conclusão do evento organizado por New Humanity, ONG do Movimento dos Focolares, que teve como sede a Mariápolis Piero, de Nairobi. Participaram ainda: UN Habitat, agência da ONU para o desenvolvimento urbano e UNEP, agência das Nações Unidas para o ambiente; Movimento Laudato Sì África; Greening Africa Together; Living Peace International; Africa Interfaith Youth Network; International Sociological Associatio; Centro Universitário ASCES, de Caruarú (PE), Brasil.

Segundo as jovens lideranças reunidas em Nairobi, esta nova perspectiva poderá acontecer apenas com a criação de mecanismos permanentes de colaboração, em nível local e internacional. Um verdadeiro trabalho de construção e consolidação de redes. O evento teve a participação de 30 relatores internacionais, oito mesas-redondas, seis lives e oito vídeos-depoimento, de cidades dos cinco continentes, com uma atenção constante ao diálogo com os jovens. Os temas abordados tocaram a paz, o desenvolvimento urbano, o cuidado com o ambiente e as novas formas de liderança de comunhão.

O Congresso foi aberto com a projeção de mensagens em vídeo de Felipe Paullier, assistente do Secretário Geral da ONU para os jovens, e de Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares. Paullier, após recordar que Nairobi é uma das três principais sedes das Nações Unidas, afirmou que “cada guerra é uma derrota para a humanidade, um fracasso do diálogo. Os jovens não são apenas vítimas das crises de hoje: são criadores, líderes e construtores de paz”. E são mais de 2 milhões de jovens “dispostos a serem parceiros, de igual para igual, na construção do nosso futuro comum”. Uma mensagem clara para todos: dando confiança a uma geração que “resiste ao ódio, rejeita a indiferença e escolhe a paz como responsabilidade cotidiana”, é possível partir das cidades e das comunidades, porque “é precisamente nos bairros, nas escolas, nos locais de culto e nas comunidades locais que a cooperação torna-se tangível”.

Margeret Karram desejou recordar a iniciativa, que já supera os dez anos, da formação de uma liderança de comunhão, iniciada pelo Instituto Universitário Sophia e pelo Movimento Político pela Unidade, com o programa “Juntos por uma Nova África”. O percurso, no seu último ciclo trienal, teve a participação de 140 jovens de 14 países africanos, ao lado de tutores e professores, que nos dias anteriores ao Congresso realizaram a sua Escola de Verão anual, na modalidade híbrida, para rever e discutir os resultados de suas ações locais. Outro programa relembrado pela Presidente dos Focolares foi “One Humanity, One Planet: Synodal Leadership” – “Uma humanidade, um planeta: liderança sinodal” – que reúne 150 jovens de 60 países, ativos no âmbito político e na sociedade civil. Jovens que “se formam e trabalham para atuar boas práticas políticas e gerar impacto social, com uma visão inspirada na cultura da unidade”.

Tratam-se de perspectivas que definem o compromisso de todo o Movimento dos Focolares, “já expresso no documento “Together to care” – “Juntos para cuidar” – entregue à ONU um ano atrás” – explicou a presidente – ressaltando “iniciativas como Living Peace, que envolve mais de 2 milhões de adolescentes no mundo”; e juntamente com a “AMU, que conta com quase 900 projetos de cooperação, testemunham um empenho concreto e largamente difundido”. Neste quadro, apreciou o esforço de “desenhar um percurso comum, com o qual redefinir a vida urbana, valorizando e fortificando as relações sociais”, e acrescentou: “quanto têm a nos dizer as culturas africanas sobre este importante aspecto!”. Incisivo foi o seu convite a redescobrir, no coração das cidades “comunidades de solidariedade e de reconciliação não perceptíveis aos olhos humanos”: “’cidades invisíveis’, que no seu pequeno, no dia a dia, contribuem na construção de uma rede mundial de paz, e mostram que um outro mundo é possível”. Salientou, enfim, a reciprocidade como chave da mudança, citando o que Chiara Lubich, ainda em 1977, afirmou durante um seu discurso no Palácio de Vidro, da ONU: “A reciprocidade é uma meta que pode nos aproximar, fazer-nos crescer, que pode tornar-se realidade quando damos o primeiro passo em direção ao outro, quem quer que ele seja e quaisquer sejam as suas convicções, para compreender as suas razões, para buscar uma conexão, para estabelecer um relacionamento”.

