Movimento dos Focolares
François-Xavier Nguyen Van Thuan: testemunha da esperança

François-Xavier Nguyen Van Thuan: testemunha da esperança


François-Xavier Nguyên Van Thuân nasceu em Hué (Vietnã) no dia 17 de abril de 1928 em uma família profundamente católica. Ordenado sacerdote em 1953, dedicou-se com zelo à formação de seminaristas, distinguindo-se como professor, reitor e guia espiritual. Nomeado bispo de Nha Trang em 1967, promoveu uma pastoral missionária, próxima aos pobres e atenta ao apostolado dos leigos.

Em 1975, são Paulo VI o escolheu como arcebispo coadjutor de Saigon, mas poucos meses depois foi preso pelo regime comunista. Passou 13 anos na prisão, nove dos quais em isolamento. Nessa prova, soube se unir intimamente a Cristo crucificado, transformando o sofrimento em oferenda e a solidão em comunhão com a Igreja. Durante aqueles anos nasceram seus “Pensamentos de esperança” que se tornaram um autêntico testamento espiritual, capaz de iluminar a fé de milhões de pessoas em todo o mundo.

Lá pela metade dos anos 70 teve um encontro decisivo com Chiara Lubich e a espiritualidade do Movimento dos Focolares, que, com o carisma da unidade e a centralização em Jesus Abandonado – Jesus que experimenta o abandono do Pai na cruz, expressão máxima do amor – torna-se a fonte de força, principalmente nos momentos mais escuros.

Libertado em 1988 e exilado, se estabeleceu em Roma, onde são João Paulo II o chamou a servir a Igreja universal como vice-presidente (1994) e depois presidente (1998) do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz. Naquele papel anunciou incansavelmente o Evangelho da paz e da justiça, viajando por todo o mundo.

Em 2000, foi convidado por são João Paulo II a pregar os exercícios espirituais para a Cúria Romana. Nomeado cardeal em 2001, viveu o último período marcado pela doença com serenidade e total abandono a Deus. Faleceu em Roma no dia 16 de setembro de 2002, deixando uma herança espiritual de fé inabalável, esperança luminosa e amor misericordioso.

Hoje, sua figura continua falando com a Igreja e com o mundo: sua vida, moldada pela cruz e pela esperança, testemunha que o amor de Cristo pode transformar toda noite em aurora.

Viver a esperança
Pensamentos de François-Xavier Nguyen Van Thuan
escritos durante os primerios meses na prisão (*)


979. Você quer fazer uma revolução: renovar o mundo. Só poderá cumprir essa missão preciosa que Deus lhe confiou com “a potência do Espírito Santo”. A cada dia, prepare uma nova Pentecostes ali onde vive.
980. Empenhados em uma campanha que tem como escopo deixar todos felizes. Sacrificados continuamente, com Jesus, para levar a paz às almas e prosperidade aos povos.
981. Permaneça fiel aos ideais do apóstolo: “dar a vida pelos irmãos”. De fato, “ninguém tem amor maior que este” (João 15,13).
982. Grite um só slogan: “Todos um”, ou seja, unidade entre os católicos, unidade entre os cristãos e unidade entre as nações. “Como o Pai e o Filho são um” (João, 17:22,23).
985. Prenda-se firmemente a um único princípio-guia: a oração. Ninguém é mais forte que a pessoa que reza.
986. Observe uma só regra: o Evangelho… Não é difícil, complicado ou legalista como as outras; pelo contrário, é dinâmica, gentil e estimulante.
994. Para o seu apostolado, use o único método eficaz: o contato pessoal. Com ele, entre na vida dos outros, os compreenda e os ame. As relações pessoais são mais eficazes que a pregação e os livros.