Dentre os hóspedes, Christelle Lahoud, da ONU Habitat, salientou como a África, continente com a população mais jovem e em rápida urbanização, representa uma urgência e uma oportunidade. A construção da paz se reforça quando os jovens podem participar ativamente dos processos de decisão, contribuindo para a criação de espaços urbanos seguros e inclusivos. Com uma população urbana que, se estima, alcançará os 70%, em nível global, até 2050, as cidades são chamadas a responder a crescentes desafios, entre os quais a desigualdade, migrações forçadas e emergências climáticas, que colocam sob pressão a coesão social e os recursos.

Lahoud evidenciou como os jovens já são protagonistas na co-criação de espaços urbanos resilientes, avaliando riscos, recolhendo dados e influenciando as políticas locais, colaborando com a administração pública e as autoridades para plasmar cidades que reflitam as reais exigências das comunidades. As cidades, portanto, tornam-se reflexo de como as sociedades vivem juntas, constroem confiança entre as gerações e buscam juntas o bem-estar coletivo, em sintonia com a filosifia ubuntu.

Experiências de cidades com Belém – na Cisjordânia -, Beirute, Kinshasa, Trento, Manila, Pajule, Capodistria e Medellin, contribuíram a dar um respiro internacional ao evento, demonstrando que a transformação social e cultural pode nascer de baixo, por meio da colaboração entre sociedade civil e instituições. Testemunhos como o de Agnes Aloyotoo, candidata às eleições em Uganda, e de Jonathan Masuta, presidente de uma das federações de jovens da União Africana, mostraram como as novas gerações já estão ativas e dando voz aos jovens nas decisões executivas.

A mensagem que chega de Nairobi é clara: a confiança no protagonismo dos jovens representa a chave para construir sociedades mais justas, solidárias e pacíficas, a partir das cidades e das comunidades locais. Desse evento emerge uma determinação forte a agir em rede, em nível local e internacional, para promover uma cultura de paz fundada na responsabilidade, na colaboração e na inclusão das novas gerações.

Mario Bruno
Foto: Courtesy of Younib TV © Benjamin Simiyu

Um balanço que fala de paz, formação, saúde e inclusão

Um balanço que fala de paz, formação, saúde e inclusão

“Escolhemos contar histórias de proximidade e fraternidade que são fruto do compromisso de muitas pessoas e comunidades no mundo que buscam diariamente gerar confiança.” Com essas palavras, Margaret Karram, presidente do Movimento dos Focolares, abriu a apresentação do Balanço de Comunhão (BdC) de 2024, realizada em 6 de novembro de 2025, no Pontifício Instituto Patrístico Agustinianum, em Roma. Esse documento vai além da prestação de contas financeira e descreve o trabalho de obras ativas em diversos países onde o Movimento está presente, e o seu impacto específico sobre pessoas, comunidades e territórios. “Não se trata apenas de números, mas de relacionamentos”, enfatizou a Irmã Alessandra Smerilli, secretária do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. “A comunhão é um bem estratégico. Não se trata simplesmente de compartilhar recursos, mas de construir vínculos que geram confiança, coesão e resiliência. Em termos econômicos, é capital relacional: reduz os custos da exclusão, proporciona participação e possibilita processos de desenvolvimento humano integral.” Onde há comunhão, a fragilidade se transforma em oportunidade, pois aqueles que fazem parte de redes de reciprocidade têm maior chance de sair da marginalização. Em tempos de grande desigualdade, esse balanço é uma denúncia profética e uma boa notícia: cada pequeno ato é importante”.

Ruperto Battiston, corresponsável pelo aspecto econômico do Movimento dos Focolares ilustra os números: “Em 2024, o BdC registrou receitas de 8,1 milhões de euros provenientes de doações, da livre comunhão de bens das pessoas e de contribuições de instituições externas para projetos formativos. As despesas totalizaram 9,6 milhões de euros e foram destinadas a iniciativas que geram valor a longo prazo: projetos locais, cidadezinhas de testemunho (Mariápolis permanentes), obras sociais e itinerários formativos e culturais, bem como o suporte ao Centro Internacional.