(*) De: Il cammino della speranza. Testimoniare con gioia l’appartenenza a Cristo (Em tradução livre, O caminho da esperança. Testemunhar com alegria o pertencimento a Cristo) , Città Nuova, 6° ed., Roma 2004.

por Waldery Hilgeman e Hubertus Blaumeiser

O “pensamento do dia”: motivação para a vida

O “pensamento do dia”: motivação para a vida

São duas ou três palavras. Nada mais. Mas são suficientes para orientar um dia inteiro. Elas são publicadas à meia-noite e, de manhã cedo, chegam no WhatsApp ou por email, e “iluminam” todo o dia. Exprimem um pensamento do Evangelho ou um valor universal, e motivam à ação, a comprometer-se, a olhar para além das próprias ocupações e preocupações.

Foi uma ideia genial; pela sua simplicidade e facilidade de difusão. Chiara Lubich a lançou em dezembro de 2001 para ajudar as pessoas que colaboravam com ela, no centro internacional do Movimento dos Focolares, a viverem o momento presente. Mas, como acontece frequentemente, vendo que a ideia e os efeitos eram muito positivos, difundiu-se como os círculos na água, quando se lança uma pedra; atravessou fronteiras, línguas, costumes e linguagens.

Nos anos seguintes, a fundadora do Movimento muitas vezes se referia à “palavra do dia” e às experiências que suscitava nas pessoas que a colocavam em prática. Às vezes para encorajar a não diminuir a intensidade ou para propor um outro significado, como quando sugeriu que se acrescentasse tacitamente ao pensamento do dia, a intenção de vivê-lo “principalmente no contato com os irmãos”. Isso marcou uma mudança profunda, não apenas na busca da perfeição individual, mas em colocar-se, constantemente, em relação com o irmão ou a irmã que está ao nosso lado: entrar nas suas necessidades, torna-los destinatários do nosso amor concreto.

Pouco a pouco cresceu e se desenvolveu. Atualmente o “pensamento do dia” lembra algum aspecto da Palavra de Vida – proposta todos os meses – ou refere-se às leituras da liturgia. É traduzido em 23 línguas. Algumas pessoas, quando o enviam ou publicam nas redes sociais, acrescentam uma reflexão pessoal ou uma sugestão sobre como colocá-lo em prática. Outras o ilustram com uma imagem ou criam um vídeo breve, no Youtube. Há até mesmo quem compõe todo dia uma canção curta. Todos os meios de comunicação e todas as redes sociais são úteis para difundi-lo entre amigos ou conhecidos, sempre com a delicadeza de, antes, perguntar se estão interessados em recebê-lo.

Não são palavras ao vento. Ao contrário, estimulam, motivam as atitudes, especialmente nas relações com o ambiente e com as pessoas que encontramos durante o dia. Como conta Marisa, do Brasil: “Hoje eu estava indo dar uma aula na universidade, mesmo se neste período não tenho muita vontade de continuar com esse trabalho. Já tenho idade para me aposentar, mas perdi algumas promoções e, por enquanto, devo trabalhar; porque minhas filhas ainda precisam da minha ajuda financeira. Então eu renovo o meu “por Ti, Jesus” toda vez que vou à universidade. E o pensamento de hoje era justamente: “cumprir os nossos deveres”.

Do Senegal, Pe. Christian escreve: “Obrigado pela palavra do dia. Ela me ajuda a nutrir minha vida espiritual e a iluminar o meu relacionamento com Deus e com os meus irmãos e irmãs, dia a dia”. Para Maria Teresa, da Argentina, todo dia é como receber uma resposta de Deus: “Eu trabalho na pastoral dos migrantes; ontem eu acompanhei um deles na apresentação de um livro que escreveu sobre a ‘neuro-condução’. Era importante estar ao lado dele nestes momentos em que podia compartilhar, e ajudá-lo a difundir os seus talentos. Foi uma linda experiência de unidade com ele e com as pessoas que vieram escutar a sua conferência: um presente que ele tinha a oferecer”.

Apenas algumas pinceladas da vida que é gerada em centenas de pessoas, ou até mais, que, possuindo ou não uma crença religiosa, acordam toda manhã com o compromisso em viver as duas ou três palavras do “pensamento do dia”.

Carlos Mana
Foto: © Pixabay

Evangelho vivido: em busca de quem está perdido

Evangelho vivido: em busca de quem está perdido

Na minha juventude, por discordância com meu pároco que para mim era muito autoritário e rígido nas estruturas, pouco a pouco me distanciei também da prática religiosa, até que o testemunho de um grupo de cristãos que colocavam em prática o mandamento novo de Jesus (João 13:34,35) me fez acreditar novamente e na mudança de conduta derivada, senti o impulso de, antes de tudo, me reconciliar com quem havia julgado. Pedi desculpas e esclarecemos os acontecimentos. Por trás de certos modos pouco encorajadores, encontrei um coração capaz de compreender. Depois de alguns anos, tendo amadurecido uma escolha totalitária de Deus, fui compartilhá-la com o pároco que já havia se tornado meu amigo: ele não esperava e, conhecendo minhas capacidades pitorescas, me pediu que decorasse uma tabela na qual estavam os anúncios das peregrinações que ele costumava organizar para os paroquianos. Tratava-se de uma contribuição modesta, mas para ele era significativa: sugeria a nova harmonia estabelecida entre nós.

(F. – Itália)

Michel acompanhava a formação humana e espiritual de um grupo de adolescentes. Durante o feriado de Páscoa os levou para um tipo de retiro em um colégio que estava vazio porque os estudantes haviam voltado para casa. Eram uns 30 adolescentes, todos animados. A primeira noite foi bem, ficaram jogando. O difícil era a hora de dormir, quando os adolescentes queriam bagunçar. Por isso, depois de ir para a cama e apagar as luzes, Michel esperou. Silêncio. Depois das 22h, ouviu a porta de um dos quartos se abrir devagar. Deixou que todos saíssem e, de repente, ele saiu acendendo as luzes do corredor. Os adolescentes congelaram, esperando uma bronca. Mas Michel exclamou: “E agora… vamos todos para a cidade comer le frites” (batatas fritas da Bélgica, feitas com uma técnica particular: uma especialidade). Os adolescentes não esperavam. Felizes, saíram e cada um pegou uma caixinha de frites. Depois disso, satisfeitos, voltaram tranquilos para o alojamento. Conquistados por Michel, o retiro teve ótimos resultados.

(G.F. – Bélgica)

Antes de descobrir o Evangelho como código da existência, desde menino pensava que quem seguia Jesus deveria fazer muitas renúncias: agora sei que a única coisa a que precisamos renunciar é ao próprio egoísmo. Todo o resto é lucro. Depois daquela mudança de rota, sempre mais se evidenciou em mim a exigência de aprofundar, mediante estudos teológicos, aquele Deus que mudou a minha vida. Agora, para mim, ensinar religião para algumas turmas nas quais não faltam alunos é uma missão que nasce do dever de comunicar o dom recebido. Não é fácil: em geral, eles, dado o contexto social do qual provêm, a situação de pobreza e também a falta de modelos para seguir, buscam um novo começo quanto à religião. A Igreja, com seus precedentes é sentida por eles como uma realidade distante, superada. Trata-se, então, principalmente, de tornar-se amigos, de abordar os interesses dele. Todos têm algo positivo para se evidenciar; então, levando isso em consideração, é mais fácil que se abram e acolham a mensagem cristã.

(Gerardo – Itália)

Por Maria Grazia Berretta

(trecho de Il Vangelo del Giorno, Città Nuova, anno X– n.1° setembro-outubro de 2025)
Foto: © Pixabay

Evangelho vivido: com o tesouro no coração

Evangelho vivido: com o tesouro no coração

A minha sogra tinha ficado insatisfeita com o trabalho do operário, que seu filho tinha mandado. Quando lhe fizemos notar que nunca estava contente com nada, reagiu vivamente. Mais tarde, no jantar, estava ainda de cara feia, e quando eu tentei minimizar o acontecido, ela partiu em quarta, repreendendo-me por coisas de que eu não me sentia absolutamente culpada.