Graças a uma comunhão de bens extraordinária, totalizando 208.568 euros, pudemos ajudar pessoas do Movimento que vivem situações de particular necessidade, bem como estruturas que ajudam os pobres.

Além disso, a Economia de Comunhão distribuiu 394 ajudas individuais e apoiou 14 projetos em 13 países, totalizando 669.566 euros.

Entre os muitos dados, este ano optamos por destacar as somas destinadas a estruturas inerentes à proteção da pessoa e ao tema da formação sobre a proteção da pessoa, conforme foi recomendado pelo recente relatório da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores”.

Click aqui para baixar o Relatório de Comunhão em italiano (a tradução para outros idiomas estará disponível em breve).

Foram apresentadas cinco obras entre as ilustradas no Balanço de Comunhão: Fo.Co. ONLUS – Itália, uma cooperativa social que acolhe migrantes e menores desacompanhados, promovendo inclusão e emprego. Reabriu um antigo convento e o transformou em um centro de acolhimento. UNIRedes – América Latina, uma rede de 74 organizações atuantes em 20 países, que alcança anualmente milhares de pessoas com projetos educacionais, de saúde e culturais; Centro Médico Focolares – Man, Costa do Marfim, criado durante a guerra civil, hoje é um centro de saúde 24 horas com serviços de telemedicina e internação; Marcenaria Focolares – Filipinas, um centro de formação profissional que devolveu dignidade e emprego a mais de 300 jovens excluídos do sistema escolar; TogetherWEconnect – Israel e Palestina, um projeto educacional que envolve 500 alunos em percursos de diálogo, autoestima e cidadania ativa.

“A comunhão não é assistencialismo, mas sim protagonismo e reciprocidade”, explicou Moira Monacelli, da Caritas Internationalis. “Estar presente não significa apenas fazer pelos outros, mas caminhar juntos”. As obras descritas no Balanço nascem de um amor concreto, que se traduz em escuta, corresponsabilidade, formação e confiança na Providência. “Dar esperança não é apenas expressá-la em palavras”, concluiu Monacelli, “mas construir comunidades nas quais a fraternidade se torna realidade”

Stefania Tanesini

Balanço de Comunhão 2024: os projetos e as obras do Movimento dos Focolares no mundo

Balanço de Comunhão 2024: os projetos e as obras do Movimento dos Focolares no mundo

O Balanço de Comunhão (BdC) é um instrumento que surge na esteira dos Balanços Sociais das Organizações não governamentais e sem fins lucrativos: expressa um estilo inspirado no Evangelho e é um convite a promover relações de reciprocidade e de comunhão e a contribuir para a construção de sociedades nas quais as pessoas e os povos possam viver com dignidade, justiça e em paz. No ano de 2024 o Movimento dos Focolares analisou os dados relativos a obras, projetos e ações sociais estáveis e contínuas presentes em muitos países. Os dados apresentados não representam um mapa completo nem exaustivo de todas as iniciativas em andamento, mas são uma amostra significativa que expressa o empenho de mais de cem (100) obras em resposta às necessidades da humanidade, sustentadas pela espiritualidade do Movimento dos Focolares, para gerar confiança, coesão social e sentido de comunidade.

Click aqui ou na imagem para baixar o Relatório de Comunhão em italiano (a tradução para outros idiomas estará disponível em breve).

Dilexi te: o amor aos pobres, fundamento da Revelação

Dilexi te: o amor aos pobres, fundamento da Revelação

Dilexi te , “eu te amei” (Ap 3:9) é a declaração de amor que o Senhor faz a uma comunidade cristã que, diferentemente de outras, não tinha nenhum recurso, era particularmente desprezada e exposta à violência e é, ao mesmo tempo, a citação que dá título à primeira Exortação apostólica do papa Leão XIV, assinada no dia 04 de outubro, festa do Santo de Assis. O documento retoma o tema aprofundado pelo papa Francisco na Encíclica Dilexit nos, sobre o amor divino e humano do Coração de Cristo, e é um projeto que o pontífice atual tomou como seu, compartilhando com o predecessor o desejo de fazer com que compreendam e conheçam o vínculo entre aquela que é a nossa fé e o serviço aos vulneráveis; o laço indissolúvel entre o amor de Cristo e o seu chamado a estarmos perto dos pobres.

Na conferência de imprensa de apresentação da «Dilexi te» intervieram (da esquerda): Fr. Frédéric-Marie Le Méhauté, Provincial dos Frades Menores da França/Bélgica, doutor em teologia; Em.mo Card. Konrad Krajewski, Prefeito do Dicastério para o Serviço da Caridade; Em.mo Card. Michael Czerny S.J., Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral; p.s. Clémence, Pequena Irmã de Jesus da Fraternidade das Três Fontes de Roma (Itália).

São 121 os pontos nos quais o “fazer experiências” de pobreza vai bem além da filantropia. “Não estamos no horizonte da beneficência”, afirma o papa agostiniano, “mas no da Revelação: o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos” (5).

Leão XIV convida a refletir sobre as várias faces da pobreza: a de “quem não tem meios de sustento materiais”, de “quem é marginalizado socialmente”; a pobreza “moral”, “espiritual”, “cultural”; a pobreza “de quem não tem direitos, não tem espaço, não tem liberdade” (9). Mas nenhum pobre, continua, existe “por acaso ou por um cego e amargo destino” (14). “Os pobres são uma garantia evangélica de uma Igreja fiel ao coração de Deus” (103).

“Logo dizemos que não é fácil para a Igreja e para os papas falar de pobreza. Porque, em primeiro lugar, o modo e a essência da pobreza da Igreja não são aqueles da ONU nem dos Estados. A palavra pobreza”, nos explica o professor Luigino [TY1] Bruni, economista e historiador do pensamento econômico, Professor de Economia Política na Lumsa (Roma) e diretor científico de Economy of Francesco, “tem no cristianismo um espectro muito amplo, que vai além da pobreza má, porque não foi escolhida e suportada, até a pobreza evangélica, a aqueles pobres que Jesus chamou de ‘bem-aventurados. A Igreja deveria se mover dentro deste espectro amplo porque, se deixa de fora uma das duas formas de pobreza, sai do Evangelho”.

O documento denuncia de forma particular a falta de equidade, definindo-a como raiz dos males sociais (94), assim como o agir de sistemas político-econômicos injustos. A dignidade de todas as pessoas deve ser respeitada agora, não amanhã (92) e, não por acaso, durante a coletiva de imprensa de apresentação, que ocorreu no Vaticano no dia 09 de outubro de 2025, o cardeal Michael Czerny S.J., prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, com referências específicas ao texto, refletiu muito sobre aquelas que são definidas como ‘estruturas do pecado’: “o egoísmo e a indiferença se consolidam nos sistemas econômicos e culturais. A economia que mata (3) mede o valor humano em termos de produtividade, consumo e lucro. Essa ‘mentalidade dominante’ torna aceitável o descarte dos fracos e improdutivos, e merece, portanto, a etiqueta de ‘pecado social’”.

“Este é um tema antigo da doutrina social da Igreja”, acrescenta a tal propósito o professor Bruni, “e, ainda antes, dos Padres e de muitos carismas sociais, sem falar dos franciscanos. Nessas passagens, se sente a mão do papa Francisco e o espírito de São Francisco (64), mas também de carismas mais recentes – foi o padre Oreste Benzi que falou por primeiro das ‘estruturas do pecado’ –, até a Economia de Comunhão e a Economy of Francesco. Também é importante a referência – ainda em plena continuidade com o papa Francisco – à meritocracia, definida como uma ‘falsa visão’ (14). A meritocracia é uma falsa visão, porque atribui primeiro muitas pobrezas ao demérito dos pobres, e os pobres desmerecidos são definidos também como culpados. A ideologia meritocrática é uma das principais ‘estruturas de pecado’ (90) que geram exclusões e tentam legitimá-la eticamente. As estruturas de pecado são materiais (instituições, leis…) e imateriais como as ideias e as ideologias”.