Assim até levantar-se da mesa e ir se esconder no quarto. Ah… se cada um tivesse ficado na sua casa! Mas, dentro de mim, a voz da caridade, que cobre um manto de defeitos e fraquezas, me empurrou para ir até ela. A encontrei aos prantos. Quando pedi perdão, colocou também o filho dentro das broncas contra mim. Não me restou senão ir embora, eu achava que já tinha feito bastante… mas a voz de antes me sugeriu tentar novamente.
Depois de arrumar a mesa voltei até ela, para convencê-la que eu realmente sentia muito, a abracei como teria feito com minha mãe. E a deixei só quando a tensão diminuiu e vi que ela adormeceu. Agradeci a Deus e, no dia seguinte, a minha saudação sorridente tirou todo o embaraço restante da minha sogra.

Maria Luiza – Itália

Eu estava internada num hospital, em Ribeirão Preto, para uma cirurgia no nariz. Não era a primeira vez, porque eu tenho uma doença rara e preciso de cuidados frequentes. Por isso não gosto de hospitais e sentia muito medo, mas eu procurei fazer tudo por amor a Jesus.

Por exemplo: tomei o leite com a nata, o que não me agrada de jeito nenhum; no dia da operação eu vesti as roupas do hospital, sem fazer muita história; fiquei sem almoço para tomar o anestésico; esperei com amor o atraso, de quatro horas, para a cirurgia, e procurei amar as outras crianças internadas comigo. Depois da operação, esperei outras horas pelo médico que devia me chamar para os controles.

Eu já estava com fome, cansada e fiquei nervosa, por isso derrubei uma cadeira e comecei a reclamar. Porém, logo me lembrei do que tinha prometido a Jesus, e me arrependi. Pouco depois a porta se abriu: era o médico que me chamava.

Paulinha, 7 anos – Brasil

Uma manhã, tocou a campainha de casa: era B., a moradora do andar de baixo, que sofre de Alzheimer. Ela me pediu o favor de deixá-la entrar porque o marido estava fora e ela tinha ficado sem as chaves. Eu abri e a convidei a ficar comigo um pouco, enquanto o esperava.

© svklimkin-Pixabay

Como eu vi que estava triste e confusa (às vezes ela se dá conta da sua situação), para evitar que se sentisse um peso, comentei que aquele é um tipo de imprevisto que acontece com todos, por desatenção. Conversamos um pouco, até que ela lembrou que tinha ficado sem as chaves, e novamente ficou ansiosa.

Como eu não queria deixar aquele próximo naquele estado, mesmo se eu estou numa cadeira de rodas, para tranquilizá-la peguei com ela o elevador e descemos ao seu andar.

Antes disso, porém, B. também se fez próxima a mim: teve a atenção de arrumar o tapetinho diante da minha porta, de modo que pudesse fechá-la. Assim fiz companhia a ela, até que que o marido chegasse.

M. – Itália

(Retirado de “O Evagelho do Dia”, Città Nuova, ano X– n.1° julho-agosto 2025)
Foto: © Pixabay

Uma rede de famílias: o diálogo cria comunidade

Uma rede de famílias: o diálogo cria comunidade

Há mais de treze anos, participamos de um diálogo concreto com um grupo de famílias muçulmanas turcas que vivem na nossa cidade, Liubliana (Eslovênia). É uma experiência que começou bem por acaso. Eu trabalhava como dentista e uma das primeiras famílias turcas que chegaram à Eslovênia estava entre meus pacientes. Daquele primeiro encontro, nasceu um laço profundo que, com o tempo, envolveu outras famílias da mesma comunidade. Depois do fracasso do golpe de estado na Turquia em 2016, de fato, muitas pessoas foram acusadas de pertencer a um movimento hostil e foram obrigadas a fugir, encontrando refúgio no nosso país. A partir daquele momento, o número de famílias com as quais começamos a interagir cresceu rapidamente, chegando a cerca de 50 pessoas em poucos meses.
Logo entendemos que não se tratava de uma simples troca cultural, mas esse laço se transformou em um relacionamento de verdadeira ajuda recíproca: demos uma mão para aprender a língua, para lidar com burocracias, matrículas escolares até o suporte para as necessidades da vida cotidiana. Uma amizade que, pouco a pouco, deu vida a um diálogo profundo também sobre valores e espiritualidade.

Com o tempo, tivemos a oportunidade de apresentar a eles o Movimento dos Focolares e o ideal do mundo unido. Isso deu vida a uma partilha com muitos pontos em comum entre o carisma dos focolares e a espiritualidade deles.

Um dos aspectos mais significativos desse percurso foi participar das festividades religiosas do outro. Participamos dos jantares de iftar durante o Ramadã, enquanto as famílias muçulmanas mostraram interesse pelas festividades cristãs. Por quatro anos seguidos, celebramos juntos o Natal. As famílias muçulmanas inicialmente ficaram surpresas com a profundidade espiritual dessa festa, porque tinham uma visão principalmente consumista, influenciada pela mídia ocidental.

Vídeo na língua original – Ative as legendas e escolha o idioma desejado

Desse desejo de aprofundar mais o diálogo, nasceu o projeto Pop the Bubbles em colaboração com a Associação pelo Diálogo Intercultural e Social Academy, onde trabalho. O objetivo era superar preconceitos e barreiras entre as comunidades, favorecendo o encontro entre famílias turcas e eslovenas. O projeto envolveu um grupo de famílias por um ano, durante o qual trabalhamos juntos para identificar valores comuns entre as duas culturas. No fim do percurso, emergiram seis valores fundamentais: família, cidadania ativa, diálogo intercultural, democracia, liberdade e inclusão. Para concluir o projeto, organizamos dois campos de convivência, um de três dias e um de cinco, dos quais participaram 73 pessoas. Além dos encontros de troca cultural, o projeto também levou a iniciativas concretas de solidariedade, como a ajuda aos refugiados ucranianos. Isso demonstrou que trabalhar juntos por um objetivo comum pode reforçar os laços entre comunidades diversas. Além disso, nos últimos anos, comecei a trabalhar em uma ONG (Social Academy) que cuida dos jovens, e as famílias turcas me pediram para cuidar também de seus filhos adolescentes, transmitindo a eles aqueles valores comuns que descobrimos juntos. Essa passagem foi muito significativa, porque demonstrou a confiança criada entre as nossas comunidades.

No mesmo período, nasceu um projeto inovador: a criação de um aplicativo para favorecer o diálogo entre pessoas com opiniões opostas – hardtopics.eu. O app funciona colocando em contato duas pessoas que responderam um questionário sobre temas polarizados de formas divergentes. O sistema junta essas pessoas e as convida a um confronto em um ambiente preparado, com o objetivo de superar a polarização social e promover uma cultura do diálogo. Esse app logo será utilizado nas escolas superiores e nas universidades de Liubliana. O entusiasmo demonstrado pelos jovens na fase de teste confirmou o valor dessa iniciativa.

Acho que é fundamental criar redes de diálogo inter-religioso a nível europeu. O percurso que trilhamos demonstra que, com paciência e dedicação, pode-se construir relacionamentos autênticos baseados na confiança, no respeito e na partilha de valores comuns.

por Andreja Snoj Keršmanc (Slovenia)

Jubileu dos Jovens: “Aspirem a coisas grandes”

Jubileu dos Jovens: “Aspirem a coisas grandes”

Assistindo a transmissão direta da Vigília em Tor Vergata, na periferia de Roma, e vendo aquelas imagens de uma imensa multidão, pode surgir uma pergunta: o que esse milhão de jovens veio buscar aqui? Estar perto do Papa Leão? Não parece uma motivação suficiente. Conhecer Roma? Pode ser, mas certamente não teriam escolhido essas condições de alojamento, alimentação e transporte. Mas a resposta se encontra no silêncio profundo e prolongado, durante a hora de adoração. Esses jovens vindos do mundo inteiro, foram atraídos por Jesus, até mesmo sem sabê-lo, pode acontecer, para este encontro pessoal e comunitário, onde, sem nenhuma dúvida, Ele falou ao coração de cada um que volta para casa transformado, com uma fé mais sólida, com uma experiência de divino que nunca esquecerá.