O documento volta naturalmente um olhar ao tema das migrações – Robert Prevost toma para si os famosos “quatro verbos” do papa Francisco: acolher, proteger, promover e integrar – sem esquecer as mulheres entre as primeiras vítimas de violência e exclusão; destaca a importância da educação para a promoção do desenvolvimento humano integral, o testemunho e a ligação com a “pobreza” de tantos santos, beatos e ordens religiosas e propõe um retorno à esmola como caminho para poder realmente “tocar a carne sofredora dos pobres” (119).

Em Dilexi te, o papa Leão nos “exorta” a mudar de rota, pensar nos pobres não como um problema da sociedade nem, muito menos, unicamente como “objeto da nossa compaixão” (79), mas como atores reais a quem podemos dar voz e “mestres do Evangelho”. É necessário que “todos nos deixemos evangelizar pelos pobres. Isso”, escreve o papa, “é uma questão familiar. São nossa família”. Portanto “o relacionamento com eles não pode ser reduzido a uma atividade ou a um ofício da Igreja” (104).

“Levar a sério a pobreza evangélica significa”, acrescenta Luigino Bruni, “mudar o ponto de vista, fazer Metanoia, diziam os primeiros cristãos. E hoje, tentar responder a algumas perguntas radicais: como chamar de ‘bem-aventurados’ os pobres quando os vemos como vítimas da miséria, abusados pelos mais fortes, morrendo em meio ao mar, procurando comida no lixo? Que bem-aventuranças conhecem? Por essa razão, muitas vezes os primeiros e mais severos críticos dessa primeira bem-aventurança foram e são justamente aqueles que passam a vida ao lado dos pobres, sentados junto deles, para liberá-los de sua miséria. Os maiores amigos dos pobres acabam, paradoxalmente, tornando-se os maiores inimigos da primeira bem-aventurança. E nós devemos entendê-los e agradecê-los por esse escandalizar-se. E, depois, tentar impulsionar o discurso para terrenos novos e audaciosos, sempre paradoxais. E quantos ‘ricos epulões’ encontraram na bem-aventurança dos pobres um álibi para deixar Lázaro (Lucas 16:19,31) bem-aventurado na sua condição de provação e miséria e, talvez, autodefinindo-se “pobres de espírito” porque davam as migalhas aos pobres?! Deve haver algo estupendo naquele ‘bem-aventurados os pobres’. Não entendemos mais, porém procuramos ao menos não diminuir sua profecia paradoxal e misteriosa. Papa Leão procurou nos indicar algumas dimensões dessa beleza paradoxal da pobreza, sobretudo nos longos parágrafos dedicados à fundação bíblica e evangélica, mas ainda há muito para se descobrir e dizer. Espero que os futuros documentos pontífices incluam também o magistério leigo sobre a pobreza, que há pelo menos 50 anos nos é doado por personagens como A. Sen, M. Yunus ou Ester Duflo, ganhadores do Prêmio Nobel de Economia. Esses estudiosos, com muitos outros, nos ensinaram que a pobreza não é a falta de dinheiro ou de receita (fluxo), mas a falta de capitais (stock) – sanitários, educativos, sociais, familiares, capacitações… – que depois se manifesta em uma carência de receita; mas é só trabalhando com capitais hoje que amanhã poderemos fazer os pobres saírem das armadilhas da pobreza. Como nos explicou Sen, a pobreza é se encontrar na impossibilidade objetiva de ‘poder desenvolver a vida que gostaríamos de viver’, e é, portanto, uma falta de liberdade. Os carismas sempre intuíram isso, e nas missões e, ainda antes, na Europa e em qualquer lugar encheram o mundo de escolas e hospitais, para melhorar os ‘capitais’ dos pobres. Também a esmola, da qual o papa Leão fala no final (76), vai orientada em ‘conta capital’, e não dispersa em ajudas monetárias que acabam muitas vezes aumentando a pobreza que gostaríamos de reduzir. A Dilexi te é um ponto de partida, para um caminho ainda longo dos cristãos no terreno ainda em parte desconhecido da pobreza – daquela difícil de reduzir e daquela bela do evangelho a ser aumentada.”

Maria Grazia Berretta