A semana do Jubileu, dedicada aos jovens, começou no dia 28 de julho e concluiu-se no domingo, 3 de agosto de 2025. Foram organizadas inúmeras atividades para receber quem chegava à Roma para passar estes dias: visitas aos lugares históricos, às Basílicas, eventos culturais, concertos, catequeses.

Inclusive o Movimento dos Focolares propôs quatro percursos especiais em Roma, seguindo a Peregrinação das Sete Igrejas, idealizada por São Felipe Neri: um itinerário histórico que acompanhou peregrinos desde o século XVI. Um caminho de fé e comunhão fraterna, feito de oração, cantos e reflexões sobre a vida cristã, com atividades de grupo, catequeses e testemunhos, ajudados por um libreto de meditações, para um aprofundamento espiritual à luz do carisma da unidade. O grande grupo que aderiu à proposta era composto de jovens de língua inglesa, húngara, holandesa, italiana, alemã, romena, coreana, espanhola e árabe.

Toda a “viagem” teve como base quatro ideias-chave: peregrinação (um caminho), porta santa (uma abertura), esperança (olhar para frente), reconciliação (gerar paz).

“Esperança” é a palavra que ecoou no testemunho de Samaher, jovem síria, de 28 anos: “Os anos da minha infância foram dolorosos, escuros e solitários. A casa não era um lugar seguro para uma menina por causa dos conflitos, e nem a sociedade, por causa do bulismo. Enfrentava tudo sozinha, sem poder compartilhar com ninguém, chegando a tentativas secretas de suicídio, devido à forte depressão e do medo. O Evangelho me transformou, depois que a vida se tinha apagado e tudo era escuro dentro de mim… ele me restituiu a luz”.

As catequeses foram realizadas no Focolare meeting point, feitas por Tommaso Bertolasi (filósofo), Anna Maria Rossi (linguista) e Luigino Bruni (economista). “Um olhar que parte do amor e suscita amor, não é o rosto mais concreto da esperança?”, foi a pergunta provocatória dirigida por Anna Maria Rossi aos jovens peregrinos.

José, 18 anos, do Panamá, confirmou isso em seu testemunho, falando do período de sua doença: “A minha experiência demonstra que, quando você coloca em prática a arte de amar, que significa ver Jesus em todos, amar a todos, amar os inimigos, amar como a si mesmo, amar-nos reciprocamente… isso não apenas muda a sua vida, mas muda também a vida de outros. Justamente essa arte de amar, que muitas pessoas compartilharam comigo, criou um equilíbrio tão forte que me ajudou a não desabar nos momentos difíceis, sustentando-me e dando forças diante de cada obstáculo que encontrei”.

Também Laís, do Brasil, não escondeu os desafios encontrados com a separação de seus pais: “Houve momentos em que eu não entendia porque viviam separados, e queria que estivessem juntos novamente. Contudo, quando tive uma consciência maior do que havia acontecido entre eles, pude fazer perguntas sinceras, e nenhum dos dois escondeu a verdade. Isso me ajudou a aceitar a realidade da nossa família. Hoje eles têm uma relação de amizade e, para mim, este é um exemplo de maturidade, perdão e amor verdadeiro, que supera as dificuldades e os erros. Recomeçar é possível quando realmente nos deixamos envolver”.

Em vários momentos, o Papa Leão fez intervenções e saudações fora do programa, como quando, na conclusão da Missa de boas-vindas, quis se fazer presente, percorrendo, no “papamóvel”, toda a Praça de São Pedro e a Via da Reconciliação, lotada de jovens. Falando de improviso, ele disse: “Esperamos que todos vocês sejam sempre sinais de esperança. (…) Caminhemos juntos com a nossa fé em Jesus Cristo e o nosso grito deve ser também pela paz no mundo”.

No sábado, 2 de agosto, enquanto a natureza presenteava um pôr do sol maravilhoso, respondendo às perguntas dos jovens, em Tor Vergata, O Papa reafirmou o seu apelo: “Queridos jovens, queiram-se bem entre vocês! Querer-se bem em Cristo. Saber ver Jesus nos outros. A amizade pode verdadeiramente mudar o mundo. A amizade é um caminho para a paz ”. E acrescentou: “Para ser livres é preciso partir do alicerce estável, da rocha que sustenta os nossos passos. Esta rocha é um amor que nos precede, nos surpreende e nos supera infinitamente: é o amor de Deus. (…) Encontramos a felicidade quando aprendemos a doar a nós mesmos, a doar a vida pelos outros”. E indicou o caminho para seguir Jesus: “Vocês querem realmente encontrar o Senhor Ressuscitado? Escutem a sua palavra, que é Evangelho de salvação! Busquem a justiça, renovando o modo de viver, para construir um mundo mais humano! Sirvam o pobre, testemunhando o bem que queremos sempre receber do próximo!”.

Na Santa Missa de domingo, o Papa Leão disse aos jovens que somos feitos “para uma existência que se regenera constantemente na doação, no amor. E assim aspiramos continuamente a algo ‘a mais’, que nenhuma realidade criada nos pode dar; sentimos uma sede grande e avassaladora, a tal ponto que nenhuma bebida deste mundo a pode extinguir”. E concluiu a homilia com um convite de coração: “Queridos jovens, a nossa esperança é Jesus. (…) Aspirem a coisas grandes, a santidade, em qualquer lugar onde estejam. Não se contentem com menos”.

Na saudação final definiu estes dias “uma cascata de graça para a Igreja e para o mundo inteiro”. Reafirmando ainda o seu grito pela paz: “Estamos com os jovens (…) de cada terra ensanguentada pelas guerras. (…) Vocês são o sinal que um mundo diferente é possível: um mundo de fraternidade e amizade, onde os conflitos são enfrentados não com as armas, mas com o diálogo”.


Conclui-se a experiência única e irrepetível do Jubileu dos Jovens 2025. Nesta viagem incrível nós caminhamos, cantamos, caminhamos, dançamos, nos alegramos, caminhamos, rezamos, rimos e caminhamos… arrastados por um objetivo comum a tantos companheiros de viagem. Sim, porque além do programa fantástico que nos enriqueceu culturalmente e espiritualmente, ficará para sempre impressa nos nossos olhos a imagem de milhares de jovens, como nós, que caminhavam. Talvez, se tivéssemos perguntado a algum deles qual era o seu objetivo, teria respondido algo como: “estamos indo à igreja de Santa Maria Maior”, ou “finalmente vamos descansar…”, mas estou convicto que, se tivéssemos perguntado como estavam fazendo aquilo, teriam contado, com olhos cheios de energia, sobre as canções que cantaram, os jovens com quem fizeram amizade e a plenitude de espírito que estas caminhadas deram a eles. No fundo, para nós o Jubileu foi isso, um caminho como nenhum outro, numa cidade como nenhuma outra,

onde unem-se sonhos, esperanças, alegrias e dores de um mar de pessoas, onde, se você caminha sozinho de qualquer forma tem um companheiro ao seu lado, onde o mundo é contemporaneamente minúsculo e imenso, onde tudo grita unidade. Voltamos para casa com uma recordação que não se apagará facilmente, a recordação de um Mundo Unido que se toma pela mão e caminha, com a cabeça erguida e o coração cheio de um espírito maior.

Mattia, Calábria (Itália)


Carlos Mana (com a colaboração de Paola Pepe)
Foto © Joaquín Masera – CSC Audiovisivi